
Nilo é um xilogravurista que teve que aprender uma técnica de impressão anterior à prensa para conseguir ter autonomia em seu trabalho. Aprendeu a técnica com um chinês, mais um dos estrangeiros que tiveram influência decisiva no seu trabalho. Graças a eles, vende hoje suas gravuras nas ruas de Salvador e na internet.
Chegar ao Nilo não é fácil: é preciso entrar por um estreito corredor que serve como loja de pinturas na casa 27 da Rua das Portas do Carmo, no Pelourinho (Salvador), e subir oito longos lances de escada. Seguem-se suor e respiração ofegante para, enfim, chegar ao quarto andar. À espera, simpático e sorridente, encontramos Nilo dos Santos.

Como muitos brasileiros, Nilo fez de tudo um pouco. Foi garçom, pescador, ajudante de oficina, ceramista e pintor. Hoje, vive apenas da xilogravura e de uma aposentadoria como pescador profissional.
Durante todo o tempo em que estive com ele, Nilo não parava de comentar: "esse pincel, quem me deu foram umas americanas, esses outros, uma pernambucana…". É como se em cada etapa de seu processo criativo houvesse presentes de turistas ou estrangeiros com quem teve relação.
Com uma canadense, Lisa, criou uma relação especial: ela tomou um curso de xilogravura de dois meses com ele. Quando voltou, trouxe de presente o laptop que ele tanto admirava.
É com esse laptop que Nilo recebe seus emails e as newsletters das galerias cujos curadores compraram obras e promoveram exposições suas. Outros "intercâmbios". Uma das compradoras estrangeiras, incluiu Nilo numa seleção de artistas e montou uma página na internet para todos.
Por essas vias tortuosas, Nilo entrou no ramo do comércio eletrônico: recebe encomendas por email, responde com o valor e o número da conta e, após depositado o dinheiro, envia as gravuras pelo correio. Se as encomendas forem em inglês? Aí ele imprime a mensagem numa lanhouse (não tem impressora em casa) e a entrega a uma amiga nigeriana, que traduz para ele o pedido.
Mas daqui a pouco isso não vai ser mais necessário: antes de me despedir, Nilo liga o DVD e põe para tocar o CD enviado por sua amiga Lisa - um curso de inglês, feito por ela mesma, personalizado um xilogravurista do Centro Histórico de Salvador.

Aos 52 anos, Nilo usa a impressão por um cilindro para produzir as gravuras que vende no Centro Histórico e em outros bairros turísticos de Salvador. O processo é bastante complexo: primeiro ele tem que fazer o desenho e repassá-lo, usando um bisturi, a uma folha de compensado. Segundo Nilo, leva dois meses, em média, trabalhando quatro horas por dia, para entalhar a madeira.
Pronta a matriz, é hora de espalhar tinta por toda sua superfície. Depois disso, deita delicadamente sobre ela a folha de papel, com o lado da textura virado para a tinta. Então ajeita o papel e a matriz no chão, ao lado da parede, e coloca um tapete por cima ("para não amassar").

Finalmente, pega o rolo e puxa uma cadeira para servir de apoio. Uma mão na parede e outra no encosto da cadeira, começa o malabarismo em cima do rolo. Confessa que o exercício é doloroso:
- Rapaz, fico com a sola do pé toda acabada.
- Quantas voltas?
- Quatro, né, para ficar bem impresso.

Nilo costumava usar a prensa do Museu de Arte Moderna, onde fez diversas oficinas e adotou a xilogravura como meio de vida, para imprimir suas obras. Também vendia suas obras para turistas no museu.
Conta que a proibição para usar a prensa do MAM partiu de um funcionário, que também havia começado a vender xilogravuras lá, e de uma postura racista quanto a um dos temas de seu trabalho, os orixás. "O museu MAM, antes de terem me botado para fora, disseram lá: ‘o negro é estrangeiro ali dentro’. Então praticamente isso é racismo, preconceito".
"Sem a prensa, fiquei sem rumo. Como eu ia produzir as gravuras para vender? Eu só tinha três gravuras e aqui em casa estava faltando gás".
Tentava vender suas últimas gravuras no Bairro do Santo Antônio, quando um chinês perguntou: "Mas tão poucas?". Nilo explicou a situação. Sensibilizado, o estrangeiro comprou para ele um cilindro de ferro de 84 quilos! Ensinou-lhe, então, a imprimir sem a prensa.
Além dos orixás, usa como temas o zodíaco e as civilizações inca e egípcia. Me mostra gravuras de Tutancâmon e Nefertiti. Mostra, orgulhoso, uma série de cópias de hieróglifos.
- Foi um amigo, do Museu do Cairo, quem me deu.

Explica que boa parte dos livros (em pilhas, na sala) servem para compreender melhor as temáticas que retrata. Também tira fotos do que gosta para usar como inspiração. "Mas nunca como cópia", deixa bem claro.
Diversas vezes durante a entrevista, olha para mim e pergunta, insistente: "esse material vai chegar as mãos do diretor do IPAC, né? ele tem que ver isso. tem que conhecer o trabalho que eu faço aqui". O IPAC - Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural e como um IPHAN baiano e gerencia boa parte dos imóveis tombados do Pelourinho.
O medo de perder sua casa e ficar longe do Centro Historico de Salvador é o que motiva as indagações constantes de Nilo. Não quer passar novamente pela situação que viveu há 11 anos, época do início das reformas do Pelourinho.
Após dez dias no mar pescando, foi expulso do quarto que sub-locava "para que parentes da pessoa que alugava recebessem a indenização" [pela desapropriação]. Partiu com pouco, voltou sem nada.
A principal preocupação de Nilo é ficar longe do local por onde circulam os principais compradores de suas obras: os turistas estrangeiros. "Aqui estou centralizado. Tenham mais possibilidades de encontrar pessoas que possam me ajudar".
Paga religiosamente para o IPAC o aluguel de seu pequeno estúdio, que tem apenas quatro ambientes: uma pequena ante-sala, uma sala/quarto, cozinha e banheiro.
Ainda assim, seu temor de ser expulso é enorme, ao ponto de recusar por duas ocasiões convites para expor fora do país, na Alemanha e nos Estados Unidos. "Vai que fazem uma conspiração? Eu sei que tem uma funcionária no IPAC doida para se mudar para cá".
Veja Nilo imprimindo uma gravura
Nilo conta como o chinês o ensinou a imprimir com o cilindro