Durante 48h, artistas lembram horrores da Ditadura
Vários coletivos de artistas espalhados pelo Brasil preparam-se para, nos dias 31 de março e 1º de abril, realizarem o conjunto de eventos e performances “48h Ditadura Nunca Mais”.
Existem várias atividades agendadas para Belém, Fortaleza e Belo Horizonte, quase todas usando a internet para potencializar seu impacto. É justamente através da rede mundial que os artistas esperam agregar diversas manifestações com a mesma finalidade em todo país.
- Qualquer manifestação que elucide, execre, denuncie as atrozes práticas desse nefasto período é bem-vinda nas 48h DITADURA NUNCA MAIS, um espaço aberto que tem apenas a data fechada nos primeiros dias do famigerado golpe militar de 64. Golpe este que implantou a DITADURA que a Folha de São Paulo afirma não ter existido de 1964 a 1985 no Brasil - afirma o manifesto (link do blog).
Entre as atividades agendadas, o projeto Cinema de Rua exibe no dia 31, às 19h, em Belém (esquina da Gal. Grujão com a Bailique), o filme “Pra Frente Brasil”. O filme é antecedido por um mini-documentário com entrevistas de pessoas que sofreram tortura durante o regime militar.
Ainda no Pará e também a partir do dia 31/3, a associação FOTOATIVA realiza um foto-varal em Belém, em que expõe fotografias e documentos do público.
“Estamos indignados com a publicação de textos saudosistas e que amenizam a violência dos [governos] militares, e resolvemos provocar a reação, afinal os artistas também foram peça-chave para a reação. contestação da ditadura”
Arthur Leandro, Etétuba
Em Fortaleza, durante os dois dias, o Coletivo Curto-Circuito faz performances em espaços públicos de grande circulação. As Ações Performativas - chamadas pelo grupo de “Situ-Ações Micropolíticas no Cotidiano partindo de Intervenções-Obras-Experiências pontuais e efêmeras” - serão filmadas e os vídeos, postados no Blog do Coletivo.
Já Eliane Veloso, pernambucana residente em Belo Horizonte, faz um vídeo sobre um desaparecido político de Minas Gerais, o José Carlos de Mata Machado - Veloso morou nas imediações de onde a polícia afirma ele teria sido morto, numa troca de tiros: a avenida Caxangá, em Recife. A artista vai entrevistar pessoas que têm o mesmo nome dele (José Carlos) e postar o material resultante no youtube.
A ação de maior impacto, entretanto, deve ser o Criados-Mudos. Um coletivo de mesmo nome publicou em seu blog cartazes com fotografias de pessoas que nasceram durante a ditadura e, por isso, seriam criados-mudos, pois cresceram sem poder se expressar. O Blog das Ruas reproduz algumas das imagens ao longo desta matéria.
A ideia do coletivo é que internautas de todo país imprimam os cartazes e colem pelas ruas, praças e demais espaços urbanos Brasil afora.
- O trabalho é coletivo, e até posso dizer que é anônimo, pois recebo fotos de gente que eu não conheço e vindas de várias cidades - diz Arthur Leandro, idealizador do coletivo Criados-Mudos e um dos artistas por trás de toda essa mobilização.
Professor da Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal do Pará e também conhecido como Etétuba, Arthur Leandro publicou um depoimento pessoal sobre o que significou para ele crescer com medo de se expressar. Vejam abaixo trechos desse depoimento:
“Lembro de um fato na escola, devia ter uns 11 anos, foi tipo em 78… era na época que o governo fazia palestras nas escolas publicas do Pará sobre a construção da hidroelétrica de Tucurui.
Eu estudava no Núcleo Pedagógico Integrado que é a escola da UFPA, universidade onde minha mãe era professora de filosofia [departamento monitorado como foco de resistência]. E quando vieram palestrar no NPI eu me arvorei a fazer 1 única pergunta…. Nas imagens que mostravam de Tucurui apareciam vários pescadores e outros ribeirinhos, e eu perguntei o que iria acontecer com essas pessoas. O palestrante - depois soube que era oficial das forças armadas - me levou pra frente da plateia de 300 estudantes e me apresentou como ‘representante do pensamento que quer o atraso nacional’, e passou uns 10 minutos - pra mim uma eternidade onde eu tentava o controle emocional pra não chorar - falando como gente como eu impedia o progresso… Depois que voltei pro meu lugar, perguntou a platéia se preferiam manter 20 pescadores em suas palafitas num fim de mundo ou o progresso da eletricidade que ia beneficiar milhares de pessoas… A aclamação pela eletricidade é óbvia, e eu passei um tempo sendo chamado de atraso nacional por lá.
(…)
Mas uns 15 dias depois minha mãe chega possessa em casa perguntando o que eu tinha feito… Ela - que não sabia do fato - tinha sido convocada a comparecer na sala do reitor, onde estavam presentes o dito oficial palestrante e policiais federais que lhe pediam explicações da minha pergunta…
(…)
Pra mim a coisa toda foi entendida mais ou menos assim… ’se eu falar o que não se fala minha mãe será presa e demitida, eu posso até pensar, mas não posso falar’…. daí em diante fui ‘criado mudo’…”
(imagens: Blog Criados-Mudos)




Q bo***!
Um bando de subversivo pseudo-intelectual querendo aparecer as custas de um movimento que ficou para trás.
São inconformados por nao terem participado de algum comite, palanque ou de alguma luta pelo que realmente valia a pena, assim como os estudantes da FFLCH que fizeram aquela papagaiada na Usp ano passado., só prá contar aos filhos e netos que um dia participaram de uma “luta-armada”, assim mesmo, entre - aspas.
Comentário por Patrão — 26 de março de 2009 @ 16:53
me lembro uma vez que minha mãe e eu fomos buscar umas roupas para consertar na casa da minha professora minha mãe era costureira na época, sem perceber o que fazia comecei a assoviar o hino nacional quase apanhei da professora, isso era por volta de 1975
Comentário por nilda moraes — 26 de março de 2009 @ 16:55
Não sei se trágico ou cômico,em particular o sonho deste cidadão ,à época com 11 anos.É imaginável alguém,em alguma ditadura do mundo(inclusive a atual venezuelana-não reconhecida por estes “criados mudos”) interpelar um menino de 11 anos?Mandar chamar sua mãe?Só na cabeça de um demente sonhador.É lamentável a falta de cultura do brasileiro.Lamentável.Só isso.
Comentário por alberto marzullo — 26 de março de 2009 @ 16:56