Terra Magazine

11 de novembro de 2008

BA: Para rezador, derrame é “vento brabo”

iurirubim às 8:53

Ele ainda vai fazer 59 anos no dia 17 de dezembro, mas todos o chamam de Véio. “Vou fazer 60 e já achei esse nome desde pequeno”, diz, com muito bom humor, Seu Francisco Pereira da Silva, rezador da comunidade da Lagoa da Camisa, na zona rural de Feira de Santana (BA).


Seu Francisco (D) é rezador desde pequeno

Véio enxerga pouco de um olho e nada do outro. Consegue andar sozinho nos lugares que ele já conhece, mas a coisa complica com o excesso de carros e motos da cidade grande. Nada disso, entretanto, o impede de continuar rezando as pessoas.

- Minha mãe, que está muito doente agora, é grande rezadeira. Aprendi o que sei desde pequeno com ela, c’os avôs e as avós – diz Seu Francisco.

A especialidade de Véio é rezar pessoas acometidas de vento brabo. Ele mesmo explica o que é isso:

- Os médicos, a medicina diz que isso é derrame, mas tudo parte do vento do ar, de vento brabo. Abriu a porta e facilitou, passa o vento brabo e aí já pega. Tem o vento de sete, que é manso; o de nove, que já é mais ou menos e o de 14, que é brabo. E tem o de 21 que é brabão! É tão perigoso que, quando a pessoa reza o 21, se o cliente morrer nos três primeiros dias, perde as duas almas. Tem que rezar com o nome dos demônios todos.

- E a medicina diz que isso é derrame?

- É, agora dizem que é derrame - confirma.

A primeira pessoa rezada por Véio foi um colega de pescaria, quando ele tinha 15 anos.

- Ele estava pescando comigo e adoeceu. Ficou zonzo, vomitando e com as vistas escuras. Pelos sintomas, vi que era vento. Aí, eu não conversei. Peguei as folhas e mandei tirar um sono. Logo depois, ele ficou bom! – diz


Seu Francisco (D) também é cantor no grupo
Quixabeira de Lagoa da Camisa

Ele cobra as rezas, mas também atende quem não pode pagar. “A gente vive do trabalho que nós sabe, mas de tudo na vida, a gente tem que fazer uma caridade”, diz. Segundo o Véio, não se pode deixar ninguém ficar doente.

Seu Francisco associa o uso de folhas e orações nas rezas. As orações, sempre oferece a São Romão. Já as folhas, faz a combinação de acordo com os sintomas. “Para cada doença, é uma folha, mas a principal é Vence Tudo!”. Ele dá exemplos das rezas para cada doença:

- Para olhado, é vassourinha. Para dor de cabeça não é com folha, é com as mãos. Dismintidura a gente reza com as mãos, e três torrão (barro da parede). Agora os médicos estão engessando, mas antes na zona rural, a gente não engessava não. Para dismintidura, eu rezo assim:

Rezo de dismintidura e coso
Pele com pele
Carne com carne
Nervo rindido
E ossos torno
Valei senhor seu furtuoso
Cos poder de Deus
Da virgem Maria, amém

Vida de cantor

Véio divide seu tempo entre o ofício de rezar as pessoas e os palcos. Responsável por um dos vocais e pelo pandeiro do grupo Quixabeira de Lagoa da Camisa, faz show em Salvador no dia 14/11, às 20 horas, na Praça Tereza Batista, Pelourinho, com entrada franca.


No pandeiro e nos vocais, Véio se apresenta em
Salvador no dia 14 de novembro

Durante a apresentação o grupo vende o CD “Ô Pandeiro! Ô Viola!”, relançado em 2008, com preço promocional (R$15,00). Samba-de-roda, chula, samba martelo, batuque, reisado e cantiga de roda são alguns dos ritmos presentes no CD.

As apresentações eventuais desse grupo da região de Quixabeira ajudam a manter a coesão das comunidades. As rezas, batizados, aniversários e rodas de samba que acontecem durante o ano renovam e revivem essas linguagens musicais. Nessas oportunidades, os mais novos aproveitam para aprender os movimentos, ritmos e toadas, garantindo a permanência da tradição.

Blogs que citam este Post

Nenhum comentário »

Nenhum comentário.

Feed RSS para os comentários do post. Link de TrackBack

Deixe seu comentário

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol