Gaúcho ensina dança do Kuduro em Salvador

Ex-jogador de futebol, o gaúcho Álvaro di Amaro é talvez o primeiro artista a trabalhar de forma consistente o kuduro no Brasil. Desde 2003, DJ Panafricano esforça-se em difundir o gênero musical.
Álvaro foi zagueiro, jogou no Brasil de Pelotas e veio para a Bahia há cerca de 11 anos por causa do futebol. Daquela época, restam o porte atlético e o inseparável par de chuteiras, que sempre leva para a pista de dança.

Álvaro, o DJ Panafricano comanda sua pickup
Hoje, o DJ – que também comanda pickups em diversos outros ritmos africanos – é responsável pela única academia de Kuduro da Bahia e colabora com o programa Rádio África, na Educadora FM, rádio pública do governo estadual.
- Com muita modéstia, nós somos os pioneiros em tentar explicar o canto, a dança, a coreografia e fazer com que as pessoas descubram o kuduro que está dentro de você. Do garoto de cinco anos à senhora que está passando aqui, de setenta e poucos - diz.

Kuduro é um ritmo sensual e empolgante surgido há mais de dez anos na periferia de Luanda, capital de Angola. “Kuduro é o beat mais acelerado de raiz africana”, comenta o DJ Panafricano. À batida acelerada, juntam-se passos de break, remelexos, trancos com os ombros e jogo acelerado de pernas. De preferência, tudo na rua.
- Kuduro é chamou, dançou. Não tem essa coisa de parar para ensinar isso não. É fácil, né? Pegou ali na hora, fez. A rapaziada toda faz – conta Black, que dança Kuduro há cinco meses.

Black dança Kuduro na rua
Joelene dança Kuduro há pouco mais de um mês. Foi levada para a academia pela mãe (!). “Vim e gostei. É uma coisa diferente, ninguém conhece!”, conta.
Para quem ainda tem dúvidas, é consenso que o nome significa mesmo “bunda dura”, referência ao posicionamento do quadril durante a dança. Ku viria do Kimbundo (MataKu=nádegas, assento plural de ritaku), principal língua falada em Luanda.

Álvaro interpreta a expressão de maneira muito particular:
- Tem que ter a bunda dura, o quadril duro porque Kuduro é pra frente: é ‘vamos lá, pessoal, alegria! Vamos passar fome, mas no outro dia a gente trabalha e come novamente’ – diz. Veja aqui outra explicação sobre o nome e a batida do Kuduro.
O lado brincalhão do Kuduro é uma de suas características mais envolventes. A própria dança pede para não ser levada a sério. “Kuduro é uma forma de reverenciar a brincadeira. De você brincar, sorrir, perder a vergonha de tudo”, diz o DJ Makanaki, kudurista há um ano.
“Cada um dança do seu jeito, mas esse ‘esculhambadinho’ é do Küdüro”, DJ Panafricano.
- Kuduro é de casa pra rua. Tudo o que você faz em casa e tem vergonha de fazer na rua, você faz no Kuduro. Se tu larga uma bufa e faz isso aqui [caretas], já é uma dança - completa.

O jeito brincalhão de Nanda e DJ Makanaki
Kuduro na lotação
Devastada pela guerra, Angola não tem uma infra-estrutura eficiente de telecomunicações. A forma que músicos e produtores encontraram para difundir o Kuduro foi distribuir fitas para os candogueiros, lotações para até 12 pessoas típicas daquele país.
Assim, o leva e traz de pessoas espalhou o gosto pelo Kuduro por toda Angola. Foi também numa dessas corridas que o ritmo vazou para os outros continentes é agora é sucesso em baladas do mundo inteiro.
Academia do Küdüro Baiano
A única academia de Kuduro da Bahia funciona num galpão cedido pelos donos do Espaço do Gelo Imperador, Carlos Jr, e Dona Cláudia, no bairro de Mares, no subúrbio de Salvador. Está aberta todo sábado, às 15 horas, e tem entrada gratuita.
“Uns acham que aqui é centro, outros acham que é subúrbio. Não importa, é Kuduro”, DJ Panafricano
Na academia, um palco e um laptop ligado a potentes caixas de som. Uma bancada com capas de LPs de cantores e grupos africanos no corredor que leva ao palco e, na entrada, o pequeno espaço usado para a venda do gelo.

- Esse projeto entrou no final do ano passado aqui. No começo, eu não sabia de nada, achei até estranho. Mas eu fui me envolvendo e hoje eu me considero uma kudurista! Essa é uma academia para as meninas que querem queimar calorias. Eu era gordinha, já estou bem light. Queima mesmo! – diz Dona Cláudia.

Depois de me mostrar as várias possibilidades do Kuduro – no palco, na pista e na rua – Álvaro me conta o seu sonho: ter um trio elétrico tocando Kuduro no carnaval.
- Podemos mudar o carnaval de Salvador se deixarem a gente mostrar isso. Não abrem as portas para uma coisa que é legitimamente africana numa cidade que se diz campeã da cultura, mas é analfabeta para ensinar o que tem de mais moderno na África.
O vídeo não está muito bom, mas veja o pessoal dançando Kuduro.




























