Venezuela ensina à Bahia como fazer música

“As pessoas lá de São Caetano acham que é um violão”, conta a menina Isa Paula, de 10 anos, falando da reação de seus colegas de São Caetano, bairro pobre de Salvador, quando passa com seu violino.
Para Maiana, 22, a dificuldade é carregar o seu imenso violoncello durante as longas viagens de ônibus do Campo Grande (centro) até o bairro de Mirantes de Periperi, no subúrbio de Salvador.

Isa Paula: violino confundido com violão
Assim como Isa Paula e Maiana, 107 crianças e jovens apaixonados por música erudita ensaiam quase que diariamente no Teatro Castro Alves, principal teatro da Bahia.
Todos eles integram o projeto Neojibá (Núcleos Estaduais de Orquestras Juvenis e Infantis da Bahia), que visa disseminar a prática orquestral e torná-la uma atividade fundamental na formação ética e cultural de crianças e jovens baianos.

Violocello: dificuldades no ônibus
O autor da proposta é o pianista internacionalmente reconhecido Ricardo Castro. Filho da terra, atual diretor da Orquestra Sinfônica da Bahia e coordenador do Neojibá, ele propôs o projeto ao governador Jacques Wagner assim que soube de sua eleição.
- Através da prática orquestral diária, crianças e jovens de diversos segmentos da sociedade experimentam o trabalho em equipe, solidariedade e disciplina, sendo que a busca da excelência desenvolve em cada um as ferramentas essenciais para caminhar com segurança, seja qual for a profissão escolhida no futuro. Esse projeto faz com que a música seja uma arte criada por maiorias para maiorias – diz Ricardo Castro.

Marivaldo: "meu vício é a música"
A inspiração para a proposta de Castro veio da Venezuela, onde projeto semelhante, em 33 anos, transformou o país de Chávez transformou-se em uma potência da música erudita.
Hoje, existem 154 orquestras juvenis e 70 orquestras infantis distribuídas por todo o território venezuelano. Mais de 250 mil crianças, adolescentes e jovens são atendidos pelos 140 núcleos de formação musical presentes no país.
No país vizinho, é cada vez mais comum ver adolescentes andando na rua com instrumentos musicais e, diferente do que acontece com a pequena Isa Paula, pessoas das mais diversas classes sociais também começam a se familiarizar com esses instrumentos.
"Neojibá é a revolução da pedagogia musical na Bahia”
Ricardo Castro.
Por essas razões, logo no início de 2007, o governo baiano foi até a Venezuela para aprender como transformar a música erudita numa paixão nacional (ou estadual, no caso da Bahia). Hoje, conta com a assistência da Fundación del Estado para el Sistema Nacional
de las Orquestas Juveniles e Infantiles de Venezuela (Fesnojiv) em recursos humanos, expertise e material pedagógico.

Priscila já tocou até em casamento
Diferentes universos se encontram pela música
Em junho de 2007, foi aberta a primeira seleção para crianças e jovens de 8 a 18 anos, os primeiros a integrar o Neojibá e futuros monitores dos próximos membros do projeto.
Foi nessa seleção que entraram Isa Paula e Érica Smetak, que também tem 10 anos, mas toca flauta transversal. As duas têm uma realidade muito diferente. Ao contrário da colega Érica mora perto do teatro, tem família de classe média alta e, para completar, tem a música no sangue: é neta do suíço Walter Smetak, um dos maiores músicos que já viveram na Bahia.

Érica Smetak: herança do avô não atrapalha
As diferenças, entretanto, não parecem ser motivo de discórdia.
- Tem gente que mora longe, que leva duas horas para chegar aqui. Você não pode pensar só em você. A orquestra é uma só e a responsabilidade é de todo mundo - diz a pequena Érica.

keila e Priscila: amigas e colegas de violino
- Não tem discriminação, aqui todo mundo é amigo. Somos uma família - completa Isa Paula.
Enquanto toda a família Smetak é musical (contando, inclusive, com outro integrante no Neojibá), a Salgado ganha mais adeptos. Com Isa Paula e Keila, sua prima, de 13 anos, no projeto, toda comemoração familiar é celebrada ao som dos violinos.

Melhor aluna da sala enfrenta pressão para largar a música
Keila estuda num colégio público estadual. É a melhor aluna da sala. Ainda assim, teve que enfrentar um de seus professores, que a pressionava a abandonar a música, alegando que ela não poderia conciliar os dois aprendizados. Priscila Santos, 12, outra integrante do Neojibá que toca violino, discorda:
- A música ajuda em tudo. Até nos estudos.
Embora ainda façam parte do núcleo infantil do Neojibá, Priscila, Keila, Isa Paula e Érica têm plena consciência de onde estão e do que representam:
- A gente está aqui e teve essa chance. Temos que nos dedicar – dizem
Orquestra Juvenil Dois de Julho

Ensaio da Orquestra Juvenil com Ricardo Castro
Enquanto o núcleo infantil é estruturado, a divisão juvenil do Neojibá já formou uma orquestra, a Orquestra Juvenil 2 de Julho, a apresentou-se em diversas ocasiões, inclusive fora de Salvador e com músicos internacionais. (veja vídeo)
Pequena amostra do que poderá ser o Neojibá, a Orquestra 2 de Julho apresentou-se pela primeira vez no dia 20 de outubro de 2007, com menos de um mês de ensaio. Num Teatro Castro Alves lotado e regida pelo maestro venezuelano Manuel Lopéz Gómez, tocou um programa com composições de Tchaikovsky, Wagner, Brahms, Beethoven, entre outros.
"Eu tenho 19 anos e não sei nada na vida, só música. Não sei nem vender bala no ônibus" - Alan Resedá
Embora seja composta por jovens que já direcionam sua vida profissional para a música, a Orquestra 2 de Julho mantém o mesmo ambiente afetuoso e a mesma busca pela excelência observada no núcleo mirim.

Alan e Marivaldo: violinos contra dificuldades
- Só quem participa que sabe. É uma atmosfera única, diz Marivaldo, violinista de 17 anos, que mora em Mirantes de Periperi.
- Desde que entrei no Neojibá, ocorreram grandes mudanças na minha vida tanto na música quanto fora. Tive muito desenvolvimento com o violino, aprendi técnicas aprimoradas e conquistei grandes amizades, independente de classe social e raça. Amizades pra vida toda. O Neojibá está me deixando cada vez mais próximo do meu sonho que é ser músico profissional – diz Alan, colega de bairro e violino.
Para esses jovens, a música representa uma oportunidade clara de mobilidade social. “Tenho uma expectativa profissional muito boa, por isso estudo violoncello praticamente o dia todo”, revela Maiana.

Orquestra juvenil: promessa de futuro profissional
Além da melhora de perspectiva para a vida profissional, música serve ainda para separá-los do destino comum a jovens de seu bairro:
- Tenho amigos que usam drogas, que morreram. Através da música, me afastei disso – diz Alan.
O Neojibá acaba de fazer a segunda seleção e se prepara para um novo salto: expandir a atuação e criar núcleos infantis e juvenis em vários bairros da capital baiana. Tudo depende, como sempre, da prioridade que o Governo da Bahia vai atribuir ao projeto. Estaremos observando.
Fotos: Iuri Rubim/ Blog das Ruas (exceto 9 - Xando Pereira)
Ué, pensei que baiano só aprendesse a tocar berimbau.
Brincadeira à parte, quando soube que o Neojibá era inspirado numa experiência da Venezuela torci o nariz porque achei que fosse mais uma jogada populista de Cháves. Não é. O mérito dele é justamente ter mantido e apoiado o projeto que já tem mais de três décadas. E então fiquei de queixo caído ao ver as apresentações dos meninos no Teatro Castro Alves. De arrepiar.
Valeu Iuri. Você deu um banho na chamada mídia local, que ainda não se deu conta da dimensão do projeto. Desde os famosos seminários de Música, não aconteceu nada de mais impactante para o ensino de música na Bahia.
Comentário por Marcus Gusmão — 13 de maio de 2008 @ 12:00