Terra Magazine

20 de March de 2009

BA: Aos 101 anos, D. Canô Velloso publica livro de memórias

Ela nunca pensou em ser mãe de artistas famosos, mas gerou e educou de dois dos principais nomes da música brasileira. Mãe de Caetano Veloso e Maria Bethânia, Dona Canô tem suas memórias registradas no livro: "Canô Velloso, lembranças do saber viver", escrito pelo historiador Antonio Guerreiro de Freitas e por Arthur Assis Gonçalves da Silva, falecido antes do término da obra. O livro contém 214 páginas, incluindo uma galeria de fotos da família, de amigos, de cidades do Recôncavo e de viagens acompanhando os filhos artistas. Será lançado hoje às 19h, no Palacete das Artes Rodin Bahia, em Salvador. - Qualquer pessoa que conviva com ela, que se aproxime dela, vai perceber que é uma pessoa singular. E tem uma memória extremamente viva. Não só guarda o passado, mas interage com tudo o que a rodeia: a igreja, o celibato, casamento. Tudo aquilo que faz parte do cotidiano de qualquer pessoa faz parte do dela também - explica Antonio Guerreiro de Freitas, que também ensina na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFBA.
A capa do livro

A capa do livro

As lembranças mais fortes de Dona Claudionor Velloso (seu nome de batismo) são do próprio casamento, de mais de 50 anos, e da convivência com os filhos, netos e bisnetos. - No final do trabalho, perguntei a ela: "Do que a senhora chamaria mais atenção?". "Meu casamento e minha família", respondeu sem vacilar. Esse foram os tempos mais longos que ela viveu. Foi casada mais de 50 anos e a família está aí até hoje - conta o autor. Segundo Guerreiro de Freitas, a matriarca acompanha de perto tudo o que está acontecendo com seus descendentes. - Ela sabe de tudo sobre o que está acontecendo com todos os filhos. Se estão gravando, viajando, onde estão. Acho que Maria Bethânia ligou para ela todos os dias em que gravamos as entrevistas - lembra Guerreiro de Freitas.
D. Canô está sempre atenta a todos os membros da fam�lia

D. Canô está sempre atenta a todos os membros da família

O autor também destaca a importância de Dona Canô na vida de Santo Amaro da Purificação, a cidade onde nasceu e vive até hoje. Muito respeitada e dona de um extenso círculo de amizades, D. Canô volta e meia está metida com algum tipo de mobilização pela cidade. Já angariou fundos para reforma da principal igreja de Santo Amaro, mobilizou a população em apoio aos pescadores locais, organizou anualmente ternos de reis - dentre muitas outras ações -, transformando-se numa espécie de "embaixatriz" do município. - Principalmente depois que ficou viúva, ela vive esse cotidiano com muito interesse. Muitos a procuram e ela está sempre disponível. Ela fala de Santo Amaro com mais autoridade que as autoridades constituídas - explica o autor. Segundo Guerreiro, na infância e em parte da adolescência, D. Canô passava as férias na casa grande de um engenho. Lá, a matriarca dos Vellos teria tido desenvolvido grande sensibilidade para as artes. - Ela recebia da dona da fazenda uma boa formação em música e teatro. Desde criança atuava em peças e sempre gostou de canto. Isso fez dela talvez alguém muito singular - afirma Antonio Guerreiro de Freitas.
Antonio Guerreiro gravou 40 horas de lembranças de D. Canô

Antonio Guerreiro gravou 40 horas de lembranças de D. Canô

O autor conta que, logo cedo, ela percebeu que Caetano seria um artista, mesmo o próprio achando à época que não daria para a música. "Era um aéreo, nunca gostou de estudar, mas desenhava muito", teria dito Canô em uma das entrevistas. - Ela nunca pensou na vida em ser mãe de artistas famosos, mas essa vivência em sua infância foi capaz de despertar nela uma sensibilidade para perceber o lugar da arte na vida dos filhos - revela Guerreiro. Livro de memórias não é biografia Antonio Guerreiro de Freitas faz questão de diferenciar o seu trabalho do de um biógrafo. E explica porque: - Gilberto Gil assinou contrato com a Companhia das Letras para publicação de biografia e escolheu um jornalista para fazer isso. Esse jornalista fez primeiro um cadastro com 800 nomes de pessoas que podem falar a respeito de Gil. Depois juntou fotografias, documentos. Enfim, uma biografia tem sempre alguém de fora que vai estudar um terceiro. De acordo com Guerreiro, um registro de memórias é bastante diferente. O autor faz um roteiro temático e o submete ao entrevistado. Então, em sessões sucessivas, pede ao entrevistado que fale sobre o roteiro. "Meu trabalho foi, principalmente, o de montar, organizar, estruturar esse roteiro", diz.
D. Canô é considerada "embaixatriz" de Santo Amaro

D. Canô é considerada "embaixatriz" de Santo Amaro

No caso do livro de D.Canô, a narrativa se transformou em sete capítulos. No início de cada um, Guerreiro faz uma introdução contextualizando leitor. - Intervi muito pouco, tentei respeitar ao máximo a fala dela. O resultado foi um livro com linguagem bastante coloquial. As pessoas que já leram o livro disseram que parece que estar ouvindo ela falando. Só depois dos 100 A primeira proposta de realizar o livro foi feita à Dona Canô em 2006. - Fiz uma proposta e ela respondeu: "Por agora não. Não sei se vou completar 100 anos". Retomamos o assunto mais tarde, pedi autorização aos filhos e, em março de 2007, começamos as entrevistas - explica o autor. Todas as sextas-feiras, Guerreiro entrevistava Dona Canô. Foram cinco meses de trabalho e cerca de 40 horas de gravação. - Eu vinha há algum tempo trabalhando com memória de idosos. Havia feito trabalhos de memória oral com pessoas de, no máximo, 85 anos. Mas nunca tinha trabalhado com alguém de 100. Então, para mim, foi um grande desafio - conta. (fotos: Francisco de Assis/ especial para o Terra [1, 3, 5]; divulgação [2,4])

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24 Comentários »

  1. vamos ter que mudar um "velho ditado": mae de peixe...peixinho é. valter arthur

    Comentário por valter santos — 20 de March de 2009 @ 11:47

  2. Que bonito chegar aos 101 anos ainda participando e interferindo no mundo. D. Canô nem precisaria ser mãe de Caetano Veloso e de Maria Bethania para valer uma história. Adorei a matéria!

    Comentário por luciana — 20 de March de 2009 @ 11:48

  3. SIMPLISMENTE LINDO!!!! PARABENS DONA CANO!!!!

    Comentário por nara — 20 de March de 2009 @ 11:55

  4. Coisa linda esta D. Canô. Um verdadeiro exemplo de vida! fAZ-ME LEMBRAR, MINHA QUERIDA TIA , MARIA cOSTA, QUE COMPLETA 92 ANOS DE VIDA E TB eSTA COM A MEMORIA LUCIDA E TEM BOAS HISTORIAS PARA CONTAR. PARABENS QUE DEUS CONTINUE A ABENÇOANDO!

    Comentário por katia — 20 de March de 2009 @ 11:57

  5. Detalhe, tia Maria Costa mora em João Pessoa, na Paraiba, e eu, no Rio . Ai que saudades...

    Comentário por katia — 20 de March de 2009 @ 11:59

  6. É ela a "fonte que nunca seca". Um presente e um exemplo da beleza da vida. Agora essa fonte ainda nos presenteia com suas memórias!!! Não vejo a hora de le-las. Um BEIJÃO pra Da. Cano.

    Comentário por Araguai S. Garcia — 20 de March de 2009 @ 12:05

  7. INTERESSANTÍSSIMO PRESERVAR MEMÍRUAS VIVAS DO BRASIL E AINDA POR CIMA LÚCIDAS. PARABÉNS DONA CANÔ E O AUTOR. VEREMOS O LIVRO

    Comentário por LUIZ ANTONIO DE OLIVEIRA — 20 de March de 2009 @ 12:12

  8. O nome de Maria Bethânia e de Caetano sempre estava relacionado pra mim, com a força materna de D.Canô. É uma felicidade muito grande, ver essa bela senhora espiritulizadíssima, passar dos cem anos, e sendo exemplo de bom brasileiro. Meus respeitos e meus cumprimentos e parabéns pelo livro... Vou ler...rsrsrsrsrs

    Comentário por Vanderval Viana — 20 de March de 2009 @ 12:27

  9. parabéns, D.Cano que Deus continue lhe abençoando, a senhora é um exemplo de vida.

    Comentário por jose mello — 20 de March de 2009 @ 12:29

  10. Nem tem o que comentar. Toda a história da vida de dela, que ainda está sendo escrita, pois está viva, lúcida e ativa e feliz; já diz tudo e ainda vai dizer, certamente muito mais. Parabéns D. Câno e, que nós consigamos, quem sabe nos aproximar dos 80, lúcidos, felizes e ativos também... aos 101 já seria querer demais!!!!!

    Comentário por Roberta — 20 de March de 2009 @ 12:39

  11. adoreiiii...quero um livro desse.

    Comentário por ANDREIA MARTINS — 20 de March de 2009 @ 13:34

  12. Parabéns D. Canô!!! a cada dia me orgulho mais das minhas raízes,baianas.

    Comentário por scheila — 20 de March de 2009 @ 13:36

  13. sou descendente da familia veloso no estado da bahia, pois a minha familia toda e veloso do interior de mundo novo, vitoria de conquista e jacobina e mais cidades que nao lembro, so sei que a dona cano parece muito com meu avo justiniano veloso da silva, moro em goias sou atriz amadora, pedagoga, e gostaria tanto de saber se ela lembra se existe justiniano veloso, gabriel veloso, na sua familia. me chamo karmozina vitoria, moro na cidade de sao luis montes belos G0. fone 64 3671 7011 sec. educ. municipal.

    Comentário por karmzina vitoria de almeida — 20 de March de 2009 @ 13:37

  14. Sou de uma pequena cidade de Minas Gerais - Monjolos, meus pais são Ida Rodrigues Fonseca/Pedrolino Rubim da Fonseca, estou a procura de parentes com o sobrenome Rubim para que possamos fazer intercambio familiar. Telefone 031 8454-1398, estou escrevendo neste blog para saber se o nome Iuri Rubim tem haver com o nome da nossa familia. Sobre a reportagem, orgulhamos de ver uma senhora de 101 anos lucida e inteligente é sinal que nosso país tá melhorando a expectativa de vida do nosso a cada dia é melhor. Que Deus a ilumine.

    Comentário por Adenilson Rodrigues Rubim — 20 de March de 2009 @ 13:42

  15. O que falar para d.Canô...luzzz muita luzz.. Eu que ja amava seus filhos a tempos a amo também.. Eique com Deus..bjs..

    Comentário por Cátia — 20 de March de 2009 @ 14:29

  16. Amo essa familia linda... Parabens pelo exemplo de amor ... Que supere ainda mais as expectativas e viva muiiiittooooooossssssss anos.

    Comentário por eliane — 20 de March de 2009 @ 14:38

  17. D Canô ficara sempre como um exemplo de vida, mulher forte mae absolutamente mae, amiga do povo e sempre ativa.Isso com certeza a fez chegar ate 101 anos.Minha mae é muito parecida com ela e fico muito feliz em conhecer um pouco da historia dessas "Fortalezas". Parabens, que a senhora ainda conquiste tudo que espera.

    Comentário por Sylvia Ballerini — 20 de March de 2009 @ 14:47

  18. gostei muito da matéria essa velhilha é mesmo o máximo, faz-me lembrar a minha querida e saudosa mãe que viveu 92 anos com muita lucidez e sabedoria, como dona Canô, também controlava tudo e toda a família viveu aí no recôncavo baiano(santo antonio de jesus)

    Comentário por REGINACELE LIMA — 20 de March de 2009 @ 14:49

  19. É mesmo lindo chegar numa idade dessa mais eu não quero chegar a 101 anos não rs.Os filhos dela são mara cantam muito bem.

    Comentário por Jéssica — 20 de March de 2009 @ 15:04

  20. O amor, a generosidade, uma visão humanista da vida é que dá frutos como deu Dona Canô. Que o exemplo seja perseguido por todos nós. Muitos anos de vida ainda pela frente!!!

    Comentário por José Acúrcio — 20 de March de 2009 @ 15:11

  21. NUM MUNDO TÃO VIOLENTO E CONTURBADO EM QUE NÃO ACREDITAMOS EM MUITAS COISAS. QUANDO LEMOS UMA MATÉRIA DESSAS NOS SENTIMOS ALIVIADOS E PENSAMOS QUE DEUS GOSTA MESMO DA SIMPLICIDADE. PARABÉNS E QUE EXEMPLO DE VIDA PARA TODA UMA GERAÇÃO.

    Comentário por NÁDIA — 20 de March de 2009 @ 18:29

  22. Que bom saber que agora poderemos ler essas memórias de Dona Canô a quem acompanho de longe desde o tempo do sucesso de Betânia com Carcará e o de Caetano com Alegria Alegria. Ela é um exemplo de mãe e de envolvimento com sua comunidade para todos nós.

    Comentário por Anah Cardoso — 21 de March de 2009 @ 8:58

  23. Dona Cano, minha flor de formosura e sempre em meu coracao, uma fonte inspiradora para muitos nao so no Brasil mas aqui na Australia. Um abraco saudoso Senhorinha (Inha) Maciel

    Comentário por Senhorinha (Inha) Maciel — 19 de September de 2009 @ 10:53

  24. Gostaria de saber por que não consigo saber nada de José Telles Velloso. Como: data de nascimento, nome dos pais, irmãos... Faço relação genealogica da familia, e lembro muito bem minha tia, irmão de meu pai, dizer que eles eram primos de Caetano. Minha vodrasta diz que os avos, meus e do Caetano eram primos. Não consigo encontrar o fio da meada. Poderia me ajudar??? Sandra Veloso

    Comentário por Sandra de Borba e Veloso — 6 de November de 2009 @ 16:27

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