Terra Magazine

19 de maio de 2008

Ex-pedreiro defende ação política pela leitura

iurirubim às 16:26

Ele já é uma figura conhecida dos brasileiros. Freqüentador assíduo da mídia, o ex-pedreiro Evando dos Santos, alfabetizado apenas aos 18 anos, tornou-se famoso por montar uma das maiores bibliotecas comunitárias do país, a Tobias Barreto (bairro Vila da Penha, Rio de Janeiro). 

Recentemente, tive a oportunidade de conversar com Evando, também conhecido como o homem-livro. Santos defende um esforço urgente, do governo e da sociedade, para incentivar a leitura no país.

- A idéia de divulgar os livros tem que estar em todos os lugares, em tempo e fora de tempo, para recuperarmos os nossos 200 anos perdidos. Sem livro, não adianta ter diploma, dinheiro… se tiver dinheiro, perde; se tiver papel, as traças comem – diz, brincalhão.

Segundo Evando, os livros levam as sociedades a organizarem-se e, consequentemente, à prosperidade. “Os americanos levam os livros à sério: taí, são organizados. Quem tem mais poder e as maiores armas do planeta?”, argumenta.

A grande motivação de Evando é “fazer com que o livro circule e que transforme a nossa sociedade. Sem o livro não há transformação”, afirma, categórico.

O homem-livro é grande conhecedor de estratégias para incentivo à leitura. Diariamente, sai de casa com o livro que está lendo e com outro, para dar a alguém. O presente é sempre acompanhado de uma poesia recitada por Evando.

Além dessa prática pessoal e da própria Biblioteca Comunitária Tobias Barreto, Evando já ajudou a criar 37 bibliotecas e organiza arrastões literários 2 vezes por ano na avenida atlântica, Copacabana.
Esperto, já descobriu que a repercussão é muito maior quando se está próximo à burguesia. “Você tem que estar sintonizado com os lugares que vão te ajudar a disseminar o livro”, conta.

Sem perder a toada, Evando dá exemplos de ações práticas de incentivo à leitura: “podemos pintar ruas e meios-fios com citações literárias, como já fazemos há dois anos na rua da biblioteca [Tobias Barreto]”. Sugere a criação de placas culturais para contar a história das ruas, ação que também já está desenvolvendo. “A cada minuto, surge uma idéia, e nós colocamos ela em prática”, explica.

Tem também sugestões específicas para comunidade de baixa renda:

- A chave é você criar atrativos. Por exemplo: comida, livro e leitura: uma boa ligação. Porque a pessoa que se acha carente, ela precisa de um atrativo e o alimento é o melhor de todos – diz.

A busca pela ampliação do incentivo à leitura leva o homem-livro a afirma que “não podemos dissociar a literatura da política”. Santos tem clareza que uma ação política mais abrangente pode ser o lastro para consolidar e dar escala aos muitos esforços em prol da leitura.

- A rejeição da política partidária não pode nos confundir e nos fazer esquecer que o ato de ler é político. Ler é lutar – afirma.

Antes de terminar a conversa, olha para mim e diz: “não pode ir embora sem um poema, né?”. Então recita “Caridade”, de seu conterrâneo e escritor favorito Tobias Barreto:

Fazer o bem sobre a Terra
é a beleza suprema
tem mais luz do que um poema
vale mais do que um troféu

Quem é o homem-livro?

Evando dos Santos é um pedreiro sergipano, da cidade Aquidabã, a 100 km da capital Aracaju. Aprendeu a ler apenas aos 18 anos, já no Rio de Janeiro, auxiliado por um pastor batista. Sua primeira leitura, claro, foi a bíblia.

O seu fascínio e encantamento com as palavras foi tamanho que começou a guardar livros dentro de casa, transformando sua morada na Biblioteca Comunitária Tobias Barreto, que mais tarde ganharia sede própria com projeto de Oscar Niemeyer.

O homem-livro recebeu a medalha dos 110 da Academia Brasileira de Letras, por indicação de Nelida Piñon, o que lhe rendeu algumas tardes de agradáveis conversas com os literatos brasileiros. 

Questionado sobre os novos tempos e o mundo digital, Evando não vê problemas entre a internet e a palavra impressa:

- A internet simplesmente fisga aqueles que não são leitores. Porque o leitor não deixa de ler para ir para a internet. Ele lê e vai para a internet também. o livro é a ferramenta-mestra de todas as ferramentas. Sem o livro, não haveria computador, televisão, nada - afirma.

Hoje, lê entre 8 a 10 livros por mês, “para tirar o atraso”. Gosta de poesia, filosofia e romancee prefere a literatura realista brasileira. Atualmente, está “Bruzundangas”, de Lima Barreto, “A Carne”, Júlio Ribeiro, e livros de Ruth Rocha e Maria Clara Machado.

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