
“Galeria” é uma palavra usada para os universos tão distintos da arte e dos esgotos. Normalmente, as coincidências ficam por aí. Mas o grafiteiro e artista plástico Zezão mudou essa história. Há treze anos em atividade, ele faz das intervenções em locais abandonados e nos subterrâneos da cidade a sua marca registrada.

Zezão tem 36 anos e começou a grafitar em 1995. Apesar da relativa estabilidade de que desfruta hoje, sua jornada não foi nada fácil. “Não tenho vergonha de dizer não: já passei fome mesmo”, diz. Foi justamente o grafite que o ajudou a superar a fase mais difícil de sua vida.
- Estava deprimido e sentia uma necessidade enorme de pintar, me expressar. Como tinha muita repressão na rua, passei a ver os lugares abandonados como alternativa. Quando grafitei pela primeira vez no antigo moinho Matarazzo nem tinha favela lá, era só lugar de usuário de drogas. Pesado, negativo, mas me fazia bem porque eu podia pintar ali.

A descoberta dos subterrâneos veio apenas em 2000, como decorrência da busca pelo isolamento. “Pode parecer engraçado, mas aquele ambiente escuro, vazio me ajudava a fazer minhas meditações”. O artista revela como esses ambientes inóspitos o ajudaram:
- Embora tenha sido uma fase difícil, foi importante. Consegui encontrar minha paz naqueles lugares. E aí que comecei a encontrar uma arquitetura diferente e enxergar uma beleza naqueles locais, sempre considerados feios, negativos.

Hoje, Zezão vê seu trabalho intimamente ligado a questões sociais e políticas. Considera-se um artista-ativista. “Quero apontar uma doença da cidade, seus lugares abandonados e também deixar esses espaços mais bonitos para pessoas que nunca viram o que é um museu”.

Essa busca incessante o leva a situações extremas. “Vou lá, arrisco minha vida. Fico exposto a doenças, violência. Quero ser lembrado como uma pessoa que teve essa coragem e essa preocupação”.

Certa vez, Zezão teve o apoio para um projeto com o Itaú recusado pela Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo). Alegaram que pelas condições de insalubridade e riscos à saúde, não poderiam assumir a responsabilidade por Zezão.
- Sabe o que eu fiz? Desliguei o telefone e corri para lá. Fiz tudo o que estava programado do mesmo jeito, sem autorização nenhuma.

“Grafite só é mesmo grafite quando for ilegal”
Zezão defende que a subversão é o espírito do grafite. São treze anos de muitos atritos com a polícia (“especialmente antes do ano 2000”), de tintas apreendidas, de tardes inteiras na delegacia.
- Eu, independente da regra do jogo, sou um grafiteiro e seguro toda bronca. Todo trabalho de grafite é ilegal. Mas isso nunca me amedrontou. O escrito do grafite é esse e ele não pode mudar.

Ainda assim, o artista reconhece o grafite está expandindo suas fronteiras. Lembra que a arte do spray era muito ligada à cultura hip hop, aos “maloqueiros”, à marcação do território pelas gangues.

"É com essas armas e com essas munições que eu escrevo
o meu nome no concreto da babylonia…." Zezão
- Tem artista que vai na casa da pessoa, pega autorização; outro está mais preocupado com pichação, marcar território. Eu faço os dois. Até porque tem umas obras, uns murais que levo seis, oito horas pintando e uso até 80 latas de spray… Aí não dá, né?

O que Zezão não admite mesmo é que descaracterizem a prática, deixando de lado os aspectos da subversão e a relação com a rua.
- Museu, galeria não é considerado grafite. Para virar grafite, eu teria que ir lá à noite, arrombar as portas e pintar onde quiser. O que faço nas galerias hoje é uma releitura do trabalho da rua para as artes plásticas - afirma.
“Na rua, sou mais eu mesmo”
Zezão, que antes do grafite foi motorista e motoboy, prefere a bicicleta para seu “rolê”, quando roda a cidade em busca de novos pontos para suas interferências. A bicicleta, aliás, é elemento recorrente nos registros fotográficos que faz de suas obras.

- Na bicicleta, eu sinto a rua me tocar. Gosto de escutar o barulho da cidade, sentir o cheiro. Quando vou fazer grafite tem que ser de bicicleta. Até para chegar nos lugares na boa, humildemente, sem ofender ninguém.
Pergunto a ele como se relaciona com as pessoas dos locais onde grafita.
- Eu não posso jamais deixar de tratar o ser humano que está lá de igual para igual. Chego, peço licença para pintar ali na casa dele (porque esses lugares são a casa deles, né?), começo um diálogo, sempre com muito respeito.

Algumas vezes, os moradores de rua retrucam: “Mas eu não tenho dinheiro…”.
- Você precisa ver a gratidão que ficam. Daí você começa a conhecer as histórias dos caras. Histórias dramáticas. Naqueles 20 minutos que você está pintando, conversa com eles, cria uma relação afetiva. O maior reconhecimento pra mim é o deles. Ali não sou famoso, mas quando passo um deles diz para o outro: “esse é o Zezão, que pintou lá o muro”. Sempre paro, abraço todo mundo. Tenho esse público underground!
A rua é onde Zezão se sente mais confortável. Compara os dois ambientes que transita com uma entrevista de emprego e um chope com os amigos.
- Hoje tenho que me reunir com um monte de gente que precisa saber que não está conversando com um maluco. Converso com curadores, patrocinadores. É como ir a uma entrevista de emprego, sabe? Assumo que sou maloqueiro mesmo. Quando vou pintar na rua, eu sou mais eu mesmo.
Nas catacumbas de Paris
Embora já tenha feito trabalhos para grandes galerias e clientes e exposto fora do país, Zezão não perde a oportunidade de subverter os ambientes, onde quer que esteja, e deixar sua marca, de preferência nos subterrâneos.

Recentemente, esteve em Paris, cidade em que passou por uma das experiências mais marcantes de sua vida: conhecer as catacumbas da capital francesa.
- Tive que invadir um túnel do metrô. Pular dentro da linha. Passar por detrás da câmera. Andar na linha de metrô e entrar em buraco. Entrei de noite e saí às 7 da manhã. Das nove 9 horas que fiquei lá, tive muito medo nas primeiras três! Imagine como deve ser um francês chegar no Brasil e despontar numa favela…

Antes de Paris, os subterrâneos de Brighton (Inglaterra)
Zezão conta que conheceu uma cultura underground - os cataphiles, que exploram constantemente os 300 km de catacumbas e usam velas para enxergar abaixo da cidade-luz.
- Aprendi que os cataphiles usam vela. Lanterna é polícia. Eu poderia ser pego pela polícia, ir preso, ser deportado… ou me perder lá dentro também. Sabia disso tudo, mas essa é a minha arte, minha válvula de escape.
Fotos: Zezão [à exceção de João Wainer ( foto 2), Felipe Lopez (foto 4)]