Terra Magazine

30 de maio de 2008

MG: Artesã ensina comunidade a viver da cerâmica

iurirubim às 16:30

Conhecer a Dona Izabel é algo fenomenal, mas a sua história é digna de ser perpetuada e virar lenda assim como as histórias relatadas nos 24 cantos da Odisséia.

O barro foi a sua única forma de sobrevivência após o falecimento de seu marido, com dois filhos para sustentar (Amadeu e Maria Madalena) e mais dois adotivos.


Esta boneca encontra-se do Amadeu Mendes, filho de
Dona Izabel. Um presente para o filho

A sugestão dos vizinhos e amigos a Dona Izabel era para que ela desse os seus filhos para outra família de melhor condição cuidar deles. “Não, Deus me deu, Deus me dará um jeito pra eu cuidar de meus filhos, vou fazer o que eu sei fazer melhor, vou fazer minhas panelas de barro”, dizia Dona Izabel.

Dona Izabel conta que a época de chuva era quando ela se dedicava em fazer potes para água, muito comum no interior.

- Eu dava graças a Deus quando chegava a época das águas, por que eu vendia muitos potes. Eu podia fazer muitos que eu tinha certeza que venderia. As pessoas iam pegar água no rio e escorregava, por que estava molhado, e o pote caia e quebrava. Aí eles vinham me procurar, eu não desejava mal a ninguém não para o potes quebrar, mas as pessoas deixavam cair e era só eu que fazia – lembra, rindo.


Dona Izabel Mendes Cunha

Todo sábado, ela acordava pela manhã e caminhava 11 km de Santana do Araçuaí até a BR 116 em busca de alguma carona ou um pau-de-arara. Assim, ela venderia as suas peças em Padre Paraíso , Ponto dos Volantes ou Itaobim.

O dinheiro da venda de suas peças (naquela época eram somente feitas panelas, potes, filtros e outros utensílios domésticos) era revertido em comida para os filhos, que muitas vezes ficavam em casa sem ter o que comer a espera de sua guerreira mãe.

Conta Dona Izabel que as suas famosas bonecas começaram a aparecer em sua mente quando ainda era criança: a sua mãe também fazia utensílios de barro e ela ficava a sua volta pegando um pedaço e outro de barro e com eles modelavam as suas bonecas.

Esses eram os seus únicos brinquedos. Ela, que sempre sonhava em ter uma boneca de verdade, tinha somente bonecas de barro.

Certa vez, resolveu fazer uma boneca para vender junto as suas peças de utensílios domésticos, mas por ser uma boneca e ser mais “trabalhosa” que uma panela, o valor não poderia ser igual, houve resistência das pessoas em comprar a boneca.

A descoberta de Dona Izabel foi nos anos 70, em um dia em que ela foi convidada a participar de uma festa em Araçuaí. Lá, conheceu pessoas que admiraram seu trabalho.


Dona Izabel ganhou uma estátua na praça da cidade

Um senhor comprou todas as suas peças e quis saber onde morava aquela talentosa senhora. Passaram-se alguns dias e um carro chegou a Santana do Araçuaí. O motorista estava à procura de Dona Izabel.

Naqueles dias, Amadeu, seu filho, ainda menino, gostava de “pegar” passarinhos e logo os moradores disseram: “Izabel, corre lá pro mercado por que tem um homem lá procurando você e parece que é da policia. Deve ser os passarinhos que Amadeu andou pegando”.

Mais que depressa, Dona Izabel correu para ver do que se tratava. Chegando lá, ela encontra com o senhor que havia comprado todas as suas peças em Araçuaí com mais outro homem, esse ultimo era da extinta CODEVALE.

A CODEVALE passou a revender as peças de Dona Izabel em sua loja em BH, e pegava as suas obras em sua casa em Santana do Araçuaí. Desde então a Dona Izabel nunca mais precisou andar para vender as suas obras.

Daí pro sucesso foi um pulo. Com isso, os moradores de Santana viram que Dona Izabel realmente tinha razão: o barro tem valor. A Mahatma Izabel Mendes Cunha, que sem nenhum interesse futuro, ensinou aos moradores de Santana a trabalhar com a cerâmica e viver dela.

Mas o reconhecimento veio com o tempo. Dona Izabel ensinou, com amor e prazer, a sua arte a todos aqueles que vinham até ela a fim de aprender e nunca cobrou nada em troca disso. Hoje, em Santana do Araçuaí, 40 famílias vivem da cerâmica.


Placa de reconhecimento

Em 2004, Dona Izabel ganhou o primeiro lugar do prêmio UNESCO de artesanato, concorrendo em toda a América Latina e o Caribe. Em sua homenagem, os moradores de Santana do Araçuaí fizeram uma estátua no centro da praça municipal.

A mãe de todas as bonecas de cerâmica do vale não se importa que outras pessoas falem que foram elas as criadoras das bonecas. O importante, segundo Dona Izabel, é que a arte seja feita e que eles possam trabalhar a sustentar as suas famílias.


Estátua com que D. Izabel venceu prêmio da UNESCO

Hoje, Donas Izabel têm bonecas de verdade e se diverte com as suas netas brincando de casinha e outras coisas que ela não teve oportunidade quando criança.

Ediel Rangel, autor do texto e das fotos acima, visitou, junto com Ciro Rafael, os vales do Mucuri e Jequitinhonha em Minas Gerais. O resultado da pesquisa foi o site Arte no Vale, que conta a história de Dona Izabel e diversos artistas da região. Ediel Rangel também produziu outro site, sobre sua cidade natal, Itaipé.

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2 Comentários »

  1. Quando eu vejo uma história como essa, me emociono e me envergonho de muitas vezes ter medo e de me sentir insegura quanto ao futuro.

    Comentário por maria aparecida — 30 de maio de 2008 @ 20:48

  2. Dona Isabel Mendes é uma grande alma, e sua contribuição para com essa vida ja foi validada e já está imortalizada.
    O povo de Santana do Araçuaí fez na praça principal uma Estátua em homenagem a ela e isso é muito importante, pois o reconhecimento tem de vir em vida e não em morte.
    Salve Dona Izabel Mendes e toda a arte mágia e energia do Vale do Jequitinhonha.

    Comentário por Ediel Rangel — 30 de maio de 2008 @ 21:37

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