Festival reúne cultura popular e música eletrônica

O discurso de boa parte das pessoas que lidam com cultura popular enfatiza a necessidade de preservá-la dos riscos da “descaracterização”. Pois o Festival Raiz & Remix vai na direção oposta: a fim de evitar o isolamento da cultura popular do resto da sociedade, promove a sua reunião com a música eletrônica, uma das linguagens mais radicalmente contemporâneas.
- O evento trata basicamente de cultura popular. Este é o foco principal. Mas a cultura popular não fica isolada do resto das linguagens artísticas. Queremos mostrá-la junto com outras linguagens que dialogam com ela, que bebem nessa fonte – afirma Chico Egídio, da Associação Raízes, um dos organizadores do festival.
“A festa da cultura popular e suas releituras” é o slogan do Festival que, sempre com entrada gratuita, está na terceira edição. Não por acaso, todo ano é realizado no último fim de semana de agosto, o mês do folclore.
Já vieram ao Raiz & Remix artistas como Lia de Itamaracá e o Samba de Coco Raízes de Arcoverde.
A edição de 2008 do Raiz & Remix acontece nos dias 29 e 30 de agosto, no Parque Josefa Coelho, em Petrolina (PE). Leva aos palcos Riachão, o “malandro do samba baiano” de 86 anos, e o grupo Samba de Veio, que é da Ilha do Massangano, próxima a Petrolina.
"Essa é a idéia, acabar com os preconceitos"
Chico Egídio, organizador do Festival Raiz & Remix
O organizador do Festival insiste na importância de não menosprezar a capacidade dos artistas populares: “não podemos tratá-los como coitadinhos. São artistas e merecem reconhecimento artístico e econômico”.
- Sabe que às vezes até os próprios grupos, de samba, por exemplo, ficam preocupados, achando que palco e luzes é demais para eles, que estão muito stars, brilhando demais. A gente tenta ir minimizando esses preconceitos – afirma Chico Egídio.
O lado “moderno” do Festival está representado pelo paulista Alfredo Belo, o DJ Tudo, cujo trabalho passa pelo remix de músicas de raiz e que vai lançar no Festival o CD “A Garrafada”. Na mesma linha do DJ Tudo, “mas ainda mais conceitual”, diz o organizador do evento, Chico Corrêa e Eletronic Band, da Paraíba, também se apresenta no Festival.
- Tentamos trazer artistas contemporâneos mais independentes, que tenham alguma ligação com a cultura popular – explica Chico Egídio.
O Raiz & Remix também valoriza as atrações locais. Além do grupo Samba de Veio, a região de Petrolina está representada por Matingueiros, Andranjus e Apocalipse Reggae.
O primeiro é um grupo parafolclórico à la Mestre Ambrósio, cujo som cheio de referências populares flerta com o pop. Os outros dois tocam, respectivamente, rock pesado e reggae, sem conexão direta com a cultura popular.
“Entretanto, estimulado pelo Festival, o próprio Andranjus já fez uma releitura do Samba de Véio, tocando a música no ritmo bem mais pesado”, conta Chico Egídio. Ele explica que também faz parte esse estímulo ao diálogo também faz do evento.
Antes do festival, alguns artistas desses grupos farão pocket shows em shopping centers, para despertar a curiosidade do público. “Estraníssimo, né? Tem lugar mais estranho para esse tipo de manifestação?”, comenta, rindo, Chico Egídio.
Outras expressões
O Raiz & Remix abre espaço para outras artes além da música. Na Feira Multicultural, que ocorre em paralelo ao evento, o público ver novamente o popular dialogar com o contemporâneo: tendas de tatuagens e body piercing ficam lado a lado com diversos tipos de artesanato. Alguns artesãos, inclusive, estarão esculpindo ao vivo obras em madeira. CDs, camisas feitas artesanalmente e diversos outros atrativos também compõe a Feira.
Tanto a Feira Multicultural quanto outro espaço, a Tenda de Música Eletrônica, terão apresentações nos intervalos dos shows do palco principal.
Oficinas
Na seqüência do evento, a Associação Raízes fará oficinas de audiovisual com cerca de 60 pessoas, relacionadas ‘as manifestações populares da região. “A idéia é que a própria comunidade desenvolva habilidade para registrar seus folguedos”, explica Chico Egídio.
A expectativa é que sejam realizadas três oficinas, com duração de dois meses cada (8h semanais), sempre aos finais de semana. Em 2007, 120 pessoas participaram de quatro oficinas: dança, música, audiovisual e DJ.
Foto: Acervo Festival Raiz & Remix
Muito positivo divulgar as iniciativas formais que dão visibilidade de repeito a cultura popular.
Valeu!
Comentário por Solange Soares — 28 de agosto de 2008 @ 18:11
Muito positivo unir o tradicional ao novo, que na verdade tem suas raízes na tradição.
Comentário por Moura — 2 de setembro de 2008 @ 9:13
Além dos “muitos” sempre queremos o diverso, a diversidade estampada como neste festival múltiplo.
Parabéns!
Comentário por Weber Lourenço — 2 de setembro de 2008 @ 9:16
Parabéns, ao evento! É uma iniciativa singular, merece respeito de todos nós, artistas e sociedade em geral, pq busca acabar com o preconceito, música é sempre música, ela está sempre se renovando, seja cultura popular ou erudita, seja eletrônica seja sacra, temos que mostrar os nosso valores e entendermos que o mundo mudou e se não acompanharmos as mudanças as nossas tradições ou mesmo patrimônios musicais/culturais serão esquecidos. Assim, temos que unir idéias, valores, questionarmos os nossos espaços para divulgação/difusão, criarmos um sentimento de que a nossa cultura é rica, diversa e de qualidade. Avante, caminhando sempre e abrindo portas, sucessos Iuri, Chico e demais, Lilia Rosa (musicista, educadora e pesquisadora - SP).
Comentário por Lilia Rosa — 2 de setembro de 2008 @ 11:10