
No auge de seus 60 anos - “muito bem vividos!” – a freira Iracy Barboza de Almeida foi a grande responsável por uma revolução musical na pequena Catolé do Rocha, cidade do sertão paraibano já na divisa com o Rio Grande do Norte.
Operada na cabeça cinco vezes por causa de um tumor, é fácil identificar a irmã Iracy, quase careca por conta das sessões de quimioterapia nos idos de 1975. Entretanto, o reconhecimento que a cidade tem pela freira não vem da sua silhueta, mas de sua dedicação ao ensino da música.
Irmã Iracy coordena hoje a Casa do Béradêro, escola de música e artes que construiu, em associação com o cantor e filho de Catolé do Rocha, Chico César. Deixo a própria freira contar como ela começou essa empreitada:
- Eu sou professora de música. Então, em 1995, comecei a dar aulas de flauta doce para um grupo de adolescentes aqui da cidade. Lá pelo ano 2000, eles começaram a me “aperrear” com a idéia de tocar outros instrumentos. Olhavam para as flautas e diziam: “a gente só vai ter isso para tocar?” – lembra irmã Iracy.
Com admirável humildade, a freira reconhece que “não estava sendo suficiente, né?”. Desde aquele momento, começou a buscar alternativas para diversificar o aprendizado dos “seus meninos”.
Embora nascida na região, irmã Iracy faz parte de uma congregação de freiras franciscanas da Baviera, na Alemanha. A freira não demorou a descobrir a herança germânica em sua congregação: encontrou três violinos. Infelizmente, todos quebrados. Foi então que um novo horizonte se abriu para o ensino musical em Catolé do Rocha.

Pediu para outra irmã freira para levar os instrumentos para o conserto. Como não tinham dinheiro, um dos violinos ficou como pagamento.
“Me arrependo disso até hoje”, reclama irmã Iracy. “Eu poderia ter até pedido esmola, mas deveria ter pago aquele conserto de uma outra forma”.
Com os dois instrumentos prontos para o uso, pediu a um amigo de Campina Grande que desse aulas de violino para as crianças. Ele inverteu a proposta: “manda os meninos para cá”. A família do amigo recebeu dois adolescentes durante um mês. Quando voltaram, não conseguiam esconder o contentamento.
Novamente, Dona Iracy recorreu às amizades que tinha feito ao longo da vida. Convidou a filha de uma amiga, que estudava violino e aguardava seis meses para começar a universidade, para dar aulas do instrumento em Catolé do Rocha. Com outro amigo, conseguiu mais um violino.
Foi então que a perseverança dos estudantes da flauta doce foi recompensada: as oito crianças “mais comprometidas” do grupo passaram a estudar violino.

- Veja só: era uma aula de violino para oito alunos com apenas três violinos! No final do período, tinha uma apresentação. Mas a gente tinha não podia fazer a paresentação com os oito de um vez porque faltavam os instrumentos! – rememora a freira.
Novamente, as amizades. Desta vez quem ajudou foi um frei capuccino, também franciscano, que vive em Fortaleza. “Ele tinha um trabalho 10 anos mais antigo que meu e me arranjou cinco violinos (produzidos na oficina dele) e um monitor”, conta. O jovem ia à Catolé do Rocha a cada 15 dias e dava aula nos fins de semana.
Desde 1999, irmã Iracy conversava com um ilustre ex-aluno dela e também filho da cidade, o cantor Chico César, que dizia: “eu queria fazer alguma coisa pelas crianças de Catolé”.
Imediatamente, a freira retrucava: “não precisa fazer nada novo. Eu jogo tudo o que já faço na instituição que você criar”. Foi assim que, dois anos mais tarde, surgiu o Instituto Cultural Casa do Béradêro.

- Sempre digo que esse menino já nasceu grande: nasceu com seis anos de trabalho. – enfatiza irmã Iracy.
Também em 2001, ela enviou um projeto para “uma instituição da Europa, que tinha sede em São Paulo”. Já que ia pedir, D. Iracy “caprichou”: solicitou 30 violinos, sete cellos e muitos outros instrumentos. O resultado não poderia ser melhor:
- Morri de chorar quando vi a sala cheia de instrumentos! – lembra, emocionada.
Junto com os instrumentos, Catolé ganhou a vinda de um professor de violino e um de flauta transversal, que foram morar lá.
A nova instituição e a chegada dos instrumentos deram apoio moral para que irmã Iracy e seus pupilos pleiteassem uma sede. “Até então, trabalhávamos no colégio onde moro com as irmãs”, diz. Desde 1939, o Colégio Normal Francisca Mendes forma professoras para toda aquela região do sertão paraibano.
A falta de espaço é tão periclitante que a sala dos violinos funcionava no porão, embaixo do palco do auditório do colégio.
Foi justamente nesse momento que receberam, em comodato por 30 anos, um edifício abandonado, onde iria funcionar um hospital. A doação foi feita por um médico, filho de um ministro do Superior Tribunal de Justiça, amigo de Chico César e co-fundador da Casa do Béradêro.
A essa altura, irmã Iracy já estava “craque” em projetos e escreveu para instituições na Alemanha, solicitando dinheiro para a reforma. Recebeu quase que a totalidade do que precisava. O resto foi conseguido junto à população da cidade.
- O povo de Catolé do Rocha é muito generoso. Dá conforme o tamanho do coração. Às vezes, nem pode e dá mesmo assim – confessa Dona Iracy.
Em agosto de 2005, começaram a restaurar o prédio. A freira cozinhava para os trabalhadores e comia junto com eles. “A gente nunca trabalhou assim não! Nunca um patrão cozinhou ou comeu com a gente”, diziam.
Tiveram quase que desconstruir tudo para reconstruir e a obra ainda não terminou. Mas, em 2006, “tudo que era sala estava rebocada e com uma mão de cal”, lembra a freira.
- A matrícula já foi feita lá. Os monitores mesmo ajudaram a lavar as salas e todo mundo entrou contente. Quando a gente entrou no prédio parecia o povo de Israel entrando na Terra Prometida! – lembra, maravilhada.
Irmã Iracy teve que lembrar a seus monitores que ela mesmo deu muita aula sentada no chão. ‘Agora vocês é que vão dar aula sentados no chão’, disse. Partiu, então, para uma nova saga: conseguir cadeiras para o instituto.
Mas a cidade já conhecia a determinação de irmã Iracy e os frutos desse trabalho. Rapidamente, recebeu mais cadeiras do que precisava.
A Casa do Béradêro é a única referência de aulas de música com partitura em Catolé do Rocha. Hoje, além dos vários instrumentos sinfônicos, acontecem também aulas de capoeira, dança, artes plásticas, desenho e reciclagem de papel. A cada matrícula, cerca de 150 adolescentes se inscrevem nos cursos.

- Ainda temos muitas desistências e a quantidade de alunos varia muito. Como tantas outras cidades do nordeste, depois que um menino termina o segundo grau, tem que ir s’embora para a capital à procura de trabalho – lamenta.
A irmã mantém contato regular com seus ex-alunos, a maioria fora de catolé do Rocha. Pelo menos cinco deles (“para mim são sete, mas não me recordo quem são os outros dois”) já estão na faculdade. Ela lembra com carinho especial de Alisson, garoto de 15 anos que vive em João Pessoa e já toca oboé profissionalmente. “Esse vai longe!”, diz.
Lembra também do que um de seus ex-alunos disse para a mãe: “mãe, eu quero fazer o mesmo curso que irmã Iracy fez, e depois voltar para ajudar ela”.

Quem também volta todo ano é Chico César, “que visita a família e faz questão de conversar e incentivar os meninos do Béradêro”, diz a freira.
Segunda-feira, dia 26 de maio, é o aniversário de emancipação de Catolé do Rocha. As festividades já começaram desde ontem. A irmã Iracy, com sua energia inesgotável, já preparou uma mostra de arte e cultura para o instituto.
Infelizmente, não consegui uma foto da irmã Iracy. “Olha, eu sou muito exigente com o som, até quando eu tinha uma máquina, nunca conseguia usar, diz”.
Fotos: Arquivo Casa do Béradêro