Quadrilha de velhinhos apresenta-se em festival
Os 25 mil habitantes da pequena cidade de Igaci, a 150 km de Maceió, têm um programa diferente para fazer neste 1º. de maio. É o Festival de Música Popular Nordestina Cantores do Mulungu, realizado pela Associação Comunitária de Arte Cultural do Agreste/ Ponto de Cultura Umbu-Caju, no Sítio Cachoeira (Estrada das Caraibinhas), zona rural do município.

Esta é a primeira edição do festival, que começa às oito da manhã e só acaba na hora do sol se pôr. No programa, muito forró pé de serra, cordel, poesia matuta, coco de roda e de embolada, trovas, aboios e toadas. “Só é proibido aquele forró eletrizado”, conta José Leão Silva, organizador da festança.
- Essa posição é para reforçar o lado tradicional da nossa cultura. Por quê? Porque o Ponto de Cultura Umbu-Caju procura o sentido na produção local. Tradições querem dizer respeitar a nossa história, identidade. E Cultura é a identidade de um povo. Nós, que somos extremamente nordestinos, preservamos – diz o presidente da associação.

Para José Leão, a defesa das tradições nordestinas é uma questão de cidadania. “Nós temos uma política cultural de cidadania e nem sempre os poderes constituídos compreendem”, ressalta.
O próprio nome do festival refere-se à lida diária dos trabalhadores rurais. Durante o festival, será distribuído gratuitamente um cordel revelando quem são, afinal, os cantores do mulungu.
- Eu era muito pequeno e admirava os pássaros que faziam seus ninhos no mulungu, exatamente onde os agricultores chegavam de madrugada vindo de longe para trabalhar no roçado. Nesta árvore tinha ninho de vários pássaros, os trabalhadores ainda dormiam um sono até amanhecer o dia, e acordavam com o cantar dos pássaros, os cantores do mulungu.
Além do imaginário de criança, a expressão “cantores do mulungu” faz uma alusão à situação dos trabalhadores que, “ouvindo os pássaros, saiam cantando, mesmo com toda a tristeza”, lembra Leão.

Entre 300 a 500 pessoas são esperadas para dançar no chão de terra batida do pátio da associação comunitária. Já está confirmada a participação de vários sanfoneiros e violeiros, do Reizado das Caraibinhas e do Grupo Alegria de Viver, uma quadrilha matuta cujos membros têm idade superior a 60 anos.
- Mas, como assim, 60 anos? – pergunto.
- É isso mesmo. Eles são da sede (Igaci). Eram todos aposentados e viviam desprovidos de lazer e entretenimento quando resolveram fundar esta quadrilha. E olhe que já é a terceira vez que vão se apresentar num evento nosso… – responde Leão.
Tento, em vão, conseguir os telefones dos membros da quadrilha. “A dona Eunice e o senhor Eleno são meios que acanhados para entrevistas”, me conta Leão.

Infelizmente, a distância dos grandes centros cobra seu preço e o festival não terá recursos para cachês, nem locomoção para os participantes. Mas não é essa a escrita do povo nordestino? Enfrentar seca, sol e chuva para contar seus “causos” e ouvir e dançar, suas músicas?
Tomara que os “cantores do mulungu” ainda cantem em muitos festivais!
Contato: José Leão (mundial@eletronicamundial.com.br)
Fotos: Arquivo da Associação Comunitária de Arte Cultural do Agreste/ Ponto de Cultura Umbu-Caju (eventos realizados pela associação)
este é um excelente meio de renovação de nossa cultura, já que em nosso estado a cultura é esquecida, espero que não fique só nesta e sim tenha muitos outros encontros desse tipo, nossa geração agradece, parabens para o dirigente e os integrantes.
Cicero
Comentário por Cicero Junio — 2 de maio de 2008 @ 10:25