Terra Magazine

28 de novembro de 2008

Festival celebra tradições da Amazônia Atlântica

iurirubim às 18:34

Toques e Cantorias de Marujada e Carimbó de São Benedito, no Pará. Cacuriá, Carimbó de Caixeira, Tambor-de-Crioula do Maranhão.

O variado leque de tradições populares do Pará encontra-se com as não menos diversas expressões da cultura popular maranhenses na segunda edição do Festival Maria Pretinha, realizado de hoje à noite até domingo, na cidade de Quatipuru, nordeste do Pará, a 250 km de Belém.

A partir das 20h, marujadas tradicionais e mirins e os convidados fazem o “ritual da chegança”, dando uma pequena amostra do que será o Festival, cujo tema é “Revelando e Celebrando a Diversidade na Amazônia Atlântica”.

No sábado, o evento tem cortejo, oficinas de “danças do Pará e do Maranhão”, de “batuques de São Benedito” e de “rabecas da Amazônia”. À tarde, uma mostra de curtas da Amazônia, seguida da “Festança” à noite, com a apresentação de grupos tradicionais do Pará e do Maranhão.

O último dia do Festival tem um encontro com os mestres populares da cultura e um ritual de despedida. Durante todo o festival, haverá uma feira de artesanato e produtos de projetos socioculturais da comunidade e parceiros.

Maria Pretinha

Pedi à arte-educadora, focalizadora de Danças Circulares, fundadora e gestora da ONG paraense Mana-Maní, Esperança Alves, que organiza o Festival, para que explicasse quem é e qual o significado de Maria Pretinha. A resposta veio no texto abaixo:

“Conta a tradição oral, de Quatipuru, Nordeste Paraense – Amazônia Brasileira, que “Maria Pretinha” foi a primeira Capitôa da Marujada de São Benedito - tradição cultural originária daquele município, na Ilha de “Titica”, no ano de 1838.

Naquela época, conta o Mestre Raimundo Borges, “a festa acontecia em um grande terreiro iluminado por imensas fogueiras; marujos e marujas cantavam e dançavam ao ritmo do tambor, réco-réco, pandeiro, xéqui-xéqui e viola, a Roda, o Retumbão, o Peru, a Mazuka, o Xote, e Carimbó até dizer chega…”

Maria Pretinha é uma figura emblemática-alegórica das diversas “Mães Pretas”, que ao revés de condições desafiantes da escravidão no Brasil, na Amazônia, nas Américas, expressaram sua resistência na força criativa de suas raízes culturais, liderando a organização de manifestações como a Marujada de São Benedito no Pará, o Samba-de-Roda na Bahia, o Samba carioca no Rio de Janeiro, o Jongo no Sudeste, o Tambor-de-Crioula e Tambor de Mina no Maranhão e no Pará…

Agora, como ontem, muitas “Marias Pretinhas” teimam em resistir, aos muitos desafios da contemporaneidade com Arte, Criatividade, Vitalidade, Alegria, Prazer, Ludicidade, Espiritualidade.

Expressam através de suas Danças em Roda, Batuques, Fitas Coloridas, Culinárias, Vestes Rituais, Religiosidade, dentre outros elementos, outras formas de ver, de saber e estar no mundo.

Hoje,“Maria Pretinha” é uma iniciativa de caráter cultural e arte-educativa, recentemente nomeada “Irmandade Maria Pretinha”, nascida em Out/2005, em Quatipuru, como resultado da oficina "Remexendo a Memória Cultural Brasileira", focalizada pela Arte-Educadora "Esperança Alves", com jovens, educadores e mestres da Marujada, à convite da Fundação Curro Velho.

Inspirada na atitude criativa e visionária desta figura emblemática da maior tradição cultural do município - A Marujada de São Benedito, a Irmandade reúne outras “Marias Pretinhas”, Mestres, Arte-Educadores, Agentes, Grupos Culturais de Quatipuru; e parceiros de municípios do nordeste paraense - em especial aqueles integrados à Campanha “Carimbó Patrimônio Cultural Brasileiro”. Uma grande aliança em prol da Diversidade Bio-Cultural na Amazônia Atlântica.

O Festival Maria Pretinha constitui-se em um espaço-tempo de fortalecimento e ampliação das ações desta Aliança (Irmandade Maria Pretinha), incluindo novo/as expressões culturais amazônida-brasileiras, protagonistas e parceiros, em prol da Diversidade, Criatividade e Sustentabilidade na Amazônia".

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27 de novembro de 2008

“A Amazônia é um gesto de amor pela humanidade”

iurirubim às 12:24

Reunidos no Flifloresta - Festival Literário Internacional da Floresta, ocorrido em Manaus, entre 17 e 22 de novembro, escritores de vários países divulgaram um manifesto pela Amazônia.

A Carta da Floresta é um documento com 10 tópicos que expressa “sentimentos, preocupações e compromissos” desses escritores – muitos deles indígenas - e demais participantes do Festival com a Amazônia e suas populações.

Para os autores do documento, a Amazônia deve representar e ser reconhecida sempre “como um grande gesto de amor por toda a Humanidade”.

Além do já esperado apelo pela preservação dos ecossistemas da região, a Carta dá grande importância à interligação destes com os sistemas culturais presentes na floresta.

Demanda o reconhecimento das culturas amazônicas “nas suas mais variadas manifestações de criatividade e saber” como produção intelectual indissociável de seus produtores individuais ou coletivos.

Demanda, ainda que qualquer política pública ou intervenção na natureza e no ambiente social da região sejam efetivados “por meio de diálogo entre conhecimento, tecnologia e os saberes tradicionais dos povos amazônicos”.

O documento também faz referência sutil à soberania nacional, ao afirmar que “a Amazônia brasileira pertence ao povo brasileiro”. Leia aqui a íntegra da Carta.

Doroni Hilgeberg, escritora paranaense radicada em Manaus, dá um depoimento sobre a leitura da Carta:

- Esta carta foi lida por Tenório Telles em frente à Cachoeira da Onça, rodeado de água, árvores, seres da floresta e uma infinidade de seres humanos, que embevecidos e emocionados, assinaram esta carta manifesto, que após o término do Flifloresta, será exposta ao mundo como um grande gesto de amor pela Amazônia e todo o ecossistema - afirma a escritora. 

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26 de novembro de 2008

RJ: Cineclube promove prêmio “Angu de Ouro”

iurirubim às 15:26

Angu de Ouro é o nome do prêmio que será concedido hoje à noite ao melhor filme que passou pelas telas do Cineclube Mate com Angu.

Há seis anos, o cineclube realiza exibições mensais de vídeos, em geral curtas-metragens nacionais, seguidas de festas que invadem a madrugada da cidade de Duque de Caxias, na baixada fluminense.

Esta é a quarta edição do prêmio, realizado em conjunto com a última sessão do ano. Bem-humorados, os organizadores consideram troféu Angu de Ouro o prêmio “mais gostoso” do cinema brasileiro. Têm até slogan para ele: “Cheiroso, gostoso e nutritivo”.

A escolha do premiado é bem simples: a partir de uma seleção especial dos filmes que passaram pela tela do Cineclube Mate Com Angu em 2008, o público elege, na base do voto e aclamação, o vencedor.

Depois da exibição, acontece a tradicional “festa balançante”, nesta ocasião com DJ Lobão e DJ Bob Pai - com direito a uma performance visual do coletivo SOMOS VIDEOSAUNDSYSTEM (VJs Paulo China, Polly e Mossad).

O Cineclube Mate com Angu fica na Lira de Ouro (Rua Sebastião de Oliveira, 72 - centro de Caxias) e a “cerimônia” começa às 20h30. “Entrada na maior franqueza”, como diz o convite.

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25 de novembro de 2008

CE: rezadeira cura “à distância” usando foto

iurirubim às 10:49

Todo mundo de Alto Santo, município do interior do Ceará, já bem próximo à fronteira com o Rio Grande do Norte, conhece a rezadeira Fransquinha Félix.

- Aqui em Alto Santo qual foi a mãe que nunca levou seu filho ou sua filha na casa da Dona Fransquinha Félix, para ela rezar de um quebrante, diarréia, vento caído ou qualquer que seja a doença? - pergunta Juliana Lima, moradora da cidade.

Anafabeta, aos 67anos Fransquinha Félix tornou-se cidadã ilustre não apenas na cidade, mas em todo o Ceará. Recentemente recebeu, da Secretaria Estadual de Cultura, o prêmio de Tesouro Vivo da Cultura, entregue a pessoas detentoras de saberes necessários para a produção e preservação da cultura tradicional popular.

D. Fransquinha não é cearense. Nasceu no estado vizinho, Rio Grande do Norte, no município de Umarizal, não muito distante de Alto Santo, onde reside há meio século.


D. Fransquinha agora é considerada
Tesouro Vivo da cultura cearense

Batizada de Francisca Galdino de Oliveira, ela garante que reza há mais de 60 anos: “aprendi a reza com minha madrinha Maria Catingueira, com cinco anos de idade”, diz.

- Os dono de fazenda vêm se valer de mim e eu rezo em cavalo, cachorro, gato, criação. As pessoas também vêm me buscar para rezar nos meninos. Tem dia que tem mais de 30 meninos pra eu rezar, tem dia que o alpendre fica cheio de gente, tanto adulto como criança, eu num tenho mais soma de quantas pessoa eu já rezei – afirma D. Fransquinha.

A rezadeira cura as pessoas sem cobrar nada. “A reza não é paga, a reza que Deus deixou no mundo não foi para ser paga, nem vendida”, argumenta. “Sinto prazer em rezar e ver aquela pessoa boa”.

D. Fransquinha, aliás, faz questão de sempre enfatizar a importância da fé. “Eu uso um galhinho de ramo verde e as palavras que rezo é palavras de Deus e nossa senhora”. E avisa: “Mãe que não tem fé, não venha me procurar que não tem cura!”.


Devota, a rezadeira alerta: "para curar, tem que ter fé".

Para aqueles que têm fé, entretanto, a rezadeira se garante:

- Ninguém que vem aqui na minha casa da uma viagem perdida. Houve criança e gente grande que não tinha cura no médico e veio aqui. Eu rezei e teve cura. Eu rezo em tudo, quebrante, vento caído, ferida braba… a pessoa vem “três vez”, se num ficar boa tem que vim “nove vez”. Aí fica curada, mas tem de ter muita fé – conta.

Para quem não pode ir até sua casa, no bairro Pão de Açúcar, no Centro da Cidade, Dona Fransquinha recomenda mandar uma foto ou peça de roupa. “Às vezes a pessoa fica doente mas tá longe aí manda uma foto ou uma blusa. Aí eu rezo a pessoa fica boa, mas num é eu que curo, é a fé da pessoa”, afirma.

O poder de cura de Dona Francisca é endossado pelos moradores de Alto Santo. Para Dona Maria Neta Oliveira, a reza de D. Fransquinha vem antes até do médico:

- Sempre que minha sobrinha fica doente, com vento caído ou quebrante, a primeira coisa que eu faço é correr lá para a casa da Dona Fransquinha Felix, antes mesmo de ir para o hospital procurar o médico. Aí ela reza três vez e, quando a gente menos espera, a criança já tá boa, já tá é se danando no meio da casa – diz Dona Maria, tia de Ylana.


Dona Maria leva a sobrinha Ylana para ver
D. Fransquinha antes de ir a qualquer médico

Assim como Dona Maria, muitas outras mães de Alto Santo depõe em favor da “mão santa” de Dona Fransquinha Felix.

Mas que ninguém leve o filho na casa de D. Fransquinha no meio-dia: “não rezo 12 hora do dia e nem da noite, porque ninguém num nasceu e nem morreu nessa hora. Os outro horário eu rezo, pode vir”.

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22 de novembro de 2008

SE: Violeiros disputam quem improvisa melhor

iurirubim às 10:54

Hoje acontece a batalha pela palavra. Não uma palavra qualquer, mas aquela descoberta ali na hora, num átimo, num estalo, “de repente”.

Neste sábado, às 17h, a praça dos mercados Antônio Franco e Thales Ferraz recebe o VII Festival de Violeiros Repentistas de Aracaju.

A peleja das rimas traz à capital sergipana trovadores de Alagoas e Pernambuco que competem com filhos da terra para saber quem tem a mente mais sagaz e a língua mais ligeira.

Verso feito instantaneamente, no mais puro improviso, o repente depende da agilidade mental do artista. É a arte de falar elaborando idéias, dentro de métrica e rimas rigorosas.

O repentista canta numerosos gêneros e variados temas, desde louvações à natureza, à mulher, à ciência e até as críticas sociais e políticas.

De acordo com o pesquisador musical e assessor cultural da Secretaria de Estado da Cultura de Sergipe, Paulo Correa, os repentes são apresentados sempre por dois violeiros, alternadamente, e as alternâncias também seguem normas.

O cantar dos violeiros requer, além da prodigiosa memória e agilidade mental, uma interação harmônica entre violeiro e parceiro, fazendo com que evoluam o tema e a comunicação com a platéia.

Nesta dinâmica, temas podem ser sugeridos pela platéia para que o violeiro improvise. Isto é o ´mote´, que pode ter de um a quatro versos, com sete ou dez sílabas que o repentista utiliza para completar a décima por ele improvisada e, além do mais, dentro de regras rigorosas.

Assim, o mote de uma ou de duas linhas deve constituir o final da estância; o de três ou quatro poderá ser posto pelo repentista no final da estrofe ou diluído de várias formas, explica Correa.

Duplas concorrentes:

1 - João Lourenço (Caruaru/PE) x Raulino Silva (Caruaru/PE)
2 - Rogério Meneses (Caruaru/PE) x Hipólito Moura (Caruaru/PE)
3 - Gilberto Alves (Delmiro Gouveia/AL) x Zenilde Batista (Santana do Ipanema/AL)
4 - João Bezerra (Canindé do São Francisco/SE) x Galego da Viola (Simão Dias/SE)
5 - Vem Vem do Nordeste (Canindé do São Francisco/SE) x Jurandir (Barra dos Coqueiros/SE)

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20 de novembro de 2008

Na capital mais negra do país, 20/11 não é feriado

iurirubim às 7:09

Em mais de 300 municípios brasileiros, incluindo capitais como São Paulo e Rio de Janeiro, o Dia Nacional da Consciência Negra é feriado oficial.

Enquanto tramita no congresso nacional o projeto de lei do Senador Paulo Paim para que a data se torne um feriado nacional, mais e mais cidades vão engrossando a lista.

Curiosamente – ou ironicamente, segundo alguns críticos –, Salvador, onde 80% da população se declara parda ou preta, não faz parte desse grupo.

Aparente “ponto pacífico”, a questão é fruto de polêmica dentro do próprio movimento negro. Walmir França, diretor do bloco Os Negões, é um exemplo dos que se opõem à criação do feriado.

- Essa é uma questão discutível. A data tem o papel de chamar a atenção da comunidade. Se for feriado, pode ser apenas mais um dia de praia ou viagem. Como vamos fazer feriado se ainda estamos brigando por afirmação? Como vamos mobilizar as câmaras, assembléias e o congresso num feriado? – argumenta.

O líder comunitário, entretanto faz questão de frisar o papel de Salvador na instituição do Dia da Consciência Negra:

- A data foi criada aqui, num encontro nacional do movimento negro, em 1978. Foi aqui que começamos a homenagear a imortalidade de Zumbi dos Palmares, um dos primeiros brasileiros a lutar contra o império português e pela liberdade - diz.

E você? Acha que o Dia da Consciência Negra deveria ser feriado em Salvador? Comente!

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BA:Caminhada da consciência negra homenageia Obama

iurirubim às 7:04

No Dia Nacional da Consciência Negra, o homenageado é o presidente eleito dos Estados Unidos.

“Sim, nós também podemos” é a frase que estampa os cartazes da 8ª Caminhada da Liberdade, organizada pelo Fórum de Entidades Negras da Bahia. Tradicionalmente saindo da sede do Ilê Aiyê, no Curuzu, em direção ao Pelourinho, a caminhada, marcada para as 16h, espera agregar 50 mil pessoas em 2008.

Para Walmir França, o diretor do bloco Os Negões, este ano a Caminhada é especial, pois a vitória de Obama é um marco para população negra. "Se foi possível um presidente negro nos Estados Unidos, nós acreditamos que também é possível no Brasil, afinal somos quase 50% da população desse país”, argumenta.

- Antes, os EUA só tinham presidentes negros nos filmes de ficção. Alguns num futuro tão distante que era difícil até de imaginar. Muitos achavam que isso nunca aconteceria. Agora dá para ver que eles estavam errados – afirma França.

Entretanto, o ativista alerta que nada acontece sem a mobilização social: “A eleição de Obama é fruto da luta de Martin Luther King, de Malcolm X, de Jesse Jackson. Foram eles que pavimentaram o caminho para o primeiro presidente negro dos Estados Unidos”.

- No caso do movimento negro brasileiro, isso vale como combustível na luta contra discriminação racial, para fortalecer ações com a comunidade e para o estado criar políticas públicas de reparação. A gente tem que ter claro que racismo é algo que deve ser apagado! Nada melhor que o país mais rico e poderoso do mundo traga esse exemplo – reforça França.


Os movimentos exigem políticas públicos de reparação

Já Antônio Carlos Vovô, presidente do Bloco Ilê Aiyê, diz que a eleição de Obama deu um novo vigor ao movimento, mas reclama que “os brasileiros têm que sair da escravidão mental e votar em candidatos negros”.

O líder comunitário defende veementemente que a promoção da igualdade entre negros e brancos passa pela ocupação de postos de decisão na sociedade: “Temos que conquistar o poder efetivo, ter deputados, senadores negros para legislar”.

- Temos que parar com o chororô e conquistar o poder. A população negra dos Estados Unidos é menor do que a nossa e eles conseguiram. Aqui nós somos maioria. Deveríamos fazer como a África do Sul, onde, depois de Mandela, o negro nunca mais perdeu o poder - afirma.

Recentemente, a agência Reuters publicou uma matéria, destacando a pouca ocupação de espaços de decisão por negros no Brasil. Já Relatório Anual das Desigualdades no Brasil – 2007/2008 atesta que os negros estão subrepresentados na Câmara dos Deputados.


A caminhada espera colocar 50 mil pessoas nas ruas

Para Vovô do Ilê, já passam da hora das celebridades negras brasileiras se posicionarem.

- Artistas, jogadores de futebol, o pessoal de televisão tem que começar a se posicionar! Não dá para ficar achando que não são negros, que é tudo uma questão social. Taí o exemplo do Dudu Nobre. Quando toma porrada, todo mundo vai para imprensa. – afirma, enfático.

Um pouco mais otimista, o diretor do bloco Os Negões acredita num futuro com mais diversidade no executivo nacional. “Já elegemos um metalúrgico presidente do Brasil. Agora pode ser uma mulher, um negro… podemos experimentar bastante”, afirma Walmir França.

Fotos: Acervo/ Fórum de Entidades Negras da Bahia

 

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19 de novembro de 2008

A Consciência Negra é comemorada nas favelas?

iurirubim às 9:12

O Dia 20 de Novembro para quem sente na pele o que é ser negro.

Feriado prolongado nesta semana. Dia 20 de Novembro, quinta-feira, é o dia da Consciência Negra. Como as comunidades populares, onde a maioria de seus residentes são negros vão comemorar o dia 20? Será que vão comemorar?

Arriscaria dizendo que vários deles nem sequer sabem a importância de tal data, afinal, estão excluídos de informações. Outros, até sabem, mas creio que comemoração não seja a palavra mais apropriada. Já alguns vão festejar talvez como um feriado qualquer, talvez com a importância que o dia merece.

Diante de tanto achismo, fui conferir o que algumas pessoas, do Bairro Alvorada, em Cuiabá (bairro mais do que pobre), têm a dizer sobre o assunto.

Jullany Peixoto, de 19 anos, moradora do bairro desde que nasceu, negra, me disse que nem sabia que era feriado, e que não há nada de novo para ela, mas um feriadão em plena quinta feira vai "massa".

Disse-me também que não há nada em especial neste dia (falei brevemente sobre a data), pois ela não sente nenhum tipo de discriminação. Bom, acertei uma, mas confesso que me impressionei ao ouvir a moça dizendo que jamais sentiu algum tipo de preconceito.

Bruno Aparecido, também negro, 22 anos, servente de pedreiro e pai de dois filhos pequenos, disse que viu na televisão uma reportagem sobre o Zumbi dos Palmares e ficou muito contente por saber que dia 20 é uma data para "nós negros festejarmos, pois somos povos sofridos e merecemos respeito".

Bruno me disse que já sentiu na pele o que é ser negro. E sente todas as vezes que leva a mulher e os filhos ao shopping, no início do mês, para passear.

- Sempre acham que sou o segurança, ou o cara que atende, acho isso uma falta de respeito. Pô, só porque eu sou preto o povo acha que não posso fazer uma graça para minha família quando sai o salário? Sacanagem – conta Bruno.

Mas impressionada mesmo fiquei ao ouvir Seu José Gomes, de 53 anos, comerciante no bairro há vinte anos.

Seu José afirma que é um bom momento para pensar em coisas que podemos fazer para acabar com o preconceito de vez logo que, segundo ele, já diminui um pouco.

Uma boa a coisa a ser feita, é dar mais acesso aos negros dentro da universidade. Para ele, só estudando as pessoas negras podem mostrar da melhor forma que os negros têm valor.

Seu José conta ainda que um grande exemplo disso é o Barack Obama, “um cara muito estudioso e inteligente”, que agora é presidente dos Estados Unidos.

Seu José espera “que o Brasil também possa viver essa alegria”.

Essa pequena amostragem é um reflexo de como as pessoas que vivem em comunidades periféricas percebem o preconceito e o racismo.

Bom mesmo seria se pudéssemos ouvir muito mais pessoas e traçar o significado real do Dia da Consciência Negra para negros favelados que, como bem disse o Bruno, sentem na pele o que é ser negro em um país como o nosso.

Que o dia vinte não é uma data especificamente comemorativa, já sabemos, mas será que sabemos realmente o que esse dia significa?

Fernanda Quevedo é coordenadora do Núcleo de Comunicação da Cufa de Mato Grosso, acadêmica de Serviço Social da Universidade Federal de Mato Grosso

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18 de novembro de 2008

O negro é rei no carnaval. Será?

iurirubim às 18:02

Em tempos de eleições ditas pós-raciais na nação – pelo menos por enquanto – mais poderosa do planeta alguém pode se perguntar: qual a importância de discutir-se a participação do negro no carnaval do Brasil?
O carnaval brasileiro contém, em todos os seus aspectos, o resumo das diferenças sociais, econômicas e políticas que se apresentam na nossa sociedade.

Um olhar para suas nuances pode nos ajudar a refletir sobre a condição de desigualdade que atinge os descendentes da mãe África que por aqui habitam.

Vamos usar como exemplo as Escolas de Samba.

Uma manifestação cultural que tem a evidente participação negra desde suas origens e que rende muitos dividendos aos seus organizadores. Poderíamos afirmar que nestas históricas instituições e no Carnaval, de forma geral, o protagonismo negro é evidente.

Afinal os negros são os grandes artistas do espetáculo: ritmistas, mestre-sala e porta-bandeira, passistas, compositores, intérpretes, etc.

Pois bem, paradoxalmente na importância que o negro tem, pelo brilho que empresta ao espetáculo, está a sua enorme ausência nos centros de decisão dos destinos deste grande acontecimento cultural.

Raros são os presidentes de Escolas de Samba e dirigentes da organização do Carnaval negros.

O destino carnavalesco de quem carrega o peso do surdo-de-marcação, canta e dança é decidido por outro alguém que tem poder político e econômico.

Algo impossível de ser alcançado pelos negros no atual estágio da nossa sociedade.

Assim no Carnaval, como em todos os setores da vida do nosso país, o negro tem – historicamente – um lugar à margem dos centros de poder.

Não lhe é dada condição de igualdade para que seja comum a sua presença em postos-chave da sociedade (e no carnaval isto se replica fielmente). Reitores, governadores e cientistas negros? No Brasil a negritude passa longe destas ocupações.

Nas terras tupiniquins, ao contrário da suposta fuga da realidade que aparenta representar, o Carnaval imita a vida cotidiana e é retrato fiel dela. Infelizmente.

Romilson Madeira, 38 anos, sambista, jornalista e publicitário.
Mestre em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo.

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17 de novembro de 2008

ONG: sexismo acentua preconceito contra negras

iurirubim às 11:36

Vários estudos (aqui e aqui) e reuniões científicas confirmam que são as mulheres negras as maiores vítimas do preconceito no Brasil (ou aqui), pois sofrem, simultaneamente discriminação racial e sexual.

O Blog das Ruas está publicando algumas matérias e artigos sobre a questão negra no Brasil, em função das comemorações do Dia da Consciência Negra. Nada melhor, portanto, que começar com um texto sobre as mulheres negras.

MULHERES NEGRAS - Maior Vulnerabilidade à Violência

No Brasil, as principais vítimas da violência são jovens, negros e pobres.

Embora a violência de gênero possa atingir mulheres de todas as raças/etnias e níveis de escolaridade e renda, organizações de mulheres negras responsabilizam o sexismo e a falta de políticas públicas de emprego, saúde e educação pelo grande número de casos de violência contra as mulheres negras.

De fato todos os indicadores sociais apontam que as mulheres negras estão mais vulneráveis à violência em decorrência de uma conjunção de fatores sociais, tais como baixa escolaridade, alto índice de desemprego e de subemprego e, principalmente, da discriminação e desigualdade.

Dessa forma, as mulheres negras estão não somente mais expostas aos efeitos da violência, mas elas também possuem menores condições para o enfrentamento da violência sofrida.

São exemplos de violência os homicídios, o tráfico sexual, a exploração do trabalho, o trabalho escravo, as agressões físicas, sexuais e psicológicas, e também o racismo, as discriminações cotidianas e as dificuldades ou falta de acesso a bens e serviços.

E em todos estes exemplos as mulheres negras ocupam o primeiro lugar nas pesquisas.

As organizações de mulheres negras têm se empenhado em mudar estes dados através de projetos e propostas de políticas públicas que atendam as necessidades das mulheres negras e da população afro-brasileira como um todo.

Alguns avanços aconteceram, mas ainda temos muito trabalho em busca da cidadania e da equidade de direitos.

Maria Cristina F. Santos, coordenadora adjunta do ponto de cultura MARIA MULHER - Organização de Mulheres Negras.

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