Terra Magazine

29 de abril de 2009

PR: Companhia de circo resgata estética do bizarrro

A Cia. TripCirco, de Curitiba, fez uma viagem de volta ao passado quando, no último sábado, promoveu o primeiro Cabaré Freak. Proibido para menores, o espetáculo coloca diante da plateia irmãos siameses, um mágico sanguinário, um anão e sua “noiva cadáver” e até mesmo a própria “morte”.

Envolto de sangue artificial e muito humor macabro, o Cabaré Freak resgata uma estética do bizarro presente nos circos antigos e há muito distante dos picadeiros brasileiros.

Embora o show de horrores seja uma releitura do original, sem a presença de anões ou irmãos siameses verdadeiros, o espetáculo simula mortes e mutilações. Nem a plateia não fica impune: é envolvida nas brincadeiras recebendo, por exemplo, uma saraivada de ovos de galinha.

- Tem cenas fortes. Muito sangue. Jogam ovo na platéia. É uma bagunça geral - diz o argentino Adrian Pagliano, um dos fundadores da Companhia, em 1999.

O artista lembra de alguns dos números mais bem recebidos pelo público.

- O que mais gostaras foi o do anão e a noiva cadáver. O anão tira da mala a noiva, uma menina que faz contorcionismo, deita numa cama de pregos… tem também o mágico, que decepa a mão de sua parceira com uma guilhotinha… tem ainda a “morte” que anda no meio do público e “morre” durante o seu número - conta.

Criada em Buenos Aires e “posteriormente abrasileirada” no Paraná, a TripCirco é ao mesmo tempo companhia de circo e escola experimental.

Realiza uma vez por mês o Cabaré de Variété, quando leva a público os resultados das pesquisas de professores e alunos. A partir da reação da plateia, abandonam ou continuam a desenvolver os números.

A versão freak do Cabaré foi criada para abrir espaço a muitos números “poucos convencionais”, que não tinham espaço no formato regular do Cabaré.

O teor do espetáculo, entretanto, fez com que a Companhia tomasse cuidados especiais, inclusive proibir a entrada de menores. “Avisamos muito a todo mundo porque o nosso público tradicional é família, tem muitos idosos e crianças”, comenta Adrian.

O sucesso foi tanto que agora a Companhia quer retomar o Cabaré Freak pelo menos uma vez por ano.

Adrian Pagliano não conhece nenhum espetáculo ou companhia circense no Brasil que adote a estética freak, mas chama atenção para um de seus desdobramentos: “parte do freak evoluiu para a galera que hoje faz body-piercing e body modification”.

O artista lembra que antes as pessoas diferentes eram presas e tratadas como animais pelos donos de circo e considera que o universo circense evoluiu ao criar certos limites:

- Não conheço a situação jurídica aqui no Brasil, mas nos Estados Unidos está proibido porque consideram isso uma exploração do ser humano, tratado como aberrações. Agora proibiu circo de animais, o que acho corretíssimo. São evoluções - afirma.

Lembra, entretanto, que a estética do bizarro continua em voga e que existem algumas trupe que rodam a Europa de forma semelhante ao início do circo.

- Mas hoje em dia as pessoas são livres, a exploração não acontece. Elas na realidade estão trabalhando e vendo arte nisso. Aí está toda a diferença.

(fotos: divulgação/ Cia. TrpCirco)

Blogs que citam este Post

28 de abril de 2009

BA: Moradores de rua viram astros em Festival

O Jornal Aurora da Rua realiza, pelo segundo ano consecutivo, o Festival Arte Rua e abre o palco às pessoas sem-teto.

Enquanto escrevo este post, uma aglomeração se forma na Praça da Piedade (Salvador) para assistir a animação e a perícia musical de moradores de rua.

Em todas as entradas da Praça, uma espécie de calçamento de papelão leva ao palco. Pintadas sobre o papelão, longas faixas vermelhas fazem as vezes de tapetes, convidando o público para o espetáculo.

“O momento é nobre”, afirma o cenógrafo Haroldo Garay, 50, responsável pela instalação. O artista, cuja obra foi doada ao Festival, explica a importância do papelão para as pessoas em situação de rua:

“O papelão é a cama, o abrigo, a casa, o travesseiro e a comida dessas pessoas. É tudo!” diz. Recita, sarcástico, a frase que sintetiza sua obra: “Brasil, qual o teu papel? Que papelão!”.

Elmário Bonfim superou cinco anos de alcoolismo e conseguiu um emprego

Elmário Bonfim superou cinco anos de alcoolismo e conseguiu um emprego

Invisíveis durante quase o ano inteiro, as estrelas do dia provocam surpresa e admiração de quem interrompe sua pressa para assistir o espetáculo.

“Estou encantada, arrepiada, estou aqui tentando não chorar”, diz Nilzete Marinho, no meio da plateia. Ansiosa, ela me pergunta as horas. Explica que tem médico marcado e perder a consulta significa mais um mês de espera.

- Se eu não tivesse compromisso, sentava ali e ficava a tarde inteira. Tem tanta gente com tanto dinheiro que não tem metade da alegria deles! É formidável! - elogia.

Como muitos outros baianos, Nilzete Marinho não conhecia o Jornal Aurora da Rua, cujo segundo aniversário é comemorado pelo Festival.

Sônia fez a saia em homenagem aos "40 milhões de empregos" que já teve

Sônia fez a saia em homenagem aos "40 milhões de empregos" que já teve

- O Festival Arte Rua é para isso mesmo: para aproximar as pessoas e mostrar nossa animação, para mostrar o jornal e chamar atenção que o povo de rua existe - diz Elmário Bonfim, 58, vendedor do Jornal, ex-morador de rua e um dos organizadores do Festival.

Além do palco aberto, o Festival conta também com uma tenda livre para as artes e uma exposição de fotografias, que conta o processo de criação do Jornal, do qual as pessoas em situação de rua participam integralmente.

Esta é a segunda edição do festival. A primeira foi em 2008, quando o Aurora da Rua comemorou um ano de vida.

durante o festival, muita gente se aproxima

Superação do preconceito: durante o festival, muita gente se aproxima

Primeiro periódico do norte-nordeste feito por moradores de rua, o Aurora da Rua tem como objetivo projetar uma imagem mais humanizada das pessoas em situação de rua e, simultaneamente, servir como fonte de renda. Em 2008, o Blog das Ruas fez uma matéria sobre o Jornal.

Atualmente, o Jornal continua com tiragem bimensal de sete mil exemplares, vendidos pela rede de 21 moradores e ex-moradores de rua. Cada exemplar é vendido a R$ 1,00, do qual 75 centavos ficam como remuneração para os vendedores. O valor restante cobre os custos operacionais da publicação.

Desde 2007, foram mais de 100 mil exemplares impressos e 54 moradores de rua formados como vendedores.

De papelão, o "tapete vermelho" convida a plateia a participar

De papelão, o "tapete vermelho" convida a plateia a participar

A renda gerada pela venda do Jornal, associada a outros benefícios, como o ganho de responsabilidade e a melhora da auto-estima, fazem grande diferença no cotidiano dos vendedores, permitindo a muitos deles sair da rua.

É o caso de Edilene dos Santos, que vende o Jornal desde suas primeiras edições e mora de aluguel. Recentemente, sofreu bastante porque seu ex-marido vendeu tudo que tinham em casa para comprar drogas. Reerguida da tristeza e do choque, ela começou tudo de novo e, sorridente, oferece seus exemplares.

- Eu quero que os outros moradores de rua sigam o meu caminho, que eles tenham uma vida digna - diz Edilene.

Já Elmário Bonfim foi mais longe. Após passar cinco anos lutando contra o alcoolismo, foi sua presença constante como vendedor uniformizado, numa mesma região da cidade, que conquistou a confiança de uma senhora, hoje patroa de Elmário.

O marido de Edilene vendeu tudo que tinha em casa por causa das drogas

O marido de Edilene vendeu tudo que tinha em casa por causa das drogas

“Ela me deu a chave da barraca, confiou em mim”, diz Elmário, contratado para cuidar de uma barraca “que vende de tudo”. Nesse emprego, ele fatura R$ 300,00 mensais mais alimentação e complementa a renda vendendo o Aurora da Rua nos finais de semana. Fatura cerca de R$ 540,00 por mês, mais do que um salário mínimo.

Hoje o Aurora da Rua é uma referência nacional sobre pessoas em situação de rua. Passou a fazer parte da INSP - International Network of Street Papers e está em diálogo com o Governo Federal para a elaboração de uma política pública voltada para esse segmento social.

A poucos metros do Festival, a realidade dura das ruas

A poucos metros do Festival, a realidade dura das ruas

A população de rua foi contabilizada oficialmente pela primeira vez em outubro de 2007, pela Pesquisa Nacional sobre a População em Situação de Rua, que envolveu 71 municípios (23 capitais e 48 cidades com mais de 300 mil habitantes).

O levantamento, realizado pelo Ministério de Desenvolvimento Social em conjunto com a ONU, identificou 31.992 pessoas com 18 anos ou mais de idade em situação de rua, 3.289 na capital baiana.

Blogs que citam este Post

26 de abril de 2009

BH comemora o Dia Nacional do Teatro de Bonecos

Desfile de bonecões e mini-apresentações gratuitas exploram a diversidade de técnicas do gênero.

Quem nunca riu como criança assistindo um grupo de fantoches? Ou se emocionou com os movimentos extraordinariamente humanos de bonecos que pareciam mover-se sozinhos?

Oficialmente comemorado no dia 27 de abril, data de fundação da Associação Brasileira de Teatro de Bonecos, o Dia Nacional do Teatro de Bonecos será lembrado em Belo Horizonte neste domingo, com espetáculos gratuitos na Praça do Sol (Parque Municipal). A celebração vai das 10 até 13h.

Arte milenar, o teatro de bonecos mostra toda a sua versatilidade no evento, que tem desde marionetes e bonecos de luva a bonecões. Usando um caminhão-palco, os grupos e bonequeiros se revezam apresentando cenas curtas, que duram de 10 a 15 minutos.

Além das apresentações, o evento também conta com um desfile de bonecões, pernas de pau, caixas de teatro - inspiradas nos fotógrafos chamados de lambe-lambe - e mini oficinas.

A capital mineira vem se tornando ao longo dos últimos anos uma potência brasileira dos praticantes dessa arte.

Lar do grupo Giramundo, um dos mais consagrados do país, e de muitos outros grupos e bonequeiros, a cidade e o estado vêm incorporando o teatro de bonecos às suas políticas públicas de cultura e abrindo espaço para esse gênero das artes cênicas.

Cauê Salles, 42, é bonequeiro e membro da Associação de Teatro de Bonecos do Estado Gerais, que organiza o evento de hoje. Ele presenciou esta mudança de ares.

- Teve anos que a gente lamentou muito [o Dia Nacional do Teatro de Bonecos], sem vontade nem de ir para rua comemorar. Antes, a gente não conseguia apresentar espetáculos nos teatros públicos. Agora, disputamos os espaços quase de igual para igual - afirma.

Cauê conta que participou recentemente de projetos em que os bonequeiros circulavam pelas cidades mineiras não apenas apresentando espetáculos, mas fazendo oficinas e ensinando as técnicas e o lado artesanal da arte, que é a produção dos objetos de trabalho.

- Isso garante continuidade. Amplia a platéia desse tipo de teatro e deixa uma semente para o surgimento de futuros artistas - destaca o bonequeiro.

Salles chama atenção para as diversas possibilidades de uso do teatro de bonecos, que vão além das apresentações tradicionais. “Pode ser utilizado em terapias, no processo de alfabetização… o problema é que o mercado fatalmente vê a gente de uma forma muito setorial”, diz.

Outro entrave ao desenvolvimento da arte, na opinião do bonequeiro, é uma equivocada familiaridade que as pessoas têm com o teatro de bonecos. “Falam assim: ‘Ah, já mexi com teatro’, ‘eu sei fazer também’, sem compreender a complexidade da coisa”, argumenta.

Empolgado, o bonequeiro dá uma rápida aula sobre as diferentes técnicas de teatro de bonecos:

- Existem técnicas de bonecos de fios (as marionetes); luva (com dedo ou mão); manipulação direta; vara colada em baixo ou em cima do boneco; boneco habitável; gatilho (feito com mola); bonecos de sombra e boneco com corpo deslocado (mão fantasma). É possível também juntar uma técnica com outra e descobrir outros resultados - explica.

Aproveito a deixa para comentar como ele se sente sabendo que o público que assiste aos espetáculos não percebe toda essa complexidade.

- É bacana quando desperta uma curiosidade para isso, mas o público que vai ver não precisa saber que o bailarino ficou ali horas e horas… o que importa é a perfeição e o encantamento. Quando a gente vê que a coisa é boa, não precisa de legenda.

(fotos: divulgação/Atebemg)

Blogs que citam este Post

24 de abril de 2009

AM: Igreja flutuante reúne fiéis sobre as águas do Rio Negro

Tags:, , , , - iurirubim às 15:55

Ontem o Blog das Ruas publicou a história de seu Davi Navelaiko, que construiu uma casa flutuante no Mato Grosso.

Tal não é a minha surpresa quando o internauta Silvio Ferreira deixa lá um comentário, informando que haveria no Amazonas uma igreja flutuante, sobre as águas do Rio Negro.

E não é que existe mesmo?!

Fui atrás da “Igreja sobre as águas”, que alguns comentários na internet dizem ser a única do Brasil (caso você, internauta, conheça outra, por favor, escreva um comentário com a pista dela).

A Igreja em questão é da Congregação Cristã no Brasil e flutua, efetivamente, sobre o Rio Negro. “Só chega aqui de barco!”, diz, com certo espanto, o autor de um vídeo que mostra o templo na internet. veja mais fotos aqui.

Infelizmente, não consegui contatar nenhum membro da Congregação Cristã no Brasil do Amazonas que pudesse falar mais sobre a Igreja. Recebendo mais informações, atualizo este post.

(fotos: Ricardo Diniz)

Blogs que citam este Post

23 de abril de 2009

MT: Fazendeiro navega com a própria casa

Tags:, , , - iurirubim às 7:00

Seu Davi Nalevaiko é fazendeiro, paranaense de Foz do Iguaçu. Tem sangue polonês, herdado do bisavô. Cinco anos atrás, trocou o sul do Brasil pela cidade de Canabrava do Norte, no nordeste do Mato Grosso, a mil quilômetros da capital Cuiabá.

A história de seu Nalevaiko seria muito parecida com a de outros tantos agricultores que saem do sul para o cerrado se, há pouco mais de dois meses, ele não tivesse realizado um acalentado sonho: construir uma casa flutuante.

- Nunca tinha visto nenhum modelo. Eu comecei sonhar e fui projetando. Discutia umas coisas com os amigos, trocava umas ideias com eles, até ficar pronto o projeto final - diz o fazendeiro.

Seu Nalevaiko, navegando com a casa dele

Seu Nalevaiko, navegando com a casa dele

Aos 54 anos, com apenas um ajudante e no tempo recorde de um mês, construiu uma casa de madeira, sustentada acima da lâmina d’água por nada menos que 25 tambores plásticos de 200 litros.

Seis pessoas podem passar tranquilamente a noite na casa. São dois quartos - um para casal e o outro com beliches -, banheiro, cozinha e duas áreas, uma de lazer e outra de serviço.

A área de serviço “dobrável”, inclusive, é uma das surpresas de engenharia da casa. Quando o dono não está, deixa de ser área e vira a parede da cozinha. O fazendeiro, porém, apressa-se em fazer o alerta: “olha, a uma casa muito simples, não tem muita frescura não”.

Esposa do fazendeiro, Dona Lore também se diverte com a pesca

Esposa do fazendeiro, Dona Lore também se diverte com a pesca

Seu Nalevaiko usa a casa para lazer, para passar um final de semana no rio e aproveitar uma boa pescaria. Ou então para fazer pequenas comemorações. “Na última vez, coloquei onze pessoas lá ao mesmo tempo”, garante.

Discreto, não divulgou muito o feito, mas diz que “tenho uns amigos que estão doidos para ir lá ver”. Quem já foi, gostou muito, assegura o fazendeiro.

A casa fica numa lagoa, no Rio Fontoura (um dos afluentes do Xingu), na propriedade vizinha à fazenda de seu Nalevaiko.

A casa já recebeu 11 visitantes ao mesmo tempo, sem nenhum risco de afundar

A casa já recebeu 11 visitantes ao mesmo tempo, sem nenhum risco de afundar

Não é possível imaginar a minha surpresa quando ele disse: “também navego com ela”.

- Como assim? - reagi.

- Eu tenho um pequeno motor a diesel Mercury e, quando preciso, coloco nela e dou uma navegada pelo rio. Já naveguei cerca de 500 metros de uma vez só. Mas, assim com água parada, acho que dar para ir até uns dois, três quilômetros.

É, definitivamente o adjetivo “imóvel” perde o sentido quando falamos da casa de seu Nalevaiko.

O jantar vem do próprio rio

O jantar vem do próprio rio

Quando pergunto se ele não se acha diferente, responde simplesmente que não. “Acho que na Amazônia deve ter outras casas assim. No Vietnã, tem muitas casas em cima do Rio”, diz.

(fotos: Leandro Nascimento)

Blogs que citam este Post

22 de abril de 2009

Quilombolas utilizam a internet para brigar por titulação de terras

Tags:, , , , , - iurirubim às 14:44

A Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ), composta por cerca de 25 entidades, lançou na Internet um abaixo-assinado para pressionar o Supremo Tribunal Federal a manter a legislação atual de titulação das terras de quilombos, baseada no decreto 4887, de 2003.

A legalidade do Decreto está sendo questionada por uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI), impetrada pelo antigo Partido da Frente Liberal (atual Democratas), cujo julgamento, embora não tenha data marcada, pode ocorrer brevemente.

No início do mês, cerca de 100 representantes de comunidades quilombolas do Estado do Rio participaram de discussões sobre Decreto 4887, visando ampliar a mobilização em favor do documento.

Segundo dados do governo federal e de entidades pró-quilombolas, existem hoje no Brasil mais de 3000 comunidades quilombolas. Desse universo, 185 conseguiram títulos de terra.

Veja mapa interativo da Comissão Pró-Índio, em que as terras tituladas estão distribuídas por estados e municípios.

Atualmente com 1820 assinaturas, o abaixo-assinado alega que os “interesses contrários aos direitos quilombolas de hoje são os mesmos daqueles que, no período da escravidão, lutaram incansavelmente para que a mesma não tivesse fim”.

Os principais questionamentos da Ação Direta de Inconstitucionalidade referem-se à desapropriação de terras particulares reivindicadas por comunidades quilombolas; ao critério de auto-atribuição (autodefinição da própria comunidade quanto à sua condição quilombola.); e à definição dos territórios com base em informações fornecidas pelas próprias comunidades interessadas.

A ADI também questiona o ato de emissão do decreto, argumentando que a constituição não deve ser regulamentada por decreto, mas sim por lei.

O próprio documento do abaixo-assinado faz um apanhado de contra-argumentos, apresentados pela Procuradoria Geral da República, em parecer emitido ainda em 2004.

Caso seja acatada a Ação Direta de Inconstitucionalidade, o procedimento de titularização de terras quilombolas volta a ser regido pelo Decreto 3912, de 2001, o que as entidades de defesa dos direitos quilombolas consideram um grande atraso.

Para a CONAQ, “a sustação dos efeitos desse Decreto (4887/03) põe em risco a cidadania e a própria existência desses grupos, uma vez que a histórica luta pelo direito à terra poderá se tornar, mais uma vez, uma realidade distante”.

(fotos: MDA)

Blogs que citam este Post

20 de abril de 2009

Balé de balões ilumina noite de Torres (RS)

Hoje é o último dia para ver as evoluções dos balões iluminados no Festival Internacional de Balonismo.

Quem der a sorte de estar hoje nas proximidades do município de Torres, no litoral gaúcho, já na divisa com Santa Catarina, poderá assistir a um espetáculo inesquecível.

A partir das 20h, na Arena dos Balões (Parque do Balonismo), acontece o Nightglow uma dança noturna na qual balões são iluminados e apagados em sincronia pelos maçaricos de seus pilotos.

Fixados por cordas para ficarem próximo ao solo e ao público, os balões acesos se assemelham a lâmpadas gigantes e coloridas. Embalado por música clássica, o balé de luzes e cores envolve completamente os espectadores.

Tradição dos eventos de balonismo, o Nightglow faz parte do 21º Festival Internacional de Balonismo de Torres, que vai de 17 a 21 de abril. Conduzida pelos balões de numeração ímpar (os pares se apresentaram no último sábado), esta é a segunda e última oportunidade de curtir o exibição durante o Festival.

A plasticidade do Festival de Balões também pode ser vista à luz do sol. Objetos quase mágicos, habitantes perenes da nossa imaginação, os balões, cada vez que são inflados, promovem um espetáculo à parte.

A depender das condições climáticas, ainda será possível para o público do Festival assistir aos voos mais três vezes: uma hoje à tarde e duas amanhã, quando é encerrado o evento.

Durante o Festival, os pilotos enfrentam uma série de provas em que demonstram sua habilidade, perícia e intimidade com o esporte. As competições são geralmente de precisão, quando um alvo deve ser atingido, seja no chão ou suspenso no alto de um mastro. As provas são: Caça à Raposa, Fly In, Cotovelo, Distância Máxima, Distância Mínima, Até a Linha e Prova da Chave.

Na Caça a Raposa, por exemplo, um balão decola primeiro e os outros balões o seguem, tentando pousar mais próximo para fazer uma boa pontuação.

Já na Prova da Chave um mastro com a chave pendurada na ponta é colocado na área de público do evento. Vence quem agarrar o objeto ou chegar mais próximo disso. A chance de algum dos competidores efetivamente pegar a chave é uma em cem.

Milhares de pessoas vão ao festival que, além das provas, promove o Voo Fiesta, no qual turistas são convidados a voar também. Uma diversão extra são os balões de formatos especiais. Neste ano, são três: um aviãozinho, um palhaço e uma garrafa voadora.

20 anos colorindo os ares de Torres

O Festival Internacional de Balonismo de Torres surgiu quase que por acaso. Em 1989, durante os preparativos da II FEBANANA, festa anteriormente realizada no Município, os organizadores resolveram inovar e trazer alguns balões para a divulgação do evento.

O interesse do público pelos balões foi tanto que, ainda em outubro daquele ano, foi realizada a primeira edição do Festival. A FEBANANA acabou não acontecendo mais, enquanto que o Festival de Balonismo passou a fazer parte do calendário festivo da cidade, tornando-se, mais tarde, o principal e mais tradicional evento de Torres.

Fatos curiosos marcam essa história, como a dupla façanha de apanhar a chave na Prova da Chave (em 1992 e 1998). Na sétima edição do Festival, em 1995, o público assistiu a um casamento dentro de um balão semi-inflado.

À medida que ganhava importância, passou a agregar outros eventos. Hoje, simultaneamente ao Festival acontecem demonstrações de aeromodelismo e paraquedismo; festival de pipas; copa de golfe; canoagem; campeonato de pesca; disputas de motocross e vários shows musicais.

O Blog Balonismo tem cobertura diária da 21ª edição do Festival Internacional de Balonismo de Torres.

(fotos: Harleyson Almeida/Prefeitura de Torres [1] e Lasier França/ Blog Balonismo [restantes])

Blogs que citam este Post

19 de abril de 2009

SP: Cidade constrói “ocas” para Festival Indígena

Começou ontem e vai até a segunda-feira (20/4), na cidade de Bertioga, no litoral paulista, o Festival Nacional de Cultura Indígena. O evento acontece no Parque dos Tupiniquins, próximo ao Forte de São João, o primeiro forte do Brasil, construído em 1534.

Chamada antigamente pelor índios de ‘Buriquioca’ (”Morada dos Macacos Grandes”, na língua Tupi), Bertioga espera receber pelo menos 15 mil turistas nos três dias de Festival.

Sete povos indígenas estão presentes na celebração: Guarani; Xerente; Terena; Manoki; Karajá; Paresi Halití e Mehinako.

O Festival substitui a antiga Festa Nacional do Índio, realizada anualmente desde 2001 como celebração ao Dia do Índio, comemorado hoje, 19 de abril.

Mais que uma mudança de nome, o recém-nascido Festival foi desenhado para incorporar na festa a discussão da causa indígena - não por acaso, o evento é apoiado pela FUNAI e pelo Comitê Intertribal (ITC).

Segundo o próprio Comitê, foi idealizado um “cenário onde as comunidades indígenas pudessem se encontrar, intercambiar valores culturais e consolidar com a comunidade de Bertioga e outras regiões, uma aliança pela identidade brasileira”.

O novo formato tenta também aproximar o visitante do dia-a-dia do índio. Pela primeira vez, foram construídas sete ocas, casas onde habitam os indígenas, onde serão comercializado o artesanato das tribos presentes no Festival.

Com o lema “Posso ser o que você é, sem deixar de ser quem sou”, o evento terá apresentações dos povos indígenas e de grupos culturais sobre a temática.

Na abertura oficial, às 20h de ontem, teve o hino nacional interpretado em Guarani, pelo cacique Robson Miguel.

Além das apresentações, acontecem atividades esportivas, uma mostra da cozinha indígena, feira de artesanato e exposições culturais. Uma das ações mais esperadas do Festival é o simpósio que discute os direitos indígenas, que acontece durante o período da manhã, nos três dias de evento.

(foto: Tatiana Cardeal)

Blogs que citam este Post

17 de abril de 2009

Sarau Poético leva índios a SP, que declamam em línguas nativas

Já se imaginou ouvindo as mais diversas línguas nativas brasileiras, em textos declamados pelos próprios representantes de cada etnia?

O I Sarau das Poéticas Indígenas pretende dar uma amostra viva do enorme universo da literatura indígena brasileira, desconhecida da maioria do público do país.

O Sarau acontece no dia 19 de abril, das 15 às 19h, na Casa das Rosas (Av. Paulista, 37, São Paulo) e tem entrada gratuita. Reúne índios aldeados, escritores indígenas e indianistas. Todos com o mesmo objetivo: compartilhar sua perspectiva do encantamento com a palavra e suas possibilidades.

- Há uma enorme lacuna no universo literário brasileiro, que é a literatura indígena. É uma incrível riqueza lingüística e o Brasil não conhece essa produção. Queremos chamar atenção para a pontinha do iceberg, colocar uma isca para as pessoas procurarem saber mais - comenta a antropóloga Deborah Goldemberg, curadora do evento.

Blogueiro, Ol�vio Jekupe é um dos escritores que participam do Sarau

Blogueiro, Olívio Jekupe é um dos escritores que participam do Sarau

A antropóloga explica que este não é um Sarau tradicional - afinal, não dá para esperar que os povos indígenas tenham a mesma relação com a palavra que o “homem branco ocidental”.

- Estamos trabalhando com diversas formas de expressão desse encantamento com a palavra. No Sarau vai ter a declamação tradicional de poemas; trova; contação de histórias; palestra entremeada com textos de prosa; transcrição de cânticos; dança e encenação teatral - descreve.

Um dos “orgulhos” da organização do Sarau é a presença dos índios Pataxó, do sul da Bahia, povo que travou o primeiro contato com os portugueses. Zé Fragoso, escritor indígena e cacique da Aldeia Tibá (Prado, BA) vai ao evento acompanhado de Manoel Santana, contador de histórias da Aldeia Boca da Mata (Itamaraju, BA).

Deborah Goldemberg cita ainda a presença dos Guarani. “Eles não fazem distinção entre arte e vida. A forma como se alimentam, se vestem - todo o seu cotidiano é arte”, diz.

"precisamos de mais contato com o �ndio contemporâneo"

Goldemberg: "precisamos de mais contato com o índio contemporâneo"

É importante ressaltar que muitos escritores indígenas não apenas trabalham com a língua portuguesa, como observam os aspectos formais da poesia. Os escritores Olívio Jekupe e Eliane Potiguara, por exemplo, possuem inclusive blogs. Não faz muito tempo, Potiguara chegou a organizar um e-book indígena (o link é de um arquivo executável, mas pode abrir sem medo).

Para a curadora do Sarau, o Brasil tem que superar a dualidade com que vê a figura do índio: ou a visão romantizada do “bom selvagem” ou a visão degradada que remete à barbárie e á ameaça à civilização.

- Temos que ter mais espaços de contatos com o índio contemporâneo. O índio que aparece nos livros de escola é o índio de 500 anos atrás. O contato seguinte das pessoas com os índios é feito pela mídia, que os retrata como incapazes, alcoólatras e, mais recentemente, “comedores de gente” - reivindica.

Eliane Potiguara entrou fundo na net e já organizou e-book ind�gena

Eliane Potiguara entrou fundo na net e já organizou e-book indígena

No Sarau também serão declamadas obras de escritores que abordam a temática indígena. Entre eles, Gonçalves Dias, José de Alencar, Sousândrade, Raul Bopp, Oswald de Andrade e Mario de Andrade.

Da literatura contemporânea vem uma das estrelas do Sarau, o paraguaio Douglas Diegues. Diegues vive na fronteira entre o Brasil e o país vizinho e auto-denomina sua obra como Portunhol Selvagem - um misto de português, espanhol e guarani.

Pergunto à curadora se qualquer um conseguiria entender os textos de Douglas Diegues.

- Tem que fazer um esforçozinho, mas não é tão diferente, por exemplo, se você for ler Grande Sertão Veredas (Guimarães Rosa). Toda literatura que inova tem aquele desconforto no início. Mas a obra de Diegues é quase uma volta às origens, quando a língua geral era a língua mais utilizada no Brasil - diz.

Além das declamações - que ocorrem no grande salão com espaço para 300 pessoas da Casa das Rosas - vai haver no local uma feira de artesanato indígena e outras, de livros. “Todas as editoras que publicam literatura indígena, pelo menos todas as de São Paulo, estarão lá”, garante Deborah Goldemberg.

O Sarau também vai ser tema de dois programas da TV Cultura, o Entrelinhas e o A’Wue.

(fotos: divulgação)

Blogs que citam este Post

16 de abril de 2009

MT: Povos nativos do Araguaia realizam segunda edição de jogos indígenas

Os times são suas tribos. Os esportes, levemente “adaptados” das modalidades tradicionais. É assim, promovendo a comunhão e celebrando a diferença, que centenas de indígenas reúnem-se nos dias 18 e 19 deste mês na Aldeia Urubu Branco, da etnia Tapirapé, para a realização dos II Jogos Olímpicos Esportivos Culturais dos Povos Indígenas do Araguaia.

Além dos anfitriões, outras cinco etnias (Carajás; Javaés; Camaiurás; Cuicuros e Caibis) participam dos Jogos. Ao todo, a celebração deve mobilizar, entre competidores e acompanhantes, cerca de mil indígenas das etnias envolvidas.

Segundo Fabinho Wataramy Tapirapé, presidente da APOIT (Associação Povos e Organização Indígena Tapirapé), além de comemorar o Dia do Índio (19/4), o principal objetivo da competição “é o estreitamento dos laços de amizade entre os povos” - e isso inclui os não-indígenas. O convite para apreciar os Jogos é, portanto, extensível aos “cara-pálidas”.

Como a Aldeia Urubu Branco fica bastante próxima (28 km) ao município de Confresa, situado no extremo nordeste matogrossense, há a expectativa que a aldeia receba cerca de mil visitantes não-indígenas para acompanhar o evento. Quem for lá vai perceber uma novidade: há apenas 20 dias foi feita a primeira ligação da energia elétrica na aldeia.

As modalidades esportivas em disputa são futebol, cabo de guerra, arremesso de lança, corrida de 100 metros e arco e flecha. Todas elas, divididas entre masculino e feminino. A única exceção é o arco e velha, quando homens e mulheres competem juntos.

É curioso notar, entretanto, que a premiação é muito maior para os campeões do futebol masculino, cujo primeiro lugar leva R$ 1000,00. Esse valor é o dobro da premiação do futebol feminino (R$ 500,00) e dez vezes mais a das outras modalidades, R$ 100,00.

“As meninas têm o mesmo valor dos homens. Têm premiação menor porque os homens disputam mais partidas, é mais concorrido”, argumenta Fabinho Tapirapé. O presidente da APOIT, entretanto, não se sai tão bem quando tenta explicar a diferença em relação às outras modalidades:

- O futebol é o que mais chama atenção, as pessoas são mais interessadas no futebol… além disso, estamos com pouco dinheiro para evento…

Premiações à parte, Fabinho Tapirapé garante que o estímulo à prática esportiva, cuja ápice seria a realização dos Jogos, “é ainda um incentivo para que os jovens das aldeias não se envolvam com drogas”.

Os II Jogos Indígenas do Araguaia também são um momento de manter viva as tradições e as marcas de identidade cultural dos povos.

Na noite do dia 17, quando acontece a abertura oficial dos Jogos, os representantes de cada povo fazem uma apresentação, dão uma amostra aos presentes dos encantos de sua etnia. O mesmo acontece no encerramento dos Jogos.

- Nesse momento não há competição nem prêmios - diz Fabinho Tapirapé. - As culturas de cada um dos povos têm o mesmo valor.

(fotos: Ednilson Aguiar/ Secom-MT [1]; Leandro Nascimento [2; 3])

Blogs que citam este Post

Posts mais antigos »

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol