Violeiros disputam espaço em feira com CDs piratas
Muita gente e muito barulho. É sábado, dia de feira-livre em Irará, no interior da Bahia. Na manhã ensolarada de 19 de abril, o grande comércio a céu aberto, da mais que centenária feira, não é muito diferente de outros sábados.

Os violeiros Bráulio Pinto e Antônio Queiroz
Barracas, ambulantes, anunciantes. Vende-se e propagandeia-se de tudo.
A feira, posicionada em duas praças e cinco ruas, estendendo-se até o centro de abastecimento, tem grande diversidade. Encontram-se frutas, verduras, roupas, ferramentas e utensílios domésticos, entre outros. Nas barracas e no chão.

Aglomeração para ver as violas na feira
Há também muitos carros de som. As “vitrolas sobre rodas” anunciam bingos, festas e os reclames do comércio local.
Forte marca identitária da economia e da cultura de Irará, a feira-livre há algum tempo é mais economia do que cultura. Melhor dizendo - antes do inicio de qualquer debate antropológico - ainda é forte cultura, só que com menos arte.
(A arte e o comércio, também não seriam cultura? Sim… calma, deixem o debate para depois).
Polêmicas à parte, o que se pretende dizer, é que a participação de artistas, com apresentações ao vivo, na feira-livre de Irará têm sido diminuída, pior, acho que zerada mesmo.
Nos últimos anos, uma das atividades do Colóquio de Literatura Popular tenta mudar um pouco esse quadro.
O evento, realizado pela terceira vez em quatro anos, é uma iniciativa da Casa da Cultura de Irará, com o patrocínio do Banco do Nordeste, com o objetivo de incentivar a leitura no município. E uma de suas etapas consiste em apresentar o cordel e o repente na feira-livre.
A programação de 2008 é aberta na quinta-feira, dia 17. No sábado, dia de feira, as atividades começam com a apresentação da dupla de repentistas Antônio Queiroz e Bráulio Pinto.

Bráulio Pinto - nome e sobrenome
Isso mesmo. Não é ironia, nem apelido. Nome e sobrenome. Antônio Queiroz, acompanhado de seu mais novo pareia: “Bráulio Pinto”. A dupla mal inicia seus acordes e já tem gente perguntando se eles vão vender CD.
É claro que vão. Em cima de uma mesa de bar, ao lado do toldo onde estão se apresentado, no meio da praça, junto a uma porção de livretos de cordel, estão à venda vários CDs de Repentistas e Violeiros. A gosto do freguês.
Alguns populares se aproximam. Muitos pegam, olham. Poucos levam. Ao lado, mais ou menos uma dezena de barracas comercializam CDs e DVDs piratas de montão. Lá, acha-se com facilidade o “créu” e os “aviões” (mandando chupar “que é de uva”), entre outros. Grupos que as rádios comerciais e até (sic) comunitárias da região, não se cansam de tocar.

CDs piratas concorrem com o cordel
Demonstrando certa indiferença à apresentação dos violeiros, os ambulantes dos CDs e DVDs piratas, exército de mão de obra empurrada para informalidade, seguem no trabalho. Caixa de som estrondando, para exibir o seu produto a qualquer possível comprador.
Um dos organizadores do Colóquio vai até lá e pede que seja respeitada a apresentação dos repentistas. “Baixe o som, na moral!” – solicita. Mas parece ser em vão. O fiscal da prefeitura vem em seu socorro.
A cena sugere um capítulo da endiabrada peleja entre o Santo Guerreiro da Cultura Popular Nordestina contra o Dragão da Maldade da Cultura de Massa.
Uma trégua. Os ambulantes acabam abaixando um pouco o som. Afinal, eles estão ali todo sábado. Os violeiros, só quando tem Colóquio.
Na hora em que o som de Queiroz e Pinto torna-se o mais alto da praça, muitas pessoas já estão acompanhando os versos feitos de improviso por eles. Elogiam a feira e a cidade. Falam da vida no sertão, da labuta do trabalhador rural e da sua “lista de compras” na feira-livre. Agradecem a oportunidade de estarem tocando naquele ambiente.

Viola também faz samba!
Depois, entram no samba. Na base do pandeiro e da viola, eles começam a cantar várias cantigas e vai aparecendo gente para sambar. Um senhor, morador da comunidade do Largo São José, é o mais animado. Alguns outros também vão entrando na roda de samba.
Assim foi até o meio dia. Quando os violeiros terminaram a apresentação, ainda teve leitura de cordéis com Jotacê Freitas. Depois, o Colóquio de Literatura Popular seguiu com a sua programação.
Teve Oficina de Literatura de Cordel à tarde e, à noite, lançamentos de livros e cordéis, recital de poesias Vinhos & Versos, jantar com comidas típicas e música ao vivo. No domingo, dia 20, aconteceram atividades para crianças e para os idosos da Casa Jesus Maria José, samba-de-roda e bandas da chamada música de raiz, no coreto da cidade.

Uma vez por ano, o Colóquio de Literatura Popular agita Irará
Além de toda a qualidade de seu programa nos quatro dias de duração, O Colóquio de Literatura Popular, este ano, em edição comemorativa aos 25 anos da Casa da Cultura de Irará, foi, mais uma vez, para junto do povo. Fazendo o cordel e o repente, aparecer assim, de repente, na feira-livre.
Fotos: Katiene Suzart
Roberto Martins, iraraense, é produtor cultural formado pela Universidade Federal da Bahia. Ele é o idealizador e coordenador do Colóquio de Literatura Popular, criado quando esteve à frente da Casa da Cultura de Irará.
Eu louvo a literatura
Na sua forma mais pura
Que entrelaça a cultura
Do povo da minha terra
Como a voz de um ermitão
Pelos vales do sertão
Eu abro o meu coração
Pra o verso do pé-de-serra
Este colóquio de feira
Da cidade de Irará
Eu não sei como é que é lá
Mas sinto que é de primeira
Romaria violeira
De cordel e de repente
Distribuindo semente
Pr’uma gente prazenteira.
Comentário por Abdias Campos — 27 de abril de 2008 @ 13:30
Valeu Iuri !
Iniciativas como o “Das Ruas”, através de um formidavel veículo como a internet, vem para difundir o que acontece no interior do Brasil. Já que a grande mídia “prefere” só perceber o lado cosmopolita do país…
Abraço !
Roberto Martins.
Comentário por Roberto Martins — 28 de abril de 2008 @ 10:12
Poxa, é isso aí!
infelizmente é o mais nitido retrato do descaso cultural, obrigado Iuri por nos dar esse espaço pois desprezilvemente é essa a realizade que assola a disputa entre os causos e o descaso, a penuria que os artistas de raiz celebra ao debater com a massificada babozeira cultural, eu ainda reitero que o amigo esqueceu de citar que no outro lado ainda havia os plaiboys e seus carros com sonzões e as mesmas musicas fazendo de nossos companheiros um recheio audio cultural, do estrondo aprodecido da musicalidade de moda! valeu! grande abraço, kakal.
Comentário por Kakal — 28 de abril de 2008 @ 11:52
O Colóquio desde o 1º ano vem dando um importante incentivo a leitura e a cultura regional, que a cada dia vem sendo atropelada pela cultura de massa, distanciando assim o público de valorizar a sua cultura a sua história. Que esse Projeto se prolongue por muito mais tempo, pois é a oportunidade de vermos a cultura de raiz ser desenvolvida em nossa região, conscientizando assim as pessoas de a nossa história tem que permanecer viva dentro de cada um de nós.
Comentário por rejane — 28 de abril de 2008 @ 12:23
caríssimos roberto e iuri, o colóquio tem se mostrado um marco na defesa e preservação da cultura popular, longa vida a todos da casa de cultura de irará. no artigo acima faltou citar as performances do poeta de santa bárbara, Antonio Carlos Barreto, o toinho de mariinha, que cantou, tocou e recitou diversos textos de sua autoria; kitute de licinho, atual presidente da casa, que lançou cordel comemorativo; geraldo maia e outros, que não me lembro pois cheguei atrasado. sei que o enfoque da matéria é outro, mas é bom lembrar dos amigos… abreijos
jotacê
Comentário por Jotacê Freitas — 4 de maio de 2008 @ 10:29
3º Colóquio,
“O sertanejo é antes de tudo um forte” e um colóquio de literatura popular, no meio da feira, contando com o desapoio tantas vezes presente e numa época em que o texto mais lido não ultrapassa algumas míseras frases, cheias de defeito e sem efeito coloquial comprova isso, a força sertaneja imortalizada em Os Sertões (O homem) de Euclides da Cunha, em Patativa (Cante lá que eu canto cá) e outros grandes vates.
“… o pulso ainda pulsa” Graças a Deus e “Apesar de você”.
Sérgio Cabelera.
Comentário por Sérgio Cabelera — 2 de junho de 2008 @ 12:04