PE: Mestre Popular leva arte do pífano à feira

Músico, artesão, comerciante e mestre popular. João do Pife é uma daquelas pessoas que a gente custa a acreditar que exista mesmo, tamanha a simplicidade e o gosto com que fala de si e da sua profissão. João do Pife é daquelas pessoas que transforma rapidamente qualquer entrevista em uma conversa entre amigos, com direito a muitas gargalhadas de lado a lado.
Patrimônio da música popular, João do Pife tem carreira internacional (já se apresentou em mais de 20 países) e ainda hoje fabrica os pífanos e zabumbas que vende na famosa Feira de Caruaru, cidade do agreste pernambucano.
- O mais importante da feira de caruaru é quando recebo visitas de fora. É muito bom. As visitas vêem eu tocando na feira e me procuram, compram os instrumentos e meu CD. Quando recebo as visitas na feira, isso tem rendimento pra história de João do Pife, que sou eu – diz, sem conter o riso.
Pife e pífano são a mesma coisa. Instrumento parecido com uma flauta, feito de bambu, taquara, metal ou PVC, tem sete orifícios (um para soprar e seis para dedilhar). É um dos instrumentos mais tradicionais da cultura nordestina e existem diferentes argumentos que atribuem sua origem tanto à cultura indígena quanto à européia. Veja aqui e aqui duas versões diferentes para a história do pífano.
"Eu faço pife, toco pife, vendo pife
Como o dinheiro do pife
Depois de velho fico pifado"
João do Pife (“Estou Pifando”)
Batizado João Alfredo Marques dos Santos, João do Pife deu continuidade à tradição familiar iniciada pelo pai, o Mestre Alfredo Marques dos Santos.

João tocando o instrumento que virou seu sobrenome
Foi com Mestre Alfredo que João, aos 14 anos, aprendeu a “pifar” e fabricar seus próprios instrumentos. Após a morte do pai, João e seu irmão Severino orgulhosamente levaram adiante a Banda Dois Irmãos, criada pelo pai ainda em 1928. Curiosamente, a banda foi criada no dia 20 de junho, mesmo dia em que, 15 anos mais tarde, nasceria João.
A banda toca na feira, nas festas religiosas (novenas) e em shows pelo Brasil e pelo mundo.
“João do Pife & Banda Dois Irmãos” é como se chamam. Hoje, a banda é composta por João e seus quatro filhos: Paulo João dos Santos (caixa), Alexandre João dos Santos (pratos), Leandro João dos Santos (tarol) e Cícero João dos Santos (zabumba).
A saúde do irmão Severino, tradicionalmente no segundo pife, não permite mais que ele acompanhe a banda. O segundo pife foi então passado ao músico e companheiro de longa data Marcos Antônio.
João se lembra de uma turnê recente, que fez este ano, acompanhado do também pernambucano mestre de mamulengo Zé Lopes. Tocou em Brasília, Minas Gerais, Bahia, Sergipe e Alagoas. Na última apresentação, em Caruaru, voltou a ter a companhia do “compadre Severino”.
- Severino é vivo, mas não está agüentando mais viajar. Quando chegamos, tocou com a gente em Caruaru. Foi a maior alegria que eu passei! A gente encerrava em Caruaru e, quando chegamos lá, ele veio tocar com a banda – lembra, emocionado.

Lanche descontraído com o forrozeiro Azulão
Embora hoje seja bastante reconhecido e motive muitas pessoas a visitarem a Feira de Caruaru, João do Pife já passou por muitas dificuldades na vida.
- Tive um aperto de 10 anos em Caruaru. Não tinha uma casa, pagava aluguel. Quando recebia visita na feira, eu vendia instrumentos e as coisas melhoravam. Na semana que não recebia, ficava difícil. Só veio melhorar quando comecei a viajar pra fora, lá pelos anos de 1980 - diz.
João do Pife me conta que, certe feita, viajou a Salvador para um trabalho de 30 dias. Após esse período, “o empresário desapareceu” e ele ficou literalmente no meio da rua, sem receber e sem dinheiro nenhum. Só conseguiu voltar a Caruaru graças ao contato que tinha com alguns colégios, em que acertou trabalhar e assim levantar algum dinheiro.
- Aí foi o maior aperreio que passei na minha vida. Foi um grande vexame. Nessa época, eu não tinha experiência e confiava e todo mundo. A experiência nesse trabalho é a coisa mais importante do mundo. Naquilo que a gente é preciso ter uma boa experiência senão podem se aproveitar de você – enfatiza.
Como o próprio João afirma, a virada em sua vida aconteceu quando começou a explorar as terras distantes e ser reconhecido internacionalmente. Lembra com clareza de sua primeira viagem, para Portugal.
- O momento mais alegre na estrada da música foi a primeira viagem que fiz. Chegou aqui chegou um empresário e me chamou para tocar em Portugal. Eu nunca tinha saído de Caruaru nem viajado para lugar nenhum. Era um sonho que eu tinha ver a banda não só tocar em Caruaru, não ficar só em Caruaru como outras bandas. Quando saiu nos jornais contando da viagem, foi a maior alegria! – relembra, entusiasmado.
Daí em diante, tomou gosto por viajar e “tem sempre uma viagem aqui, outra acolá, todo ano tem uma viagemzinha… já viajei para mais de vinte países!”. E completa: “hoje, já matei a vontade de viajar. Viajar não é mais novidade para João do Pife”.
- E qual dessas viagens foi a mais especial? - pergunto.
- Dos lugares todos que eu tenho viajado, a viagem melhor que eu fiz foi para os Estados Unidos. Fiquei 10 semanas dando aula numa universidade lá. Aí quando voltei pude comprar minha casa. Então essa foi a melhor viagem, né? – gargalha.
João conta que o pessoal de lá “aprendeu mesmo” e que deixou até uma bandinha formada, a “Banda de Pífanos Americana”.
Primeiro CD: injustiça corrigida
O homem que contribuiu para que as bandinhas de pife se tornassem um dos ícones da cultura nordestina só conseguiu gravar seu primeiro CD no final de 2005, sob o selo da Página 21.

João do Pife no Estúdio, gravando seu primeiro CD
- O álbum corrige um daqueles erros históricos aos quais, infelizmente, acabamos nos acostumando: só depois de mais de 40 anos de carreira, João do Pife consegue gravar seu primeiro disco com o grupo que seu pai criou em 1928 e que ele leva adiante, agora com seus filhos – disse, à época, Marcos Toledo, do Jornal do Commercio.
No CD, que vende na Feira de Caruaru e em seus shows, João do Pife agregou às tradicionais noventas, ritmos como forró, choro e baião. Um momento especial do disco é a “Valsa de meu Pai”, uma homenagem ao Mestre Alfredo tocada por ele e o irmão Severino. João inova também ao convidar o Maggo MC para colocar misturar o moderno e a tradição em “Estou Pifando”.
Confira aqui uma amostra do CD com “Peleja de Cantador”. Veja também um pequeno vídeo sobre o primeiro álbum de João do Pife.
A casa comprada e o CD gravado são grandes conquistas, mas em nenhum momento desmotivam João do Pife.
- Continuo o mesmo de sempre, na a minha luta de pífano e zabumba. Vendo e toco na feira e a banda de pífanos faz um trabalho para agradar ao povo. As coisas mudam um pouquinho, sempre pra cima, para melhor. De 10 anos pra cá, a publicidade foi aumentando mais um pouquinho e aí tudo melhora, né? – comenta, sorridente.
Pergunto ao mestre João qual vai ser a comemoração do dia 20 de junho deste ano, data em que ele completa 65 anos e sua banda, 80. Diz que a programação vai ser lá mesmo, em Caruaru.
- O mês que nasci é São João, é mês de festa por todo nordeste, ahahahaha. Tem festa pra todo lado no aniversario, ahahaha – diz, o sempre sorridente e animado João do Pife.
Fotos e vídeo: Acervo da Página 21.
parabéns
meu esposo tambem toca pifano é uma arte linda
aqui em nossa casa ele ja consegui produzir seus
propios instrumento
parabens
Comentário por Edilene — 29 de maio de 2008 @ 14:46
Parabéns! Isto é muito importante, a arte popular tem que ser estimulada em todos os lugares e, em particular, entre os jovens.
Comentário por Gerado Prado — 3 de junho de 2008 @ 6:24
Parabéns, João do Pife! Adorei a sua personalidade. Que maravilha! Que deus lhe dê muitos anos de vida para que, assim, possamos contar com a sua contagiante alegria!
Você é nota 10!
Sou um ano mais novo: vou completar 64 anos. Adoro pife, ou pifre, ou pífaro, ou, ainda, pífano!
Gostaria de ouvir o querido João do Pife tocando “Duda no Frevo”!
Comentário por Papai Sabetudo — 24 de maio de 2009 @ 16:28