Terra Magazine

31 de março de 2008

Gaúcho ensina dança do Kuduro em Salvador

iurirubim às 11:47

Ex-jogador de futebol, o gaúcho Álvaro di Amaro é talvez o primeiro artista a trabalhar de forma consistente o kuduro no Brasil. Desde 2003, DJ Panafricano esforça-se em difundir o gênero musical.

Álvaro foi zagueiro, jogou no Brasil de Pelotas e veio para a Bahia há cerca de 11 anos por causa do futebol. Daquela época, restam o porte atlético e o inseparável par de chuteiras, que sempre leva para a pista de dança.


Álvaro, o DJ Panafricano comanda sua pickup

Hoje, o DJ – que também comanda pickups em diversos outros ritmos africanos – é responsável pela única academia de Kuduro da Bahia e colabora com o programa Rádio África, na Educadora FM, rádio pública do governo estadual.

- Com muita modéstia, nós somos os pioneiros em tentar explicar o canto, a dança, a coreografia e fazer com que as pessoas descubram o kuduro que está dentro de você. Do garoto de cinco anos à senhora que está passando aqui, de setenta e poucos - diz.

Kuduro é um ritmo sensual e empolgante surgido há mais de dez anos na periferia de Luanda, capital de Angola. “Kuduro é o beat mais acelerado de raiz africana”, comenta o DJ Panafricano. À batida acelerada, juntam-se passos de break, remelexos, trancos com os ombros e jogo acelerado de pernas. De preferência, tudo na rua.

- Kuduro é chamou, dançou. Não tem essa coisa de parar para ensinar isso não. É fácil, né? Pegou ali na hora, fez. A rapaziada toda faz – conta Black, que dança Kuduro há cinco meses.


Black dança Kuduro na rua

Joelene dança Kuduro há pouco mais de um mês. Foi levada para a academia pela mãe (!). “Vim e gostei. É uma coisa diferente, ninguém conhece!”, conta.

Para quem ainda tem dúvidas, é consenso que o nome significa mesmo “bunda dura”, referência ao posicionamento do quadril durante a dança. Ku viria do Kimbundo (MataKu=nádegas, assento plural de ritaku), principal língua falada em Luanda.

Álvaro interpreta a expressão de maneira muito particular:

- Tem que ter a bunda dura, o quadril duro porque Kuduro é pra frente: é ‘vamos lá, pessoal, alegria! Vamos passar fome, mas no outro dia a gente trabalha e come novamente’ – diz. Veja aqui outra explicação sobre o nome e a batida do Kuduro.

O lado brincalhão do Kuduro é uma de suas características mais envolventes. A própria dança pede para não ser levada a sério. “Kuduro é uma forma de reverenciar a brincadeira. De você brincar, sorrir, perder a vergonha de tudo”, diz o DJ Makanaki, kudurista há um ano.

“Cada um dança do seu jeito, mas esse ‘esculhambadinho’ é do Küdüro”, DJ Panafricano.

- Kuduro é de casa pra rua. Tudo o que você faz em casa e tem vergonha de fazer na rua, você faz no Kuduro. Se tu larga uma bufa e faz isso aqui [caretas], já é uma dança - completa.


O jeito brincalhão de Nanda e DJ Makanaki

Kuduro na lotação

Devastada pela guerra, Angola não tem uma infra-estrutura eficiente de telecomunicações. A forma que músicos e produtores encontraram para difundir o Kuduro foi distribuir fitas para os candogueiros, lotações para até 12 pessoas típicas daquele país.

Assim, o leva e traz de pessoas espalhou o gosto pelo Kuduro por toda Angola. Foi também numa dessas corridas que o ritmo vazou para os outros continentes é agora é sucesso em baladas do mundo inteiro.

Academia do Küdüro Baiano

A única academia de Kuduro da Bahia funciona num galpão cedido pelos donos do Espaço do Gelo Imperador, Carlos Jr, e Dona Cláudia, no bairro de Mares, no subúrbio de Salvador. Está aberta todo sábado, às 15 horas, e tem entrada gratuita.

“Uns acham que aqui é centro, outros acham que é subúrbio. Não importa, é Kuduro”, DJ Panafricano

Na academia, um palco e um laptop ligado a potentes caixas de som. Uma bancada com capas de LPs de cantores e grupos africanos no corredor que leva ao palco e, na entrada, o pequeno espaço usado para a venda do gelo.

- Esse projeto entrou no final do ano passado aqui. No começo, eu não sabia de nada, achei até estranho. Mas eu fui me envolvendo e hoje eu me considero uma kudurista! Essa é uma academia para as meninas que querem queimar calorias. Eu era gordinha, já estou bem light. Queima mesmo! – diz Dona Cláudia.

Depois de me mostrar as várias possibilidades do Kuduro – no palco, na pista e na rua – Álvaro me conta o seu sonho: ter um trio elétrico tocando Kuduro no carnaval.

- Podemos mudar o carnaval de Salvador se deixarem a gente mostrar isso. Não abrem as portas para uma coisa que é legitimamente africana numa cidade que se diz campeã da cultura, mas é analfabeta para ensinar o que tem de mais moderno na África.

O vídeo não está muito bom, mas veja o pessoal dançando Kuduro.

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29 de março de 2008

Hip hop no aniversário de Ribeirão Pires (SP)

iurirubim às 23:14

O hip hop encerra, neste final de semana, as comemorações ao 54º aniversário de Ribeirão Pires (SP).

a celebração começou neste sábado, às 12h, com o projeto Encontros da Juventude: Hip Hop na Praça. Paralelamente, a população do Jardim Valentina ganhou o campo suíço, nova opção de esporte e lazer no bairro.

Às 16h foi realizada a Mostra Integrada de Artes, com espetáculos de dança, teatro e música no Teatro Euclides Menato (avenida Brasil, 193, Centro).

Amanhã (30/3), o programa Encontros da Juventude prossegue com Street Ball, que agita a Praça Central a partir das 10h. 

E, para fechar as comemorações, à noite rola o espetáculo de dança Floresta Mágica, apresentado no Teatro Euclides Menato (18h).

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28 de março de 2008

Ciclistas protestam contra ”veneno” dos carros

iurirubim às 9:17

 

Hoje à noite as bicicletas vão tomar conta de várias cidades brasileiras. É a bicicletada, uma iniciativa civil pela promoção dos meios de transporte não-motorizados que acontece no Brasil desde 2002.

Simultaneamente, as ruas de São Paulo, Rio de Janeiro, Aracaju e Joinville trocarão o ronco dos motores pela leveza dos pedais. No sábado pela manhã, é a vez de Curitiba.

Com os slogans “uma bicicleta a mais = um carro a menos” e "não estamos atrapalhando o trânsito, nós somos o trânsito", os ciclistas buscam retomar o espaço público “monopolizado” pelos automóveis.

- O Automóvel é uma fábrica de veneno de uma tonelada. Não dá para resolver o problema de mobilidade e transporte sem reduzir o espaço do carro. Não tem outra solução - diz José Paulo Guedes, um dos participantes da bicicletada.

Em 2008, somente a bicicletada de São Paulo reuniu 200 pessoas em janeiro e 150 em fevereiro (esta embaixo de chuva). Neste mês, esperam bater o recorde de participantes.

As bicicletas são o carro-chefe da manifestação, mas valem também patins, skates e até mesmo os pés. O importante é afirmar a necessidade de um deslocamento mais saudável e menos poluente nos centros urbanos.

Os veículos motorizados, defendem os manifestantes, são não apenas um desastre ambiental como também fragmentam a sociedade, excluindo os mais pobres e reduzindo o contato entre as pessoas.

Para os participantes do movimento, os carros contribuem para que a cidade deixe de ser vivida e passe a ser somente “atravessada”. As ruas, outrora espaços de encontro e convivência, transformam-se apenas em “vias”.

A idéia de pedalar junto com outras pessoas, além da questão da segurança, reforça a interação e o sentimento de estar em comunidade.

Bicicletada” é a variante em português do movimento mundial conhecido como “Massa Crítica” (Critical Mass). As regras são as mesmas: uma manifestação auto-organizada, sem a necessidade de coordenação ou lideranças, que ocorre sempre na última sexta-feira do mês.

Alega-se que grupos de pessoas em mais de 200 cidades no mundo inteiro aderem à idéia de, nesta noite, usar apenas veículos movidos à propulsão humana.

Bicicleta é legal

Os participantes do movimento chamam atenção para o fato de que o deslocamento utilizando bicicletas está previsto no código nacional de trânsito e é, portanto, legal.

- O problema são os carros que não respeitam. Deveriam andam a 1,5m de distância e com velocidade reduzida. Mas acham que a bicicleta atrapalha o trânsito, quando é o inverso - diz José Paulo, que não tem carro e desloca-se com a bicicleta ou com transporte público.

Para ele e o coletivo do qual faz parte, Ecologia Urbana, as principais dificuldades do uso mais frequente das bibcicletas é a quantidade (e o comportamento!) dos carros e a falta de ciclovias. "São Paulo tem zero ciclovias. As que existem levam levam nada a lugar algum", afirma.

Segundo o ciclista, mais de 800 carros são emplacados por dia em São Paulo. Ele afirma que alguns estudos prevêem já em 2009 o engarrafamento final, quando não será possível "desatar o nó" do trânsito. 

- Vai travar de tal jeito que as pessoas vão levantar, deixar o carro ali e ir para casa.

(fotos: Luna Rosa / Contraponto e Fuga

 

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27 de março de 2008

Congada de São Benedito neste domingo

iurirubim às 0:31

A exposição São Paulo Fé e Festa - instrumentos musicais da tradição paulista terá o último Encontro com as Tradições, neste domingo (30/3), às 10 horas. Dessa vez, apresenta-se a Congada de São Benedito, de Cotia, sob o comando do Seu Ditão.

A Congada recorda a reconquista da Península Ibérica pelos cristãos tirando-a das mãos dos mouros. A luta termina com a conversão dos mouros à religião cristã.

Os embates, nessa dança guerreira, se travam com o entrechoque das espadas. As embaixadas (falas) são acompanhadas pelo toque de tambores e caixas, pelo som da viola, cavaquinho, violão, sanfona, bastões de ritmo, agogô, pandeiro e outros. São Benedito e Nossa Senhora do Rosário são os santos de devoção da maioria das Congadas.

A apresentação da Congada de São Benedito acontece na Casa Bandeirista do Sítio da Ressaca, pertinho do metrô Jabaquara.

Como chegar

De metrô - estação Jabaquara, ir para a Av. Francisco de Paula Quintanilha. Na altura do número 450 há um portão de entrada do Sítio da Ressaca.

De carro - descer a Av. Francisco de Paula Quintanilha, entrar à direita na Rua Cruz das Almas, entrar à direita na Rua dos Buritis, primeira à direita e primeira à esquerda já é a Rua Nadra Raffoul Mokodsi, outra entrada do Sítio da Ressaca.

Mais informações pelo site www.barroecordas.com.br ou no email sandra@barroecordas.com.br

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26 de março de 2008

Pescadores expulsam resort de praia no CE

iurirubim às 9:29

A comunidade da praia de Ponta Grossa, no município de Icapuí (CE), há dez anos tomou uma decisão surpreendente: não vender nenhum terreno para pessoas de fora.

Vem da praia vizinha – a famosa Canoa Quebrada – o exemplo do que ocorreu quando a especulação imobiliária atuou livremente.

– Sabemos bem o que acontece com o turismo de massa. A comunidade de Canoa Quebrada vendeu tudo e hoje as pessoas, quando muito, são empregadas nas pousadas e restaurantes. Não queremos isso para Ponta Grossa – diz Eliabe Crispym da Silva, presidente da Associação de Turismo, Meio Ambiente e Cultura (Astumac).

Como já sinaliza o nome da associação, a opção dos moradores foi por um turismo comunitário, mais equilibrado e com forte preocupação ambiental. “Justamente por morarmos em ambiente de falésias, qualquer vacilo podemos perder tudo”, ressalta Eliabe.

Isolada por morros e falésias, Ponta Grossa é uma vila onde moram 64 famílias de pescadores, aproximadamente 200 pessoas. Foi lá, alegam, que o Brasil foi descoberto em fevereiro de 1500 (dois meses antes de Cabral), pelo navegador Vicente Yáñez Pinzon.

Mais de 50% dos moradores já conciliam a atividade da pesca com o turismo comunitário, que se tornou uma das principais fontes de renda da comunidade.

Antes, as pessoas hospedavam os turistas em casa mesmo. Agora, a comunidade já obteve financiamentos (inclusive da Suíça) que possibilitaram a construção de chalés e pousadas nos terrenos ao lado das casas dos pescadores. Hoje, têm 80 leitos para hospedar visitantes.

- Tudo o que existe lá pertence à própria comunidade – diz Ana Paula Silva, representante da Fundação Brasil Cidadão para acompanhamento de projetos de turismo. A Fundação não apenas apóia a iniciativa da comunidade como está começando a disseminá-la por outros distritos de Icapuí.

Para ir à Ponta Grossa, os visitantes têm que seguir um conjunto de regras, que incluem não tentar adquirir qualquer imóvel, não agredir o meio ambiente e não fazer barulho excessivo. Além disso, há um acordo tácito entre os pescadores para combater o turismo sexual.

Distribuição da renda

Ponta Grossa está sempre com lotação esgotada em feriados prolongados, além de 200 a 300 visitantes que visitam a praia diariamente, mas não dormem lá.

A comunidade desenvolveu um mecanismo interessante para distribuir a renda vinda do turismo e garantir a sustentabilidade de todos os negócios da vila.


mesas na sombra do único restaurante da vila

A estadia dos visitantes é organizada de forma que eles consumam em vários locais, pertencentes a diferentes famílias. Podem, por exemplo, hospedar-se na pousada de uma família, tomar café da lanchonete de outra e almoçar no restaurante de uma terceira.

Embora realmente não haja muitas opções de escolha, esses roteiros, claro, são sempre sugeridos aos visitantes e nunca obrigatórios. Há também o desejo que os turistas circulem e interajam com o máximo de moradores.

Resort expulso

Praticamente tudo o que é decidido em Ponta Grossa passa pelo coletivo. Decisões importantes, como a de não vender terrenos para “estrangeiros”, são tomadas em assembléias com grande participação.

Foi justamente essa união que garantiu a criação de uma lei municipal transformando Ponta Grossa numa APA (Área de Proteção Ambiental).

A integração entre os moradores, por outro lado, também impediu a instalação de um grande resort numa praia próxima.

- Teve um caso que a gente reuniu toda a comunidade para impedir a instalação de um grande resort. Provocamos até uma audiência pública com a presença do prefeito e eles tiveram que desistir, conta, orgulhoso, o presidente da associação.

Para Ana Paula, a comunidade está tão coesa em seus propósitos que qualquer interferência, mesmo a do poder público, tende a ser negativa. “A comunidade já se apropriou do processo. Daqui pra frente, se o poder público fizer alguma intervenção, ela não vai ser positiva”, diz.

A experiência de Ponta Grossa já é uma referência para todo Ceará. Tanto que os representantes da comunidade foram convidados para mostrar sua experiência no II Seminário Internacional de Turismo Sustentável, que acontece nos dias 12 e 15 de maio, em Fortaleza. Boa sorte para eles!

(Fotos: Louise Gumes)

 

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25 de março de 2008

Moradores de rua sobem no palco e viram estrelas

iurirubim às 16:02

Há pouco tempo, postei uma matéria sobre o Jornal Aurora da Rua, o primeiro jornal do Nordeste feito e vendido por moradores de rua. Ontem (24/3), o jornal comemorou seu primeiro aniversário da melhor forma possível: montou um palco na Praça da Piedade (Salvador) para que os próprios moradores de rua mostrassem seus dotes artísticos!

O Festival Arte Rua – 1º. Ano do Jornal Aurora da Rua inverteu por uma tarde a lógica de que quem não tem “endereço fixo” é invisível. Ao contrário, eles eram as estrelas do espetáculo!

– Povo da rua, hoje essa praça é nossa! – dizia Elmário, um dos vendedores do Aurora da Rua, que se apossou de um timbau no palco e, antes mesmo do show começar, já tocava e cantava entusiasmado.

Quase duas horas de atraso. De cima do palco, Elmário solta uma advertência: “tem que começar! O público já está ficando impaciente!”.

Enquanto aguardava o início do show, conversei com outro vendedor, que também iria se apresentar. Seu nome é Dílson e ele me diz que vai recitar uma poesia política, de sua autoria, mas ainda sem título.

Dílson está com o Aurora da Rua há sete meses. Me conta que com a venda do jornal tira mais que um salário mínimo por mês. Pergunto como ele consegue.

– Eu me esforço também, meu amigo…

Conheço também uma senhora muito simpática, Iracy, que me conta que viu uma chamada para o Festival na TV e que foi lá conferir. Ao lado do palco, um varal com uma pequena exposição de fotos dos vendedores e de personagens da rua.

Finalmente as apresentações começam. Primeiro se apresenta um grupo de vendedores do jornal. Elmário lá. Após algumas canções em homenagem ao periódico, um pequeno desentendimento sobre o andamento de uma música.

- É assim mesmo, né, pessoal? Todo mundo nervoso… afinal é a primeira vez que o povo da rua está no palco – diz Elmário.

Veja a abertura do Festival Arte Rua pela TV Terra

Logo depois, uma canção, que parece já bastante conhecida de parte do público, anima todo mundo. O refrão varia um pouco, sempre iniciado pelo verso “sai do chão, sai do chão…”. Pergunto a alguém o nome do cantor. “Ah, esse aí é o Sai do Chão”.

A próxima a cantar é uma velhinha que dançava animadamente em frente ao palco.

- Boa tarde. Quem não conhecia Mãe Preta ta conhecendo agora. Lá em casa são 47 crianças e 39 adultos velhos. Não quero nem saber, quem chegar lá em casa come. (…) Quem ficou no lugar de Irmã Dulce fui eu.

Mãe Preta canta animadamente dois sambas. Descubro depois que ela, com 84 anos, mora na ladeira da montanha, uma área famosa de prostituição em Salvador.

Fico ainda para ver Rhuna, mineiro formado em teatro pela Fundação das Artes (SP), que fez uma compilação dos versos do poeta falecido Luís da Trindade.

Luís, como Rhuna e muitos outros presentes, morava numa comunidade de se abriga na Igreja da Trindade, abandonada.

Também vendedor do Aurora da Rua, pergunto a ele se dá para viver com as vendas.

- Olha, eu sou do tipo que anda pela cidade observando a arquitetura e acabo vendendo pouco jornal. A grana que consigo, eu uso para acessar a internet, tomar um guaraná, ir ao cinema…

Todo trajado para o espetáculo, Rhuna, entre cantar e declamar os versos, faz uma apresentação emocionante.

Saio de lá me perguntando porque insistimos em não ver certas maravilhas que estão ali, na nossa frente.

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Música de gozar

iurirubim às 14:35

Não é de rua e pouco tem a ver com o foco do blog. Mas não resisti a dar a chamada de um espetáculo com esse título.

"Música de gozar" na verdade é um concerto com instrumentos de cordas dedilhadas que acontece hoje (25/3), às 19h30, no Teatro Molière, na Aliança Francesa (Salvador).

O nome do concerto refere-se a uma técnica do século XVI, de dois ou vários músicos tocarem vihueleas (viola de mano, ancetral do violão na Espanha), dedilhando em duas ou mais linhas simultaneamente. Entrada Franca.

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24 de março de 2008

Umbanda usa internet para divulgar centenário

iurirubim às 10:09

A religião Umbanda comemora 100 anos em 2008. Descobri uma celebração diferente que acontece em Bauru (SP), cidade onde existem quase mil templos da religião de matriz africana. É a Umbanda Fest, uma série de eventos ao longo do ano que culminam com a comemoração do aniversário da Umbanda em novembro, no Teatro Municipal da cidade.

Para saber mais sobre o evento, essa inusitada nomenclatura e o uso massivo da internet para a divulgação da religião, fiz uma entrevista com Ricardo Barreira, 29, profissional de marketing, sacerdote umbandista e organizador do evento.

O uso da internet e até mesmo o nome Umbanda Fest são referências não usuais para as religiões afro-brasileiras. Essa ampliação de perspectiva é intencional?

Totalmente intencional. Vale lembrar que, a respeito de internet, já encontrávamos muito antes do site da Umbanda Fest, iniciativas de web rádio e web TV umbandistas.

O lema da Umbanda Fest sempre foi união, e acreditamos que a informação é o passo mais importante para isso. Por isso trabalhamos tanto o site e fazemos dele um ponto de encontro dos umbandistas. Pois alem de notícias o internauta fica sabendo de muitos eventos e iniciativas e acabam participando disso tudo.

Infelizmente a internet não atinge ainda todas as pessoas, e para suprir isso temos um programa diário chamado VOZ DA UMBANDA em uma rádio aberta AM.

O nome Umbanda Fest também é muito proposital, pois o nome de nossa organização antes, quando começamos, era MACUMBA – Movimento de Ação Comunitária Umbandista. Trabalhamos um bom tempo com esse nome. Foi como um choque que demos na sociedade: acreditávamos que depois que ela aceitasse MACUMBA, Umbanda “desceria” mais fácil.

E assim aconteceu. A Umbanda Fest não tem e nunca teve um foco religioso, nossa missão é lutar contra o preconceito e fortalecer a comunidade umbandista, apresentando para a sociedade que a mensagem da Umbanda é uma mensagem de Paz.

A programação para o centenário da Umbanda é bastante extensa e diversificada. Como tem sido a receptividade da população e quais organizações estão participando da empreitada?

Programamos um calendário realmente extenso para marcar o centenário da Umbanda, afinal, alem de cem anos de caridade e amor ao próximo, são cem anos de lutas e muita resistência.

A sociedade aos poucos vai entendendo que tem uma visão equivocada da Umbanda. Para alguns ainda é um absurdo a Umbanda saindo nos jornais, nas revistas, na TV, enfim, falar de Umbanda para alguns é um tabu.

Temos muitas organizações engajadas neste projeto, organizações umbandistas e não-umbandistas, muitas que lutam a favor dos direitos humanos, como é o caso do CEERT – Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades.

A causa é nobre, vai além de divulgar a Umbanda, é um trabalho que reflete positivamente em toda a sociedade, pois todas as formas de preconceito são maléficas, feridas sociais.

Parece que um dos maiores desafios do Umbanda Fest e da própria religião é a luta contra a intolerância religiosa. Nesse sentido, como vocês analisam o cenário brasileiro atual?

O Brasil é Laico, ao menos constitucionalmente. É o que costumamos dizer. Para a lei, todas as religiões são iguais e o Estado não pode dar preferência para uma ou outra religião, assim como não pode embaraçar o funcionamento de nenhuma. Isso no papel, porque na prática é muito diferente.

É muito corriqueiro as religiões afro-brasileiras serem agredidas em seus direitos. Intolerância religiosa é crime, mas nem todo mundo sabe disso.

O preconceito existe e muitas vezes não é enrustido, infelizmente ainda temos casos bárbaros, como discriminação no trabalho, na escola, invasão arbitrária em templos, enfim, existe um estigma em ralação as religiões afro-brasileiras como um todo, e nossa luta é para acabar com isso.

Qual é a relação da Umbanda Fest com as outras religiões, tanto afro-brasileiras quanto as demais?

Começamos lutando apenas pelas comunidades umbandistas, mas com o passar do tempo fizemos da Liberdade de Crença a nossa bandeira.

Conseqüentemente, passamos a trabalhar em prol das outras religiões Afro-Brasileiras, como candomblé, catimbó etc., e também nos relacionando com muitos outros segmentos religiosos, como é o caso dos Adventistas do 7º dia. Eles também levantam a bandeira da liberdade de crença.

Além disso, temos trabalho para o diálogo inter-religioso. Acreditamos que este diálogo é um dos meios mais rápidos de promovermos a paz mundial, pois, segundo os estudiosos das Nações Unidas, 75% dos conflitos armados em curso no mundo têm alguma causa religiosa.

Quantas pessoas participam da Umbanda Fest por ano? Qual a expectativa para 2008?

São vários os eventos que realizamos ao longo do ano. Na Umbanda Fest 2007, evento que acontece em novembro em comemoração ao aniversário da Umbanda, passaram pelo Teatro Municipal de Bauru cerca de 750 pessoas. Para novembro de 2008, devido às programações, esperamos um público de cerca de 2500 pessoas. O aceite está sendo maior que o esperado.

Quando foi fundada a Umbanda Fest? E por que em Bauru?

Foi fundada em Abril de 2006. Vale lembrar que a diretoria já atuava sobre o nome de MACUMBA – Movimento de Ação Comunitária Umbandista há alguns anos. Bauru é a cidade onde a diretoria mora, por isso nossa base está aqui. Coincidência ou não, Bauru é uma cidade concentradora de Templos de Umbanda. Com cerca de 360.000 habitantes, possui quase mil templos de Umbanda.

Existem outras organizações ou iniciativas de Umbanda como essa pelo país? Quais?

Existem muitas instituições louváveis dentro da Umbanda, mas a Umbanda Fest se diferencia em alguns objetivos, por exemplo: nosso foco não é religioso e sim social; não representamos uma única vertente da Umbanda, pregamos a união de todas; trabalhamos para o fim da intolerância religiosa como um todo, abrindo diálogo com vários segmentos religiosos; lutamos contra o fim de todos os tipos de preconceitos, por isso trabalhamos em conjunto com outros movimentos organizados da sociedade, contra o racismo,a homofobia, etc.

Qual o principal resultado que a Umbanda Fest já trouxe para a promoção da Umbanda?

São muitos. Falando aqui de Bauru, a realidade era bem diferente da atual: hoje temos uma Umbanda mais unida e conseqüentemente mais forte. A sociedade passa ao menos enxergar mais a Umbanda – isso é o primeiro passo para respeitar; nosso diálogo com outras religiões tem nos ajudado a vencer o preconceito; devido aos cursos, fóruns e palestras sobre direitos e deveres das religiões afro-brasileiras, preconceito religioso e liberdade de crença, os adeptos das religiões afro-brasileiras estão mais informados e, conseqüentemente, mais seguros de si mesmos.

Agora, algo sem dúvida muito satisfatório e andar na rua e ver as pessoas com as camisetas de nossa campanha de identificação religiosa, que traz escrito em letras grandes “UMBANDA – Eu visto essa camisa”.

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23 de março de 2008

Morador de rua vive na internet

iurirubim às 10:18

Carlos de Albuquerque é músico, compositor, poeta e há quatro anos vive nas ruas de Salvador. A internet foi o caminho que descobriu para tornar-se visível à sociedade. Hoje, tem site, 328 amigos no Orkut e usa diversas ferramentas online de divulgação artística.

Com a frase “Surge um grande artista na MPB” no cabeçalho, o site carlosdealbuquerque.com foi ao ar no dia 31 de maior de 2007. Segundo seu próprio contador, até às 10h de hoje, já recebeu 11.866 acessos.

- Resolvi fazer o site porque já tinha muito material na mão e mandava para as pessoas ‘dedo a dedo’ por email. Sempre achei anti-ético mandar em carga. Agora, escrevendo apenas dezoito dígitos, ou clicando apenas em um link, as pessoas têm acesso a tudo que faço – diz artista de 36 .

No site, disponibiliza músicas, contos, um clipping com matérias contando sua história, citações de ACM, artigos de protesto, textos contra religiões e serviços de utilidade pública.

Aproveita o espaço para também discutir abertamente sua opção de viver na rua (faz questão de dizer que foi uma opção): posta relatos e até troca de emails sobre o assunto.

Além do site, Carlos de Albuquerque usa MSN, flickr, tem uma página na Trama Virtual, um perfil no Orkut, no palco mp3, no recanto das letras

Há pouco mais de um mês, vende no site anúncios do Google. “Ganhei dois dólares e seis centavos, mas ainda tem pouco tempo lá, né?”.

Além disso, o próprio site tem uma seção com o título “Colabore”, em que disponibiliza a sua conta bancária para depósitos. O resultado, entretanto, é frustrante.

- Por aí, eu nunca recebi nem um centavo…

Detalhe: ambas as iniciativas só foram possíveis porque uma amiga lhe “emprestou” o endereço para que pudesse abrir a conta bancária.

Foi assim, na base da amizade, que Carlos aprendeu a fazer sua própria página na internet, gravou suas duas músicas e tem os textos do site revisados. Até as fotos do site foram tiradas pelo fotógrafo baiano Márcio Lima, quem considera um grande amigo.

Rotina

O dia de Carlos começa assim: acorda às 5h30 do Pórtico da Delegacia Federal de Agricultura do Estado da Bahia “porque começam a chegar carros”. Muda de lugar e fica por ali até pouco mais de sete.

Depois, procura por um dos serviços de internet gratuita. “Se for para a universidade, aproveito para pegar umas mangas – já é um adianto pra fome”, diz.

Sempre que pode, Carlos está online. Quando entrei em contato para marcar a entrevista, respondeu ao email em menos de 24 horas. É freqüentador assíduo dos serviços de internet gratuita, e também de lan houses.

- Freqüento umas de um real aqui por perto e também uma de R$1,50 no Largo Dois de Julho. Mas vou lá porque o dono é muito meu amigo. Tanto que colocou o meu site como página inicial de todas as máquinas.
Pergunto a ele se rola muito intercâmbio pela rede e se faz muitos amigos virtuais.

- Eu sou muito bom em determinadas direções e ruim em outras. Em atualidades, por exemplo. Querem conversar comigo sobre o que está acontecendo por aí e não tenho o que dizer. Mas para mim está bom assim.

Embora disponibilize suas obras online, manda um recado bastante ameaçador a quem copiar e lucrar em cima de suas obras: “me plageie [sic], mas não estoure nacionalmente (…) custará muito caro me copiar”. Pergunto-lhe o motivo das palavras duras:

- É que eu não tem meios para registrar minha obras. Quem se aproveitar do meu trabalho vai se dar muito mal. Eu adquiri uma forma de usar as palavras que não tem quem resista. Posso derrubar até o presidente.

Antes de ir para a rua, Carlos integrou o grupo Vilavox, residente do Teatro Vila Velha. Participou de três espetáculos, mas deixando o grupo. “Por eu ser assim obstinado, chato, irredutível, acabo afastando muito as pessoas”, diz.

Pergunto a Carlos sobre um texto que fez em homenagem ao pai (falecido), em que escreve: “é frustrante para mim, pois eu não precisava estar pelo mundo para conquistar meus sonhos lá mesmo, em Brasília, eu já estava conquistando as mesmas coisas que aqui em salvador”.

- É que não houve compreensão por parte da minha família. Não aceitavam as minhas escolhas. Lá, eu já estava conhecendo pessoas do meio artístico, como também conheço aqui.

Acaba a entrevista, nos despedimos. Ele chega mais perto e diz:

- Você sabe como é, né, morador de rua nunca perde o hábito: você não teria alguma moeda aí?

Veja Albuquerque contando porque deixou Brasília.

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22 de março de 2008

Feira dos Caxixis em Nazaré das Farinhas

iurirubim às 12:08

A tradicional Feira dos Caxixis acontece até o domingo na cidade de Nazaré das Farinhas, na Bahia. Neste período, milhares de visitantes vão à Nazaré, a partir da Quinta-feira Santa.

Caxixis são miniaturas de peças maiores de artesanato em barro, originariamente destinadas a uma finalidade lúdica, como jogos e brincadeiras.

O evento é secular, assim como o processo de fabricação e comercialização das cerâmicas tradicionais. Há pelo menos mais de 300 anos, as primeiras olarias foram construídas pelos padres jesuítas.

Todo ano, cerca de 250 oleiros vindos do distrito de Maragogipinho expõe no centro da cidade o colorido dos caxixis e da cerâmica artesanal do Recôncavo Baiano.

A Feira de Caxixis 2008 deixa de ser formada apenas pelas cerâmicas de Maragogipinho e passa a expor peças de todo o estado.

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