BA:mãe de santo em depressão por terreiro demolido
Santos agredidos, vidas interrompidas.
Sete meses depois de sua demolição parcial, o terreiro de candomblé Oyá Onipó Neto, localizado no bairro do Imbuí, em Salvador (BA), ainda não retomou suas atividades.
Responsável pela casa, Mãe Rosa enfrenta problemas de saúde e depressão. “Cultuo um orixá da cura, Omolu, há 20 anos e quebram a estátua dele. Como é que eu não vou sentir?”, afirma a Ialorixá.

Mãe Rosa: doenças e depressão após demolição
parcial de seu terreiro
Mãe Rosa conta que o poder público reergueu as paredes derrubadas, “mas só mexeram na casca”, referindo-se às estátuas e roupas dos orixás, e vários outros instrumentos utilizados nos rituais, destruídos durante a demolição.
- O terreiro está totalmente parado. Não dei comida aos orixás, não fiz a cumeeira, nada, nada. Uma consulta ou outra, é o máximo que estou conseguindo fazer. Para todo mundo, é como se eu já tivesse recebido tudo, mas só levantaram as paredes que tinham derrubado – diz, entristecida.
Está tudo quebrado, e eles não estão nem aí. Parece que não aconteceu nada – Mãe Rosa, Ialorixá do terreiro Oyá Onipó Neto
- Estou sem dinheiro pra nada. Independente do candomblé, esta é uma casa de caridade. Todo dia almoçam e jantam aqui umas 10 a 15 pessoas - reclama.
Com muita tristeza, Mãe Rosa exibe os objetos quebrados. Porta por porta, corredor a corredor, aponta para pratos, estátuas e outros tantos artefatos danificados.

Por todo o terreiro, encontramos objetos e materiais
dos orixás danificados
Teve que mandar consertar a cadeira onde sentava nas cerimônias e ganhou como doação novas pinturas dos orixás no salão do terreiro.
Foi muito difícil para Mãe Rosa mostrar as roupas e objetos dedicados aos orixás, todos danificados. Literalmente segurando o choro, segura nas mãos um vestido vermelho. “Está vendo? Foi com esse vestido que eu fui feita”, diz. “Este aqui [exibe uma peça de cobre quebrada] é o Adê de Oiá da minha avó, que me deu e que eu ia passar um dia para minha filha”.
- Aqui tem uma vida. Tenho uma vida aqui. Não é brincadeira, eu não brinco de orixá - afirma.

A cadeira, Mãe Rosa conseguiu consertar. E o resto?
Mãe Rosa me diz que precisaria de cerca de 30 ou 40 mil reais para remontar todo o que perdeu. “Deveriam me ressarcir pelos materiais dos orixás quebrados. Não fizeram demolição, fizeram saqueamento. Saíram quebrando tudo, perdi tudo o que construí nesses vinte anos”.

As novas pinturas dos orixás foram uma doação
Até mesmo os “filhos” de Mãe Rosa, que estavam em recolhimento no terreiro para serem “feitos”, tiveram que interromper o processo, algo que nunca tinha ocorrido antes.
- Isso que foi aconteceu aqui não matou só a minha vida não, matou muitas vidas. Meus filhos estão todos espalhados. O Ogã da minha casa, que antes coordenava um grupo de capoeira, está em depressão, jogado por aí” – revela, com muita tristeza.

A tristeza de Mãe Rosa. Na foto, no álbum,
festas ocorridas no terreiro
Sem saber como se expressar, Mãe Rosa faz um gesto para indicar que seu Ogã tem recorrido à bebida para enfrentar a situação.
- Sonhei com meu caboclo essa noite. Ele estava cantando para mim. Cantava aquela música: “tava na mata cerrada/ e o meu gado esparramado…” - entoa, baixinho.
Com o terreiro parado, o cotidiano de Mãe Rosa divide-se entre ir ao médico e visitar diversos órgãos da prefeitura, na esperança que alguma autoridade se sensibilize com a questão.
- Eu tô na mão do poder público. Acabei de vir do médico, estou com um problema no estômago. Tá vendo aqui, a gengiva, olha como está [mostra a gengiva ferida]. Estou com problema emocional. Estou doente, com depressão – fala, com os olhos marejados.

Abatida, me mostra o atestado recebido do médico, que explica sua condição e revela que ela ainda não tem respondido ao tratamento.
Violência, Intolerância religiosa e especulação imobiliária
A via crucis da Ialorixá começou no dia 27 de fevereiro deste ano, quando a Sucom, órgão da prefeitura de Salvador, ordenou a demolição do terreiro, sob a alegação que este estaria em terreno público. “Vieram falar que o terreno era público. Mas como, se estou aqui há mais de 20 anos e pago conta de luz, de água, IPTU…?”, rebate Mãe Rosa, enfurecida.
Ela se queixa também do terreiro Oyá Onipó Neto constar no mapeamento de terreiros da cidade e ser reconhecido pela Federação Nacional do Culto Afro-Brasileiro. “De que tipo de diploma eles precisam?”, pergunta.
Mãe Rosa se lembra da violência no dia da demolição, que ocorreu sem nenhuma comunicação prévia:
- Pularam as janelas, invadiram os quartos sagrados e saíram quebrando tudo. Uma menina com barriga de seis meses foi empurrada com força. Um policial apontou um revólver para meus filhos e disse: “de menor também morre”. Aí entrei na frente de todo mundo e disse que se ele fosse matar alguém, tinha que me matar, porque eu que era responsável por tudo ali – conta.
A cada prato quebrado eu sentia o sabor do chicote que
açoitava meus ancestrais – Mãe Rosa

Frente do terreiro Oyá Onipó Neto
- Para mim, isso foi intolerância religiosa junto com especulação imobiliária. Tá vendo ali (mostra um terreno preparado para construção, em frente ao terreiro)? Querem construir ali sem ter a gente por perto – diz a Ialorixá.
Não é à toa que a comunidade dela no Orkut se chama "Intolerância Religiosa…".
Para ela, todo poderia ter sido resolvido através de uma negociação. “Se queriam que eu saísse daqui, poderiam ter me chamado. Eu acertava com eles uma indenização e levava o terreiro para outro lugar. Não tinha problema”.

Mãe Rosa: "O baiano tem que se respeitar
porque temos uma herança!"
Entre tristeza e revolta, com os olhos sempre cheios d’água, Mãe Rosa me mostra álbuns onde estão registradas diversas festas ocorridas no terreiro. De repente, olha para mim séria e diz:
- Temos a obrigação moral de honrar com o nome da nossa Bahia. Porque a gente vem de uma cultura negra. O baiano tem que se respeitar porque temos uma herança! Esta é uma casa de Iansã. Dia 4 de dezembro vou bater tambor aqui do jeito que tiver – garante.
No dia 20 de outubro, Mãe Rosa vai comparecer à audiência em que será emitido o veredito sobre ação que o Ministério Público move contra Kátia Carmelo, à época superintendente da Sucom.

Mãe Rosa aguarda audiência final contra antiga
superintendente que ordenou a demolição
Sobre a ação, mostra-se esperançosa: “Pobre não cai, porque já está no chão. Quem cai é rico”.
Deus tenha misericórdia desta senhora e que ela veja como esta a oportunidade de se ver liberta deste mal que cega o entendimento das pessoas, com o pretexto de herança religiosa de ancestrais, a Bíblia diz que devemos amar o nosso próximo como a nós mesmos, mas o que a Bíblia ensina é que não devemos deixar que milhares, milhões de pessoas sejam escravizadas e enganadas pelo diabo, o respeito sempre deve existir, mas a Bíblia também diz que conhecereis a verdade e a verdade vós libertará, e a verdade só tem um nome que é Jesus. Deus abençoe a todos
Comentário por Rogerio M. Santos — 16 de setembro de 2008 @ 19:23
Os macumbeiros, candomblezeiros, necromantes, umbandistas e todos os que praticam a feitiçaria e bruxaria, não herdarão o Reino de Deus.
Jesus Cristo é o SENHOR!
Comentário por Lúcio Athayde — 16 de setembro de 2008 @ 19:43
a religião ( qualquer uma) é o opio do povo. reportagem patetica.
Comentário por george douglas — 16 de setembro de 2008 @ 19:53
Fico horrorizada ao ver que ainda existe tanto preconceito. Como umbandista me solidarizo com essa Mãe que só quer o bem. Quanto aos srs. abaixo que acham que estão corretos em sua plenitude peço que antes de falar algo sobre qualquer tipo de religião busquem informação. Quem disse que nós não cultuamos Jesus também, que não pregamos a paz, harmonia e boa temperança entre os homens? Quem disse que só buscamos o mal, que somos pessoas ruins? Quem disse que a Bíblia (sem ofenças) não é também uma herança religiosa de nossos ancentrais? Acho que se queremos mesmo viver bem e buscar a paz devemos aceitar os outros como são, não fincar dogmas e paradigmas que todos devem seguir mesmo a contra gosto.
Saravá Mãe Rosa e que Oxalá (Jesus, para os leigos) proteja vós e seus filhos!
Comentário por Gabriela M. — 16 de setembro de 2008 @ 20:46
É o tipo de pessoa que comenta aí em cima que é conivente com essas atitudes (tirando a Gabriela M., claro). Sempre fui ateu, mas acho o respeito fundamental, as religiões que pregam a discriminação de outras deveriam ser julgadas e punidas pela lei. O país está voltando a uma teocracia por conta dos evangélicos fundamentalistas.
Comentário por Rodrigo Castro — 16 de setembro de 2008 @ 21:43
De chorar.
Senhores de engenho, vida de preto, cabloco….. triste.
Comentário por Wander Mariano — 16 de setembro de 2008 @ 22:00
Isso é crime, a Constituição Brasileira garante a liberdade de culto
Comentário por Regina — 26 de setembro de 2008 @ 18:49
TENHA FÉ E FORÇA,TUDO QUE FOI DESTRUÍDO POR ESSES SAFADOS E ABUSADOS QUE ENTRAM NA CASA DOS OUTROS,PENSANDO QUE SÃO MAIS DO QUE DEUS,E ESTÃO ACIMA DAS FORÇAS DOS ORIXÁS,VÃO PAGAR!!!DE UM JEITO OU OUTRO.TENHA FÉ PRIMEIRAMENTE EM OXALÁ,E NA NOSSA MÃE IANSÃ,QUE TUDO SERÁ RESOLVIDO…
Comentário por ELIS DE OYÁ — 13 de outubro de 2008 @ 11:00
Eu moro do outro lado do Pais, mas digo a Senhora que estamos com voce, choramos por dentro.
Mas Deus, Nossos Amados Orixas e Todo Povo vai LAVAR SUA HONRA, seja como for eles vao ser punidos.
Seu nome esta em meio aos trabalhos, quero justiça, nao foi so a Senhora que eles humilharam, e sim a toda uma NAÇAO UMBANDISTA, seja qual for a nossa lei e doutrina os Orixas sao unicos, por tanto digo e repito, AXE MAE ROSA, estamos “todos” a CLAMAR pela Senhora.
Eles sao MONSTROS, uma QUADRILHA, como coloca muito bem o Pai ARCANJO.
AXE, SUCESSO e SAUDE, Mae ROSA nao permita que eles a ponham no Hospital, reaja, levante a cabeça nao deixe que a depreçao tome conta e diga a Senhora mesma, eu tenho AMIGOS do outro lado do Pais pedindo JUSTIÇA por mim e tenho meus Amados ORIXAS que trabalharao por mim.
FORÇA MAE ROSA.
Comentário por Joelma Martins — 13 de outubro de 2008 @ 23:02
Oi mãe… sua benção!
Acompanhei tudo, fui a passeata com meu Babá e meu irmao! Ficamos e ainda estamos tristes. Hj vi na Tv, que o julgamento seria hoje. Eu torço para que a Justiça de Xangô venha agora no dia 26. E que a justiça dos homens não falhe!
Entregue a Oxum mãe, ela é feiticeira, come frio…
Entregue também ao MEU PAi Oxumarê, na hora certa ele arma e dá o bote!
Torço e peço em nome de Oxalufan e Oxaguiã que a paz volte a reinar no seu ilê!
Axé
Comentário por Rose — 24 de outubro de 2008 @ 18:16