Tambor-de-Crioula exalta São Benedito em Alcântara
É época de Festejo de São Benedito na cidade-museu de Alcântara (MA). Entre os dias 24 e 27 de agosto, o mais negro dos santos recebe homenagens dos grupos de Tambor-de-Crioula – manifestação da cultura popular maranhense de origem negra e reconhecida pelo Ministério da Cultura como patrimônio imaterial brasileiro.
A celebração para São Benedito já dura muitas gerações. Todo mês de agosto, mestres de Tambor-de-Crioula de todos os recantos de Alcântara se reúnem na sede do município, em frente à Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, construída em para que os negros demonstrassem sua fé, já que não poderiam fazê-lo na igreja dos brancos.
Posto de pé à custa do suor negro, graças aos esforços da Irmandade de Nossa Senhora dos Pretos, o templo começou a ser construído em 1780 e foi benzido em 29 de maio de 1803, quando recebeu as imagens de Nossa Senhora do Rosário e de São Benedito, oriundas da igreja da Matriz.
Tornou-se, portanto, tradição festejar São Benedito anualmente em frente ao local, quando um mastro é colocado no adro da igreja e, de seu ponto mais alto, pendem cordões com bandeirinhas coloridas, enfeitando o local tomado pelo Tambor-de-Crioula.
Tocado e dançado como forma de preservar a identidade cultural dos antepassados que, mesmo diante de sofrimentos da senzala não perdiam a fé em seu santo protetor, o Tambor-de-Crioula dita, diariamente, o ritmo do festejo de São Benedito.
O ritual relembra as noites de lua cheia, quando os negros escravos entoavam, nas senzalas, cânticos de devoção ao seu santo protetor, sob o rufar dos tambores-onça.
Até pouco tempo atrás, o batuque seguia sem parar durante os quatro dias da festa. Nos últimos festejos, a madrugada interrompe o toque dos tambores, que recomeça no dia seguinte.
“Meu São Benedito
Vosso Manto Cheira (bis)
Cheira a Cravo e Rosa
A Flor de Laranjeira…”
O ritual da Festa de São Benedito também inclui ladainhas e uma procissão, que percorre praticamente a cidade inteira, com paradas estratégicas em frente a várias igrejas da cidade. Ao longo dos cortejos, das marchas dos tambores e das ladainhas, e até nos momentos mais calmos, o estrépito dos foguetes é permanente.
Tambor de Crioula
Um dos rituais mais populares da cultura afro maranhense, o Tambor-de-Crioula é uma celebração baseada na música e dança que mistura fé e diversão.
Os coreiros e coreiras reúnem-se em um círculo, com homens tocando e cantando as toadas enquanto as mulheres dançam.
Embaladas pelo ritmo acelerado dos tambores, as coreiras interagem através da punga, ou umbigada: batem de frente com a barriga em quem está no centro da roda, saúdam uma companheira e a convidam para dançar.
A percussão embalada pelos coreiros é composta por três tambores, sempre tocados com a mão. O maior deles, chamado de roncador ou rufador, anuncia a punga; o médio (meião, socador ou chamador) marca o ritmo e o menor (perengue, merengue ou crivador) faz um som repicado. A matraca também é usada para cadenciar as coreiras.
Grandes saias rodadas e estampadas, torsos na cabeça, pulseras e colares, além da blusa branca de renda, compõem o alegre vestuário feminino. A maioria dos grupos que mantém viva a cultura do tambor de crioula está ligada às associações de bumba-meu-boi, outra tradição fundamental do estado.