Sarau desperta poesia lírica na periferia de SP

Desde 2004, o poeta Robinson Padial, o Binho, realiza um sarau todas as segundas-feiras, “faça chuva ou faça chuva” em seu bar (Bar do Binho), no Campo Limpo, zona sul de São Paulo.
No sarau, tem espaço para músicos, cantadores, teatro, cinema (a cada quinze dias sempre passa um curta) exposições e principalmente poesias, próprias ou não.

O sarau movimenta as segundas-feiras do Campo Limpo
O espaço é freqüentado por pessoas de todas as idades, e nessa atmosfera de literatura; musica e artes em geral.
No bar tem uma mini biblioteca, e livros são colocados nas mesas enquanto se come um pastel e se degusta uma breja. A idéia é incentivar a leitura fazendo com que as pessoas “se esbarrem” nos livros.

O idealizador do Sarau em frente na porta de seu bar
Pedi à Raissa, que tem apenas 17 anos e é freqüentadora assídua do Sarau, que fizesse um depoimento sobre o lugar. E é justamente esse depoimento que reproduzo abaixo
Sarau do Binho
Numa esquina, rua de paralelepípedos de um bairro barulhento e sujo que é o Campo Limpo, é no mini palco do bar do Binho que acontece a mágica dos quase esquecidos .O Sarau do Binho é um espaço democrático, onde quem chegar pode se expressar e mais que tudo, pensar no coletivo.
Não é incomum que a partir de um poema surjam discussões sobre quem somos, onde estamos e os porquês de nossa condição social porque estamos numa segunda-feira, depois de um cansativo dia de trabalho escutando atentos as palavras , sejam elas políticas, de amor ou até mesmo satíricas:
"Quando nasci tinha seis
No lugar em que nasci
Sonhava que era tudo nosso,
Tinha os campinhos os terrenos baldios.
Era o meu território .
Já foi interior.
Hoje periferia com as casas cruas.
As vacas com tetas gruas
Não existem mais.
A cerca virou muro.Óbvio.
A cidade cresce,
O muro cresce.Vieram os prédios, as delegacias, os puteiros
E as Casas Bahia.
Também cresci,
Fiquei grande.
Já não caibo dentro de mim
E de tão solitário
Sou meu próprio vizinho.
E de tão solitário
Sou meu próprio vizinho."
Binho
O sarau do Binho é um movimento de resistência aos despreparados faladores, que retratam e enxergam a periferia como um ambiente não propício à arte. O sarau cria em seus freqüentadores sentimento de pertencimento, a seu bairro e sua cidade, com sua poesia lírica e seus cantos de indignação.
No mini-palco vale tudo: rap, contos, samba, piadas, sonetos e também informações sobre outros movimentos culturais, que aliás, são fortíssimos na zona sul de São Paulo.
As paredes do bar já acolheram exposições fotográficas e de pinturas, transformando ainda mais o clima do bar num pólo artístico.
Em 97, Binho, o idealizador do sarau, saiu às ruas retirando placas de políticos, devolvendo-as com poemas e frases. Em 2007, o movimento "Postesia" foi ressuscitado, mas desta vez com os integrantes do sarau participando.
No dia 5 de janeiro de 2007, alguns integrantes do sarau, saíram a pé rumo a Curitiba, realizando saraus pelas cidades que passaram, o nome do projeto é "Expedición Donde Miras" Caminhada Cultural pela América Latina.
No dia 5 de julho de 2008, realizaremos à pé o trecho São Paulo-Cananéia, mais informações no blog da Expedición.
Há quatro anos o sarau do Binho serve de incentivo a novos escritores, dando oportunidades a estrelas desconhecidas.
Para a "família" do sarau, segunda-feira está longe de ser um dia chato.
Raíssa Padial Corso (texto e fotos), 17 anos, poeta e integrante do grupo de fotografia "Um Olhar",em 2009 pretende cursar faculdade de Filosofia