Terra Magazine

1 de julho de 2008

Homem “comido por onça” surpreende povoado

iurirubim às 14:10

Quando eu estava fazendo a matéria sobre o São João do Valentim, tive a oportunidade de conversar com o Seu João Rodrigues Ferreira. João e o filho, Juarez Rodrigues, comandam o Terno de Reis do Riacho do Norte, que iria se apresentar em Valentim.

Foi justamente Juarez que, imediatamente antes de me colocar para falar com Seu João, me disse que ele também é conhecido como João Araponga ou João da Onça.

- E por quê? Qual é o motivo desses apelidos? - perguntei, com a curiosidade aguçada.

- Aí você vai ter que pedir para ele te contar essa história – disse.

Seu João tem 76 anos e animação de 20. Embora goste de fazer o terno de reis (celebrado nos primeiros seis dias de janeiro), seu nome veio em deferência ao Santo, logo que João nasceu dia 24 de junho.

Já os apelidos… não resisti e, ao final da entrevista sobre o Terno de Reis do Riacho do Norte (que pode ser conferida logo abaixo, ainda neste post), perguntei-lhe qual a história que dava origens aos apelidos.

- João Araponga é porque eu gostava muito de caçar araponga. Sempre estava caçando aí foram chamando João Araponga e foi ficando – conta Seu João.

- E o outro?

- Ah, esse é porque acharam uma vez que eu tinha sido comido por uma onça – diz, para o meu espanto.

Foi justamente numa das caçadas por arapongas que Seu João ganhou o apelido. Certa vez, ficou muito tempo no mato em busca da ave.

Acontece que um conterrâneo de João encontrou no chão da mata uma perna, um revólver 38 e uma araponga. Aí voltou para a cidade dizendo que uma onça tinha comido um homem.

- Aí botaram os home para me procurar na mata. Procurando o home que a onça tinha comido e que era eu! – solta uma sonora gargalhada – Mas você veja que eles não prestaram atenção porque eu nunca usei revólver, só usava espingarda – diz.

Os homens não acharam nem a onça nem Seu João. Ele conta que, quando chegou na praça, “tinha umas duzentas pessoas na rua, esperando o caixão chegar”. A multidão arregalava os olhos e abria a boca de espanto à medida em que ele caminhava para sua casa. Chegando lá, encontrou, em prantos, a cunhada.

- A onça te comeu, irmão? - ela disse.

- Deixa de bestagem! Você já viu onça comer um home inteiro? Eu tô é vivo! - me fala João, sem conter a risada.

Terno de Reis do Riacho do Norte

Embora a história do Terno de Reis Riacho do Norte não seja tão espetacular quanto a de Seu João da Onça, ela é muito emocionante também.


Reisado Riacho do Norte

Não dá para saber exatamente desde quando existe o reisado. “Desde quando eu me entendi por gente, eu acordava de madrugada com o pessoal cantando na porta de casa”, diz Juarez, filho de João. “Meu pai é reisero antigo”, completa. Nas palavras do próprio João: “Tenho 76 anos e todos meus ritmos comigo”.

- Moço, eu peguei de cantar reis com 18 anos. Comecei sair com meus companheiros e nunca esqueci do meu acompanhamento de reis. Cantava reis seis dias e seis noites, não era que nem agora que só sai de noite. Quando nós saía, nós pegava o destino de longe. Onde dava sono, a gente dormia um pouco para depois continuar a farra – diz.

- Meu pai sumia no mundo por seis dias – lembra Juarez.

Conta Seu João que os seis dias de reis começavam na virada do ano, quando o grupo ia visitar uma casa de algum conhecido. Não existia um roteiro definido mas, cientes da tradição, os donos das propriedades já ficavam na expectativa ou descobriam que tinha chegado a sua vez.

- Nós ia cantando reis. Tem o mestre que canta o reis e a rapaziada tudo responde. Quando chegava nas casa e ficava cantando do lado de fora. Quando nós acaba de cantar o reis, o dono abre. Aí é samba! - lembra.

Só que há uns 20 anos, a tradição começou a perder as forças. “Meus companheiros foram morrendo. Fiquei sozinho, fiquei destreinado”, diz Seu João. O filho Juarez dá outra perspectiva: “De 1985 pra cá acabou esse negócio de reisado. Ninguém queria vir mais na cidade, tinham medo da violência”.

E tudo teria morrido se não fosse a nostalgia e a promessa de Juarez Rodrigues.

Foi a saudade daquela animação dos primeiros dias do ano que fez com que Juarez propusesse ao pai voltar a fazer o terno de reis.

- Resgatei porque era apaixonado quando era pequeno. Aí um dia, perguntei: ‘Ô, pai, se a gente criar um terno de reis, você teria coragem de sair?’. E ele respondeu: ‘Ah, eu vou’. Como eu tinha guardado os instrumentos antigos, a gente começou a sair de novo em 2002.

Juarez explica que eles saem todo dia, de primeiro a seis de janeiro, às 18h e só voltam às oito da manhã. São 11 foliões (homens e mulheres), todos paramentados de reiseiros. Umas 60 pessoas acompanham o cortejo noturno que vai de casa em casa convidando as pessoas para cantar o reis.

- No dia seis, a gente começa mais cedo, às três da tarde. Celebra missa na fazenda e à noite tem a ladainha de santo reis. Nesse dia vem gente de toda a região. Chega a ter umas 400 pessoas. É preciso fazer barraca na fazenda para receber todo mundo – explica Juarez.

- Aí todo mundo aprecia, gosta da folia – diz Seu João.

Quando penso que acabou, Juarez diz:

- Moço, tem uma história: Meu pai teve um problema de câncer e fiz uma promessa para Santo reis. Se no ano seguinte tivesse bom, eu ia sair cantando reis, fazer festa, matar boi e dar comida ao povo. Naquele ano, meu pai em janeiro ia para Itabuna fazer radioterapia. Não ia poder estar presente no Dia de Santo Reis, mas me mantive fiel à promessa.

E não é que Seu João ficou bom? “Nem remédio ele toma hoje. A gente teve uma graça”, conta emocionado.

Foto: Vicente Reyes

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15 Comentários »

  1. Link pro Wikipédia para as “palavras difíceis” é brincadeira né… pô, coloca um link pra alguma fonte confiável vai… Wikipédia é brincadeira.

    Comentário por Ricardo — 1 de julho de 2008 @ 15:06

  2. Ótimo post.
    A cultura brasileira é rica e muito interessante. O interior está cheio de gente simples como o seu João que faz do nosso país tão encantador como o é.
    =]

    Comentário por Marianna — 1 de julho de 2008 @ 15:51

  3. São histórias comoventes e estórias gostosas de escutar.
    Faça sempre assim, parabéns.

    Comentário por jesus antonio de lisboa filho — 1 de julho de 2008 @ 15:52

  4. adorei a materia.
    acho mesmo q esta na hora de resgatar nossas tradiçoes.
    o brasil eh um pais rico em folclores e tradiçoes,q infelizmente estao caindo no esquecimento.
    parabens.
    um abraço a todos

    Comentário por maria aparecida — 1 de julho de 2008 @ 16:12

  5. ISSO É QUE É COISA DA GENTE, CONTOS QUE NOS ENCANTAM, E NOS ENCHEM DE ALEGRIAS OS NOSSOS CORAÇÕES, QUE DEUS QUEIRA QUE EXISTAM OUTROS JOÃO DA AROPONGAS OU JOÃO DA ONÇA, POR ESSE BRASIL AFORA.

    CHEGA DE POLITICOS CORRUPTOS, LADRÕES SAFADOS, SEM CARÁTER, SEM DIGNIDADE, SEM ESCERUPULO,SEM TER O DIREITO DE DIZER QUE SIMPLESMENTE QUE É GENTE, IGUALZINHO OS SEUS JOÃOS DOS BRASILEIROS, QUE SABEM TER OS QUE TODOS OS POLIITICOS NUNCA OS TEVE E NUNCA OS TERÁ.

    PARABENS SEU JOÃO DA ARAPONGAOU JOÃO DA ONÇA, QUE DEUS OS ABENÇÕE, PARA TODO O SEMPRE.

    Abraços e Beijos nos fundos dos vossos corações do

    Neif Baracat.
    (62) 3941-1313..

    Goiânia. Goiás, sou advogado.

    Comentário por Neif Baracat — 1 de julho de 2008 @ 16:19

  6. No interior do brasil , tem historias maravilhosas , que não perde para menhum documentário dos grandes centros urbanos !!! no interior o cultura popular é muito rica , desde as historias os causos as lendas as crenças e a simplicidade e por ai afora este é o nosso pais Uma maravilha para se viver .
    Parabens !!!!! Yuri Rubim

    Comentário por geraldo — 1 de julho de 2008 @ 16:26

  7. IURI.

    JORNALISMO VERDADEIRO É ISSO AÍ, SEM SANGUE, SEM DESGRAÇAS ALHEIAS, SEM AGRESSÕES AOS OLHOS DE QUEM QUER QUE AS LEIA, MUUITO PELO CONTRÁRIO, SÃO COLIRUIOS PARA OS OLHOS DE QUEM TEM A OPORTUNIDADE DE LER ” TAMANHA REPORTAGEM” SEM PRECISAR APELAS PELA VIOLÊNCIA.

    PARABBENS, MESMO DE TODO MEU CORAÇÃO, PORTANTO, TE DEIXO UM BELO NO SEU CORAÇÃO.

    Neif Baracat
    advogado-OAB.GO. 3.399.
    (62) 3941-1313. .

    Comentário por Neif Baracat — 1 de julho de 2008 @ 16:27

  8. João, José, Juarez… Todos vocês! Que encanto tem este Brasil interiorano que mal sabe o que é globalização, terrorismo, imigração ilegal… Tantos termos problemáticos que o mundo criou sem reconhecer a solução da simplicidade. Agora para o mundo chegar na paz interior destas pessoas talvez precise nascer outra vez. Sinto saudade desta pureza, mas sinto orgulho por fazer parte desta história. Parabéns, colega!!! Sua maneira de contar foi linda demais!

    Comentário por Mariana Dahre — 1 de julho de 2008 @ 16:49

  9. Muito interessante esta reportagem, Parabéns!!! Graças a Deus ainda existem pessoas capazes de mostrar ao público a simplicidade do povo brasileiro.

    Grande Abraço!!!

    Comentário por Marcos — 1 de julho de 2008 @ 16:59

  10. Obrigado, pela belissima reportagem que acabei de ler, parabens para Seu João e seu Filho Juarez que os senhores permaneçam no próposito de manter as tradições e folclore brasileiro de pé, não podemos esquecer das nossas festas e tradições, o Brasil tem que ser maior que a globalização. Seu joão, Juarez parabens mais vez pela historia linda que acabei de ler.

    Comentário por Marcos de Sousa Ayres — 1 de julho de 2008 @ 17:05

  11. Achei interessante o título da materia.
    Aqui em Cáceres-MT, aconteceu de verdade, pai e filho estavam pescando na Reserva Taiamã. A onça atacou a barraca e pegou o filho. O pai conseguiu fugir e pedir ajuda. O filho morreu.

    Comentário por Maria Moreira de Carvalho — 1 de julho de 2008 @ 17:13

  12. Muito interessante essa história e ..
    Gostei.
    Abraço

    Comentário por Giovania — 1 de julho de 2008 @ 17:14

  13. A história que tenho de onça prá contar é muito mais interessante.
    O personagem dela é meu cunhado, que apesar do histórica caçada de uma onça.
    Tem uma outra história que lhe dá o apelido de Zé do Choque.

    Se houver interesse nestas histórias é só solicitar no e-amil acima.

    Hélio

    Comentário por Hélio Malechesk — 1 de julho de 2008 @ 17:32

  14. que surpresa ver esse rostinho risonho! um abraço, tudo de bom!

    Comentário por Olívia — 1 de julho de 2008 @ 17:37

  15. etia coisa boa,,,,ajente pode vive assim tronquilo trabaino poco cumeno bem e cantano porai….ta bao.abraço.

    Comentário por joao das neves — 1 de julho de 2008 @ 18:12

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