Terra Magazine

30 de julho de 2008

SE: Poeta conta história de cidade em Cordel

iurirubim às 11:41

O município de Nossa Senhora da Glória (SE) ganha um presente especial pelos seus oitenta anos da emancipação política: um cordel contando a história da cidade. Escrito pelo poeta Jorge Henrique, 36, “Glória” Cantada em Versos é lançado nesta quinta-feira (1), às 19h, no espaço Barbosa Eventos.

São 80 estrofes para 80 anos de história de Nossa Senhora da Glória. Todas em septilhas, descrevendo a trajetória do município. As xilogravuras que ilustram o cordel são do artista plástico sergipano Elias Santos.

Durante o lançamento, “Glória” Cantada em Versos será declamado pelo poeta Luís Alves da Silva, o Gauchinho. Natural de Glória e com mais de 20 títulos publicados, Gauchinho foi um dos revisores da obra.

- É uma figura fantástica, não só escreve, com também declama cordéis aqui na praça e na feira da cidade! - afirma Jorge Henrique.

Também foram convidados para o lançamento dois violeiros repentistas de Canidé do São Francisco: “Vem Vem do Nordeste” e seu parceiro.

Cordéis para os estudantes da cidade

O cordel “Glória” Cantada em Versos foi contemplado pelo Programa BNB de Cultura 2008 e faz parte de uma estratégia de mobilização para os 80 anos de Nossa Senhora da Glória.

Cinco mil livretos de “Glória” Cantada em Versos serão distribuídos gratuitamente entre alunos das escolas públicas da cidade (5ª a 8ª séries).

- Quis matar dois coelhos com uma cajadada só. Quis informar os alunos sobre a história do município mas, no fundo, no fundo, minha idéia era que eles ficassem estimulados a produzir cordéis também! – revela Jorge Henrique, que também é professor.

Os estudantes também terão a oportunidade de participar de uma oficina de literatura de cordel. São 40 vagas e o período de inscrições vai de 6 a 8 de agosto. O curso, de 20 horas, é dividido em duas turmas, uma à tarde e outra à noite, e acontece entre 18 e 22 do mesmo mês.

- Justo. Minha idéia com essas atividades era criar clima de comemoração do aniversário entre os estudantes, mobilizá-los para os 80 anos de Glória, cuja data é 26 de setembro - explica Jorge Henrique.

Primeiro cordel

“Glória” Cantada em Versos é o primeiro cordel de Jorge Henrique. Poeta desde os 17 anos e com livro publicado em 2001, Jorge fez uma extensa pesquisa – que durou cerca de cinco anos - sobre a história de Glória e sobre cordel para alcançar este resultado.


O poeta Jorge Henrique "tomou gosto" pelo cordel

- Eu me senti muito bem porque meu primeiro cordel passou pela revisão de três cordelistas de peso. Todos elogiaram muito e aprendi muito com eles. Percebi também uma rigidez em relação à perfeição dos versos - eles são muitos detalhistas quanto à métrica e rima – diz Jorge Henrique.

Os poetas a que o autor se refere são Luís Alves da Silva (Gauchinho – de Glória), João Rubens A. Rolim (João Rolim - Fortaleza) e Luiz Carlos Lemos (Compadre Lemos - MG), que revisaram o cordel.

Ele se lembra de uma observação emblemática do Compadre Lemos, sobre um verso que “tinha feito rimar uma palavra que terminava em AS por outra em AZ”:

- Tire essa coisa pelo amor de Deus! Seu cordel está muito bom. Você não poderia estragar ele por causa deste pequeno detalhe – observou o cordelista mineiro.

O contato com os cordelistas – à exceção de Gauchinho, que é conterrâneo de Jroge Henrique – foi feito todo pela internet.

- Eles nunca me viram. Só nos conhecemos pela internet e acredito que fizemos uma amizade sólida. Eles são muitos bons e muito abertos. São dois amigos virtuais que fiz por conta do cordel - revela Jorge Henrique.

Blogs que citam este Post

29 de julho de 2008

PE: Festivais de inverno “pipocam” no interior

iurirubim às 18:08

Há pouco tempo, fiz uma matéria falando sobre a proliferação de festivais de inverno por todo Brasil. Pois não que Pernambuco, um dos estados brasileiros culturalmente mais ativos, tem uma agenda com bem mais festejos nessa época?

Já rolaram a 9ª Festa das Dálias, em Taquaritinga do Norte, e a 50ª Festa do Estudante, na cidade de Triunfo, além do famoso Festival de Inverno de Garanhuns, que este ano celebrou a sua 18ª. edição.

Agora, entre os dias 1 e 3 de agosto, é a vez da 10ª Festa da Estação, em Gravatá. A 84 quilômetros da capital Recife, o município de 71 mil habitantes, situada no topo da Serra das Russas (Planalto da Borborema,) deve espera receber 200 mil pessoas no final de semana e acrescer à economia local algo em torno de R$ 500 mil. A Festa da Estação deve gerar mais de mil empregos, entre diretos e indiretos.


A Festa da Estação em 2007

A folia acontece no Pátio de Eventos Chucre Mussa Zarzar, centro da cidade, que abriga dois palcos para apresentações de artistas nacionais regionais e locais, além de uma tenda de circo para a mostra de trabalhos artísticos dos adolescentes do Pró-Jovem de Gravatá. Barracas e restaurantes contornam o Pátio.

Além de nomes conhecidos como Jorge Aragão, Nando Cordel, Antonio Carlos Nóbrega, Mundo Livre S/A e A Roda, a Festa da Estação valoriza atrações da terra, como o Grupo do GAMR, a Academia de Dança Patrícia Macedo e Banda de Pífanos Mestre Librina, dentre outros.

Haverá ainda oficinas gratuitas de música, artes plásticas, teatro, literatura, gestão cultural e audiovisual que seguem até o final de agosto.

Gravatá faz parte da Rota Luís Gonzaga. A cidade afirma ter uma das melhores infra-estrutura turística do interior de Pernambuco, com hotéis campestres, Spas, pousadas e um pólo gastronômico com culinária nacional e internacional.

8ª Festa da Renascença

No período de 2 a 4 de agosto, a festa acontece também em Pesqueira, a última cidade do agreste pernambucano e porta de entrada para o sertão. É a 8ª Festa da Renascença.

Situado a 216 km do Recife, Pesqueira é conhecida pela tradição da produção da renda e dos doces. O município também é famoso por abrigar uma importante comunidade indígena: os Xucurus.

Uma aparição de Nossa Senhora, em agosto de 1936, no distrito de Cimbres, intensificou a religiosidade no local e transformou a cidade num ponto de peregrinação para centenas de romeiros. A data de 31 de agosto ficou marcada como o Dia da Aparição.

Os Festejos da Renascença seguem a lógica de da convivência entre atrações conhecidas e artistas locais e tem como principais destaques Geraldo Azevedo, Nando Cordel e a Orquestra Popular da Bomba do Hemetério.

Tanto a 8ª Festa da Renascença quanto 10ª Festa da Estação, bem como os outros festejos já citados fazem parte de um grande programa do governo de Pernambuco, chamado Festival Pernambuco Nação Cultural.

Foto: Divulgação/Fundarpe

Blogs que citam este Post

28 de julho de 2008

Mostra de Filme Etnográfico inscreve até o dia 3

iurirubim às 17:08

Produtores e diretores têm até 3 de agosto para inscreverem seus filmes e vídeos-documentários na 13ª Mostra Internacional de Filme Etnográfico, que acontece de 12 a 19 de novembro, no Rio de Janeiro.

A iniciativa, que existe desde 1993, foi idealizada pela Interior Produções e é coordenada por seus diretores, a antropóloga Patrícia Monte-Mór e o documentarista José Inácio Parente. A 13ª. Mostra conta com o apoio do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular.

O evento é um festival cinematográfico que se articula especialmente com as discussões em torno da antropologia visual, valorizando de maneira especial a documentação audiovisual do patrimônio imaterial, tanto do Brasil, como de outras partes do mundo. Todas as atividades da Mostra são gratuitas e abertas ao público.

O cinema etnográfico traz a diversidade das culturas para a tela e faz refletir sobre a dinâmica da vida social, suas questões e temas. Traz um olhar privilegiado para identidades culturais, singularidades da cultura de diversos povos, num mundo globalizado.

Após a exibição dos filmes, são realizados debates com a participação de especialistas em cinema e ciências sociais. Com o objetivo de formar novos produtores audiovisuais, o evento também conta com o Fórum de Cinema e Antropologia, que apresenta as possibilidades da linguagem cinematográfica para o registro das diversas realidades socioculturais.

O festival já exibiu mais de mil títulos. Apesar do caráter não-competitivo do evento, instituições ligadas à área cultural distribuem prêmios segundo critérios como a importância do tema, desenvolvimento da pesquisa ou roteiro, concepção e realização.

Podem ser inscritos trabalhos de produção recente, em todos os formatos de película, vídeos e DVD. O regulamento da mostra e o formulário de inscrição estão disponíveis no site www.mostraetnografica.com.br.

Mais informações: (21) 2239.4691, info@mostraetnografica.com.br e pro.interior@terra.com.br.

Blogs que citam este Post

26 de julho de 2008

Artistas fazem encontro de malabares em Salvador

iurirubim às 12:20

A leveza dos malabares em suspensão no ar, a beleza da manipulação do fogo. O encontro Malabares na Praça promete uma tarde de sábado diferente para os moradores de Salvador, no bairro do Rio Vermelho, hoje (26), a partir das 16h. Em sua quinta edição, o encontro reúne várias expressões de arte circense, arte urbana e música.

Tudo começou com a vontade de malabaristas de se encontrarem. Eram meados de 2007 e o encontro começou pequeno, uma reunião entre amigos. A partir final do ano passado, ganhou força, passou a incluir outras formas de expressão e virou referência para os artistas de rua da cidade.

- No último encontro que fizemos, em março deste ano, passamos uma lista para saber quantas pessoas estavam presentes e recolhemos 850 assinaturas. E tenho certeza que teve muita gente que não assinou! - diz Laili Flórez, integrante do grupo Malabares Mágicos.

Segundo Laili, que integra o Malabares Mágicos há três anos, é possível encontrar facilmente mais de cem pessoas, entre profissionais e amadores, praticando malabares durante o encontro. “Durante esse tempo, vi o movimento de malabares crescer em Salvador”, afirma.

Composto por sete pessoas, o Malabares Mágicos faz oficinas e apresentações de arte circense. Sentindo o clima favorável aos malabares, o grupo abriu o espaço do encontro para outros artistas que têm identidade com as performances na rua, como grafiteiros, DJs e artistas plásticos.

Os encontros de malabares também dão espaço e promovem os artistas de rua, que muitas vezes não conseguem difundir a sua arte de uma forma consistente - Grupo Malabares Mágicos

- O Encontro virou um encontro de artistas de rua. Hoje tem malabares, palhaços, pintura em tela e em criança (?!), graffiti… mas agora temos também a apresentação de DJs e VJs, do coletivo MiniStereo Público e da banda Canto de Amapô. É o quinto evento que fazemos nesse formato – explica Laili.

Praticamente sem apoios para o encontro, o grupo não desanima e pretende tornar o Malabares na Praça regular, acontecendo sempre no final da cada mês. Mais um malabarismo para quem já está acostumado a viver em suspenso.

Fotos: Acervo Malabares Mágicos.

Blogs que citam este Post

24 de julho de 2008

Baianos servem maior moqueca do mundo

iurirubim às 10:17

São 160 kg de comida, 65 quilos apenas de peixe. Ao meio-dia deste domingo (27), 500 alunos da rede pública do município de Belmonte, no sul da Bahia, vão se deliciar comendo a maior moqueca do mundo.

É tanta comida que a moqueca será servida no estádio municipal da cidade. A panela de barro, feita especialmente para a ocasião, precisa ser carregada, vazia, por nada menos que seis homens.


A artesã Dagmar Oliveira e a panela da super-moqueca

Para ficar pronto no horário, o prato terá que começar a ser preparado ainda na véspera. Brincadeiras, música e sorteios de brindes animarão a manhã das crianças até o esperado momento.

Parte da quarta edição do Festival Gastronômico da Costa do Descobrimento, este verdadeiro banquete será registrado para entrar no livro dos recordes.

- Como não havia qualquer registro anterior de uma moqueca com essas dimensões, vamos filmar tudo e enviar os registros para o Guiness em busca da certificação. No ano que vem, quando pretendemos fazer uma ainda maior, com 100 kg só de peixe, é possível que eles venham aqui e nós passemos a integrar o livro – diz Sérgio Augusto de Morais, proprietário da Congrega Bahia, empresa que organiza o evento.

Dona Dagmar e seus potes gigantes

Com uma boca de quase um metro e meio de diâmetro e 50 centímetros de altura, a panela da maior moqueca do mundo foi encomendada à artesã Dagmar Muniz Ferreira, especialista em produtos de barro com dimensões superlativas.

Há mais de 30 anos à frente da Cerâmica 14 Irmãos, Dona Dagmar costuma fazer potes que alcançam 2 metros e meio e esculturas que giram em torno dos dois metros.


Os potes gigantes de D. Dagmar

- Aqui na minha propriedade, vc acha de tudo: tijolo para construção, telha, piso. Tijolo para churrasqueira. Aqui na minha cerâmica, eu vendo de tudo. Toda peça de barro, estátua, bicho – conta a artesã.

Cada vez que vai fazer uma peça nova, lá vai Dona Dagmar para cima dos bancos que usa como escada.


Na entrada da cerâmica, os famosos potes

As encomendas, como a panela da moqueca, acompanham os moldes “king-size” da cerâmica. Há algum tempo, pediram para D. Dagmar fazer uma torre de pizza.

- Eu disse para ele “olha, eu posso até fazer torta, mas a torre foi feita certa, o terreno é que cedeu um pouco”. Acabei fazendo torta mesmo… É difícil entortar, mas quando pedem a gente tem que fazer, né? O vaso mais diferente que tenho é um vaso torto. Eu tenho um aqui que é todo torto feito um coqueiro – conta Dona Dagmar.

- E de onde veio o interesse por fazer peças desse tamanho?

- O primeiro vaso grande que fiz, de 2 metros e meio, foi um grande desafio. Jânio Natal [ex-prefeito de Belmonte] fez na praça o maior gaiamun do mundo. Aí resolvi fazer o maior pote. E gostei!


O contestado guaiamun de Belmonte: inspiração

As peças produzidas na cerâmica são tão grandes que é preciso que o filho dela e mais sete homens carreguem os objetos numa rede para o forno – Dona Dagmar trabalha com o modelo antigo de forno na cerâmica, de grade com tijolos.

Antiga também é a forma de fazer as peças, sem o uso do torno. “Tudo aqui é feito na mão mesmo”, diz. Conta que ela e as três filhas que a acompanham na cerâmica aprenderam tudo que sabem sozinhas, “metendo a mão na argila”.


D. Dagmar vende "miniatura" a cliente

- Aprendi sozinha e Deus. Deus dá o dom à pessoa – afirma.

Em frente à sua cerâmica, um dos vasos gigantes conta a história de Dona Dagmar, mulher corajosa que teve 19 filhos, dos quais 14 “vingaram”. Daí o nome “Cerâmica 14 Irmãos”.

Nascida em Una e hoje com 68 anos, Dagmar teve o primeiro filho com 13. Para escapar da discriminação social da época, conseguiu “com uns políticos” que alterassem a sua identidade, fazendo com que virasse, num estalar de dedos, “de maior”. Assim, Dona Dagmar viveu 68 anos, mas para o mundo, tem 73.

- Mas lá no meu pote eu coloco a minha idade certinha – diz.


O pote conta a história de D. Dagmar

O “vaso” de D. Dagmar é um pote enorme - 2,45m de altura e 3,40m de circunferência - que fica na frente da Cerâmica 14 Irmãos, em que está escrita toda a história da artesã. Como tudo que ela produz, uma grande história!

Fotos: Blog das Ruas (2 a 6); Divulgação/ Festival Gastronômico da Costa do Descobrimento (1).

 

Blogs que citam este Post

23 de julho de 2008

Ciclistas levam bolo e docinhos para a Av.Paulista

iurirubim às 21:55

Nesta sexta-feira (25), a bicicletada comemora o seu sexto aniversário. Manifestação pacífica contra o uso dos motores e a poluição urbana, a bicicletada acontece uma vez por mês, sempre na última sexta-feira.

Como de hábito, os manifestantes vão se reunir na Praça do Ciclista, às 18h. Diferente mesmo será a comemoração, com direito a som, chapéu de festa, bolo, docinhos, língua de sogra e o que mais rolar numa festa de aniversário.

Todos os participantes estão sendo incentivados a levar algo para a rua, a fim de marcar a data e fazer uma festa colaborativa. “O clima é de aniversário”, diz o texto do convite.

Arte: luna rosa

Blogs que citam este Post

22 de julho de 2008

Contando Guimarães, jovens revolucionam cidade

iurirubim às 10:56

O quanto de ficção cabe na realidade? Contadas por um grupo de crianças e jovens, as histórias de Guimarães Rosa saíram dos livros e passeiam livremente pelas ruas de Cordisburgo, a cidade natal do escritor.

A Cordisburgo que, para o próprio Guimarães, “era pequenina terra sertaneja, trás montanhas, no meio de Minas Gerais”, agora é uma zona de fronteira entre a imaginação e a realidade, onde os personagens, aventuras e amores roseanos podem ser encontrados a cada esquina.

Tudo começou com Miguilim.

Sensível e delicado, Miguilim era personagem central de “Campo Geral”, uma das duas novelas do livro “Manuelzão e Miguilim” (1956). No final da novela, o menino de oito anos ganha um par de óculos e consegue enxergar a beleza que o cerca.

Pois não é que Miguilim, danado, foi o primeiro a sair das páginas e resolver compartilhar com os cidadãos de Cordisburgo a beleza das obras do próprio Guimarães Rosa?

Criado em 1995, o Grupo de Contadores de Estórias Miguilim despertou Cordisburgo para a obra de seu filho mais ilustre. Até então, havia uma certa apatia, uma “distância regulamentar” entre a cidade e os escritos de Guimarães. Distância que caiu por terra quando um bando de meninos e meninas começaram a contar as histórias maravilhosas do escritor mineiro.


Os Miguilins: da ficção para a realidade

- Guimarães Rosa em Cordisburgo é antes e depois dos Miguilins. Depois que começaram a narrar textos, foram encantando as pessoas – conta José Osvaldo dos Santos, o Brasinha, morador da cidade e estudioso de Guimarães.

Brasinha ressalta que a narração revela uma identidade da musicalidade da obra de Guimarães com a fala do mineiro, que ajuda a obra a ser “acolhida” pela população.

- O resultado é um impacto sócio-cultural muito grande. Cordisburgo tinha um certo receio de lidar com Guimarães Rosa. Agora, ele virou uma referência para a cidade. Tem disciplina sobre ele na escola. Tem grupos musicais, de teatro. Colocam os nomes das obras no comércio. Temos aqui um Posto Veredas. Bar Sertão Veredas. Um Bairro chama Burity, outro Sagarana… – opina Fábio Barbosa, um dos primeiros Miguilins, hoje um dos coordenadores do grupo e funcionário do Museu.

A “invenção” do grupo foi iniciativa de uma prima de Guimarães, a Dra. Calina. Ao retornar, já aposentada, para Cordisburgo a médica queria “fazer alguma coisa” pelas crianças da cidade e, ao mesmo tempo, revitalizar o Museu Casa Guimarães Rosa (a casa onde o escritor morou até os nove anos), entregue ao abandono.

A Dra. Calina fundou a Associação dos Amigos da Casa Guimarães Rosa (AAMCGR). Mas o verdadeiro estalo veio ao assistir a uma performance de sua sobrinha, Dora Guimarães, que era contadora de histórias.

Imediatamente, convidou Dora para ensinar as técnicas de narração aos meninos de Cordisburgo que, como guias-mirins, contariam as histórias de Guimarães Rosa no museu.


Dra. Calina: prima de Guimarães Rosa
e idealizadora dos Miguilins

A primeira turma de Miguilins tinha 14 garotos, entre 13 e 18 anos, que começaram a ser apresentados ao universo de Guimarães Rosa e às técnicas de narração de histórias, memorização, e expressão. Recebiam, também, aulas de etiqueta e comportamento para que atendessem bem os visitantes do museu.

Ao final de cada tour, reuniam os visitantes no jardim da Casa e contavam algumas histórias.

A novidade “contaminou” rapidamente a cidade. “Você imagina esse grupo de jovens que narram as histórias. São 60 famílias que começam de repente a saber quem é o Guimarães Rosa”, argumenta Brasinha.

Também os visitantes passam a desembarcar cada vez mais em Cordisburgo para conhecer “os meninos que contam Guimarães”.

Em pouco tempo, a fama dos Miguilins se espalhou a eles começaram a fazer apresentações fora da cidade. Já foram para Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza, Porto Alegre… As viagens do grupo criaram até dificuldades no início. “Tinha uns ciúmes porque as viagens dos Miguilins contavam com a colaboração dos professores, que até remarcavam provas”, lembra Fábio.

- Todas as apresentações são sempre marcantes. Mas a que mais me emocionou foi quando eu tinha 11 anos e apresentei na Academia Brasileira de Letras. Foi a primeira vez que viajei sem meus pais – conta Luana Ferreira, 20, formada na terceira turma e Miguilim desde os 10 anos.

Na época, havia uma restrição de idade e só podiam participar crianças a partir de 13 anos. “Mas eu queria muito”, diz a jovem contadora de histórias. “Fiz de tudo até que minha mãe convenceu Calina. Por um tempo, fui mascotinha dos Miguilins”.

- Tudo que aprendi, aprendi no grupo. O grupo me abriu os olhos para a vida. Sem essa experiência, a melhor que já tive, não seria o que sou hoje. Como Miguilim, aprendi a ter responsabilidade, amadureci. Conheci pessoas, grupos, lugares. Sou suspeita demais para falar. Desde pequena, aprendi a gostar de Guimarães – revela, emocionada, Luana.

Desde 2000, a coordenadora geral dos Miguilins é a própria Dora Guimarães. Vítima do Alzheimer e com idade avançada, Dra. Calina passou para a sobrinha a responsabilidade pelo grupo.

- É muito bonito ver o despertar da cidade em função da obra de Guimarães. Sinto até um orgulho. É uma opção que se faz na vida que pode mudar um punhado de coisas – conta Dora

Hoje existem 35 Miguilins formados e 17 em formação. Cada curso começa com 20 adolescentes e dura de 12 a 18 meses. Somente é formada uma nova turma quando a anterior se encerra.

- o Grupo Miguilim serve como espelho para as crianças mais novas. A Dora e a Elisa [responsáveis pela formação] são muito rigorosas com crianças e têm um ótimo retorno das famílias. O objetivo da Dra. Calina nunca foi preparar contadores de história profissionais, mas melhorar a vida das crianças. Até o apartamento dela em BH ela deixa para os meninos após 2º. grau morarem enquanto fazem cursinho ou faculdade – conta Fábio.

“A maioria deles entra para universidade federal”, afirma Dora, ressaltando a importância da formação para o futuro das crianças. E completa: “vejo como crescem, como desenvolvem auto-estima, como aprendem falar para auditório lotado”.

O estatuto dos Contadores de Estórias permite que os jovens permaneçam no grupo até completarem 3º grau. Atualmente, existem cerca de 45 ex-Miguilins. Muitos deles, depois de formados, voltam a Cordisburgo para devolver à cidade o apoio que receberam. “A gente sente essa necessidade de doar alguma coisa de volta para o grupo”, conta Fábio.

Fotos: Ronaldo Alves

Blogs que citam este Post

21 de julho de 2008

Mostra Visões Periféricas inscreve até dia 26

iurirubim às 10:22

As inscrições para a Mostra Audiovisual Visões Periféricas encerram-se neste sábado (26). Marcada para o período de 3 a 7 de setembro, no Centro Cultural da Caixa (RJ), a Mostra Visões Periféricas reúne o que há de mais inovador na produção nacional de vídeos vinculados a escolas e oficinas de audiovisual, das diversas periferias do país.

Na edição de 2007, a Mostra recebeu 180 inscrições e exibiu 70 filmes. Percorreu ainda diversas cidades em circuito cineclubista, atingindo um público de 3500 pessoas.

Neste ano, o evento faz um panorama dos dois últimos anos da produção audiovisual periférica. Acolhe, também, o Fórum de Experiências Populares em Audiovisual (FEPA), um encontro para discutir especificamente temas pertinentes ao universo dessas experiências.

Além disso, filmes convidados, de qualquer época, completam a programação da Mostra.

Inscrições

As inscrições para a Visões Periféricas se encerram no próximo dia 26 de julho. Para se inscrever, basta preencher a ficha de inscrição no site da Mostra e enviar um DVD (postagem até a data limite).

A produção deve ter, no máximo, 30 minutos e estar vinculada a organizações e coletivos que desenvolvam trabalho de formação em audiovisual voltado para jovens de comunidades populares. Também podem ser feita a inscrição de trabalhos de ex-alunos dessas oficinas.

São aceitos apenas filmes produzidos a partir de 2006 e que não fizeram parte da seleção para a Mostra Visões Periféricas 2007.

Blogs que citam este Post

20 de julho de 2008

SP: contadores de histórias fazem “meia-maratona”

iurirubim às 9:31

No próximo domingo (27), no Sesc Campinas (Espaço Arena), acontece uma inusitada e divertida “prova de resistência”: 30 contadores de história de vários estados brasileiros e mais o público vão se revezar, sem intervalo, para contar histórias durante cinco horas seguidas (11h às 16h).

É a I Meia-maratona de Narração de Histórias - Boi Falô. No cardápio, muitos estilos: contos de humor, musicais, mamulengos, sobre amor e terror. O Palhaço Costelinha (Ulisses Jr.) e o Nosso Boi são os mestres de cerimônias que animam a platéia a participar.

Já está confirmada a participação dos seguintes grupos e contadores: Sebastian Marques, Isiely Aires, Fernando Fubá, Rômulo Montauriol, Grupo Manuê, Suzana Montauriol, Malu das Neves, Trilhares Historias, Cris Mathias, Associação Griots, Paula Negrão, Cia Narradores Urbanos, Elaine Alves, Professora Leny, Sergio Poeta, Geraldo Tartaruga, Márcio Caíres (BA), Glauter Barros (RJ), Grupo Era uma Vez (CE), Regina Machado, Giba Pedrosa, Jose Bocca e Marcos Boi, Grãos de Luz e Griôs (BA), Mauricio Leite (MT), Flávia D’ávila (ES), Paulo Barja, Grupo Conto com Você, Cia Xekmate.

- O prazer de contar e ouvir histórias é único e inigualável, porque permite que o ser humano mergulhe no mundo sem fronteiras da fantasia e alimente a sua narrativa pessoal através da literatura e do patrimônio da tradição oral do nossos antepassados - diz Marcelo Alvo, contador de histórias e um dos curadores do encontro.

A Meia-maratona de Narração de Histórias faz parte da Vila de Histórias - I Encontro de Contadores de Histórias e Agentes de Leitura nas Terras do Boi Falô, que acontece de 18 de 27 de julho, promovida pela Associação NINA (Núcleo Interdisciplinar de Narradores Orais e Agentes de Leitura) e o SESC-Campinas, com a curadoria da Cia Narradores Urbanos.

- Queremos promover a troca de experiência, divulgar pesquisas, além de incentivar a realização de políticas, eventos e cursos culturais e educacionais, que tenham como objetivo de empoderar a comunidade através das narrativas orais e escrita” – explica Ulisses Jr que, juntamente com Marcelo Alvo, faz parte da diretoria da Associação NINA.

O encontro reúne contadores de histórias e interessados mirando ensinar, aprender e promover trocas que dimensionem a relevância e a função social, artística e educacional dessa arte milenar na região metropolitana de Campinas.

O foco do encontro divide-se em três eixos básicos: tradição oral, formação de leitores e memória oral. A programação engloba mesas redondas, palestras, oficinas, relatos de experiências, rodas de histórias, e o convívio entre contadores, agentes de leitura e o público interessado.

Blogs que citam este Post

19 de julho de 2008

Campeonato elege melhores bandas de Teresina

iurirubim às 8:39

Neste final de semana (19 e 20 de julho), 23 bandas de concerto do Piauí vão se enfrentar numa competição musical. É o I Campeonato Estadual de Bandas do Piauí. Em disputa, a oportunidade de competir com as melhores bandas do país no 15° Campeonato Nacional de Bandas e Fanfarras, que será realizado em Setembro, na cidade de Barra Mansa – RJ.

- As bandas musicais de concerto – explica um dos organizadores do concurso, maestro Rocha Sousa – eram antigamente as bandas de coreto, que desceram e se apresentam agora em qualquer lugar. Têm três famílias de instrumentos: os de madeira (flautas, clarinetes, saxofone); metais (trompetes, trombones, trompas, tubas e eufônios) e percussão (prato, tambor etc.). Têm entre 25 a 45 integrantes, a depender de sua formação.

A partir das 16h deste sábado, a Praça do Fripisa será tomada por cerca de 700 músicos. Ao longo desses dois dias, eles vão se exibir para um júri especializado que avalia critérios como afinação, postura, uniformidade, regência, peça, dentre muitos outros, nas categorias infanto-juvenil, juvenil e sênior. Cada banda tem 15 minutos para apresentar duas músicas.

- Aqui no Nordeste, tem muita disputa de compadre. Cada um diz que é melhor que o outro dentro em seus próprios parâmetros. Com um regulamento único, todos têm que se enquadrar – diz o maestro Rocha Sousa, um dos coordenadores do campeonato.

O maestro explica os benefícios da competição:

- A gente quer fazer um pouco como nas competições esportivas em que mesmo as escolas das favelas vão com os melhores uniformes. Com banda isso não acontece. Então, o espírito de competição fazer mesma coisa que no esporte. A banda representar a escola, a comunidade e com certeza cada uma delas vais e esforçar para fazer isso da melhor forma - argumenta.

Presente como jurado no campeonato nacional em 2007, o maestro afirma que “musicalmente, estamos mais ou menos entre os melhores colocados - entre o terceiro e o quinto lugares”. Mas insiste na tecla da apresentação: “Não conseguimos mudar a cabeça dos políticos, gestores em relação à apresentação das bandas. Nisso ainda ficamos muito para trás”.

Entretanto, a realização de um campeonato estadual, pela primeira vez provoca algumas mudanças de atitude. “Já mudou: teve banda que cobrou pedágio na rua, algumas escolas investiram em melhores uniformes. Desta vez vai ser diferente”, afirma Rocha Sousa.

Mas o campeonato também serve para promover o intercâmbio entre os músicos e aprimorar métodos e técnicas musicais. “Tem também esse espírito de congraçamento”, destaca o maestro.

Alheio às disputas, o público piauiense agradece. O campeonato é uma ótima oportunidade para assistir a um tipo de música pouco comum, mas de muita qualidade. “Aqui em Teresina, temos uma boa tradição de bandas”, diz o maestro Rocha Sousa. “Estamos no mesmo nível do Sudeste”.

20 anos de educação musical

Dos grupos participantes, 21 são mantidos pela Prefeitura Municipal de Teresina, através da Fundação Cultural Monsenhor Chaves. A maioria faz parte do projeto Bandas-Escolas, que, em 2008, comemora 20 anos de permanente atividade como um dos mais importantes centros de formação de instrumentistas para a música do Piauí e região.

Foram mais de quatro mil alunos atendidos pelo projeto, cuja matrícula regular registra 750 alunos atualmente.

- A gente tinha uma tradição muito forte de bandas até os anos 60. Lembra do Chico? “para ver a banda passar”? Mas na década de 70 começou a cair no Brasil inteiro. Aí um prefeito da nossa cidade, em 1988, lançou um olhar nostálgico para resgatar essa tradição. Começou com 10 bandas-escolas – eu fui um dos primeiros integrantes. Aliás, são os primeiros alunos que hoje movimentam o projeto – lembra o maestro.

Ele explica que a iniciativa foi responsável pelo crescimento musical da cidade e a formação de um cenário musical paralelo.

- As pessoas de fora ficam abismadas quando conhecem a qualidade musical de Teresina. Poucas cidades fora do Sudeste têm clubes de choro. Nós temos um aqui, temos bailes tradicionais. Teresina tem três big-bands!

Rocha Sousa defende que, além de revelar talentos, o processo de formação musical é importante porque atinge diretamente uma faixa etária suscetível a várias formas de violência e cuja densidade populacional é muito alta em Teresina. “É uma bela forma de ocupar os jovens”, diz.

A prefeitura de Teresina vai dobrar o número de bandas do projeto em 2008. Neste momento, estão sendo licitados equipamentos para mais 20 bandas. “Estamos com o mesmo espírito de 20 anos atrás”, comemora o maestro Rocha Sousa.

Blogs que citam este Post

Posts mais antigos »

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol