Terra Magazine

23 de junho de 2008

BA: Festa de S. João incorpora tradições populares

iurirubim às 17:40

Boa parte do Brasil não conhece ou mesmo tem idéia do que significam os festejos de São João para os estados da região Nordeste. Por ser uma região árida, o Nordeste agradece anualmente a São João, mas também a São Pedro, pelas chuvas nas lavouras.

Não é apenas uma exaltação da fertilidade, mas da possibilidade de se permanecer na terra em que o sertanejo nasceu e vive. É celebração da esperança de não abandonar toda uma vida rumo a um futuro incerto numa terra hostil.

E como as chuvas significam boa colheita, é época de mesas fartas, oferecidas de bom grado a quem vier para a festa. Em razão da colheita do milho, as comidas feitas do cereal, como a canjica e a pamonha, regem a tradição.

A maior queixa em relação aos festejos juninos, entretanto, é que eles vêm sendo profissionalizados e descaracterizados enquanto tais.

Acompanhadas muitas vezes do famigerado discurso do “progresso”, muitas festas têm dado lugar a estruturas de megashows e atrações com alta inserção na mídia, que pouco ou nada têm a ver com o local e, pior, fazem dele terra arrasada, pois as tradições amadoras não têm como lhes fazer concorrência.

Por isso escolhi falar aqui de uma experiência diferente de festejo junino, que também incorpora novos elementos, porém em contraposição aos megashows e similares.

Falo do São João de Valentim, um distrito do município de Boa Nova, no interior da Bahia. Lá, a parceria realizada entre o Instituto Casa Via Magia e a comunidade local integra a festa ao meio ambiente, propondo a exploração das trilhas ecológicas da região pelos visitantes.


A rua principal do distrito de Valentim

Intitulada “Um Passarinho me Contou…”, a festa nos dias 21 a 24 de junho resgata antigas tradições como competições de quebra-pote, corridas de saco e de jegue; arrastões em que as pessoas atravessam a cidade, indo de casa em casa; e forró pé-de-serra com trios nordestinos.

E, principalmente, aproveita os festejos juninos para compartilhar a beleza de manifestações culturais locais, cuja apresentação ocorre em diferentes períodos do ano. Então, o São João no Valentim também inova em relações às festas tradicionais, mas faz isso através de um mergulho profundo na sua própria tradição.

Isso tudo num contexto de turismo comunitário, em que as próprias moradias dos habitantes acolhem os turistas.

O distrito do Valentim

O povoado do Valentim, foco irradiador deste projeto, está encravado numa região em que se alternam três ecossistemas distintos - Caatinga, Mata-de-Cipó e Mata Atlântica, embora seu entorno seja formado apenas do terceiro. É cercado de lagos, rios e cachoeiras. O verde de suas serras e o cinza de suas ruas contrastam com o negro e laranja das tendas que, uma vez por semana, tomam a vilarejo nas famosas feiras dominicais.


De Valentim, podemos avisar muito verde e cachoeiras 

No início desta década, um importante acontecimento transformou e remodelou a realidade local: a descoberta da existência, na Mata de Cipó da região de Boa Nova, do ameaçado Rhopornis ardesiacus, o Gravatazeiro, uma das aves mais raras no Brasil.

No ano de 2005, a BirdLife/SAVE Brasil trouxe à região um biólogo para atuar na implementação de diversas atividades ligadas à pesquisa biológica do Gravatazeiro. Desde maio de 2004 - quando o Ministério do Meio Ambiente estabeleceu áreas prioritárias para a conservação, utilização sustentável e repartição dos benefícios da biodiversidade - foi indicada, com prioridade extremamente alta, a criação de uma Unidade de Conservação abrangendo, total ou parcialmente, os municípios envolvendo aquela região.


O Gravatezeiro, ave rara do Brasil, mora em Valentim

A descoberta de um grupo de aves tão rico e único tem se mostrado importante fator para a sensibilização e a conscientização quanto à questão ambiental, resultando em uma infinidade de iniciativas voltadas ao desenvolvimento sustentável da região.

- Quando começamos o trabalho na região, a frase que escutamos de um dos moradores foi: ”este é um lugar miserável”. Com um alto índice de analfabetismo e um dos mais baixos IDHS do Estado da Bahia, a comunidade local não tinha possibilidade de reconhecimento do potencial cultural e ambiental da região - afirmam representantes do Instituto Via Magia.

A economia local era baseada na aposentadoria dos mais velhos e no extrativismo. A pobreza, a miséria e o lixo eram os cartões postais visíveis de um lugar onde a comunidade não reconhecia a sua própria cultura.

Entretanto, um pequeno impulso provocou o ressurgimento de forma vibrante de manifestações que pareciam fadadas ao desaparecimento, como os Violeiro do São Domingos, os reisados do Rio Chumbo, Riacho do Norte e do Lagoão, o Bumba meu Boi de D. Laurinha e o Samba de Roda de D. Dete.

O projeto “Um Passarinho me contou…”, realizado no local há cinco anos pelo Instituto Casa Via Magia, promove um diálogo da tradição e inovação tendo a cultura como mote para o desenvolvimento. Valoriza as riquezas culturais e ambientais na região do Rio Gongoji, tendo como base justamente o distrito de Valentim, em Boa Nova.

Turismo comunitário, trilhas e corridas

Quem, a essa altura, já estiver aproveitando o São João de Valentim, está hospedado numa das casas da comunidade, desocupadas para receber os turistas.

O senhor Orciscio Meira Filho, 41, fez um levantamento em todo Valentim para descobrir as que poderiam receber os visitantes. Espera que umas 200 pessoas fiquem hospedadas em Valentim. Acredita de o fluxo diário gire em torno de 1000 pessoas.

- A hospedagem com comida - almoço, café e janta – custa 56 reais. As pessoas não precisam levar nada. – diz.

A logística segue um formato interessante, pois os ganhos são divididos entre os donos das casas, os organizadores da festa e quem prepara as refeições. “Assim todo mundo ganha”, comenta Meira.


Serra do Timorante, de onde os Jesuítas "já tiraram ouro"

Também responsável pelas trilhas, Meira diz que a região tem cerca de 10 trilhas e exalta as belezas naturais de Valentim, citando Serrra do Timorante, onde, segundo ele, “os jesuítas andaram tirando muito ouro há tempos atrás”.

- A nossa idéia foi fazer um São João ecocultural. Muito melhor do que essas festas de São João onde você não encontra nada de São João que tem por aí – enfatiza.

Já Márcio Pereira dos Santos, pedagogo de 28, é responsável pelo corridas, que nunca deixou de realizar nas escolas do distrito. “A diferença é que agora vamos sair dos muros das escolas e as corridas vão ter uma divulgação bem maior. As pessoas vão participar com mais entusiasmo”, diz.

No São João do Valentim tem quebra-pote, pau de sebo e muitas corridas: de saco, de ovos, do copo… entretanto, Márcio revela que a mais animada é a corrida de jegue.

- É a mais difícil. O jegue é inesperado: empaca, dispara, faz o que quer. Quase sempre alguém cai. Tem muita risada, entusiasmo e até torcida – comenta Márcio.

Para o pedagogo, as corridas são momentos de encontro, de convivência entre as pessoas, de botar o papo em dia. “São coisas que estavam adormecidas. Agora a gente pode ver a alegria nos olhos das pessoas”.

Tradições convivendo numa mesma festa

Os festejos do Valentim têm artistas convidados, muito forró pé de serra e resgatam tradições juninas, como o casamento matuto, apresentação de quadrilhas, escolha de princesas e rainhas do milho e arrastão pela cidade (chamado de “visita do cumpadre e da cumadre”). Isso tudo com direito a muita comida típica!

Mas o povo de Valentim e dos arredores não se deu por satisfeito e quis mostrar – assim, concentradinho no São João – todas as outras tradições que acontecem na região.

Então, no Arraiá do Passarim tem capoeira, vários reisados, bumba meu boi, samba de roda e cantoria de coco.


A Roda de Samba de Dona Dete: dança e religião

Dona Floripes Pereira Andrade vai comemorar duas festas ao mesmo tempo, logo que faz aniversário durantes as festas juninas. Ela e sua mãe, Dona Dete participam da programação do Valentim com a Roda de Samba, que aprenderam desde pequenas, no terreiro de Umbanda. Ela acredita que a exposição no São João vai fazer bem para os festejos e para a própria roda de samba.

- Muitas pessoas abandonaram essa cultura. Não levaram a sério, não conheciam, especialmente os jovens. Olhe bem, eu acredito que vai despertar a curiosidade de muitas pessoas, que vão passar a valorizar mais – diz.

Já o Reisado Riacho do Norte, que existe há mais de trinta anos, quase desapareceu. Os companheiros de Seu João Rodrigues, 76, foram falecendo e ele perdeu a animação de fazer os reis.


Reisado Riacho do Norte: tradição de pai e filho

Desde pequeno, Juarez, filho de Seu João, conviveu com aqueles momentos de alegria nos primeiros dias do ano (as festas de santo reis são comemoradas de 1 a 6 de janeiro). Foi justamente a nostalgia de Juarez que trouxe de volta a animação do pai e, juntos, recuperaram o Reisado Riacho do Norte.

- Voltamos em 2002. Não esqueço quando passamos por uma casa em que a dona, uma velhinha, disse: “tem 20 anos que um terno de reis passou por aqui. Que alegria!”. A gente não pode deixar esse tipo de coisa acabar – afirma Juarez.

Assim, pai e filho; mãe e filha e muitas outras famílias que conservam – contra quase tudo – suas tradições estão mostrando um pouquinho do que sabem aos visitantes de Valentim.

Fotos: Vicente Reyes (1, 6 e 7); Gina Leite (2, 3 e 5); Edson Ribeiro (4) 

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