Terra Magazine

29 de junho de 2008

Jovens escritores representam país na Argentina

iurirubim às 10:45

"Desde que se fue
triste vivo yo,
caminito amigo,
yo tambien me voy"

("Caminito", tango de
Gabino Peñaloza
e Juan Filiberto, 1926)

Eu, Sandro Ornellas e Katherine Funke descobrimos o mercado de livros usados da calle de Santa Fé (Buenos Aires, entre as estações Plaza Italia e Palermo) por acaso, em nosso apressado passeio de apenas três horas na capital argentina, um interlúdio de nossa viagem a San Miguel de Tucumán.

Dispostos a aproveitar o tempo livre entre dois vôos e guiados por nossa intuição detectora de especiarias, farejamos obras de Cortázar e Borges, depois de descer de um táxi, na Plaza Julio Cortázar, e de percorrer toda a calle Jorge Luis Borges.

Mas como fomos parar em Tucumán? Pela literatura, como não podia deixar de ser.

Participamos da noite de encerramento do evento literário Mayo de las Letras, na sede do Ente Cultural de Tucumán, órgão cultural do governo da província, que nos convocou, juntamente com a Secretaria de Cultura do Estado da Bahia, para apresentar um recital de literatura baiana.


O trio do CORTE em apresentação

Nosso grupo de escritores C.O.R.T.E. (sigla de Cazé, Ornellas, Rios e Trindade) - desta vez sem dois dos cinco componentes (Gustavo Rios e Lima Trindade) - apresentou-se na noite de 30 de maio, no Teatro Orestes Caviglia, que fica no mesmo prédio do Ente Cultural. (…)

Todos os textos foram lidos em português. Pedimos à organização do evento que distribuísse cópias do programa do recital (também em português) a todo o público, como uma forma de facilitar a compreensão do que seria apresentado naquela noite.

A barreira linguística, no entanto, não impediu que a comunicação se efetuasse, principalmente pelo papel de mestre-de-cerimônias desempenhado com habilidade por Katherine, que fala espanhol fluentemente.

Durante o recital, ela conversou com a platéia, disse gracejos, anunciou o nome dos autores e, a meu pedido, fez uma breve explicação sobre o que é a literatura de cordel.

Conforme tínhamos combinado, ela também convidou um voluntário da platéia a subir ao palco e dizer um poema de sua autoria (ofereceu-se um jovem de 18 anos, que recitou de memória).

Depois da apresentação, que durou cerca de 30 minutos, as pessoas que nos abordaram disseram que, apesar de não compreenderem o português, tinham gostado do espetáculo, tinham conseguido entender algumas palavras e tinham, pelo menos, captado a atmosfera de cada texto, construída pela musicalidade da língua, pela entonação dos poetas em cena e pela música de fundo executada por Katherine.


Mapa turístico de San Miguel de Tucumán

San Miguel de Tucumán foi construída de acordo com a "traza", o plano uniforme que a colonização espanhola seguiu na América para a edificação de suas cidades: "A construção da cidade começaria sempre pela construção da chamada praça maior. (…) A praça servia de base para o traçado das ruas: as quatro principais sairiam do centro de cada face da praça.

De cada ângulo sairiam mais duas, havendo o cuidado de que os quatro ângulos olhassem para os quatro ventos." (Sérgio Buarque de Holanda, "Raízes do Brasil", 13ª edição, p. 63).

Ou: "uma grande praça no centro, uma grade de ruas perfeitamente retas que se estendiam dali em todas as direções, formando quarteirões quadrados ou retangulares (…) A cidade da América espanhola podia assim crescer indefinidamente através da expansão da traza, mantendo ao mesmo tempo a estabilidade quase total do centro" (Suart B. Schwartz e James Lockhart, "A América Latina na época colonial", p. 93)

A brevidade de nossa passagem pela cidade (apenas dois dias, com uma agenda apertada) não permitiu que explorássemos nada além de uma pequena fração da tal "estabilidade quase total do centro", já que o hotel que nos hospedou distava apenas três ou quatro quadras da sede do Ente Cultural.

Da mesma forma, o contato que tivemos com a cultura e a literatura local foi rápido e pouco profundo. Conhecemos alguns escritores veteranos e iniciantes e trocamos livros com eles. Esse primeiro contato, porém, provocou em nós um interesse pela produção literária local e uma identificação mútua que certamente dará continuidade, via internet, ao intercâmbio já iniciado.

Nosso anfitrião durante a estadia em Tucumán foi o professor Ricardo José Calvo, atual diretor de letras do Ente Cultural de Tucumán. Ele tem pouco mais de 40 anos de idade, viveu metade desse tempo em Buenos Aires e metade em Tucumán. Especializou-se em linguística, particularmente na análise da estrutura do discurso político. Escreve ficção e dramaturgia.

Calvo convocou alguns escritores tucumanos para um encontro conosco, na manhã do dia 30, na biblioteca do Ente Cultural, no primeiro andar. Foi assim que conhecemos Inés Aráoz, Liliana Maldonado de Bliman, José Miranda Villagra e o jovem Joaquín Acevedo.

Liliana Maldonado de Bliman nos presenteou com "Dishos y pishos - Cuentos e refranes" (editado pela tucumana Associación Argentina de Lectura, 2006), escrito em parceria com Jacobo Cuño. De ascendência judia, seu livro é uma compilação de costumes, lendas, receitas culinárias e expressões típicas da comunidade sefardita (de descententes de judeus) tucumana.

Apesar de não ter dito palavra durante a reunião e de ter se retirado cedo, o compositor, cantor, escritor e folclorista José Miranda Villagra nos marcou pela obra que escreveu e nos entregou.

O alentado volume "El folclore, en el lenguaje, la esencia y el amor" (publicado pela tucumana Ediciones El Graduado, 2005) parece ser um trabalho de cunho didático, dedicado a situar as tradições populares argentinas e tucumanas no cenário contemporâneo: "El peligro latente que se cierne sobre esta disciplina y su objeto o motivo de estudio, identificado con los fenómenos folclóricos, como derivación de un acontecimiento mundial, reconocido como el fenómeno de la globalización" ("Prefacio", p. I). Preocupação que permeou toda a conversação com os escritores tucumanos e com a qual comungamos, bem como muitos artistas e pesquisadores brasileiros e baianos.

Inés Aráoz, 62 anos, é uma intelectual mais ligada à tradição literária ocidental canônica, com forte presença da literatura russa em seu trabalho (aparentemente, ela descende de russos).

Trouxemos dois livros dela: "Balada para Román Schechaj" (2006) e "La comunidad - Cuadernos de navegación" (2006), publicados respectivamente pelas editoras Ediciones del Copista (sediada na cidade de Córdoba) e Nuevohacer (Buenos Aires). Inés participou do júri que elegeu os textos premiados no concurso literário integrante do evento Mayo de las Letras.

O jovem Joaquín Acevedo é estudante de literatura e conhece a literatura brasileira mais do que todos os outros escritores veteranos com quem conversamos, demonstrando grande interesse por nosso trabalho.

Acevedo disse já ter lido traduções de Guimarães Rosa, citou Graciliano Ramos e, em poucos instantes, pôde reconhecer a influência da poesia concreta no livro de Sandro Ornellas.

Acevedo teve uma participação importante nessa reunião literária matutina: com seus conhecimentos de português, ajudou-me a traduzir um poema de meu livro "Microafetos" para o grupo, que não compreende nossa língua.

A experiência de ler esse poema em voz alta, bem como um trecho de meu folheto de cordel "A filha do Imperador que foi morta em Petrolina", para um grupo de escritores de outro país, falantes de outra língua, foi um momento de enorme satisfação para mim. Nesse momento, percebi a importância de manter uma troca de informações com escritores de fora do Brasil e o potencial de uma ponte cultural como essa, e decidi preparar, nos próximos meses, uma edição traduzida para o espanhol de meu folheto de cordel.

Essa percepção se aprofundou após o recital do dia 30, quando travamos contato com alguns escritores jovens ganhadores de prêmios no concurso literário integrante do Mayo de las Letras: Jorge Nicolás Tolosa (primeiro colocado no Género poesía), Federico Miguel Soler (terceira menção honrosa no gênero conto), María Eugenia Méndez (também atriz, primeira menção honrosa em poesia) e Marcos Bauzá (também artista plástico, segunda menção honrosa em poesia).

Com os dois primeiros, tivemos maior aproximação, convidados que fomos, por eles, a participar da comemoração que fariam após a entrega dos prêmios. Nessa comemoração, fizemos um mini-recital informal, e pudemos escutar alguns versos de Nicolás Tolosa (meditativos, com um cunho espiritual e beatnik) e de Federico Soler (surrealistas, verborrágicos). (…)

Foi uma grande responsabilidade, uma honra e um desafio representar a Bahia (e o Brasil, já que todos os outros participantes do evento eram argentinos) num evento internacional. (…) A viagem a Tucumán ficará para sempre em minha memória também porque foi nela que, pela primeira vez, preenchi o campo “profissão” da ficha de check-in de um hotel com a palavra “escritor”.

Wladimir Cazé é jornalista e escritor. Publicou o folheto de cordel "A filha do Imperador que foi morta em Petrolina" (2004) e o livro de poemas "Microafetos" (2005), ambos esgotados. Escreve no blog www.silvahorrida.blogspot.com.

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27 de junho de 2008

Sarau desperta poesia lírica na periferia de SP

iurirubim às 15:39

Desde 2004, o poeta Robinson Padial, o Binho, realiza um sarau todas as segundas-feiras, “faça chuva ou faça chuva” em seu bar (Bar do Binho), no Campo Limpo, zona sul de São Paulo.

No sarau, tem espaço para músicos, cantadores, teatro, cinema (a cada quinze dias sempre passa um curta) exposições e principalmente poesias, próprias ou não.


O sarau movimenta as segundas-feiras do Campo Limpo

O espaço é freqüentado por pessoas de todas as idades, e nessa atmosfera de literatura; musica e artes em geral.

No bar tem uma mini biblioteca, e livros são colocados nas mesas enquanto se come um pastel e se degusta uma breja. A idéia é incentivar a leitura fazendo com que as pessoas “se esbarrem” nos livros.


O idealizador do Sarau em frente na porta de seu bar

Pedi à Raissa, que tem apenas 17 anos e é freqüentadora assídua do Sarau, que fizesse um depoimento sobre o lugar. E é justamente esse depoimento que reproduzo abaixo

Sarau do Binho

Numa esquina, rua de paralelepípedos de um bairro barulhento e sujo que é o Campo Limpo, é no mini palco do bar do Binho que acontece a mágica dos quase esquecidos .O Sarau do Binho é um espaço democrático, onde quem chegar pode se expressar e mais que tudo, pensar no coletivo.

Não é incomum que a partir de um poema surjam discussões sobre quem somos, onde estamos e os porquês de nossa condição social porque estamos numa segunda-feira, depois de um cansativo dia de trabalho escutando atentos as palavras , sejam elas políticas, de amor ou até mesmo satíricas:

"Quando nasci tinha seis
No lugar em que nasci
Sonhava que era tudo nosso,
Tinha os campinhos os terrenos baldios.
Era o meu território .
Já foi interior.
Hoje periferia com as casas cruas.
As vacas com tetas gruas
Não existem mais.
A cerca virou muro.Óbvio.
A cidade cresce,
O muro cresce.Vieram os prédios, as delegacias, os puteiros
E as Casas Bahia.
Também cresci,
Fiquei grande.
Já não caibo dentro de mim
E de tão solitário
Sou meu próprio vizinho.
E de tão solitário
Sou meu próprio vizinho."
Binho

O sarau do Binho é um movimento de resistência aos despreparados faladores, que retratam e enxergam a periferia como um ambiente não propício à arte. O sarau cria em seus freqüentadores sentimento de pertencimento, a seu bairro e sua cidade, com sua poesia lírica e seus cantos de indignação.

No mini-palco vale tudo: rap, contos, samba, piadas, sonetos e também informações sobre outros movimentos culturais, que aliás, são fortíssimos na zona sul de São Paulo.

As paredes do bar já acolheram exposições fotográficas e de pinturas, transformando ainda mais o clima do bar num pólo artístico.

Em 97, Binho, o idealizador do sarau, saiu às ruas retirando placas de políticos, devolvendo-as com poemas e frases. Em 2007, o movimento "Postesia" foi ressuscitado, mas desta vez com os integrantes do sarau participando.

No dia 5 de janeiro de 2007, alguns integrantes do sarau, saíram a pé rumo a Curitiba, realizando saraus pelas cidades que passaram, o nome do projeto é "Expedición Donde Miras" Caminhada Cultural pela América Latina.

No dia 5 de julho de 2008, realizaremos à pé o trecho São Paulo-Cananéia, mais informações no blog da Expedición.

Há quatro anos o sarau do Binho serve de incentivo a novos escritores, dando oportunidades a estrelas desconhecidas.

Para a "família" do sarau, segunda-feira está longe de ser um dia chato.

Raíssa Padial Corso (texto e fotos), 17 anos, poeta e integrante do grupo de fotografia "Um Olhar",em 2009 pretende cursar faculdade de Filosofia

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26 de junho de 2008

SP:Major da PM responde a críticas por repressão

iurirubim às 16:26

Já faz quase 15 dias desde que ocorreu em São Paulo a World Naked Bike Ride, manifestação que aconteceu em várias cidades do mundo a favor do uso de bicicletas. O movimento foi traduzido aqui no Brasil como “Pedalada Pelada Mundial”.

O que era para ser um bem-humorado e pacífico protesto acabou em confusão quando a polícia resolveu intervir e prendeu um dos manifestantes (André Pasqualini, do site CicloBR) que estava, assim como vários outros ciclistas, tanto homens quanto mulheres, despido.

Vale ressaltar que, apesar ficar nu em público seja contra a lei em vários dos países onde as manifestações ocorreram, não se tem notícia de nenhum acontecimento parecido. Veja as repercussões do ocorrido.

Recebi de um ciclista que não faz parte do metier dos manifestantes – informado pelo Blog das Ruas sobre o evento – um relato muito sincero da participação dele e de um vizinho com seu filho de 9 anos no protesto, no qual questiona veementemente a intervenção da polícia. Neste post, vou me referir ao ciclista somente como “W.”.

- A pergunta é: fizemos alguma coisa de errado? Sim, porque se soubéssemos de antemão como seria a atuação da PM em tal evento, jamais teríamos pensado em levar uma criança para lá; muito provavelmente nós mesmos teríamos desistido de participar – diz W.

Ainda que o ciclista, o vizinho o filho deste não fossem aderir à idéia de tirar a roupa (“E nós mesmos só iríamos ter o braços e pernas desnudos naquela tarde”), eles não entenderam a nudez alheia como algum tipo de agressão. “A nudez de alguns indivíduos, se houvesse, sinceramente não iria nos incomodar”, afirma.

W. tampouco questiona a lei brasileira, mas discorda fortemente da maneira que a PM encontrou de fazê-la ser cumprida. “O problema foi a forma como a PM agiu (…) com uma truculência descabida e temerária”.

O ciclista relata que ele, seu vizinho e a criança estavam próximos ao outro ciclista que foi preso. “Em dado momento, a PM decidiu prender um homem que estava bem próximo de nós três, que no meio do passeio decidiu ficar vestido apenas com o seu capacete (houve outros que fizeram o mesmo)”.

W. descreve sua surpresa com a violência da polícia:

- O mais impressionante para mim foi a naturalidade com que o líder do policiamento, major da PM Benjamin Francisco Neto, justamente quem deveria estar mais bem preparado para lidar com este tipo de situação, borrifava o ar e o rosto das pessoas com o tal spray de pimenta, como se tivesse nas mãos um desses desodorizadores de ambiente. Alguns de seus comandados, mais exaltadosm davam chutes, empurrões e começaram a usar os cassetetes.

(Fotos e vídeose matérias de outros meios de comunicação - além de blogs feitos pelos próprios manifestantes - comprovam o uso dos cassetetes e do spray de pimenta)

- É irônico, para não dizer revoltante, que, para livrar nossa visão daquele “atentado ao pudor” provocado por um homem nu a alguns metros de nós, nossos olhos foram apresentados pela primeira vez aos efeitos do gás de pimenta, isso sim um atentado, sádico e injustificável.

Se você pudesse dar voz a minha indignação, principalmente questionando o comando da PM, já que não tenho meios para isso, ficaria muito agradecido
W. (ciclista e participante da pedalada pelada)

O ciclista W. termina o relato dele com as palavras destacadas acima.

As respostas do Major Benjamin

Provocado por este ciclista, resolvi entrar em contato com o Major Benjamin Francisco Neto, subcomandante do 7º Batalhão Policial da Capital, para que ele pudesse explicar a ação policial e dar sua versão aos fatos.

O major me atendeu prontamente, me informando que não me responderia por telefone, mas que poderia fazê-lo caso eu enviasse as perguntas por email. Assim foi feito e ele respondeu os questionamentos no mesmo dia.

Fiz seis perguntas, que foram respondidas em bloco, o que me impede de publicá-las aqui no formato pingue-pong.

Perguntei basicamente: explicações sobre a relatada truculência policial; o motivo da prisão de Pasqualini; porque somente ele foi preso, logo que havia mais pessoas despidas; qual era a interpretação da polícia para o “ato obsceno” proibido por lei, comparando a questão a outras ocasiões como carnaval e Parada Gay e ainda questionando o fato de em outras cidades com proibição de nudez ninguém ter sido preso; se ele havia entrado em contato com Pasqualini antes do evento.

Em resposta, o major afirma que: “Nossas crianças não podem achar que para chamar a atenção vale a pena tirar a roupa em público. Ou dentro em breve teremos crianças ficando nuas em salas de aula para chamar a atenção da professora”.

Ele explica a ação da polícia antes da manifestação:

- Orientamos os presentes que não seria permitida a exposição em via pública de órgãos genitais e seios, em razão de que pela Av. Paulista estavam transitando crianças, senhoras e senhores que não estavam obrigadas a deparar com pessoas nuas. E que a lei previa a prática do Ato Obsceno se ocorresse a exposição em público. Declaramos também à imprensa presente desde o início do evento, que seriam toleradas pinturas que minimizassem a exposição dos órgãos e seios.

A lei a que o major se refere é o artigo 233 do Código penal (Decreto-lei n. 2.848, de 7 de dezembro de 1940, “Capítulo VI – Do Ultraje Público Ao Pudor “), reproduzido abaixo:

Ato obceno
Art. 233. Praticar ato obceno em lugar público, ou aberto ou exposto ao público:
Pena - detenção, de três meses a um ano, ou multa.

Note que a definição do que seja ato obsceno exige um juízo de valor, considerando-o uma atividade criminosa. Algo que nem a polícia dos outros países nem os transeuntes da Avenida Paulista fizeram. Apenas a polícia de São Paulo.

Em defesa da interpretação dada à lei pela polícia, o major afirma que “em alguns países o evento não foi tolerado em razão da legislação não permitir a exposição em via pública”.

Major Benjamin afirma que, nos casos do carnaval e da Parada Gay, ou os eventos ocorrem “em locais fechados ou preparados para a exposição que não ocorre no dia a dia, como o caso da Parada GLBT onde todos tomam conhecimento com antecedência do que poderão encontrar no local”. Não foi possível fazer uma tréplica e pedir para o major comentar a larga exposição que a pedalada teve na mídia antes do dia marcado.

O texto do major ainda se detém nos dois pontos cruciais da questão: a truculência policial e a prisão somente do ciclista André Pasqualini. Infelizmente, ambas as respostas do major não me parecem convincentes.

Sobre a prisão, afirma que somente o ciclista preso estava “totalmente nu”, quando um farto registro fotográfico e audiovisual demonstra que havia muitos outros ciclistas “como vieram ao mundo”. Para ser coerente com a sua interpretação da lei, portanto, o major deveria ter detido todos eles.

Em relação à outra questão, o subcomandante do 7º. Batalhão de Polícia nada fala sobre os chutes e o uso de cassetetes. “Fui obrigado a utilizar do Gás de Pimenta para controlar os ânimos e restabelecer a ordem”, pois “o grupo de ciclistas que estava nas proximidades ergueu as bicicletas sobre suas cabeças e pressionou os Policiais com o objetivo de impedir a prisão”, afirma.

Novamente, os registros (e relatos como os do ciclista W.) demonstram que isso não corresponde ao ocorrido e que o ato de levantar as bicicletas no ar é comum nas manifestações dos ciclistas. Cobrindo a bicicletada e outros protestos há alguns meses, eu mesmo já vi a ação ocorrer anteriormente.

Bicicletada junina

Amanhã, às 18h, ocorre a bicicletada junina, a edição de junho da já tradicional bicicletada que ocorre sempre na última sexta-feira de cada mês, em São Paulo e várias outras cidades do país. Tem a marca de ser um evento pacífico. Será que a polícia vai interferir desta vez?

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24 de junho de 2008

MS: Festival mostra filmes produzidos por índios

iurirubim às 12:50

Três cidades sul-mato-grossenses sediam Vídeo Índio Brasil. Quem estiver em Campo Grande, Dourados e Corumbá entre 23 e 29 de junho poderá acompanhar gratuitamente mostras, oficinas, seminários, exposição e uma extensa programação de produções indígenas e filmes cujo foco sejam os povos nativos das terras brasileiras.

Em Campo Grande, o festival é realizado no CineCultura, em duas sedes da Casa Brasil (Vila Santo Eugênio e Instituto Delta de Educação), e nas aldeias urbanas Marçal de Souza e Água Bonita.

O Museu de Culturas Dom Bosco abriga a oficina básica de produção audiovisual. No interior, a Casa Brasil da UFGD é a base em Dourados e a Casa Brasil do Moinho Cultural Sul-Americano em Corumbá.

A abertura estava programada para ontem (23), às 19 horas, no CineCultura, em Campo Grande. O primeiro filme a ser exibido era o pernambucano "Pïrinop - Meu Primeiro Contato", de Mari Corrêa e Karané Ikpeng, e que relata o contato dos índios Ikpeng com o homem branco em 1964 em Mato Grosso. Os terena da aldeia Água Bonita ainda apresentariam a tradicional "Dança da Ema".

Seminário

O seminário "A Imagem dos Povos Indígenas" reune importantes lideranças, intelectuais e dirigentes. O CineCultura abriga de 24 a 29 de junho, sempre às 9 horas, mesas de debates sobre políticas públicas de cultura, mídia, cinema, os povos indígenas em MS e tradição indígena no mundo contemporâneo.

Está programa a presença de várias personalidades, como Armando Lacerda (Jornalista e Cineasta/DF), Daniel Munduruku (Instituto Indígena Brasileiro para a Propriedade Intelectual/RJ), Joel Pizzini (Cineasta/RJ), Pedro Sergio Lima Ortale (Coordenador de Cultura da Fundação Nacional do Índio/DF), Marcos Terena (Membro da Cátedra Indígena Internacional/Comitê Intertribal - Terena/MS), Vincent Carelli (Cineasta e idealizador do Vídeo nas Aldeias/PE), Divino Tserewahu (Realizador indígena xavante/MT), entre outros.

Mostra no Cinecultura

O "Vídeo Índio Brasil" realiza duas mostras também no CineCultura, em Campo Grande. O público vai apreciar em "O Olhar dos Povos Indígenas" - sempre às 18 horas - produções realizadas por indígenas de vários estados brasileiros, como Mato Grosso, Pernambuco, Paraná, Rio Grande do Norte e Distrito Federal, além do próprio Mato Grosso do Sul.

São 13 filmes que abordam temas riquíssimos, como "Em Trânsito - A Saga dos Manoki", que conta o drama do povo Manoki em Mato Grosso. O Vídeo nas Aldeias (PE) marca presença no festival com mais cinco produções: "Pïrinop - Meu Primeiro Contato”, "Xina Bena - Novos Tempos" - o dia-a-dia da aldeia Hunikui de São Joaquim, no Rio Jordão, no Acre -, "Huni Meka - Os Cantos do Cipó", "Imbe Gikegu - Cheiro de Pequi", "Ñguné Elü - O Dia Em Que a Lua Menstruou" e "Wai’a Rini - O Poder do Sonho", que recebeu prêmios no Equador e Bolívia.

Após algumas exibições, haverá debates com diretores de filmes presentes no evento e convidados. Está prevista a participação de diretores como Elton Rivas (MT), Maria de Lourdes (MS), Juracilda Veiga (PR), Vincent Carelli (PE), Divino Tserewahu (MT), Chico Sales (PB) e Ronaldo Duque (DF).

Já a mostra "Os Povos Indígenas no Cinema Brasileiro" - sempre às 20 horas -, reúne cinco filmes que abordam a questão indígena. A história do cacique xavante Mário Juruna, o único a ocupar uma cadeira no parlamento brasileiro - é o mote de "Juruna - O Espírito da Floresta", que abre a mostra no dia 24.

Estão programadas as presenças do diretor do filme, Armando Lacerda (DF), e de Diogo Amhó Juruna, filho do ex-deputado, e ainda o cacique xavante mato-grossense Aniceto Tsuezawére e José Maria Paratsé para um debate após a sessão.

O diretor Gustavo Dahl será lembrado no dia 25 com o filme de 1973, "Uira - Um Índio em Busca de Deus". A produção tem roteiro de Darcy Ribeiro em conjunto com o diretor. A trama relata como o protagonista Urubu-Kaapor atravessa o interior do Maranhão com a família até a capital São Luiz.

Na quinta (26), "Serras da Desordem", de Andréa Tonacci, revela uma história curiosa de um índio nômade, o Carapirú, que perambulou uma década pelas serras do Brasil Central após ter seu grupo massacrado por fazendeiros. O sobrevivente foi encontrado pelo sertanista Sydney Possuelo a 2 mil quilômetros de seu ponto de partida e acabou virando notícia em Brasília e gerando polêmica entre os estudiosos.

"Avaete - A Semente da Vingança", de Zelito Viana, é a atração da sexta (27). O longa, produzido em 1985, acompanha o crescimento de uma criança índia sobrevivente de um massacre e que é criada por um cozinheiro que participou da chacina. Já adulto, o indígena planeja a vingança dos matadores brancos. A mostra se encerra com "Estratégia Xavante", de Belisário Franca. O documentário carioca narra a idéia curiosa do cacique xavante Ahopowê, que na década de 70 enviou a Ribeirão Preto oito meninos de sua tribo para serem criados por famílias brancas.

Mostras paralelas

Uma grande mostra paralela acontece em seis locais com uma programação composta por exibição de filmes, vídeos e debates com diretores e realizadores. Em Campo Grande, as sessões podem ser acompanhadas nas sedes da Casa Brasil - Vila Santo Eugênio e Instituto Delta de Educação - e também nas aldeias urbanas Marçal de Souza e Água Bonita.

O "Vídeo Índio Brasil" chega a duas cidades importantes do interior de MS também em abrigos da Casa Brasil. Em Dourados, a mostra paralela acontece na Casa Brasil da UFGD. Já em Corumbá, o evento ocorre no Moinho Cultural Sul-Americano. Há sessões pela manhã, à tarde e à noite. Também acontecem debates após as sessões com convidados, entre eles, Joel Pizzini, em Dourados, e Armando Lacerda, em Corumbá.

Oficina

A “Oficina Básica de Produção Audiovisual” acontece de 23 a 28 de junho no Museu de Culturas Dom Bosco, em Campo Grande. Os módulos do programa são “História do Cinema e do Audiovisual” e “A Linguagem do Documentário”, ministrados por Hélio Godoy, além de “Fotografia Para Audiovisual”, comandado por Sérgio Sato, Divino Tserewahu e Paulinho Kadojeba, e “Edição e Montagem”, apresentado por Sérgio Sato e Divino Tserewahu.

As atividades da oficina são direcionadas para as pessoas indicadas pelos caciques de várias aldeias através da Funai. O objetivo é capacitar os indígenas para exercer a criatividade cinematográfica e produzir os próprios documentários e filmes. As aulas terão dois turnos: das 8h às 12 horas e das 13h30 às 17h30, totalizando 48 horas/aula.

Confira a programação completa.

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23 de junho de 2008

BA: Festa de S. João incorpora tradições populares

iurirubim às 17:40

Boa parte do Brasil não conhece ou mesmo tem idéia do que significam os festejos de São João para os estados da região Nordeste. Por ser uma região árida, o Nordeste agradece anualmente a São João, mas também a São Pedro, pelas chuvas nas lavouras.

Não é apenas uma exaltação da fertilidade, mas da possibilidade de se permanecer na terra em que o sertanejo nasceu e vive. É celebração da esperança de não abandonar toda uma vida rumo a um futuro incerto numa terra hostil.

E como as chuvas significam boa colheita, é época de mesas fartas, oferecidas de bom grado a quem vier para a festa. Em razão da colheita do milho, as comidas feitas do cereal, como a canjica e a pamonha, regem a tradição.

A maior queixa em relação aos festejos juninos, entretanto, é que eles vêm sendo profissionalizados e descaracterizados enquanto tais.

Acompanhadas muitas vezes do famigerado discurso do “progresso”, muitas festas têm dado lugar a estruturas de megashows e atrações com alta inserção na mídia, que pouco ou nada têm a ver com o local e, pior, fazem dele terra arrasada, pois as tradições amadoras não têm como lhes fazer concorrência.

Por isso escolhi falar aqui de uma experiência diferente de festejo junino, que também incorpora novos elementos, porém em contraposição aos megashows e similares.

Falo do São João de Valentim, um distrito do município de Boa Nova, no interior da Bahia. Lá, a parceria realizada entre o Instituto Casa Via Magia e a comunidade local integra a festa ao meio ambiente, propondo a exploração das trilhas ecológicas da região pelos visitantes.


A rua principal do distrito de Valentim

Intitulada “Um Passarinho me Contou…”, a festa nos dias 21 a 24 de junho resgata antigas tradições como competições de quebra-pote, corridas de saco e de jegue; arrastões em que as pessoas atravessam a cidade, indo de casa em casa; e forró pé-de-serra com trios nordestinos.

E, principalmente, aproveita os festejos juninos para compartilhar a beleza de manifestações culturais locais, cuja apresentação ocorre em diferentes períodos do ano. Então, o São João no Valentim também inova em relações às festas tradicionais, mas faz isso através de um mergulho profundo na sua própria tradição.

Isso tudo num contexto de turismo comunitário, em que as próprias moradias dos habitantes acolhem os turistas.

O distrito do Valentim

O povoado do Valentim, foco irradiador deste projeto, está encravado numa região em que se alternam três ecossistemas distintos - Caatinga, Mata-de-Cipó e Mata Atlântica, embora seu entorno seja formado apenas do terceiro. É cercado de lagos, rios e cachoeiras. O verde de suas serras e o cinza de suas ruas contrastam com o negro e laranja das tendas que, uma vez por semana, tomam a vilarejo nas famosas feiras dominicais.


De Valentim, podemos avisar muito verde e cachoeiras 

No início desta década, um importante acontecimento transformou e remodelou a realidade local: a descoberta da existência, na Mata de Cipó da região de Boa Nova, do ameaçado Rhopornis ardesiacus, o Gravatazeiro, uma das aves mais raras no Brasil.

No ano de 2005, a BirdLife/SAVE Brasil trouxe à região um biólogo para atuar na implementação de diversas atividades ligadas à pesquisa biológica do Gravatazeiro. Desde maio de 2004 - quando o Ministério do Meio Ambiente estabeleceu áreas prioritárias para a conservação, utilização sustentável e repartição dos benefícios da biodiversidade - foi indicada, com prioridade extremamente alta, a criação de uma Unidade de Conservação abrangendo, total ou parcialmente, os municípios envolvendo aquela região.


O Gravatezeiro, ave rara do Brasil, mora em Valentim

A descoberta de um grupo de aves tão rico e único tem se mostrado importante fator para a sensibilização e a conscientização quanto à questão ambiental, resultando em uma infinidade de iniciativas voltadas ao desenvolvimento sustentável da região.

- Quando começamos o trabalho na região, a frase que escutamos de um dos moradores foi: ”este é um lugar miserável”. Com um alto índice de analfabetismo e um dos mais baixos IDHS do Estado da Bahia, a comunidade local não tinha possibilidade de reconhecimento do potencial cultural e ambiental da região - afirmam representantes do Instituto Via Magia.

A economia local era baseada na aposentadoria dos mais velhos e no extrativismo. A pobreza, a miséria e o lixo eram os cartões postais visíveis de um lugar onde a comunidade não reconhecia a sua própria cultura.

Entretanto, um pequeno impulso provocou o ressurgimento de forma vibrante de manifestações que pareciam fadadas ao desaparecimento, como os Violeiro do São Domingos, os reisados do Rio Chumbo, Riacho do Norte e do Lagoão, o Bumba meu Boi de D. Laurinha e o Samba de Roda de D. Dete.

O projeto “Um Passarinho me contou…”, realizado no local há cinco anos pelo Instituto Casa Via Magia, promove um diálogo da tradição e inovação tendo a cultura como mote para o desenvolvimento. Valoriza as riquezas culturais e ambientais na região do Rio Gongoji, tendo como base justamente o distrito de Valentim, em Boa Nova.

Turismo comunitário, trilhas e corridas

Quem, a essa altura, já estiver aproveitando o São João de Valentim, está hospedado numa das casas da comunidade, desocupadas para receber os turistas.

O senhor Orciscio Meira Filho, 41, fez um levantamento em todo Valentim para descobrir as que poderiam receber os visitantes. Espera que umas 200 pessoas fiquem hospedadas em Valentim. Acredita de o fluxo diário gire em torno de 1000 pessoas.

- A hospedagem com comida - almoço, café e janta – custa 56 reais. As pessoas não precisam levar nada. – diz.

A logística segue um formato interessante, pois os ganhos são divididos entre os donos das casas, os organizadores da festa e quem prepara as refeições. “Assim todo mundo ganha”, comenta Meira.


Serra do Timorante, de onde os Jesuítas "já tiraram ouro"

Também responsável pelas trilhas, Meira diz que a região tem cerca de 10 trilhas e exalta as belezas naturais de Valentim, citando Serrra do Timorante, onde, segundo ele, “os jesuítas andaram tirando muito ouro há tempos atrás”.

- A nossa idéia foi fazer um São João ecocultural. Muito melhor do que essas festas de São João onde você não encontra nada de São João que tem por aí – enfatiza.

Já Márcio Pereira dos Santos, pedagogo de 28, é responsável pelo corridas, que nunca deixou de realizar nas escolas do distrito. “A diferença é que agora vamos sair dos muros das escolas e as corridas vão ter uma divulgação bem maior. As pessoas vão participar com mais entusiasmo”, diz.

No São João do Valentim tem quebra-pote, pau de sebo e muitas corridas: de saco, de ovos, do copo… entretanto, Márcio revela que a mais animada é a corrida de jegue.

- É a mais difícil. O jegue é inesperado: empaca, dispara, faz o que quer. Quase sempre alguém cai. Tem muita risada, entusiasmo e até torcida – comenta Márcio.

Para o pedagogo, as corridas são momentos de encontro, de convivência entre as pessoas, de botar o papo em dia. “São coisas que estavam adormecidas. Agora a gente pode ver a alegria nos olhos das pessoas”.

Tradições convivendo numa mesma festa

Os festejos do Valentim têm artistas convidados, muito forró pé de serra e resgatam tradições juninas, como o casamento matuto, apresentação de quadrilhas, escolha de princesas e rainhas do milho e arrastão pela cidade (chamado de “visita do cumpadre e da cumadre”). Isso tudo com direito a muita comida típica!

Mas o povo de Valentim e dos arredores não se deu por satisfeito e quis mostrar – assim, concentradinho no São João – todas as outras tradições que acontecem na região.

Então, no Arraiá do Passarim tem capoeira, vários reisados, bumba meu boi, samba de roda e cantoria de coco.


A Roda de Samba de Dona Dete: dança e religião

Dona Floripes Pereira Andrade vai comemorar duas festas ao mesmo tempo, logo que faz aniversário durantes as festas juninas. Ela e sua mãe, Dona Dete participam da programação do Valentim com a Roda de Samba, que aprenderam desde pequenas, no terreiro de Umbanda. Ela acredita que a exposição no São João vai fazer bem para os festejos e para a própria roda de samba.

- Muitas pessoas abandonaram essa cultura. Não levaram a sério, não conheciam, especialmente os jovens. Olhe bem, eu acredito que vai despertar a curiosidade de muitas pessoas, que vão passar a valorizar mais – diz.

Já o Reisado Riacho do Norte, que existe há mais de trinta anos, quase desapareceu. Os companheiros de Seu João Rodrigues, 76, foram falecendo e ele perdeu a animação de fazer os reis.


Reisado Riacho do Norte: tradição de pai e filho

Desde pequeno, Juarez, filho de Seu João, conviveu com aqueles momentos de alegria nos primeiros dias do ano (as festas de santo reis são comemoradas de 1 a 6 de janeiro). Foi justamente a nostalgia de Juarez que trouxe de volta a animação do pai e, juntos, recuperaram o Reisado Riacho do Norte.

- Voltamos em 2002. Não esqueço quando passamos por uma casa em que a dona, uma velhinha, disse: “tem 20 anos que um terno de reis passou por aqui. Que alegria!”. A gente não pode deixar esse tipo de coisa acabar – afirma Juarez.

Assim, pai e filho; mãe e filha e muitas outras famílias que conservam – contra quase tudo – suas tradições estão mostrando um pouquinho do que sabem aos visitantes de Valentim.

Fotos: Vicente Reyes (1, 6 e 7); Gina Leite (2, 3 e 5); Edson Ribeiro (4) 

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21 de junho de 2008

Academia Brasileira de Cordel completa 20 anos

iurirubim às 4:51

A Academia Brasileira de Literatura de Cordel (ABLC) chega a sua segunda década no próximo dia sete de setembro. Desconhecida de boa parte dos brasileiros, a Academia teve e ainda tem um importante papel na revitalização dessa literatura tipicamente nordestina.

Chegar à Academia Brasileira de Literatura de Cordel é uma experiência interessante. Depois de me perder um pouco pelas ruazinhas de Santa Teresa, encontro, vizinha à Sétima Delegacia de Polícia, uma garagem adaptada com um simpático casal à porta.


Entrada simples e tesouros lá dentro!

Eram Gonçalo Ferreira da Silva, o presidente da academia, e sua esposa, Mena. Mais tarde, Gonçalo me contaria que a instituição funciona todos os dias, das 9 às 19h, diariamente, incluindo domingo, feriado, semana santa, ano novo, carnaval… até mesmo no natal!

“Eu moro lá em cima, no quinto pavimento”, diz Gonçalo. Embora a proximidade seja, obviamente, um grande incentivo a esse funcionamento rigoroso, o presidente da Academia me fornece outro motivo, um mais prosaico:

- Eu abro aqui até para bater um papo mesmo – explica Gonçalo.


Note a entrada da Academia no canto direito

A garagem, cujas paredes são literalmente (mais que nunca!) cobertas por folhetos, é o mostruário da ABLC. A Academia abriga um Centro de Referência de Cordel com 13 mil títulos, entre livros de cordéis, biografias e livros de apoio à pesquisa. Mas seu verdadeiro tesouro são os cerca de 200 mil folhetos de cordel.

O acervo está sempre crescendo devido às constantes publicações lançadas pela própria Academia, ao tempo que também recebe exemplares de cordéis publicados em todo país – resultado do respeito conquistado entre os autores nessas duas décadas.

- Querem comprar uma vassoura? Hoje é três por dez – somos repentinamente interrompidos por um garoto, que tentava conseguir algum dinheiro com suas vassouras.


Paredes tomadas por cordéis (e é só o mostruário)

O episódio mostra bem o clima da Academia de Literatura de Cordel, sempre aberta e acolhedora. De fato, durante as duas horas que durou a entrevista, pelo menos umas 10 pessoas (cerca de metade estrangeira), entrou na Academia.

Além do mostruário e da sala de acervo, a ABLC inaugurou há pouco tempo um auditório, trazendo as para a sede as reuniões da academia - que antes eram realizadas no auditório da federação das academias de letras do Brasil. As reuniões são mensais e acontecem aos sábados.

Nas reuniões plenárias os acadêmicos são atualizados sobre a produção dos colegas, ocorrem leituras de textos recentes e são recebidas as novidades de cada um, inclusive de acadêmicos não radicados no Rio de Janeiro.


O próprio presidente atende as ligações na ABLC

A estrutura da Academia do Cordel é similar a das outras academias de letras mais conhecidas. É mantida por beneméritos, tem 40 patronos e 40 cadeiras ocupadas de forma vitalícia pelos titulares.

Em caso de falecimento, a respectiva cadeira fica vaga até que o colegiado da academia analise os currículos e obras dos postulantes e escolha um novo membro. “Igual à Academia Brasileira de Letras, igual à academia francesa, à de Estocolmo…”, destaca Gonçalo Ferreira. Ele lembra que há uma disputa acirrada pelas cadeiras.

- São vagas concorridíssimas. Muitos e muitos cordelistas brigam por uma vaga – diz.


A variedade de temas contempla tradição…

O fato de aproximar o cordel dos ritos e rigores de “instituições irmãs” tem trazido um grande reconhecimento para esse gênero literário. Segundo o presidente da ABLC, o desenvolvimento do cordel passa também pelos debates entre intelectuais e estudos das universidades:

- No momento em que o folheto de cordel voou do barbante para as salas acadêmicas, para o ambiente universitário, a literatura de cordel ganhou outro corpo, outro nome, outro respeito – afirma Gonçalo Ferreira.


…e novidade!

Na opinião do presidente da ABLC, a existência da Academia gradativamente vem mudando o comportamento dos cordelistas. Por um lado, eles passam a almejar uma cadeira da instituição (“os novos cordelistas já começam a escrever pensando em ocupar uma cadeira”); por outro, sentem-se mais à vontade com a própria profissão.

- Um poeta da literatura de cordel, antes da Academia, quando um pesquisador botava um microfone na frente dele, ele sorria antecipadamente da bobagem que ia falar. Hoje esse pesquisador recebe o poeta com o respeito que ele merece – garante.

Além do reconhecimento à atividade, a institucionalidade apóia a realização de projetos pelos acadêmicos e por outros cordelistas.


A ABLC tem um presidente de bem com a vida

- Daqui surgiram projetos fantásticos, como o Acorda Cordel na Sala de Aula, realizado em Fortaleza pelo acadêmico Arievaldo Viana. A Academia já colocou a literatura de cordel na grade curricular de importantes cidades brasileiras. Como é que isso seria possível se não tivesse esse arcabouço institucional? – questiona seu presidente.

A Academia Brasileira de Literatura de Cordel alia memória e disseminação da arte a um ativo trabalho de publicação de obras. Tem um projeto editorial regular, publicando mensalmente uma edição dos grandes clássicos da literatura de cordel. Juntamente com publicações extra-ordinárias, lança cerca de três ou quatro folhetos por mês. Desde 1994, a ABLC publica também uma antologia por ano.

- Um projeto editorial que nenhuma outra casa no país é capaz de cumprir – enfatiza o presidente Gonçalo.

Recentemente, lançou também o Dicionário Brasileiro da Literatura de Cordel, o primeiro dicionário mundial da literatura de cordel.

Na esteira das comemorações dos 20 anos da Academia, será lançada uma obra editada pela ABLC com patrocínio da Petrobras: os 100 cordéis raríssimos na avaliação da ABLC. É uma obra em dois volumes numa caixa dura. “Essa obra vale mais de 100 reais, mas a Petrobras impôs que fosse vendida por no máximo 50, para que ficasse um preço bom e todo mundo pudesse adquirir”, afirma Gonçalo.


Brasão da Academia

Devem haver sucessivos lançamentos dessa mesma obra. “Pelo menos seis lançamentos no aqui no Rio de Janeiro”, precisa o dirigente da instituição. Está previsto um lançamento da obra também em Mossoró (RN), onde o livro está sendo editado. A realização do evento depende, entretanto, da editora Queima Bucha (!), a melhor editora de cordel do país.

As celebrações das duas décadas de vida incluem também a realização de um seminário, cuja data e local serão decididos hoje (21/6), em reunião plenária da academia. A Petrobras e a Universidade Estadual do Rio de Janeiro (URERJ), parceiros costumazes da Academia, devem estar envolvidos no seminário.

A Escola de Formação de Professores da UERJ, em São Gonçalo, aliás, abriga a Cordelteca Gonçalo Ferreira da Silva na UERJ, batizada em homenagem ao presidente da Academia de Literatura de Cordel.

Até aniversário da Academia, dia sete de setembro, vários acadêmicos vão promover outras ações em homenagem à instituição.

São vinte anos de muito trabalho, mas muitas risadas também. Divertindo-se, quase rindo sozinho, Gonçalo lembra de um episódio, quando convidou um poeta – Cícero Vieira, o Mocó – para uma sessão da Academia. Esperaram, esperaram e ele não apareceu.

- Quando encontrei com ele, no outro dia, me disse: ‘rapaz, eu fui para a reunião, mas quando cheguei lá você estava todo de terno e eu voltei. Isso não serve para mim, não’. Agora veja você cada uma que eu já passei…

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20 de junho de 2008

RJ: instrumentista de 84 anos toca no Planetário

iurirubim às 15:59

A pernambucana Isabel Marques da Silva, mais conhecida como Zabé da Loca, atualmente com 84 anos, vai se apresentar neste domingo (22), ao meio-dia, no planetário da cidade do Rio de Janeiro.

A apresentação é gratuita e faz parte da série “Música nas Estrelas”, na qual artistas se apresentam com projeção ao fundo de estrelas, planetas e constelações, na tela hemisférica da cúpula da Fundação Planetário. Atenção: as senhas são distribuídas uma hora antes de cada apresentação.

Zabé da Loca hoje aclamada como uma das maiores tocadoras brasileiras de pife. Pife (ou pífano) é um instrumento parecido com flauta. Tem sete orifícios (um para soprar e seis para dedilhar), som bastante agudo e é feito de bambu, taquara, metal ou PVC.

É um dos instrumentos mais tradicionais da cultura nordestina e existem diferentes argumentos que atribuem sua origem tanto à cultura indígena quanto à européia. Veja também a matéria com João do Pife, outro mestre da música brasileira.


Dona Isabel viveu 25 anos numa gruta

Com um 1,50m de altura, analfabeta, linguajar e modos típicos do homem rural, Zabé passou a vida entre o trabalho com a enxada e o ofício do pífano. Aprendeu a tocar o instrumento aos sete anos, ensinada pelo pai e pelos irmãos. Deles, herdou a rotina de reunir-se diariamente para tocar com os filhos e vizinhos.

Uma tragédia mudou a vida de Zabé: sua casa desmoronou. Sem dinheiro e sem ter onde morar, foi viver com a família sob duas pedras na Serra Tungão. Morou lá durante 25 anos. Daí o apelido - “loca” é como chamam gruta em muitos lugares do nordeste.

A vida de Zabé da Loca deu outra virada justamente por causa de seu talento com o pife. Ela foi descoberta, já aos 80 anos, pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário.

Gravou com sua banda de pífanos e a partir de instrumentos improvisados em canos PVC - o primeiro disco produzido pelo Quinteto Violado, esgotado mesmo antes de chegar às lojas, para o projeto “Cantos do Semi-Árido”.

Sob a liderança de Zabé, a banda composta por parentes e amigos da região onde vive, apresenta peças de domínio público e composições próprias, tudo dentro das antigas tradições nordestinas. A formação original da banda inclui dois pífanos, uma caixa, uma zabumba e um prato.

Em 2007, gravou mais um disco, “Bom Todo”, com o patrocínio da Petrobras, sob a direção artística do músico Carlos Malta. O repertório deste trabalho será mostrado com exclusividade na Série Música nas Estrelas.

Formação da banda de Zabé da Loca 

Zabé da Loca, pífano
Rivers Douglas, pífano
Rodrigo Sestrem, pífano
Cacau Arcoverde, zabumba
Josivane Caiano, prato
Pitó, caixa
Participação Especial, Carlos Malta, flautas

Fotos: Lead Comunicação

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19 de junho de 2008

Ciclistas nus reclamam de “assédio de jornalistas”

iurirubim às 15:41

Ciclistas que participaram da World Naked Bike Ride (Pedalada Pelada, na tradução deles) em São Paulo, no sábado passado (14 de junho), lançam uma declaração na qual criticam a atuação da imprensa na cobertura do evento. A polícia paulista também não foi poupada das críticas.

- Mais de quatrocentas pessoas estavam lá para pedalar. Os demais queriam ver e registrar a nudez prometida. Especialmente a nudez feminina – afirma a carta.

Segundo a Declaração dos participantes da I Pedalada Pelada de São Paulo, as mulheres que se despiram “tiveram que corajosamente suportar o assédio invasivo de muitos "jornalistas", ávidos por erotizar e tornar públicos seus corpos em busca de audiência”.

“As câmeras saltaram sobre elas [ciclistas despidas], acompanhadas muitas vezes por comentários machistas de conotação sexual” 
Declaração dos participantes da I Pedalada Pelada de São Paulo

Os participantes lamentam que este comportamento da imprensa tenha feito “com que muitas deixassem de se despir”. Relatam que, “à medida que os ciclistas se distanciavam da praça foram tomando coragem de expor mais seus corpos”.

E criticam novamente a mídia, ao afirmar que, longe das câmeras, “puderam celebrar sua nudez não sexualizada e não comercializada, muito diferente da exposição sexual dos corpos padronizados tão comum nas emissoras de TV e revistas”.

- Centenas de pessoas puderam expor por alguns instantes seus corpos "imperfeitos" (…) livres da ditadura estética vigente que causa distúrbios alimentares, complexos e depressões. – afirmam os participantes do movimento.

Criminalização da nudez

A polícia paulista havia alertado os manifestantes que agiria para reprimir o movimento em caso de nu frontal. A fim de cumprir sua ameaça, prendeu o cicloativista André Pasqualini (responsável pelo site CicloBR) por “atentado ao pudor”. Vejam versão do próprio André para os fatos.

- O comandante da operação declarou diante das câmeras que fez o que estava planejado, prendeu o "líder" da ação para acabar com a manifestação. A lógica estava errada, já que não existem líderes ou organizadores da Pedalada dos Pelados, mas a tática deu certo, porque seja lá quem tivesse sido detido, nós não deixaríamos de apoiá-lo – diz o documento.

Houve confusão quando alguns ciclistas tentaram se manifestar contra a prisão. Eles foram agredidos com pontapés e gás de pimenta e acusados de usar suas bicicletas como arma, ao erguerem-nas no ar (ação comum em seus protestos).

Infelizmente, aprendemos com nossa ação que a nudez que se manifesta livremente a favor da vida é criminalizada, enquanto a nudez explorada, sexualizada e comercializada nos carnavais, novelas e revistas é permitida.

Com a prisão de um dos seus participantes, parte dos ciclistas seguiu escoltada pela CET rumo ao 78º DP na Rua Estados Unidos. Ali, gritaram: "Ô seu delegado, libera o pelado!" até que Pasqualini fosse solto. Enfim, o movimento seguiu pelo resto do percurso sem maiores incidentes.

Na carta, os ativistas expõem ainda os motivos que levam a protestos como aquele, e que a nudez é uma metáfora do sentimento de impotência e da falta de segurança que os ciclistas sentem no trânsito. A pedalada, que ocorre em vários outros locais do mundo seria uma forma de chamar atenção para esse fato.

Somos constantemente ignorados, somente nus somos vistos?

A declaração dos “ciclonudistas” é encerrada com uma promessa: “podem se preparar, a festa será ainda maior em 2009”. Leia íntegra do documento.

Foto: Polly

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18 de junho de 2008

“É meio clichê achar a obra de Joyce difícil”

iurirubim às 12:36

O Grupo Oficcina Multimédia (GOM) comemorou, nesta segunda-feira, 16 de junho, o Bloomsday, dia internacional de homenagens ao autor irlandês James Joyce. Na ocasião, seis atores do grupo, todos homens, e mais três atores convidados - dentre eles, uma mulher - vestiram-se de noivas (veja como foi).

O Blog das Ruas foi atrás da diretora do grupo, de integrantes e dos convidados para entender o significado da data e a forma inusitada com que foi comemorada na capital baiana.


Noivas da Praça da Piedade ao Campo Grande

Joyce está profundamente enraizado no trabalho do GOM. Sua irreverência, a musicalidade de seu texto e, principalmente, o risco que assume ao brincar com a linguagem seduziram – e seduzem até hoje – o grupo. Tanto que o Oficcina Multimédia fez a Trilogia Joyce: Navio-Noiva e Gaivotas (1989), Epifanias (1990) e Alicinações (1991). Até hoje, o GOM já realizou 17 montagens.

Após o terceiro espetáculo, o grupo começou a participar das comemorações do Bloomsday. Já realizou diversas homenagens, sempre enfatizando a participação do público.

Realizou concursos de objetos símiles (objetos que têm a ver com James Joyce), da melhor peça gráfica, do melhor vídeo, tudo inspirado em James Joyce. Premiou também a “melhor Molly Bloom” (personagem do romance Ulisses, inspirada em Nora Barnacle, musa do autor), “as melhores pernas de Molly Bloom” e muitos outros. “E não conseguimos parar mais. O próprio público pede para que a gente faça”, diz Ione de Medeiros, a diretora do grupo.


"As Noivas de Joyce" foram às ruas pela primeira vez em 2004

Em 2004, no centenário do Bloomsday (o livro “Ulisses” se passa em 16 de junho de 1904), o grupo propôs uma série de atividades, dentre elas a performance “As Noivas de Joyce”. Fábio Guimarães, a “noiva barbuda”, começou no grupo justamente naquela comemoração:

- O evento Bloomsday já é um evento muito interessante. A gente sempre tenta ter um divertimento também para tirar esse caráter acadêmico e fazer o público se interessar pela leitura de Joyce, que é uma leitura bastante complexa e difícil.

Ione de Medeiros reconhece que a literatura de Joyce não é simples, mas adverte para o perigo de torná-lo inacessível levantando, antecipadamente, barreiras à leitura.

- Tem um comportamento meio clichê de ler a obra de Joyce e ficar achando que é muito difícil, achando que não vai entender nada, e as pessoas acabam bloqueando esse tipo de acesso. Deviam é mergulhar, ir lá e ver… Mesmo sendo difícil tem muitos elementos de identificação que são, por exemplo, muito engraçados - afirma.

A diretora da companhia defende que, para ser fiel a Joyce, essas homenagens têm que se relacionar diretamente com o povo.

- Joyce é um escritor que trabalhava com pessoas comuns. Ele não escolhia os heróis, os grandes nomes, os grandes atos, os grandes locais. Então isso de você trazer a literatura, trazer ele assim para onde está o povo e para não fechar numa coisa acadêmica, como muita gente faz… – alerta.


Participação do público até para levar a calda do vestido

Henrique Mourão, ator que faz parte do grupo há seis anos, lembra que todo Bloomsday do GOM tem “um caráter de irreverência, festivo e comprometido com o risco, com a experimentação, que estimula a criação tanto do Multimédia quanto do público em geral, que é sempre convidado a participar e a criar”.


A irreverência das noivas

Bloomsday em Salvador: desfile de noivas

A capital baiana foi a segunda vez que o GOM realizou a performance “As Noivas de Joyce”. Como o risco é o mote da homenagem, o ator Henrique Mourão, resolveu inovar, interpretando uma noiva vestida de preto.

- A noiva vestida de preto foi mais assim uma proposta de irreverência. A gente estava fazendo o figurino de noiva de todo mundo, assim certinho, branquinho, bonitinho, e eu apareci no camarim com esse figurino. Foi uma brincadeira que acabou que ficou interessante. É inspirado no filme de Truffaut, “A Noiva Estava de Preto”, por isso a performance- explica.


New look da noiva, na versão do ator Henrique Mourão

Para um dos atores “auto-convidados”, Pedro Costa, da banda “Solange, tô aberta”, a experiência foi marcante.

- Foi muito bacana porque foi diferente, né? Um bando de homem vestido de noiva com uma mulher só. E a receptividade das pessoas foi muito boa: elas não estavam frias, interagiam… Não tem como passar desapercebido! – diz.


Tatiane: "Não sabiam se eu erua homem ou mulher"

Para Tatiane Carcanholo, outra “penetra” do coletivo “Cruéis Tentadores”, “as reações do público são as mais inusitadas: lá no Campo Grande, por exemplo, tinha muita gente querendo saber se eu era realmente mulher, se era homem, ganhava vários apelidos…”. A atriz aproveita para refletir mais profundamente sobre a ação:

- Você vê como pessoas que não estão acostumadas a teatro são sedentas por esse tipo de brincadeira, de diálogo. Rola uma sede de participação e que muitas vezes quando você fica só no espaço fechado do teatro você não tem esse sabor, tanto para você quanto ator trabalhar a sua dinâmica mais de improvisação quanto para ter um diálogo com diversos tipos de público.

A diretora Ione de Medeiros esperava, inclusive, uma participação maior do público na composição das noivas.

- Todo mundo podia participar. Porque mais pessoas não participaram, eu não sei. Deve ter uma certa inibição, ou não compreendem muito bem, ou precisam ver primeiro para depois fazer… Mas a idéia é estar aberto para qualquer pessoa, sempre é assim. Em Belo Horizonte, a gente tem uma história, então as pessoas já participam mais - afirma.


Tem que ter coragem para se vestir de noiva e ir para a rua

Para a diretora, ir para a rua não é uma experiência fácil para os atores.

- Isso não é fácil. Eles fazem porque já tem essa experiência. Isso inibe. Não tem ensaio para isso, nem recomendação. É o bom senso e não tem uma previsão do que vai acontecer. É um público móvel e o ator está sujeito a ouvir gracinhas, a ouvir qualquer coisa, até agressão, né? Quando uma pessoa se veste como uma noiva, vai para a rua e faz o que eles fizeram, isso é um avanço para a relação platéia e artista. O ator fica mais forte, mais corajoso.

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17 de junho de 2008

Noivas desfilam por Salvador em homenagem a Joyce

iurirubim às 16:56

 

Nove atores travestidos de noivas desfilaram nesta segunda-feira pelas ruas de Salvador, causando surpresa geral e as mais diferentes reações por onde passavam.

Formado por oito homens e apenas uma mulher (cuja roupa e véu davam bastante margem a dúvidas), o grupo realizou um trajeto na região central da capital baiana, indo da Praça da Piedade até o Campo Grande.


"Noivas" tomam a Praça Piedade

À medida que caminhavam, um enorme ponto de interrogação pairava sobre motoristas, pedestres, estudantes, mendigos, lojistas e demais pessoas quando viam o inusitado cortejo. Muitos decidiam acompanhar o grupo, na tentativa de compreender o que se passava ou apenas divertir-se.

A bem-humorada performance, denominada “Noivas de Joyce”, é parte das comemorações mundiais em homenagem ao escritor irlandês James Joyce, no dia 16 de junho.

Este dia foi imortalizado pelo escritor na obra-prima Ulisses, cuja ação se passa integralmente em um único dia - 16 de junho. O personagem do romance, Leopold Bloom, seria o inspirador do título dado à data comemorativa - Bloomsday, ou o dia de Bloom.


No momento em que chegam as noivas, encontro um Ulisses

As noivas fazem uma referência à personagem Molly Bloom, também do romance Ulisses e inspirada em Nora Barnacle, musa do autor.

O responsável por propor e realizar o happening é o GOM – Grupo Oficcina Multimédia, um grupo de teatro mineiro que está em temporada na cidade, apresentando espetáculos no Teatro Vila Velha.

Influenciados profundamente por Joyce, os atores do GOM participam religiosamente do Bloomsday desde 2004, quando realizaram pela primeira vez a performance das noivas, repetida somente agora, em Salvador (veja vídeo produzido para o Bloomsday 2004).

Tradicionalmente, as comemorações do Bloomsday feitas pelo GOM buscam forte participação de pessoas de fora do grupo e, claro, do público. Prova disso é que ontem eles tiveram a “ajuda” de três atores baianos – um deles a única mulher do cortejo –, que gostaram da idéia e resolveram também travestir-se de noivas.

- Eles fazem esse intercâmbio com artistas do local onde estão se apresentando. Fazem esse diálogo entre artistas dentro de um processo só que é comemorar esse dia de um pensador do teatro tão importante. Participar disso é uma forma de recebê-los, é uma forma de absorver o trabalho deles e conhecê-los melhor. É importante para os artistas se conhecerem – diz uam das noivas, o ator Marcelo Sousa Brito, do Coletivo Cruéis Tentadores.

Chegada na Praça da Piedade

As “noivas” chegaram à Praça da Piedade por volta das cinco e meia da tarde. Sérias e mudas, distribuíam um pequeno texto explicativo sobre o Bloomsday. A maioria das pessoas recebia e guardava o papel. E continuava atônita, sem tirar os olhos daquelas estranhas figuras.


Nota distribuída pelos atores

Vários transeuntes perguntavam: “O que é isso? O que está acontecendo?” e recebiam apenas o silêncio como resposta.


Transeuntes param, atônitos, para ver as Noivas de Joyce

Outros, herdeiros dedicados do capitalismo, apressam o passo e esforçam-se para não deixar que estranhos acontecimentos – ou sua própria curiosidade – atrapalhem o seu atribulado cotidiano.

A essa altura, as noivas já se esparramavam sobre a fonte da praça e suas estátuas. Uma delas foi surpreendida por uma dupla de palhaças. As mestras do riso imediatamente pularam no colo da noiva, quase que pedindo por uma foto.


Agora são as palhaças que surpreendem a noiva

Tão desinibidas quanto suas companheiras circenses, um grupo de meninas, alunas de algum colégio próximo, abordou outra noiva, cujo vestido era decorado por um cinto de bananas.

- Queremos banana! Me dá uma banana? Me dá uma banana! Só uma! Só uma! – repetiam incessantemente.


A noiva e seu cinto de bananas

Vencida pelo cansaço, a noiva promoveu um rápido concurso musical, em que a vencedora levaria uma banana.

Ainda na Praça, um dos produtores do grupo convenceu um vendedor de café e usar o som de seu carrinho para projetar trechos do livro Finnegans Wake, de James Joyce, recitado por um dos integrantes do GOM (assista ao vídeo Diva Divina, em que o GOM também recita fragmentos de Finnegans wake).

A gravação soturna, o carrinho e o vendedor acompanharam o cortejo até o final.


Noiva muda na grade da Praça da Piedade

Cortejo

Mal começaram a caminhada, as noivas encontraram uma igreja aberta. À medida que se posicionavam à porta do templo, crescia a tensão.


Na porta da igreja: heresia?

- Será que vão entrar? – ninguém perguntava, mas era o que todos que assistiam a cena estavam pensando, seguramente.

Após longos minutos, continuaram a caminhada. “Ufa”, dava para sentir a respiração aliviada dos mais religiosos.


Muitos celulares trabalharam no Bloomsday

Mais e mais pessoas surpreendem-se com aquelas figuras, que seguiam na contramão da Avenida Sete de Setembro.

Várias noivas pediam para tirar fotos com os moradores de rua, não muito acostumados com toda aquela atenção em torno de si.


"Ai, tá abraçando um mendigo", falavam os pedestres

Algumas delas brincam com os motoristas dos ônibus. Pedem para entrar (nenhuma conseguiu), jogam beijinhos para os passageiros – e são correspondidas.

Os carros também são alvo delas, que fazem caras e bocas em frente aos automóveis ou mesmo deitam sobre o capô de alguns deles. Temerosa com que tipo de brincadeira poderia sofrer, uma motorista frustra a expectativa de uma noiva, que insistia em entrar no veículo.


As noivas também foram às compras

As lojas ao longo da avenida também não ficam incólumes durante a passagem do cortejo. Elas invadem a loja de televisores e experimentam chapéus de palha na banca de produtos variados. Entram e saem de outras tantas, para a preocupação dos vendedores que não sabem como agira diante de algo tão inesperado.


As noivas dominaram as ruas

Já perto do Campo Grande, um semáforo deixa a avenida momentaneamente vazia para a festa delas, que correm no meio do asfalto em direção ao ponto final do trajeto. Observando a cena, um homem, que parecia estar naquela mesa de bar há muito tempo, exclama:

- Credo! O cão tirou férias e abriram as portas do cemitério!

Embora esta associação até agora não tenha ficado muito clara para mim, a intervenção daquele senhor foi apenas uma das muitas ofensas, brincadeiras, assobios e outros tipos de reação que as noivas provocaram enquanto passavam.

Campo Grande

As noivas chegaram ao Campo Grande no momento em que alunos das escolas próximas também convergiam para o local, onde há um concorrido ponto de ônibus. Além disso, a praça é um dos pontos preferenciais de caminhada e corrida dos moradores da região. Prato feito para as noivas, cuja platéia “bombou”.

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No Campo Grande: o show continua

Reeditaram, no local, a mudez que tanta curiosidade provocou no ponto de saída do cortejo. O resultado foi um diálogo hilário:
- O que é isso? O que é que vocês estão fazendo? – perguntava angustiada uma senhora em trajes de malhação.

- É teatro – respondeu alguém.

- Eu sei que é teatro – esbravejou a senhora – mas quero saber o que é isso! Ei, sabia que fumar faz mal à saúde? – tentava, em vão comunicar-se com uma das noivas que havia acendido um cigarro.

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Público "bombado" de alunos e senhora curiosa (E)

O ponto alto – e perigoso – da performance foi quando quase todas as noivas entraram na fonte luminosa do Campo Grande. Um dos atores confessou mais tarde que ficou com bastante medo ao ver os fios dentro d’água.

- Um parabéns ao prefeito de Salvador, que manteve todos aqueles fios devidamente encapados – comenta.

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Fonte luminosa: uma intervenção arriscada

Aos urros de “viva!” e “vai!” dos estudantes. De dentro d’água, várias delas jogaram seus buquês. O “ritual” foi mais concorrido que em muitos casamentos tradicionais.

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Casal feliz com o buquê: será que assim também vale? 

Depois de se meterem no meio de uma pelada de garotos e armarem um pequeno baile em plena praça, as noivas se despediram, para tristeza de muitas pessoas, que ainda acompanhavam a divertida homenagem a Joyce.

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