Terra Magazine

25 de março de 2008

Moradores de rua sobem no palco e viram estrelas

iurirubim às 16:02

Há pouco tempo, postei uma matéria sobre o Jornal Aurora da Rua, o primeiro jornal do Nordeste feito e vendido por moradores de rua. Ontem (24/3), o jornal comemorou seu primeiro aniversário da melhor forma possível: montou um palco na Praça da Piedade (Salvador) para que os próprios moradores de rua mostrassem seus dotes artísticos!

O Festival Arte Rua – 1º. Ano do Jornal Aurora da Rua inverteu por uma tarde a lógica de que quem não tem “endereço fixo” é invisível. Ao contrário, eles eram as estrelas do espetáculo!

– Povo da rua, hoje essa praça é nossa! – dizia Elmário, um dos vendedores do Aurora da Rua, que se apossou de um timbau no palco e, antes mesmo do show começar, já tocava e cantava entusiasmado.

Quase duas horas de atraso. De cima do palco, Elmário solta uma advertência: “tem que começar! O público já está ficando impaciente!”.

Enquanto aguardava o início do show, conversei com outro vendedor, que também iria se apresentar. Seu nome é Dílson e ele me diz que vai recitar uma poesia política, de sua autoria, mas ainda sem título.

Dílson está com o Aurora da Rua há sete meses. Me conta que com a venda do jornal tira mais que um salário mínimo por mês. Pergunto como ele consegue.

– Eu me esforço também, meu amigo…

Conheço também uma senhora muito simpática, Iracy, que me conta que viu uma chamada para o Festival na TV e que foi lá conferir. Ao lado do palco, um varal com uma pequena exposição de fotos dos vendedores e de personagens da rua.

Finalmente as apresentações começam. Primeiro se apresenta um grupo de vendedores do jornal. Elmário lá. Após algumas canções em homenagem ao periódico, um pequeno desentendimento sobre o andamento de uma música.

- É assim mesmo, né, pessoal? Todo mundo nervoso… afinal é a primeira vez que o povo da rua está no palco – diz Elmário.

Veja a abertura do Festival Arte Rua pela TV Terra

Logo depois, uma canção, que parece já bastante conhecida de parte do público, anima todo mundo. O refrão varia um pouco, sempre iniciado pelo verso “sai do chão, sai do chão…”. Pergunto a alguém o nome do cantor. “Ah, esse aí é o Sai do Chão”.

A próxima a cantar é uma velhinha que dançava animadamente em frente ao palco.

- Boa tarde. Quem não conhecia Mãe Preta ta conhecendo agora. Lá em casa são 47 crianças e 39 adultos velhos. Não quero nem saber, quem chegar lá em casa come. (…) Quem ficou no lugar de Irmã Dulce fui eu.

Mãe Preta canta animadamente dois sambas. Descubro depois que ela, com 84 anos, mora na ladeira da montanha, uma área famosa de prostituição em Salvador.

Fico ainda para ver Rhuna, mineiro formado em teatro pela Fundação das Artes (SP), que fez uma compilação dos versos do poeta falecido Luís da Trindade.

Luís, como Rhuna e muitos outros presentes, morava numa comunidade de se abriga na Igreja da Trindade, abandonada.

Também vendedor do Aurora da Rua, pergunto a ele se dá para viver com as vendas.

- Olha, eu sou do tipo que anda pela cidade observando a arquitetura e acabo vendendo pouco jornal. A grana que consigo, eu uso para acessar a internet, tomar um guaraná, ir ao cinema…

Todo trajado para o espetáculo, Rhuna, entre cantar e declamar os versos, faz uma apresentação emocionante.

Saio de lá me perguntando porque insistimos em não ver certas maravilhas que estão ali, na nossa frente.

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14 Comentários »

  1. Interessante a matéria e estou nesse momento com lagrimas a descer, a cada linha que leio, pois caí nessa vida e comecei a mostrar que as pessoas de rua não são tão inúteis assim e são mentes que podem sim, serem bem aproveitadas. Eu acho que o jornal tem circulado por muito tempo notícia que em nada eleva o conceito de nós moradores de rua perante a sociedade comum. Ou seja sempre mostrou pessoas em suas artes que a sociedade repudia. Isso não nos ajuda. Notícias assim são melhores. Podem melhorar mais, mas já um grande começo. Há artes que incluem e as que excluem. Mas é bom pontuar que é interessante que cada um faça o que goste e não que seja obrigado a fazer nada, pois esse é o motivo de buscarmos as ruas. Eu poderia ter tido em Brasília uma vida “normal” dentro da sociedade, mesmo como artísta, mas não teria conhecido o submundo da forma que eu conheço hoje, de maneira honesta, imparcial, sincera, etc. Pra finalizar. A violência praticada por pessoas de rua, são nada mais do que a vingança por ser tão punidos, discriminados e etc…
    TÁ MELHOR o Aurora agora, mas precisa melhorar mais…

    Comentário por Carlos de Albuquerque — 25 de março de 2008 @ 16:44

  2. sem comentarios…
    maravilhoso…
    Só não foi melhor pq não vi ao vivo….
    maneirissimo

    abrazzz

    Comentário por darumaman — 25 de março de 2008 @ 18:05

  3. O cara, vc sabe como faço para conseguir um exemplar desses?

    abrazz
    se cuida

    Comentário por darumaman — 25 de março de 2008 @ 18:09

  4. Adorei a matéria. É como sempre digo: o que diferencia o morador de rua e o cidadão dito “normal” é a cama. Porque morador de rua não pode ser artista? Chances de se mostrarem, como esta deviam acontecer no Brasil inteiro. Aqui em Porto Alegre os moradores de rua têm um jornal próprio, chamado “BOCA DE RUA”. Funciona mais ou menos da mesma forma. O encarregado é
    Reinaldo (relusan9@yahoo.com.br ) . Vou passar para ele o blog de voces para que possam fazer intercâmbio.Parabéns pela festa e pelo jornal. Um beijão.

    Ps: sou voluntária junto ao Forum permanente de moradores de rua de Porto Alegre.

    Comentário por Eliana Inês de Castro — 25 de março de 2008 @ 18:18

  5. Gostei muito da matéria, principalmente porque mostra que os moradores de rua tem uma cultura que é própria e muito rica, depende do olhar. A rua é um espaço onde várias pessoas encontram suas identidades.

    Comentário por CARLA FARIA — 25 de março de 2008 @ 19:17

  6. Muito bom… o jornal em sí é uma denúncia… a matéria além de ser muito feliz pelo tema e a forma ética e poética como aborda a questão dos moradores de rua, está impregnada de um sentimento que deveria tomar a sociedade de maneira geral: Não é mais cabível a extrema miséria em um país extremamente rico como o Brasil.
    Como o Iuri apontou, esses invísiveis são talentos não aproveitados e descartados por uma nação que peca pela negligência de direitos e de atenção. Palmas para o Aurora!

    Comentário por Guellwaar Adún — 25 de março de 2008 @ 19:27

  7. Taí uma contradição difícil de entender. Minha mãe, que tem 77 anos, pira quando vai à missa na Igreja da Piedade e vê mais de uma centena de moradores de ruas pela calçada, crianças e velhos. Outro dia pediu para que eu escrevesse um e-mail para Lázaro Ramos, de quem é fã, pedindo socorro.
    Sem querer fazer proselitismo, não sei o que é pior. A vida de um operário espremido numa rotina escrota até virar bagaço velho ou de um sujeito solto pelas ruas como bicho, na merda, porém livre. De qualquer modo é uma realidade que está posta, que existe, e é muito bom que se expresse cada dia mais.

    Comentário por Marcus Gusmao — 25 de março de 2008 @ 19:37

  8. Achei maravilhosa a idéia e dou os parabéns aos criadores, participantes e a todos os q. ajudaram para q. este feito fôsse realizado.Nosso país necessita de cultura e se cada um fizer a sua parte seremos brasileiros cultos, sábios e inteligentes.
    Abraços.
    prof. de arte Claryce

    Comentário por Claryce RodriguesV — 25 de março de 2008 @ 19:40

  9. Emocionante….fantástico. É o aurora dando filhinhos hein? Acho que esta ação pode crescer muito.

    Comentário por Rosana — 25 de março de 2008 @ 20:02

  10. E dá-lhe Bolsa-Voto!!!E dá-lhe ignorância!!Vivaaaaaa!!!!!!!!!!!!

    Comentário por Cleofas — 26 de março de 2008 @ 12:22

  11. Putz !!! Adorei a idéia !!!!!! E esse Rhuna que fez fundação das artes aqui no ABC em São Caetano, umas das melhores escolas de artes do Brasil. Só fera. Apoio esse projeto.

    Comentário por Marco Antonio — 26 de março de 2008 @ 12:47

  12. Maravilha é como nao precisar dormir para sonhar , apenas sonhar acordado, nosso pais tem jeito e nosso povo comanda todas as orquestras,Tbem sofro com minhas obras de arte, que só de fora dao valor, agora que vivo para elas sintome chegando ao fim,,,,,,,,,

    Comentário por Angelo di Lucas Anjo — 26 de março de 2008 @ 13:16

  13. Preciso fazer contato com o pessoal do Aurora da Rua. Tenho acompanhado o trabalho que fazem e admiro muito.

    Comentário por Angela — 20 de março de 2009 @ 10:39

  14. olá, como faço pra receber um exemplar desse jornal?? Estou fazendo um trabalho sobre morador de rua e teria interesse em lê-lo.
    obrigada!

    Comentário por suzany de castro — 22 de novembro de 2009 @ 10:57

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