
Já se imaginou no palco, interpretando um personagem ao lado de sua mãe? Essa inusitada convivência de jovens com seus pais tem provocado a redução de violência doméstica em vários lares de Salvador.
Parte da mostra de artes cênicas A Cidade Cria Cenários de Cidadania, a peça Diálogos põe em cena pais e filhos, tias, sobrinhos e as várias formas de parentesco que pudermos imaginar, até mesmo sem laços sanguíneos.
A mostra é promovida anualmente pelo Centro de Referência Integral de Adolescentes (CRIA) e acontece de 18 de agosto a 3 de setembro, sempre de segunda a quinta, às 18h30, no Teatro SESC/ SENAC, no Pelourinho. Diálogos é apresentada nos dias 28 de agosto e 1 de setembro. Saiba mais.
A peça nasceu de uma demanda das próprias famílias dos jovens que participavam do CRIA. Por volta de 1999, algumas mães se manifestaram. Queriam ficar “espertas” que nem os filhos. Os pais presentes não ficaram atrás: “êpa, também quero participar”, diziam.
Dessas demandas surgiu o projeto “Diálogo na família: uma arte”, realizado no ano 2000, que envolvia a produção de um vídeo, a peça e um diário (no qual os jovens escreveriam cartas para dizer o que não tinham coragem de falar diretamente aos familiares). Desde então, a peça “Diálogos” é encenada anualmente pelos jovens e suas famílias, no grupo teatral Pais e Filhos.
A experiência partilhada por essas famílias nos ensaios e no palco dá a todos a oportunidade de se relacionarem sob uma nova perspectiva.
- Aqui todos são colegas de teatro. Um tem que aprender a lidar com o outro, ouvir sua voz como um colega de grupo. Não permito que nenhuma mãe fique reclamando com o filho. Os filhos, por sua vez, têm a oportunidade de ver as mães em outro lugar e com outro papel. Podem ver a mãe se arriscando, dançando, pagando mico – conta Carla Lopes, diretora do espetáculo.
A jovem mãe Uiara Gonçalves, 25, explica que também deixou as surras de lado: “Fiquei mais paciente. Parei de bater. Aprendi a sentar, conversar, não já ir reclamando. A peça é um exemplo para mim em muitas coisas”.

O garoto Yuri (centro) passou a conversar mais com a mãe
Filho de Uiara, Yuri José Santos, de apenas 10 anos, concorda: “Antes, a gente não conversava”. Em um breve momento da peça, ele “faz o papel” de filho de Uiara. “No começo foi assim difícil, não podia fazer algumas coisas. Mas depois ela virou parceira de grupo, igual a todo mundo”, confessa o pequeno Yuri.
A diretora Carla Lopes explica que, ainda que a questão da violência doméstica não esteja diretamente explícita no currículo de formação dos atores, é tema freqüente. “Acaba aparecendo, de forma muito natural”, diz.
Segundo ela, os filhos trazem mágoa sobre o assunto e muitas mães acham engraçado. “É aquela história de ‘fui educada assim, pé de galinha não mata pinto’. O conflito já surge aí”.
- No processo de preparação para o espetáculo, há todo um trabalho para que as pessoas se vejam, se reconheçam. A princípio a gente começa a dar risada, depois chora, e depois conversa sobre a violência e a falta de diálogo dentro das famílias. Discutimos se a criança é um ser a ser tutelado ou um ser de direitos – conta a diretora.
Essa aproximação promovida pela peça e a criação de uma nova cumplicidade no universo do teatro tem transformado a vida dessas “trupes familiares”, em cujos lares há muito mais “Diálogos” e menos agressividade.
Quando a violência dá lugar às palavras
A violência esteve muito presente na vida de Maria de Lourdes, 59. A depender da ocasião e da desobediência, seus filhos Ciro, 23, e Fernanda, 17, apanhavam de cinto ou mesmo com uma tábua.

A família de atores agora resolve tudo na conversa
- Eu achava que filho era só para obedecer. Que pé de galinha não mata pinto. Dava surra mesmo. Queria que me entendessem como minha mãe fazia. Eu dizia para eles: ‘eu bato hoje para a polícia não querer bater amanhã’ – revela Maria de Lourdes, carinhosamente chamada de Lurdinha.
Antes deles, a primeira filha, hoje com 28 e criada pela irmã de Lurdinha. “Aquela criança foi uma benção que veio de uma tragédia”. Pouco afeita a meias palavras, D. Maria de Lourdes revela: a tragédia foi uma violência sexual, sofrida há quase trinta anos.

D. Lurdinha mostra, brincando, a tábua que usava para
"dar bolo" nos filhos
Lurdinha explica que tentava educar os filhos seguindo o modelo severo de sua mãe, que “falava com a gente só com o olho”. Criados na base da linha dura, “nenhum dos quatro filhos e deu para errado”. “A gente era muito pobre mesmo. Passava até fome. Mas nunca pegava nada dos outros”, lembra Maria de Lourdes.
- Agora eu estou achando que eu era errada. Eu tô aprendendo muito a lidar com os meus filhos, tô me reeducando como mãe – conta, transbordando de orgulho.
Até chegar a essa conclusão, o caminho foi longo. E passou pela entrada, há três anos, da filha mais nova no Centro de Referência Integral de Adolescentes, o CRIA.
Passando por formações e atividades específicas sobre os direitos da criança e do adolescente, Fernanda começou a questionar a violência como forma de educação.
- No começo, quando minha mãe vinha para cima de mim, eu gritava: vou te denunciar no ECA [Estatuto da Criança e do Adolescente]! Eu tenho meus direitos! – fala, achando um pouco de graça.
E D. Lurdinha respondia:
- Enquanto você estiver no meu teto, eu é que mando.

Fernanda e Ciro: orgulhosos da "virada" da mãe
Aos poucos, Maria de Lourdes passou a freqüentar as formações e atividades da ONG voltadas para as famílias dos jovens. “A última vez que ela me bateu” – contabiliza Fernanda – “foi no meu segundo ano no CRIA. De lá pra cá, nunca mais”.
De repente, atriz
Lurdinha e o filho Ciro passaram a ser atores e colegas de teatro no começo de 2008.
Segundo Lurdinha, ela foi parar no grupo Pais e Filhos por acaso. Ao levar Ciro para fazer a sua segunda seleção para o CRIA (não havia passado na primeira vez), ela foi informada que os dois haviam sido selecionados.
- Como assim nós dois? Eu não posso! Não tenho tempo. – contestou, surpresa.
A participação no grupo de teatro, às noites de quinta e aos sábados, não veio sem sacrifícios. Lurdinha teve que negociar com a diretora da escola em que cursa o segundo grau a liberação das faltas nas quintas e estudar as lições por conta própria. A presença no CRIA aos sábados também significou uma redução no orçamento mensal, logo que não pôde mais fazer faxina (Lurdinha é diarista) nesse dia.
A mãe de Ciro explica o que a motiva para enfrentar feliz todas essas dificuldades:
- Estava vendo muito pouco os meus filhos. Eu sempre fui pai e mãe para Ciro e Nanda. Como nunca tive a minha mãe presente nas coisas da escola, faço de tudo para ficar perto deles. Até fazer capoeira e jogar bola. Ciro sempre queria que eu fosse jogar com ele. Uma vez levei uma bolada. Fiquei oito dias com a boca inchada. Parecia que eu tinha apanhado – conta Lurdinha.

No ensaio (esquerda para direita): D. Lurdinha, Uiara, Ciro
Sempre bastante ativa, Lurdinha adaptou-se rapidamente à nova empreitada: “Fico muito à vontade. A peça é o meu dia-a-dia. Quase tudo que acontece lá, acontece aqui comigo”.
A convivência diária de Lurdinha com o universo dos filhos mudou muita coisa em casa. “Agora estou aprendendo a valorizar mais esse tempo que passamos juntos. Conseguimos ter mais diálogo”, conta Fernanda.
E sobre o desempenho de D. Lurdinha como atriz?
- No começo, a gente ficava com vergonha. Minha mãe fala muito! Mas agora o assunto aqui em casa são as nossas cenas – abre o jogo Fernanda.
Mais experiente na vida de atriz, Fernanda muitas vezes “dirige” o irmão e a mãe quando ensaiam os textos em casa.
Ciro, que divide o palco com D. Lurdinha, é ainda mais enfático:
- Minha mãe dançando é muito engraçado! Eu ficava com vergonha de ver minha mãe errando e sem querer que reclamem com ela. Agora, ela é a minha mãe, mas também é minha colega. Estou muito orgulhoso dela – diz.
O jovem ator faz malabarismos para “tomar conta” da mãe: “Em cena, tem um momento que fico cantando e olhando para Fernanda na platéia, para saber se minha mãe está fazendo tudo direito”.
Efeito Cascata
A redução da violência doméstica trazida pela peça “Diálogos” não se limita às famílias envolvidas diretamente no espetáculo.
- Agora eu dou conselhos para amigos e vizinhos. Para que eles também aprendam a educar melhor seus filhos. Eu tive essa oportunidade, né? Agora tenho que passar isso para os outros também – diz D. Lurdinha.

D. Lurdinha e Ciro aprenderam a se respeitar como colegas
- Se a gente aprende de um jeito, é daquele jeito que a gente passa para o outro. E sempre aprendi tudo na minha vida na base da violência. Hoje quero mostrar para outros jovens que não precisa ser assim – opina Ciro.
Fernanda e Ciro levam tanto as técnicas de teatro quanto o gosto pelo diálogo para a escola e a comunidade em que vivem.
- Tudo é uma questão de argumento. Aos poucos, eu e meus colegas estamos convencendo os professores que aluno também tem espaço de falar – explica a secundarista.
Ela e o irmão coordenam um grupo cultural comunitário, chamado Lua Nova, no bairro onde moram (São Lázaro). “Eu fui aluna do grupo e agora sou uma das coordenadoras”, conta, orgulhosa, Fernanda.
Atualmente, ela está adaptando para o grupo a peça “O sonho acabou, mas tem brigadeiro”, escrita por quatro ex-estudantes do Centro de Ensino Ave Branca em Taguatinga.
Fotos: Acervo CRIA (1, 2, 6); Iuri Rubim/ Blog das Ruas (3, 4, 5 e 7)