Terra Magazine

20 de março de 2008

Música Pós-Internet

iurirubim às 21:38

Como será a música pós-internet? O videomaker Pedro Bayeux usou o Festival Recbeat 2007 como cenário para provocar discussões sobre a música no contexto pós-internet. Ele fez dois documentários sobre o tema, intitulados “Recbeat e o Hipertexto” e “Recbeat e a Propriedade”. Na entrevista feita pelo Blog das Ruas, Bayeux discute mercados, direitos autorais, estética remix, dentre outros.

Assista aos documentários:

Recbeat e o Hipertexto

Recbeat e a Propriedade

Quais são as principais convergências entre o Festival Recbeat e as discussões que você propõe em seus documentários?

Alguns festivais no mundo poderiam ser pretexto para um documentário que levanta temas como propriedade imaterial e direitos autorais. O Recbeat traz uma faceta que o difere (não o faz ser melhor, nem pior do que os outros), a da antropologia visual no carnaval, no Nordeste.

A maioria das bandas tem um histórico de busca da auto-suficência estrutural e criativa, uso de redes e rizomas na distribuição e/ou divulgação.

A analogia de diversos novos paradigmas no cenário musical pode ser encontrada ali. É, no contexto temático, um espaço em que posso estudar - questionar - teorias que flutuam em universos de cooptação, caos, arte e independência.

Seus documentários estão disponíveis para download na internet, o que é bem coerente com as idéias que eles defendem. Como você sustenta a sua atividade atualmente?

Coerência e metalinguagem, talvez. Colocar tudo na internet, desde o processo de realização e edição, sempre foi uma condição prévia, um fato consumado, sem dúvidas ou receios.

Há anos atrás, quando fazíamos isso com um servidor caseiro, sem players, a descoberta era saber (com uma dose de curiosidade) que estrangeiros desconhecidos poderiam nos assistir, que alguém na amazônia poderia interagir com o vídeo - era ter mais público que uma sala de cinema, era pelo experimento.

A nova mídia, a pós-mídia de Franco Berardi, a revolução sem face do Wu Ming Foudation.

Hoje, a extrema democratização tornou isso corriqueiro. Novos desafios aparecem. O raciocínio das tvs abertas - e da publicidade - aparece para ditar/hypar caminhos. Copiando modelos velhos com suportes novos.

Mas há uma espécie de pequenas subversões (e liberdade editorial, poética) que objetivam estrutura, hipertexto vídeográfico, jornalístico, etnológico, cibercultural. Eu idealizo sustentar minha atividade nessa premissa, articulando passo a passo, com vários golpes e desilusões no percurso. Mas sem ingenuidade.

Os documentários têm apoio financeiro para gravação e edição. Fora isso, sou videomaker há alguns anos, tenho meus trabalhos, meus contatos.

Você solicitou autorização dos cantores/ grupos do Recbeat para a exibição das imagens e música deles nos documentários? Isso o preocupa de alguma forma?

Os grupos que tocam no Recbeat assinam um termo liberando as imagens dos shows. A superintendente do Ecad assinou um termo liberando o material bruto em creative commons (está tudo na net).

Mas nem sempre consigo pegar assinaturas de todos, por falta de estrutura, pessoal. Até por isso não me arrisco com venda de dvds. Tudo é feito de forma não comercial.

O GamerBr foi o primeiro documentário no Brasil em creative commons. Nele tivemos a preocupação - e condições - de fazer um texto jurídico específico.

O ideal seria arrumar uma verba de finalização, para cuidar de vários detalhes, sejam jurídicos, de som, divulgação, de encarte (gostaria de fazer encartes em forma de livro-hq-frame)…

Notamos que a própria estética dos documentários incorpora a idéia de remix. Também é possível encontrar novas fronteiras estéticas para o audiovisual a partir da internet?

A mecânica de navegação interfere no imaginário, no ritmo, no corte, na leitura, no prazer. Sensações, reflexos e contexto que diferem a estética de vídeos na internet da linguagem de clipe.

Não é apenas o vídeo pronto e embalado para o público, é o processo. O desmembramento. A ramificação online das partes que formam um documentário. O material bruto para remix, por exemplo. As possibilidades estéticas em hipertexto dentro de um vídeo finalizado ainda estão em ebulição.

Você disponibiliza os documentários para download em diversos formatos, até mesmo para ipods. Quais as principais provocações que os multiformatos e a portabilidade fazem para cineastas e videomakers?

Vou ao cinema por razões profundas, pessoais e vitais. Por inspiração. Pelo escape, fantasia. Pelo onírico. Coloco os vídeos em diversos formatos pela maleabilidade, pela inovação, pela surpresa, pelo teste.

Uma vez, há alguns anos, me mostraram o GamerBr num videogame de mão, com qualidade impressionante - é um suporte a mais, um comportamento freak a mais.

São várias mídias, granulações, mutações. É funcional: estar em regiões inóspitas, com um ipod, e poder ver um vídeo - lugares sem cinema ou conexão, não-lugares. Pocket movies. A poesia de ir ao cinema não vai ser perdida para quem valoriza conhecimento, ambientação e emoção visceral.


o videomaker Pedro Bayeux

(Todas as imagens da entrevista, à exceção da foto de Bayeux, são extraídas dos documentários)

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