Mulheres aderem a exercício do desafio à metrópole

Destaque brasileiro nas olimpíadas, as mulheres são cada vez mais reconhecidas no esporte e na superação dos limites do próprio corpo. A um mundo de distância de Pequim, nas cidades brasileiras, o sexo feminino resolveu encarar um novo desafio: a prática do parkour.
Os praticantes do Parkour, também chamado de Le Parkour, consideram-no uma “disciplina”, na qual usam o corpo para passar por obstáculos de uma forma rápida e fluente. Não é considerado esporte porque não há competição. Conhecidos como traceurs (ou traceuses, no feminino), os praticantes fazem das cidades seus campos de treinamento e exercício dessa disciplina.
O parkour surgiu na década de 80. Seu criador, David Belle, usou inspirações do pai, um combatente na Guerra do Vietnã, para adaptar as técnicas e batizá-las como "Le Parkour" (O Percurso). O movimento cresceu e hoje tem vários grupos e até uma associação brasileira.
Estudante de Têxtil e Moda, na Universidade de São Paulo, Priscila Caccuri tem 20 anos e pratica parkour há pouco mais de dois. Assista a vídeo de Priscila e conheça os movimentos do parkour.
Antes do parkour havia praticado basquete por quatro anos e dança contemporânea por oito - treina nos fins de semana, com sessões de aproximadamente quatro horas. “Mas os treinos são meio como andar de skate: uma hora você está andando e outra não”, diz.
Teve o primeiro contato com praticantes através de uma comunidade no Orkut e, no fim de semana seguinte, já começou a treinar. “Era eu e mais 20 meninos”, diz.
- Fazer Parkour já é estranho, agora imagine voltar para casa com um hematoma na perna, arranhão no braço e um sorriso enorme: SUBI NO MURO! Mamãe ligava: “Filha, tem mais meninas com você?” e eu respondia: “Claro, mãe! Tem mais umas 3 aqui!”. Essa resposta demorou dois anos para se tornar verdadeira – conta Priscila.
Agora, revela a traceuse, as garotas estão começando a se soltar e uma proporção cada vez maior de mulheres está aderindo ao parkour. Ela já não é a única mulher nos treinos. “As meninas estão evoluindo muito, em quantidade e qualidade dos movimentos”, afirma.
- Já treinei com meninas bem novinhas, de 12, 13 anos. São pequenas e mais desinibidas. Eu, que comecei aos 18, costumo falar da minha experiência! Digo: “Olha, quando cheguei era só eu. Aproveita que está cheio de mulher!” – diz, rindo, Priscila.
Para ela, a maior facilidade os homens para essa prática vai muito além da compleição física mais favorável:
- Uma perspectiva mais interessante é analisar o repertório motor do ser humano que é determinado culturalmente, o histórico de experiências do seu próprio corpo. Na infância, os meninos são mais estimulados a subir em árvores, jogar bola na rua, andam sozinhos mais cedo e é esse contato com a cidade e com o concreto que mais diferencia: a experiência e a familiaridade com o espaço – argumenta.
Para ela, enquanto os garotos são estimulados a fazer atividades para gastar suas energias, como o futebol, as mulheres seriam incentivadas a aprender a conter essa energia através, por exemplo, do balé. Priscila revela que teve que superar a idéia da fragilidade feminina para poder soltar seus movimentos.
- Eu me perdoava demais. Ficava frustrada com coisas que não conseguia fazer. Daí pensava: “tudo bem, sou a mais fraca” e começava a construir essa fragilidade na minha cabeça. Até que eu comecei a perceber que não podia ficar usando isso como desculpa. E comecei a entender melhor esse espaço entre o feminino e o masculino. Hoje me inspiro nas habilidades que são diferentes no masculino.
- Mas e quando você consegue fazer algo e eles não?
- Aí é uma contradição. Tiveram alguns momentos que eu consegui fazer um movimento que um menino não conseguiu. Você sente que venceu, rola o pensamento “Eu venci, eu posso!”. Mas aí eu retomo e digo “Vamos lá, vamos conseguir”. Parkour é todo feito de cooperação, solidariedade. Essa comparação não necessariamente competitiva. Somos diferentes, mas ainda bem que somos! Aliás, todo mundo é diferente um do outro, né? – argumenta.
"Você tem que vencer não aos outros, mas a si mesmo"
Priscila Caccuri, praticante de parkour
Animada pela maior participação das mulheres, Priscila uniu os estudos em moda e a paixão pelo parkour e criou um casaco para representar praticantes femininas, com inspiração na personagem Beatrix do filme Kill Bill.

Priscila enfatiza que a receptividade dos garotos do parkour em relação às mulheres é muito grande. “É um ambiente bem de amigo, de colega de treino, com muito respeito, exercício de cooperação e uma atenção especial para as meninas. Os meninos se orgulham muito das nossas conquistas”, diz.
A traceuse usa como exemplo seu próprio medo de altura: “morro de medo de altura (acho que é por isso que faço parkour), mas eles sabem que é uma superação minha e me dão força”. O universo do parkour, entretanto, continua muito masculino.
- Teve um dia que não fui treinar porque tinha um casamento e precisei ir para o salão, pintar as unhas… No dia seguinte, fui treinar com unhas pintadas e eles ficaram muito surpresos! Teve uma vez que fui para o treino de pochete de oncinha e me estranharam também. Os assuntos femininos dificilmente são abordados nesse espaço. Coisa tipo “ah, pintei o meu cabelo ontem” não rola - explica.
Priscila conta que até um colega de parkour uma vez achou que ela estivesse no Ibirapuera apenas passeando, ao invés de treinando, porque estava de óculos escuros e cabelos soltos. “Ele falou na boa, mas até respondi: ‘pôxa, faço parkour, mas eu sou mulher’. É como se fosse impossível essa combinação de ser vaidosa e traceuse ao mesmo tempo”, protesta.

Praticantes femininas no 3º Encontro Paulista Parkour
Pergunto à Priscila sobre como ela é vista por gente de fora, como amigas, paqueras e família.
- As vezes que falei com minhas amigas sobre o que eu faço, elas responderam: “Priscila, você não tem perfil para isso!”. E eu perguntei: “Porque não?”. Com os homens, é muito engraçado. Eles ficam admirados, impressionados. Dizem: “Nossa, você faz aquele esporte de pular muro?” – conta, rindo.
- Mas os garotos não acham estranho, esquisito ou pouco feminino?
- Penso sobre isso. Vou fazer uma comparação para ver se você entende. Os super-heróis masculinos são viris, representados pela força. E as heroínas…
- Como gostosonas?
- Isso, com uma imagem erotizada. Então acho que ou enxergam menina forte como algo exótico ou como uma menina moleca, mais ingênua, despojada, com um estilo mais esportivo. Mas não temos uma imagem masculinizada, como vejo algumas pessoas dizerem das jogadoras de futebol. Se bem que eu já saí com um cara que falou: “Poxa, sua mão é mais grossa que a minha!” – ri, novamente.
- E o parkour muda muito o corpo?
- Muda completamente! Mas demora um tempo. Até porque é um treino que você administra. Sempre gostei de exercício de resistência (corrida, bicicleta), mas nessa convivência aprendi a fazer flexão, puxar peso, fazer mais abdominal. Meus ombros ficaram mais largos, os braços mais fortes, as pernas engrossaram e, claro, as mãos ficaram calejadas! – ri.

Priscila (E): As mulheres exibem sua força.
- Hematomas, arranhões e calos constantes… a família não reclama, não?
- Já tive que usar calças para esconder hematomas nas pernas (risos)! Mas meus pais nunca me impediram de treinar. Tem pai que às vezes acha que é coisa de maloqueiro, mas com o parkour aparecendo na mídia, está aos poucos melhorando. A mãe de um amigo meu tinha impedido ele de treinar, mas quando viu que ele começou a dar aulas de parkour no colégio, mudou de idéia - diz.
Fotos e montagens: Arquivo Priscila Caccuri
Caraca! Finalmente encontrei o esporte para uma de minhas filhas. Adorei!
Comentário por Neuza — 28 de agosto de 2008 @ 18:24
eu axo o parkour massa d+…
tenho 16 anos e comeceei a treinaar,mas a minha familia nã deeixoou..infelizmente, vejo os meus amigos treinando todos os diaas e eu so fico olhando querendo treinaar tbm…heeheh =/…
mas eu adoro o parkour …
Parabéns para vcs !
Comentário por mirian claudiane pereira da silva — 23 de março de 2009 @ 18:20