Terra Magazine

6 de maio de 2008

Do Pará à Índia,anônimos contam histórias pessoais

iurirubim às 1:30

Você já contou a história de sua vida? Não? Então aproveite a próxima sexta-feira, 16 de maio. No I Dia Internacional de Histórias de Vida, milhares de pessoas ao redor do planeta contarão suas histórias, dos jeitos mais diferentes e inesperados.

O movimento, de amplitude mundial, é coordenado pela Rede Internacional de Museus da Pessoa (Brasil, Portugal, EUA e Canadá) e o Center for Digital Storytelling (EUA). Seu objetivo: celebrar a importância de compartilhar e escutar histórias de vida.

Serão milhares de pessoas envolvidas e ações que acontecem nos cinco continentes. Desde cabines públicas para o registro de histórias (na estação de metrô Santa Cecília, em São Paulo, ou no coreto de praça em Santa Tereza, Belo Horizonte) até a roda de contação de histórias na cidade de Kibera (Quênia), passando pelas merendeiras e mestres populares de Piaçabuçu (Alagoas).

O site oficial da campanha, www.ausculti.org, detalha bases conceituais e as atividades e permite a troca de informações entre todos os participantes. Assista ao vídeo da campanha.

Por trás da iniciativa, uma idéia tão simples quanto genial: a História (essa com H maiúsculo) não pode ser contada apenas por gênios, governantes ou celebridades, mas também por pessoas comuns como eu e você.

E essas histórias tendem a ficar de fora dos livros.

São, entretanto, de extrema importância não apenas por si ou para o círculo de convivência da própria pessoa, mas também para compreender os processos de organização social seja de espaços, grupos ou outros aspectos da vida cotidiana.

Como diz Camila Prado, coordenadora de comunicação do Museu da Pessoa, a História tradicional e as histórias de vida, ao invés de se contraporem, se complementam. “O museu cuida de registrar a história que não faria parte de registros oficiais”, afirma.

No Brasil e lá fora

“Conhecer – por meio da escuta ou da leitura – um grupo de histórias de vida é uma maneira incrível de expandir nossa visão do mundo, pois elas são peças de informação únicas, que nos mostram como as diferentes pessoas criam suas próprias realidades” 
Museu da Pessoa.

Um mapa organiza os eventos programados para o dia 16 de maio. Enquanto escrevo, mais e mais atividades são adicionadas lá. Brasil e Estados Unidos são os dois países que registram mais ações, conseqüência de abrigarem as duas principais organizações envolvidas, o Museu da Pessoa Brasil e o Centre for Digital Storytelling.

Em território nacional, além das ações já citadas, os Doutores da Alegria contam seus causos em sua sede, na capital paulista e o Museu da Pessoa promove rodas de contação de histórias sobre “histórias de taxistas” e sobre a “imigração japonesa”. Em Uberaba (MG), acontece uma exposição de histórias de vida e autobiografias de 150 crianças.

Rodas de contação de histórias em Rondon do Pará (PA) e Simões Filho (BA). Um Seminário Audiovisual sobre Memória e Identidade em Itajaí (SC) e o relato de Jongueiros em Guaratinguetá (SP). No Rio, a organização CicloCultura - Mobilidade Urbana lança um blog para acompanhar as histórias das expedições de bicicleta pelo Brasil.

No exterior, mais rodas de contação de histórias, em Joannesburgo (África do Sul), Merkplas (Bélgica), Melbourne (Austrália) e até em Hebron (Palestina). A mais emocionante das rodas deve acontecer em Mumbai (Índia): as atividades ocorrem em locais afetados pela Tsunami de 2004. “Nessas cidades, tudo o que sobrou foram as histórias das pessoas”, emociona-se Ana Nassar, responsável pelas Relações Internacionais do Museu da Pessoa no Brasil.

Em Ocean Beach, Nova Iorque (EUA), estudantes, pais, professores e outros membros da comunidade local homenageiam os mais velhos, com mostra de vídeos sobre sua história. Já na Cidade do México, americanos que vivem lá foram convidados a contar sua vida no país latino a partir de três objetos que caibam numa caixa de sapato.

Vão rolar atividades até no Second Life: o New Media Consortium (NMC) está organizando duas atividades. A primeira é uma mostra de histórias de vida produzidas por vários centros de contação de histórias digitais ao redor do globo e uma roda de contação de histórias propriamente dita.

Josés, Marias e Benedictas

Benedicta Pereira (vídeo) é “mãe, avô e bisavó nas horas vagas” e “só não aprendeu a tocar violão”. Sua mãe lhe disse que ela chegou numa enxurrada. A partir de então, sempre que chovia, “eu ia ver a minha vida começando ali na enxurrada”.

“Eu sou filha da chuva” 
Benedicta Pereira

Maria do Carmo (vídeo) é viúva. Após a aposentadoria, retomou o sonho de juventude: tornar-se uma escritora.

- Não me lembro quem que disse: ‘você gosta de Hai-kai?’. E eu falei: ‘Isso come com chantilly?’. Não conhecia e me apaixonei por Hai-kai. Foi aí que comecei a escrever.

Já José Paulo de Araújo (vídeo), de Imaculada (PB), começou a trabalhar com 7 anos e migrou para São Paulo aos 17. Precisou de autorização judicial para casar porque a amada ainda era menor de idade. Conheceu os pais da noiva no momento de assinar os papéis.

“A vida é assim, né? Deu certo, está certo” 
José Paulo Araújo

Responsável pelo registro das histórias acima, o Museu da Pessoa é uma rede internacional de museus virtuais de histórias de vida, localizados no Brasil, Canadá, Portugal e EUA Sua missão é contribuir para que a história de vida de cada pessoa seja valorizada pela sociedade. 

A sede brasileira, primeira das quatro, tem um acervo total de cerca de 10 mil histórias como as de José, Maria do Carmo e Benedicta. Abriu as portas em 1991, em São Paulo, por iniciativa da historiadora e lingüista Karen Worcman.

Hoje, atua pelo registro e valorização das histórias de vida enquanto fonte de conhecimento a partir de três perspectivas.

A primeira delas é o próprio registro: o museu conta com uma equipe de pesquisadores que entrevista pessoas e registra suas histórias, fazendo, inclusive compilações temáticas. Quem quiser contar sua história para o Museu, pode fazer pelo site da organização ou agendar uma gravação por telefone (11.2144.7169) ou email: pontodecultura@museudapessoa.net.

A segunda vertente é a disseminação das práticas e metodologias de registro de histórias, para que muitas outras pessoas e instituições possam assumir essa causa.

Finalmente, a terceira é a articulação em rede, para mobilizar a sociedade a fazer com que campanhas como o Dia Internacional das Histórias de Vida – realizado este ano sem recurso nenhum – possam tornar-se realidade.

Todas as histórias contadas neste post são parte do acervo e gentilmente cedidas pelo Museu da Pessoa. Visite o site deles e conte a sua também!
Fotos: divulgação/Museu da Pessoa
 

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1 Comentario »

  1. Iniciativa muito bemvinda. Participo de um site o vivasp.com, desde 2003 .É um trabalho colaborativo, onde pessoas comuns contam suas experiencias e histórias familiares que os livros não registram.

    Comentário por esther — 6 de maio de 2008 @ 9:39

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