Fachadas de casas fazem tributo à Independência da Bahia
Ontem, no dia 2 de Julho, foi celebrada a Independência da Bahia, quando as tropas do exército e da marinha brasileira conseguiram a libertação definitiva do Brasil do domínio português, em 1823.
A data é tradicionalmente comemorada com um cortejo na capital baiana, que sai do Largo da Lapinha e vai até a Praça da Sé.
Para estimular o espírito cívico da população local, a Fundação Gregório de Mattos (órgão municipal de cultura) costuma promover uma competição entre as fachadas das casas que ficam no trajeto.
As casas vencedoras, que serão conhecidas no dia 17 deste mês, ganham R$ 3 mil, R$ 2 mil e R$ 1mil para os primeiro, segundo e terceiro lugares, respectivamente.
O Blog das Ruas esteve no cortejo do 2 de Julho e fez a sua própria seleção. Manequins, modelos vivos, manifestações políticas, comércio e, claro, futebol são elementos presentes nas fachadas mais chamativas.
A concentração de máquinas fotográficas logo anuncia uma das mais fortes concorrentes. Decorada com folhas de palmeira, flores vermelhas e brancas e as bandeiras da Bahia e do Brasil, a casa tem à sua porta três adolescentes, vestidos de Joana Angélica, Castro Alves, Maria Quitéria. Nas janelas, duas crianças representam os caboclos (índios).
- A menina de Maria Quitéria e a indiazinha são minhas netas. Os outros três são vizinhos. Eles ficam aí das 10h até quando acaba o cortejo. Eu falo para descarem um pouco, mas não querem descer não. Também, todo mundo tira foto e brinca com eles… - conta a senhora Maria Santana,que decora a fachada da casa há 13 anos.
Para Dona Maria Santana, a data é mais que especial: é o seu aniversário. Nascida em 2 de julho de 1940, ela se diz privilegiada e pede que a data continue a ser celebrada. “É muito importante o Dois de Julho. A Bahia precisa lembrar dos seus heróis”, afirma.
Quase em frente à casa de Dona Maria, outra fachada tem as três janelas ocupadas por modelos vivos. Desta vez, só mulheres, representando Joana Angélica, Maria Quitéria e a Iyalorixá Maria Felipa, personagem menos conhecida da luta pela independência na Bahia.
Felipa lutou na Ilha de Itaparica. Conta-se que ela liderava uma “guarnição” de 40 mulheres, que seduziam e depois surravam com cansanção os soldados portugueses. Felipa e suas lideradas teriam queimado 42 embarcações dos colonizadores.
“Decoro minha fachada há três anos e sempre estou homenageando o povo negro”, diz Nilzete dos Santos, 32, que aproveitava o cortejo para fazer uns trocados vendendo bebidas num isopor à frente de casa.
- Em 2008, ganhei o terceiro prêmio homenageando os orixás. Este ano, espero ganhar de novo fazendo uma homenagem às mulheres negras - conta Nilzete.
Na Rua dos Perdões, uma enorme bandeira da Bahia tem à frente o desenho de um grande pote decorado com motivos africanos, que estampa os dizeres “Renascendo na Palma da Mão”.
Dentro da casa, a dona, Maria Anunciação dos Santos, de 91 anos, não consegue me explicar o que quer dizer a decoração. Entretanto, com a vozinha baixa, mas firme, afirma: “Adoro festas! Espero que Deus me dê ainda muitos anos de vida para decorar minha casa muitas vezes”.
Perto de dona Anunciação, cinco manequins e muito luxo enfeitam outra fachada. Desta vez, é um profissional que está por trás do projeto: o estilista e artista plástico Júlio César Habib, que há 13 anos mora no bairro e estréia no concurso de fachadas.
- Eu fico muito triste quando um adolescente pergunta “quem é aquela mulher vestida de homem?” e não sabe que é Maria Quitéria. A grande infelicidade da Bahia é terem tirado do ensino primário a história da Bahia, a verdadeira história do Brasil - diz Habib.
O estilista projeta uma sala de estar com portugueses, Maria Quitéria e a figura do caboclo. Segundo ele, o conceito que norteia a obra é paz e igualdade.
“Tendo vencido a luta, Maria Quitéria está em paz com o índio, seu companheiro de luta, e os portugueses que aqui ficaram porque amaram o Brasil. Os que não gostaram daqui, Maria Quitéria mandou embora”, conta.
Elvis, Michael Jackson e ACM
Ao longo do trajeto, algumas surpresas. Várias residências aproveitam o burburinho para serem negociadas. Numa delas, uma grande faixa pendurada na varanda dizia: “A Casa-Museu Solar do Santo Antonio está à venda”.
As fachadas das casas servem também para estampar as preferências de seus donos no futebol e na política. Não raro, a bandeira oficial é substituída pela do Esporte Clube Bahia.
Numa das casas, entre as bandeiras do Bahia e do Brasil, flutua a camisa do Corinthians, campeão da Copa do Brasil na noite anterior.
Os moradores não deixam de manifestar suas paixões e sua insatisfação na política também.
Na Rua dos Perdões, o muro de uma casa ostenta, em letras garrafais, a frase: “Vote nulo: não sustente parasitas! Estamos P.uT.os c/vcs DEMônios”. Já em outra casa, no bairro de Santo Antonio, a única decoração é um pôster enorme do senador falecido Antonio Carlos Magalhães.
“Desde que me entendo por gente, sou ACM”, diz Soraya Fahel, dona da casa. “Todo ano eu decoro a minha fachada com ele, com o Filho [Luís Eduardo Magalhães] ou com o Neto [ACM Neto]“.
Durante a nossa conversa, Soraya faz um comentário cuja justificativa só posso atribuir à paixão desmedida pelo ex-senador baiano:
- Elvis não morreu. Michael Jackson e ACM também não.





































