Terra Magazine

24 de setembro de 2008

TV leva cortador de cana a fazer violino popular

iurirubim às 13:03

Hoje conhecido como Mestre Nelson da Rabeca, seu Nelson dos Santos é talvez um caso único em toda a história da música brasileira.

Morador da pequena Marechal Deodoro, município da região metropolitana de Maceió, seu Nelson trabalhava na lavoura de cana-de açúcar, no corte da cana. Era uma vida dura: “eu não tinha o que comer”, revela.

Um dia, aos 54 anos, viu um músico tocando violino na televisão. Nunca tinha segurado um violino na vida, mas achou tudo tão bonito que resolveu, ele mesmo, fazer um instrumento daquele.

- Eu fui pra mata, cortei uma madeira e botei pra secar. Deu para fazer umas cinco rabecas [versão nordestina do violino] – explica Mestre Nelson.

A rabeca é um instrumento folclórico parecido com o violino, muito popular no Nordeste brasileiro. Tem um timbre mais baixo que o do violino e suas quatro cordas de tripa geram um som fanhoso e sentido como tristonho.

Insisto em perguntar se ele já havia tido algum contato com o instrumento, fosse um violino ou uma rabeca.

- Nunca, meu filho. Isso é uma benção que deus me deu. E não é me gabando não, mas as minhas rabecas têm mais som porque são feitas de um jeito diferente. São de madeira maciça.

De fato, as rabecas de seu Nelson suas feitas de madeiras duras e pesadas, fazendo com que os instrumentos fiquem bastante resistentes. A jaqueira é a favorita de seu Nelson, porque "além de ser bonita e dar bom som, não acaba nunca".

A partir daquele dia, seu Nelson começou a complementar a sua renda com a venda de rabecas. “Já vendi mais de quatro mil rabecas”, conta.

- Vendo as rabecas aqui em casa mesmo, mas também mando por sedex. Não gosto muito de mandar porque às vezes quebra. Quanto é? Cobro 400, 300 e 250 reais, depende do tamanho – explica.

Entretanto, a verdadeira mudança na sua vida ocorreu quando ele ousou ir além da fabricação do instrumento. De forma tão surpreendente quanto a construção das rabecas. Sem nunca ter tomado uma aula sequer, seu Nelson começou a “tirar” as músicas com sua rabeca.

Essa associação entre fabricação e execução dos instrumentos é bastante comum e pode ser considerada uma marca da cultura popular, em que os expoentes, além de mestres na sua arte, são também mestres artesãos. Os mestres João do Pife (pífano) e Zé Lopes (mamulengo) são exemplos bastante ilustrativos.

Perguntado sobre a proeza, Mestre Nelson “repete” o discurso:

- Essa é uma riqueza que deus me deu. De repente, toquei asa branca. Aprendi sozinho, sem ninguém ensinar. O meu jeito de tocar é diferente de todo rabequeiro que toca no mundo porque nunca fui para uma escola – diz.

Hoje com 80 anos e a audição já falhando, seu Nelson passou a exibir seus incríveis dotes na Praia do Francês, ponto de grande fluxo turístico de Alagoas.

Continuava a trabalhar no corte de cana, mas, nos fins de semana, ia apresentar-se para os turistas na praia.

- Eu passava quatro dias cortando cana e dois tocando na praia. Ganhava mais em um final de semana na Praia do Francês que em um mês na lavoura de cana – lembra.

Posteriormente e até mesmo pela idade avançada, mestre Nelson iria largar o corte da cana para dedicar-se totalmente à música, trocando também a praia pelos palcos. Montou uma banda familiar, com zabumbeiros, uma filha que também toca rabeca e a mulher, Dona Benedita, assumindo os vocais.

- Minha mulher Benedita não cantava nada. Aprendeu que nem eu, sozinha, quando a gente começou tocar junto – diz o mestre.

A primeira turnê do grupo, cujo o ano seu Nelson já não se recorda, foi bastante extensa: “ficamos dois meses e 26 dias viajando pelo Brasil. Cheguei perto até do Paraguai”, conta.

O mestre popular também passou a compor suas próprias músicas. “Deixei a musica dos outros para fazer as minhas”, afirma. Seu Nelson compõe baião, xote, marchas e forró, todos ritmos fundamentais da identidade nordestina.

Em 2008, lançou o terceiro CD: “O Segredo das Árvores”. “E tenho músico para outro CD inteirinho. Tenho 80 anos e não paro nem de compor nem de fazer rabecas”, diz, animado.

- Hoje tudo o que tenho, eu devo à música. Tenho a minha casinha aqui em Marechal Deodoro e um carrinho velho e faço amigos feito você pelo Brasil inteiro! Na semana passada, toquei em São Paulo e em Belo Horizonte [no Festival Vozes de Mestres].

Toda a doçura desse mestre popular transparece quando, pouco satisfeito com a distância gerada pela chamada telefônica, ele me pede para aguardar ele pegar a rabeca.

E toca duas músicas, enquanto ouço, emocionado, do outro lado da linha. 

Pergunto então a seu Nelson o que pretende fazer daqui para frente.

- Vou continuar tocando e fazendo as minhas rabecas. Me sobra disposição! Ainda mais agora, que soube que o governo tá mandando 500 reais para mim, todo mês. Ainda não vi não, mas disseram que vou receber! - ri.

Foto: arquivo pessoal do mestre Nelson da Rabeca.

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2 Comentários »

  1. Realmente o sr. nelsonda Rabeca aprendeu tudo sozinho. è um ícone da cultura popular do Estado de Alagoas. Parabéns pela matéria

    Comentário por Acosta — 24 de setembro de 2008 @ 16:18

  2. Estas ocorrencias são notaveis, alem de pipocarem pelo mundo afora. Quem me pode infirmar de que ele nos seus antepassados longinguos nao tenha sido um virtuose do violino? Nascido no nordeste, fora pinçado, de repente, para retomar com mais humildade artistica a rabeca. e dela fazer um bico a mais para manter sua arte, invejável?
    Parabens seu Nelson da Rabeca! Parabens aos que o encontraram e tiveram a sabedoria de nos eixibir um sabio agora conhecido!!

    Comentário por Flamarion de Faria — 24 de setembro de 2008 @ 16:36

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