“Tenho mais valor que a carta de Caminha”

Aos 57 anos, 47 dedicados ao mamulengo, José Lopes da Silva Filho, o mestre Zé Lopes é, talvez, o mamulengueiro mais conhecido do país. Artesão, artista e militante do mamulengo, mestre Zé Lopes reivindica reconhecimento para o ofício e o uso dos bonecos para a educação e a promoção da cidadania.
Mamulengo é um boneco de manipulação muito comum no nordeste do país. Diferentemente das famosas marionetes, esse boneco da tradição popular nordestina é manipulado por baixo, diretamente pelas mãos ou através de varas. Em geral, é feito de tecido e uma madeira leve, como o mulungu.
A explicação mais aceita para a origem do nome “mamulengo” é que ele seria uma derivação de “mão molenga”, que seria a agilidade que o manipulador teria na moqueca para dar vida e movimento aos bonecos.

Mestre Zé Lopes se interessava pelos mamulengos desde criança. Influência dos tios Chico e Zé, que também brincavam e o levavam para assistir a todas as apresentações nas redondezas. Fez seu primeiro boneco aos 12 anos de idade.
Entre os primeiros mestres que conheceu estão Zé Grande, Severino da Cocada, Luis da Serra e Zé di Vina, de quem mais tarde seria contramestre.
Algum tempo depois, reproduzindo a sina da maioria dos jovens nordestinos, teve que partir de sua terra em busca de melhores oportunidades. Foi para São Paulo, passando primeiro por Recife.
- É uma história triste. Meu pai queria que eu fosse engenheiro mecânico. Morreu quando eu tinha quatro anos. Éramos treze e minha mãe não podia criar os filhos – conta o mestre.
Lá morou por doze anos. Trabalhou numa metalúrgica, numa fábrica de móveis, numa serraria e numa fábrica de ração. Voltou a Pernambuco no final de 1981, quando recomeçou a brincar de mamulengo, embora nunca tivesse abandonado por inteiro os bonecos. “Eu não troco Glória do Goitá por 10 São Paulos”.
No dia 2 de dezembro de 1982, na festa de Nossa Senhora da Conceição, junto com os mestres Zé Sales, Zé da Banana e Zé di Vina estreou em Glória do Goitá o Mamulengo Teatro do Riso. Desde então, viaja pelo Brasil e pelo mundo como embaixador dessa tradição do nordeste brasileiro.

Recentemente, coordenou o Centro de Revitalização e Memorial do Mamulengo, em Glória do Goitá (PE).
- Hoje o mamulengo significa tudo para mim. Fazendo uma adaptação do que diz o meu amigo João do Pife, eu faço mamulengo, brinco mamulengo, vendo mamulengo, vivo mamulengado – brinca mestre Zé Lopes.
Vive principalmente do mamulengo, seja das apresentações no teatro de bonecos, seja da própria venda destes. “Por causa do mamulengo, eu viajo muito, conheço muitas pessoas, faço muitos amigos. Mais vale amigo na praça que dinheiro na caixa, não é mesmo?”, diz.
Para o mestre, no mamulengo não existe adulto. Costuma dizer que o mamulengo transforma todos os adultos em crianças. “Quando olho de trás do pano, só vejo um bando de crianças na platéia”, conta.
- Os adultos viram um bando de crianças brincando de bonecos. É engraçado porque, quando há uma confusão na história, durante uma apresentação, quem faz o papel dos adultos são as crianças, que dão os depoimentos e esclarecem as coisas. Os adultos ficam lá, todos abestalhados – diverte-se o mestre Zé Lopes.
Consciente do efeito que os bonecos têm em crianças e adultos, Zé Lopes reivindica o maior uso deles em campanhas educativas e outras formas de promoção da cidadania.
- Faça um teste em qualquer lugar. Faça uma apresentação na rua sem bonecos e veja se para alguém para ver. Agora, no mesmo local, arme uma barraca de mamulengo, bote um boneco bem safado, contando tudo. Se pararem ali 50 pessoas, menos de uma hora depois cerca de 500 já estarão sabendo daquilo. Temos que levar os bonecos para as salas de aulas, para as campanhas ambientais, de saúde – reclama.
O mestre artesão chega a dizer que os bonecos tiveram influência na colonização brasileira.
- Já ficou comprovado que os bonecos chegaram aqui para chamar a atenção dos índios. Tanto que esqueceram o tupi-guarani e começaram a aprender o português para o trabalho. Mas quando os bonecos foram para as ruas e fazendeiros e padres descobriram a magia deles, ficaram com raiva – abre a polêmica o bonequeiro.
Para Zé Lopes, ser um mestre popular significa antes de tudo ter um compromisso com a sua arte e principalmente, com a perpetuação desse saber. “Ser mestre é uma responsabilidade. Tem que ter compromisso mesmo diante de situações difíceis de resolver”, diz.
Imbuído de seu papel de liderança, mestre Zé Lopes sugere estratégias para o reconhecimento e a continuidade dessa tradição popular.
- Acho que é obrigação do Brasil e do mundo me pagar. Tenho 47 anos de experiência e não quero morrer com essa experiência dentro de mim. Eu tenho que passar isso agora, agora. Eu tenho mais valor do que a carta de Pero Vaz de caminha. Porque eu estou vivo.

Zé Lopes propõe que mestres do mamulengo recebam um salário, com o compromisso de transmitir o seu conhecimento, a obrigação de ensinar regularmente o fazer e as técnicas a outras pessoas.
Segundo o mestre, tem se mamulengueiro virar uma profissão, os jovens serão atraídos. “Funciona como um espelho: tem que ter sucesso para que os outros queiram também”, argumenta.
Sugere também que todo esse poder do mamulengo e da cultura local seja usado para que as cidades nordestinas gerem mais receita e que a sua juventude não precise, como ele precisou, deixar a terra natal.
- Não precisa mais sair. Cada um deve descobrir a potencialidade da sua cidade. Hoje se ganha dinheiro até com o lixo. Os jovens têm que se ligar na cultura. Com um pouco de empenho, vão ganhar dinheiro em qualquer cidade, por menor que seja.
O mestre popular lembra que em Glória do Goitá não há somente o mamulengo, mas também cantadores de viola e expressões populares como o Cavalo Marinho e mesmo casas de farinha artesanais.
Com clareza de economista, descreve rapidamente uma cadeia produtiva com base na cultura:
- É uma bola de neve. Os turistas vêm conhecer essas coisas e dá aquela fome. Daí comem um assado ou uma boa macaxeira. Vai ganhar a pousada, o hotel. Vai ganhar rapaz que vende picolé. Até a prefeitura da cidade vai ganhar dinheiro. Basta que o prefeito, que os políticos resolvam valorizar a cultura da sua terra, investir na cultura de sua cidade - explica.
Entretanto, como diz o mestre, “a turma aqui não sabe explorar ainda essa área. Nem pequenos bonequinhos como lembranças da cidade não fazem. Nem mesmo chaveiros”, reclama.
Iuri,
Massa seu blog, Vicente que me indicou.
Me passa seu email depois.
abs
Daniela (Niterói)
Comentário por Daniela ALmeida — 13 de agosto de 2008 @ 16:13
Os mamulengos são mesmo uma diversão! Reúnem quase todas as características humanas e ainda incluem um componente: fantasia. Apaixonantes!
Parabéns pelo blog!
Um abraço,
Carol
Comentário por Carol — 14 de agosto de 2008 @ 17:01