
Elas têm entre 46 e 89 anos. Juntas, dão ao ditado “quem canta os seus males espanta” sua interpretação mais literal. O grupo de mulheres Meninas de Sinhá descobriu, através da música e das brincadeiras de roda, os caminhos para uma vida mais saudável e alegre.
As Meninas de Sinhá são embaixadoras da alegria na melhor idade. A volta à infância foi o caminho escolhido para recuperar a auto-estima e melhorar a qualidade de vida.
Cantando cirandas e brincando de roda, elas fazem apresentações e oficinas em vários locais do Brasil, ensinando que a maturidade está longe de significar tristeza ou inatividade.
- Quando viajamos, não vamos só fazer shows, mas trabalhos com mulheres, ensinamos a formar grupos e cuidar delas – revela Dona Valdete da Silva Cordeiro, 70, idealizadora e até hoje coordenadora das Meninas de Sinhá.
O grupo lançou em 2007 seu primeiro CD, intitulado “Tá caindo fulô”. Coleciona importantes prêmios, como o Cultura Viva, o Rival Petrobras de Música e o Prêmio TIM de Música 2008. Recentemente, apresentou-se no Festival Internacional de Culturas Populares Vozes de Mestres, realizado na capital mineira.
Assista ao vídeo que apresenta as "Meninas" e é parte de seu CD.
Mulheres que aprenderam e ensinam o prazer pela vida
Formado há mais de 20 anos do bairro Alto Vera Cruz, periferia de Belo Horizonte, o objetivo inicial do grupo era combater a depressão que as mulheres do bairro sofriam e reduzir a sua dependência de remédios.

Dona Valdete: idealizadora das Meninas de Sinhá
À época líder comunitária, Dona Valdete morava perto do centro de saúde do bairro e assistia o entra e sai de mulheres durante quase o dia inteiro. Em comum, tinham a tristeza e o uso constante de remédios.
- Eu comecei o grupo por me preocupar com mulheres que saiam do centro de saúde com sacolas de anti-depressivos, completamente dopadas. Sentia nelas tristeza, solidão e a falta de algo diferente para fazer, que não o serviço de casa – diz Dona Valdete.
Após algum tempo “matutando”, D. Valdete convidou as senhoras que freqüentavam o centro de saúde para formar um grupo onde poderiam, regularmente, conversar e diminuir a solidão que transparecia naquelas mulheres.
A primeira reação delas foi negar o convite. “Eu vou sentar para bater papo? Tenho o que fazer em casa!”, diziam. Ainda assim, cerca de cinco mulheres toparam.
Mesmo depois de muitos encontros, D. Valdete não conseguia enxergar melhora na situação das mulheres. “Passamos a fazer trabalhos manuais, mas elas continuavam tomando aquele monte de remédios”, lembra. A falta de progressos levou a coordenadora do grupo a se sentir perdida.
- Eu não sabia o que fazer. Pensava: “E agora? Não sou psicóloga nem pedagoga. O que faço para tirar essas mulheres dessa situação?” - confessa a coordenadora das Meninas de Sinhá.

As aulas de expressão corporal foram a chave
para o grupo se consolidar
Entretanto, o cenário mudou quando, numa festa na escola do bairro, uma funcionária da prefeitura ministrou uma oficina de expressão corporal para idosos e gestantes. D. Valdete ainda lembra do que sentiu naquele momento: “Fui participar para ver como é. A oficina mexeu com o corpo e a mente!”.
A resposta positiva dela e de suas companheiras fez com que D. Valdete pedisse ajuda à oficineira. Elas queriam mais.
Autorizada pela prefeitura a fazer esse trabalho, a funcionária ficou três meses com o grupo que, naqueles dias, chamava-se “Lar Feliz”. D. Valdete percebeu que o grupo estava dando certo quando soube que as suas companheiras estavam reduzindo o uso dos remédios contra depressão.

D Valdete: "as cantigas de roda
levam a gente de volta à infância"
Algumas delas aprenderam as técnicas e o grupo começou a crescer, com muitas senhoras interessadas pela novidade. Reuniam-se três vezes por semana, nas segundas, quartas e sextas.
A sexta-feira era um dia mais light, dedicado a brincadeiras. Um dia, começaram a fazer brincadeiras de infância. Algumas lembravam da infância. Outras, criadas na roça, nunca tinham brincado na vida.
As brincadeiras de roda passaram a ser freqüentes e entraram no cotidiano do grupo. Perceberam, então, que o nome já não expressava o que era o grupo e resolveram mudar. “Eu dei a elas e dever de casa de pesquisar nomes e uma delas encontrou um grupo muito antigo, chamado ‘Meninos de Sinhá’. Mudamos para Meninas e ficamos com esse”, rememora D. Valdete.
Intensificaram o interesse e as pesquisa sobre brincadeiras e cantigas de roda, fazendo pesquisas com senhoras mais idosas, que nem mesmo levantavam da cama. Assim, aumentavam gradualmente seu repertório.

A vaidade substituiu a depressão
Já tinham a idéia de apresentar-se em creches, hospitais e escolas quando ganharam o apoio de um rapaz da secretaria municipal de cultura, Roquinho, que assumiu o compromisso de ajudá-las a estruturar o grupo.
Em oito de dezembro de 1998, foram convidadas para uma apresentação na inauguração do centro cultural do bairro. Um misto de pânico e excitação tomou conta do grupo: “O que nós vamos fazer? Temos que ter uma roupa para chamar atenção!”, diziam.
Sem problema: Roquinho, da secretaria de cultura, conseguiu para elas o tecido e um figurinista, que desenhou os modelos dos vestidos. Versadas na arte da costura, duas delas aprontaram o figurino e fizeram uma bela apresentação. Aquela data tornou-se o dia oficial de criação das Meninas de Sinhá.
Mas não é estranho que essas mulheres, que havia alguns anos sofriam de depressão, quisessem agora chamar atenção e apresentar-se por aí?
A líder do grupo revela o quanto foi profunda a mudança ocorrida na vida dessas mulheres:
- Elas não saíam de casa. Agora participam de tudo que acontece na comunidade. Começaram a cortar cabelo, se arrumar, usar batom, fazer unha, a ter vaidade, sabe? Também ficaram mais independentes, começaram a viajar, coisas que muitas nunca tinham feito – diz.
Mas nem tudo mundo estava feliz. “Tivemos problema com alguns maridos. Teve marido que falou: ’se eu fosse um trator, passava por cima daquela mulher’”, lembra D. Valdete. “Preferiam as mulheres doentes dentro de casa que bonitas para eles”, completa.

O trabalho gerou muitos frutos, para elas
e para as pessoas ao redor.
As Meninas de Sinhá tinham antídotos bem-humorados contra o ambiente machista. Quando questionadas sobre quem iria fazer a comida quando viajavam, respondiam: “Não levei as latas de mantimentos nem o fogão comigo”. E, assim, foram “reeducando” seus companheiros.
Após a apresentação no centro cultural, as Meninas de Sinhá começaram a viajar, conhecer outras mulheres sofrendo o mesmo que elas haviam sofrido e servir de exemplo. Mais: tornaram-se referência para a cultura popular em Minas e no Brasil.
Apresentam-se em festivais, escolas, creches, hospitais, asilos, abrigos… Já estiveram no Vale do Jequitinhonha, em São Paulo, no Rio de Janeiro, Salvador. Dia 24 de setembro, retornam à capital paulista.
Têm página no MySpace, produtora e recebem cachê pelas apresentações (mas às vezes abrem mão dele se quiserem muito conhecer o lugar…).
- E se você me perguntar como chegamos a gravar um CD e ganhar esses prêmios [o TIM foi o mais recente de muitos], não sei o que dizer. Tudo é tão maravilhoso e aconteceu muito rápido que nem percebemos o que estava acontecendo!Tudo que a gente faz com amor cresce! - confessa D. Valdete.
Netinhas e netinhos de Sinhá
O sucesso das Meninas de Sinhá foi tanto que o grupo já está gerando outros frutos. De tanto acompanharem as avós em apresentações nos parques municipais e locais parecidos, as netas quiseram participar da brincadeira. Resultado: foi criado o grupo Netinhas de Sinhá, com 26 meninas, de 7 a 11 anos.
E os meninos? Os netinhos também se mobilizaram. Conseguiram os instrumentos com uma deputada e criaram um grupo de percussão, com cerca de 30 integrantes, chamado Alto Batuque. O projeto foi aceito por um órgão público e hoje o grupo apresenta-se e faz oficinas de percussão.
Atualmente, o centro de saúde que era frequentado pelas Meninas de Sinhá oferece o mesmo trabalho de expressão corporal (feito até hoje pelas Meninas nas suas oficinas). Virou política pública.
- Eles vão falar que é projeto deles, mas sei que sementinha fui eu que plantei. Eles achavam que velho tem só que tomar remédio, fazer crochê, rezar terço. Agora viram que não é nada disso. Tem muita coisa pela frente, muita coisa ái para a gente, pelo amor de Deus! – conclui, satisfeita.
Fotos: Patrícia Lacerda (2); Rodrigo Dai (1; 4) e Pedro David (3, 5 e 7).