Academia Brasileira de Cordel completa 20 anos

A Academia Brasileira de Literatura de Cordel (ABLC) chega a sua segunda década no próximo dia sete de setembro. Desconhecida de boa parte dos brasileiros, a Academia teve e ainda tem um importante papel na revitalização dessa literatura tipicamente nordestina.
Chegar à Academia Brasileira de Literatura de Cordel é uma experiência interessante. Depois de me perder um pouco pelas ruazinhas de Santa Teresa, encontro, vizinha à Sétima Delegacia de Polícia, uma garagem adaptada com um simpático casal à porta.

Entrada simples e tesouros lá dentro!
Eram Gonçalo Ferreira da Silva, o presidente da academia, e sua esposa, Mena. Mais tarde, Gonçalo me contaria que a instituição funciona todos os dias, das 9 às 19h, diariamente, incluindo domingo, feriado, semana santa, ano novo, carnaval… até mesmo no natal!
“Eu moro lá em cima, no quinto pavimento”, diz Gonçalo. Embora a proximidade seja, obviamente, um grande incentivo a esse funcionamento rigoroso, o presidente da Academia me fornece outro motivo, um mais prosaico:
- Eu abro aqui até para bater um papo mesmo – explica Gonçalo.

Note a entrada da Academia no canto direito
A garagem, cujas paredes são literalmente (mais que nunca!) cobertas por folhetos, é o mostruário da ABLC. A Academia abriga um Centro de Referência de Cordel com 13 mil títulos, entre livros de cordéis, biografias e livros de apoio à pesquisa. Mas seu verdadeiro tesouro são os cerca de 200 mil folhetos de cordel.
O acervo está sempre crescendo devido às constantes publicações lançadas pela própria Academia, ao tempo que também recebe exemplares de cordéis publicados em todo país – resultado do respeito conquistado entre os autores nessas duas décadas.
- Querem comprar uma vassoura? Hoje é três por dez – somos repentinamente interrompidos por um garoto, que tentava conseguir algum dinheiro com suas vassouras.

Paredes tomadas por cordéis (e é só o mostruário)
O episódio mostra bem o clima da Academia de Literatura de Cordel, sempre aberta e acolhedora. De fato, durante as duas horas que durou a entrevista, pelo menos umas 10 pessoas (cerca de metade estrangeira), entrou na Academia.
Além do mostruário e da sala de acervo, a ABLC inaugurou há pouco tempo um auditório, trazendo as para a sede as reuniões da academia - que antes eram realizadas no auditório da federação das academias de letras do Brasil. As reuniões são mensais e acontecem aos sábados.
Nas reuniões plenárias os acadêmicos são atualizados sobre a produção dos colegas, ocorrem leituras de textos recentes e são recebidas as novidades de cada um, inclusive de acadêmicos não radicados no Rio de Janeiro.

O próprio presidente atende as ligações na ABLC
A estrutura da Academia do Cordel é similar a das outras academias de letras mais conhecidas. É mantida por beneméritos, tem 40 patronos e 40 cadeiras ocupadas de forma vitalícia pelos titulares.
Em caso de falecimento, a respectiva cadeira fica vaga até que o colegiado da academia analise os currículos e obras dos postulantes e escolha um novo membro. “Igual à Academia Brasileira de Letras, igual à academia francesa, à de Estocolmo…”, destaca Gonçalo Ferreira. Ele lembra que há uma disputa acirrada pelas cadeiras.
- São vagas concorridíssimas. Muitos e muitos cordelistas brigam por uma vaga – diz.

A variedade de temas contempla tradição…
O fato de aproximar o cordel dos ritos e rigores de “instituições irmãs” tem trazido um grande reconhecimento para esse gênero literário. Segundo o presidente da ABLC, o desenvolvimento do cordel passa também pelos debates entre intelectuais e estudos das universidades:
- No momento em que o folheto de cordel voou do barbante para as salas acadêmicas, para o ambiente universitário, a literatura de cordel ganhou outro corpo, outro nome, outro respeito – afirma Gonçalo Ferreira.

…e novidade!
Na opinião do presidente da ABLC, a existência da Academia gradativamente vem mudando o comportamento dos cordelistas. Por um lado, eles passam a almejar uma cadeira da instituição (“os novos cordelistas já começam a escrever pensando em ocupar uma cadeira”); por outro, sentem-se mais à vontade com a própria profissão.
- Um poeta da literatura de cordel, antes da Academia, quando um pesquisador botava um microfone na frente dele, ele sorria antecipadamente da bobagem que ia falar. Hoje esse pesquisador recebe o poeta com o respeito que ele merece – garante.
Além do reconhecimento à atividade, a institucionalidade apóia a realização de projetos pelos acadêmicos e por outros cordelistas.

A ABLC tem um presidente de bem com a vida
- Daqui surgiram projetos fantásticos, como o Acorda Cordel na Sala de Aula, realizado em Fortaleza pelo acadêmico Arievaldo Viana. A Academia já colocou a literatura de cordel na grade curricular de importantes cidades brasileiras. Como é que isso seria possível se não tivesse esse arcabouço institucional? – questiona seu presidente.
A Academia Brasileira de Literatura de Cordel alia memória e disseminação da arte a um ativo trabalho de publicação de obras. Tem um projeto editorial regular, publicando mensalmente uma edição dos grandes clássicos da literatura de cordel. Juntamente com publicações extra-ordinárias, lança cerca de três ou quatro folhetos por mês. Desde 1994, a ABLC publica também uma antologia por ano.
- Um projeto editorial que nenhuma outra casa no país é capaz de cumprir – enfatiza o presidente Gonçalo.
Recentemente, lançou também o Dicionário Brasileiro da Literatura de Cordel, o primeiro dicionário mundial da literatura de cordel.
Na esteira das comemorações dos 20 anos da Academia, será lançada uma obra editada pela ABLC com patrocínio da Petrobras: os 100 cordéis raríssimos na avaliação da ABLC. É uma obra em dois volumes numa caixa dura. “Essa obra vale mais de 100 reais, mas a Petrobras impôs que fosse vendida por no máximo 50, para que ficasse um preço bom e todo mundo pudesse adquirir”, afirma Gonçalo.

Brasão da Academia
Devem haver sucessivos lançamentos dessa mesma obra. “Pelo menos seis lançamentos no aqui no Rio de Janeiro”, precisa o dirigente da instituição. Está previsto um lançamento da obra também em Mossoró (RN), onde o livro está sendo editado. A realização do evento depende, entretanto, da editora Queima Bucha (!), a melhor editora de cordel do país.
As celebrações das duas décadas de vida incluem também a realização de um seminário, cuja data e local serão decididos hoje (21/6), em reunião plenária da academia. A Petrobras e a Universidade Estadual do Rio de Janeiro (URERJ), parceiros costumazes da Academia, devem estar envolvidos no seminário.
A Escola de Formação de Professores da UERJ, em São Gonçalo, aliás, abriga a Cordelteca Gonçalo Ferreira da Silva na UERJ, batizada em homenagem ao presidente da Academia de Literatura de Cordel.
Até aniversário da Academia, dia sete de setembro, vários acadêmicos vão promover outras ações em homenagem à instituição.
São vinte anos de muito trabalho, mas muitas risadas também. Divertindo-se, quase rindo sozinho, Gonçalo lembra de um episódio, quando convidou um poeta – Cícero Vieira, o Mocó – para uma sessão da Academia. Esperaram, esperaram e ele não apareceu.
- Quando encontrei com ele, no outro dia, me disse: ‘rapaz, eu fui para a reunião, mas quando cheguei lá você estava todo de terno e eu voltei. Isso não serve para mim, não’. Agora veja você cada uma que eu já passei…
Ainda temos algo de que se orgulhar neste país . Parabéns
Comentário por Nilson Ricarto — 21 de junho de 2008 @ 11:15
Jamais pude imaginar
Que fosse alcançar o dia
Que o querido Cordel
Ganhasse uma Academia
Comentário por Pereirinha — 21 de junho de 2008 @ 12:10
Parabéns Iuri, ainda não tive tempo para te dar os parabéns pelo seu trabalho…muito bom mesmo o que tem feito…
Comentário por Luciano Lira — 25 de junho de 2008 @ 21:30