Terra Magazine

19 de junho de 2008

Ciclistas nus reclamam de “assédio de jornalistas”

iurirubim às 15:41

Ciclistas que participaram da World Naked Bike Ride (Pedalada Pelada, na tradução deles) em São Paulo, no sábado passado (14 de junho), lançam uma declaração na qual criticam a atuação da imprensa na cobertura do evento. A polícia paulista também não foi poupada das críticas.

- Mais de quatrocentas pessoas estavam lá para pedalar. Os demais queriam ver e registrar a nudez prometida. Especialmente a nudez feminina – afirma a carta.

Segundo a Declaração dos participantes da I Pedalada Pelada de São Paulo, as mulheres que se despiram “tiveram que corajosamente suportar o assédio invasivo de muitos "jornalistas", ávidos por erotizar e tornar públicos seus corpos em busca de audiência”.

“As câmeras saltaram sobre elas [ciclistas despidas], acompanhadas muitas vezes por comentários machistas de conotação sexual” 
Declaração dos participantes da I Pedalada Pelada de São Paulo

Os participantes lamentam que este comportamento da imprensa tenha feito “com que muitas deixassem de se despir”. Relatam que, “à medida que os ciclistas se distanciavam da praça foram tomando coragem de expor mais seus corpos”.

E criticam novamente a mídia, ao afirmar que, longe das câmeras, “puderam celebrar sua nudez não sexualizada e não comercializada, muito diferente da exposição sexual dos corpos padronizados tão comum nas emissoras de TV e revistas”.

- Centenas de pessoas puderam expor por alguns instantes seus corpos "imperfeitos" (…) livres da ditadura estética vigente que causa distúrbios alimentares, complexos e depressões. – afirmam os participantes do movimento.

Criminalização da nudez

A polícia paulista havia alertado os manifestantes que agiria para reprimir o movimento em caso de nu frontal. A fim de cumprir sua ameaça, prendeu o cicloativista André Pasqualini (responsável pelo site CicloBR) por “atentado ao pudor”. Vejam versão do próprio André para os fatos.

- O comandante da operação declarou diante das câmeras que fez o que estava planejado, prendeu o "líder" da ação para acabar com a manifestação. A lógica estava errada, já que não existem líderes ou organizadores da Pedalada dos Pelados, mas a tática deu certo, porque seja lá quem tivesse sido detido, nós não deixaríamos de apoiá-lo – diz o documento.

Houve confusão quando alguns ciclistas tentaram se manifestar contra a prisão. Eles foram agredidos com pontapés e gás de pimenta e acusados de usar suas bicicletas como arma, ao erguerem-nas no ar (ação comum em seus protestos).

Infelizmente, aprendemos com nossa ação que a nudez que se manifesta livremente a favor da vida é criminalizada, enquanto a nudez explorada, sexualizada e comercializada nos carnavais, novelas e revistas é permitida.

Com a prisão de um dos seus participantes, parte dos ciclistas seguiu escoltada pela CET rumo ao 78º DP na Rua Estados Unidos. Ali, gritaram: "Ô seu delegado, libera o pelado!" até que Pasqualini fosse solto. Enfim, o movimento seguiu pelo resto do percurso sem maiores incidentes.

Na carta, os ativistas expõem ainda os motivos que levam a protestos como aquele, e que a nudez é uma metáfora do sentimento de impotência e da falta de segurança que os ciclistas sentem no trânsito. A pedalada, que ocorre em vários outros locais do mundo seria uma forma de chamar atenção para esse fato.

Somos constantemente ignorados, somente nus somos vistos?

A declaração dos “ciclonudistas” é encerrada com uma promessa: “podem se preparar, a festa será ainda maior em 2009”. Leia íntegra do documento.

Foto: Polly

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