AL: Escola pública descobre a afro-matemática
Estatística no jogo de búzios. Geometria na capoeira. Análise combinatória em jogos de adivinhações de Madagascar. Equações no Kalah (jogo tradicional africano).
Alunos da Escola Estadual Alberto Torres, localizada no bairro Bebedouro, em Maceió, descobriram recentemente a presença da matemática nas manifestações culturais de diversas regiões do continente africano.
O interessante é que essas são práticas tradicionais africanas, legadas por povos que nunca tiveram acesso ao ensino formal dessa disciplina.
- Os povos nativos africanos não têm a mesma tradição escolar que os ocidentais e, ainda assim, executavam operações extremamente complexas desde a antiguidade. A construção das pirâmides – um mistério até hoje – é o exemplo mais acabado, mas existem muitos outros – explica o professor de matemática Allex Sander Porfirio, o grande incentivador da Afro-Matemática na Escola.

Letreiro chama atenção para o uso da matemática
na África ainda na Antiguidade
Para o professor, é possível encontrar no nosso cotidiano situações similares.
- Um baleiro não tem conhecimento de sala de aula, mas ele sabe operar a compra e venda de seus produtos; a dona de casa que nunca foi à escola sabe fracionar os ingredientes de sua receita. Eles fazem as contas, mas a partir de uma outra lógica. É um etno-matemática, a matemática a partir de um ponto de vista particular -argumenta.
Essa investigação dos alunos levou a Escola a realizar, no dia 13 de dezembro, a primeira Feira de Afro-Matemática da capital alagoana e (pelo menos ao que me consta) do país.

Equações fazem parte do Kalah,
jogo tradicional africano
No evento, alunos do Ensino Fundamental e Médio organizaram apresentações artísticas e exposições sobre a história da matemática no continente africano, ressaltando a importância dessa ciência na cultura afro-brasileira.
- Ainda estamos no começo desse processo de estudo. Estamos começando a engatinhar na identificação da matemática na cultura africana – confessa o professor Allex Sander.
Tudo começou numa ingreja evangélica
Evangélico e membro de uma Igreja Batista no bairro de Pinheiro, Allex Sander Porfirio começou a se interessar pela temática dentro da surpreendente Pastoral da Negritude, fundada pela instituição.
- Minha igreja é bastante aberta. Com a pastoral, começamos a estudar os personagens negros da bíblia. Daí comecei a ter contato com matemática negra – revela o professor, ciente das diferenças muito freqüentes entre evangélicos e a cultura afro-brasileira.
Esse interesse pela cultura negra levou Allex Sander a extrapolar os limites de sua disciplina e propor à Escola Alberto Torres, em outubro deste ano, a realização do projeto Pérola Negra Brasileira – história, importância e lutas do povo negro.
O projeto apresentou aos alunos da escola, de forma multidisciplinar, diversos tópicos relacionados à herança africana e serviu para quebrar resistências a respeito da temática.
- Acho que o fato de eu ser evangélico na verdade facilitou tudo porque os alunos deviam pensar: “se o professor, que é evangélico como eu, estuda esses assuntos, não deve ter problema” - conta o professor.
De fato, o preconceito religioso impedia que temas ligados à cultura africana fossem trabalhados em sala de aula. O depoimento da professora de religião Heloísa Carvalho, ilustra bem a situação:
- Estou super gratificada pela recepção dos meus alunos, eles me deram mais espaço para falar sobre a cultura africana nos seus mais variados aspectos, coisa que eles já iam criticando, me taxavam logo de macumbeira. Dessa vez, ouviram positivamente – conta a professora.
Hoje, Allex Sander é reconhecido pela sua capacidade em implementar as Leis Federal 10.639/03 e a Estadual 6.814/07, que instituem o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana no currículo escolar.
E garante que continua com a pesquisa sobre a Afro-Matemática.