Santos e Orixás se confundem na Festa de Boa Morte

Todo ano, entre os dias 13 e 15 de agosto, as velhas senhoras negras da Irmandade da Boa Morte repetem rituais em homenagem à Nossa Senhora na cidade histórica de Cachoeira (BA), agradecendo à santa pela libertação de escravos. A tradição secular abriga tanto o candomblé quanto o catolicismo, que convivem fraternalmente lado a lado.
Participar da Festa da Boa Morte significa estar aberto ao sagrado, sob diversas perspectivas. Durante a homenagem, são celebrados rituais católicos e do candomblé. Obedece-se tanto aos Orixás quanto à Madre Igreja.
Algumas pessoas dizem que há vários “trabalhos” escondidos sob a imagem da santa que é transportada três vezes em procissão durante a Festa. Durante a procissão desta quinta-feira, cheguei a ouvir que, se todas as irmãs não incorporarem o “santo” após a Assunção de Maria (dia seguinte), ficam muito nervosas pois isso significaria que uma delas vai morrer no próximo ano.

Devotas de Nossa Senhora, as irmãs dedicam a mesma devoção ao candomblé, com várias delas ocupando posições de destaque em terreiros.
Independente de que religião, ou religiões, estejamos falando, o clima de devoção toma conta da cidade do Recôncavo baiano e atrai turistas do mundo inteiro.
Repentinamente, Cachoeira é tomada de assalto por uma numerosa diversidade de sotaques. O respeito à diferença, expresso no sincretismo religioso, torna-se moeda corrente naquela cidade do interior baiano.

Os estrangeiros com maior presença nos festejos são os norte-americanos, de onde parece vir boa parte dos recursos que financiam a Festa da Boa Morte. Símbolo desse intercâmbio, a ministra protestante Barbara King segue o cortejo como iniciada da ordem e traz mais um ramo religioso para a já complexa celebração religiosa.
Uma tradição como poucas no Brasil
Há uma certa polêmica entre os autores sobre o início da Irmandade da Boa Morte e de seus rituais. Alguns afirmam que ela surgiu nos primeiros anos do Século XIX. Outros sugerem que seu nascimento se deu ainda no Século XVIII.
Mas existe consenso quanto à Irmandade ter surgido pela iniciativa de negras livres, no bairro da Barroquinha, na capital baiana. De lá, a organização teria migrado (ou desdobrado-se) para Cachoeira quando, em 1820, fui fundada a Irmandade da Boa Morte naquela cidade. A Irmandade é exclusivamente feminina e só aceita mulheres negras por volta dos 40 anos. Atualmente, reúne 22 irmãs.

- A Festa representa muitas coisas. Representa viver o passado que nossos irmãos e seus descendentes nos deixaram para cultuar. então é um grande alegria, um grande prazer a gente continuar com esse trabalho - diz a simpática irmã Nilza.
A Irmandade chegou a ter apenas 6 integrantes. O apoio do governo estadual e do casal Jorge Amado e Zélia Gattai foram fundamentais para reverter o quadro. Na época, os escritores fizeram uma carta-aberta e a enviaram para boa parte dos governantes e políticos do país.
Por deferência a essa relação, a Irmandade colocou em sua sede uma faixa em homenagem ao casal.
Talvez o depoimento mais ilustrativo sobre a longevidade da Festa da Boa Morte seja o do jornalista pernambucano Odorico Tavares (1912-1980), publicado ainda em 1951, no livro “Bahia, Imagens da Terra e do Povo”:
- Enquanto houver as pretas de Cachoeira, enquanto elas tiveram braços para trabalhar e coração para amar a sua santa, jamais a irmandade desaparecerá – escreveu Tavares.
"Boa Morte"
Agradecidas pela graça pedida da libertação de outros escravos, as senhoras da irmandade cultuam a mãe de Jesus promovendo uma re-interpretação do que teria sido a morte tranqüila e a assunção quase imediata de Maria (ascensão só pode ser usado para Jesus Cristo).
“Assunção” começou a ser usado em substituição à “dormição”, utilizado desde os primeiros séculos da era cristã. Coincidentemente ou não, na Festa da Boa Morte o termo antigo foi usado diversas vezes.

No artigo “Tenha uma Boa Morte”, publicado por Carolina Leita Gonçalves Braga, na Revista Ciente fico, da Faculdade Ruy Barvosa (julho-dezembro 2004), uma das irmãs afirma:
- Nem Jesus teve a Boa Morte, ele morreu na cruz crucificado, anunciado, de corroa de espinho. Ele sofreu um bocado… Nossa Senhora não. Como foi a morte de Nossa Senhora? Ela adormeceu e os anjos acordou e ela foi assunta ao céu de corpo e alma – explica a irmã.
É claro que, além de uma morte tranquila, a Boa Morte está diretamente relacionada com o posterior despertar no paraíso, onde as pessoas serão eternamente felizes. A morte como renascimento, passagem para uma vida melhor.
- Meu filho, a morte existe (…) aonde há morte há vida. Aonde há vida há morte. Então, não se pode correr dela – diz a irmã Anália Leite em entrevista para a Revista Ciente fico (julho-dezembro 2004).
A representação ritual da morte e assunção de Maria começa com a procissão para anunciar a morte de Nossa Senhora, quando todas as integrantes vestem-se de branco (cor de luto do Candomblé).

Após a procissão, há uma missão pelas irmãs falecidas e, mais tarde na sede da Irmandade, uma ceia branca sem o acréscimo de nada que leve dendê ou carne, por respeito a Oxalá. A ceia é oferecida à toda população presente
As noviças da ordem, com menos de três anos na Irmandade e chamadas “Irmãs de Bolsa” velam a imagem durante toda a madrugada para provar sua devoção.
No dia seguinte, após missa de corpo (ou imagem) presente, ocorre o enterro da santa. Nova procissão pelas ruas da cidade, desta vez à noite e com as irmãs usando seus trajes vermelho e pretos.

A organizadora da Festa naquele ano vai à frente do cortejo carregando uma espécie de cetro, enquanto as outras irmãs iluminam o trajeto com velas.
Por fim, o último dia é reservado à assunção de Nossa Senhora. Uma alvorada de fogos dá a boa nova logo cedo. Já quase no meio da manhã ocorre uma missa solene (em geral com a presença de autoridades), seguida de uma procissão festiva, em homenagem à Glória de Maria.

A marca deliberadamente negra da celebração é explicitada quando a procissão, em conjunto, adapta uma letra religiosa para cantar:
“O Senhor tem muitos filhos
muitos filhos Ele tem
Eu sou negro e você também
Louvemos ao Senhor”
Após a procissão, uma valsa e o samba de roda tomam conta da sede da Irmandade. Um almoço é servido para a população na sede da entidade e a depois o samba-de-roda chega novamente, desta vez, no Largo da Ajuda.
Embora não haja mais obrigações religiosas, os dois dias que repetem essa dinâmica de almoço para a população seguido de samba-de-roda.
Flashes e superpopulação
As senhoras da Irmandade da Boa Morte são muito alegres e receptivas. Entretanto, ficam visivelmente constrangidas pelas fotos, câmeras e flashes de inúmeros turistas, jornalistas e curiosos que, em diversas ocasiões, quase interrompem as missas ou procissões.

Por conta dessa “superpopulação” que, na opinião das irmãs, já estava chegando a prejudicar a própria Festa, a Irmandade decidiu por somente realizá-la nos dias específicos (13, 14 e 15). Há bem pouco tempo, o ritual era realizado no fim de semana mais próximo.

Durante a Festa, ouve-se com certa frequência que essa decisão teria causado um entrevero com os órgãos estaduais de turismo, cujos gestores gostariam de ver a Boa Morte como um grande espetáculo para o maior número possível de visitantes. Ainda assim, nesta sexta-feira a população da cidade se multiplicou e, consequentemente, a procissão em homenagem à Maria.
a libertãção dos escravos no brasil é uma falacia , pois a lei aurea os colocou praticamente dentro da favela, martirioque o brasil carrega a 120 anos, as nações afro brasileiras são credoras de metade da riqueza nacional, assim como as nações nativas, portanto quando aqui se fala em comunismo estremeço pois é a manutenção da escravidão sobre o manto do comunismo, sistema opressor e mendingo, axé a todos irmãos afro brasileiros e vamos lutar para que todos brasileiros sejam livres,libertas quae sera tamen
Comentário por luiz antonio costa episcopo — 17 de agosto de 2008 @ 11:11
Os afrodescendentes, os indígenas, os descendentes de índios, os pobres em geral(independente de sua ascen-
dência) devem conhecer PROFUNDAMENTE a história da
humanidade e a história do Brasil PARA QUE TODOS NÓS,
independente do SOBRENOME, tenhamos VIDA.
Tuar Cheps
Comentário por Tuar Cheps — 17 de agosto de 2008 @ 11:25
Não é à-toa que nosso país está nesta situação. A ignorância, tendo a superstição e o sincretismo como cúmplices nos conduz a isso. Graças a Deus milhões de negros brasileiros já se libertaram desses cultos animistas(onde se flagelam galinhas etc), e da idolatria e tradicionalismo do catolicismo. Onde já se viu cultuar a morte. Uma boa morte seria a dessa cerimônia.
Comentário por sérgio — 17 de agosto de 2008 @ 13:29
É duro ver que certos procedimentos do Candomblé ainda têm fundamentos sincréticos com o catolicismo, já que, hoje em dia, o sincretismo está deixando de ser regra nos terreiros do Brasil. É até mesmo mal visto pelos adeptos.
Comentário por Vinicius Cavalcante — 17 de agosto de 2008 @ 23:35
É como tem o velho ditado cada louco com suas manias.E religião não se discuti.
Comentário por Regina Assis — 18 de agosto de 2008 @ 10:15
Gostei de ver a cobertura da Boa Morte feita com detalhes preciosos que ajudam a compreender a beleza da festa e a nossa complexidade. Só faltou mesmo descrever os aromas do Recôncavo. A propósito, como é mesmo o nome daquele Armani?
Comentário por Mario — 18 de agosto de 2008 @ 16:33