Terra Magazine

28 de abril de 2009

BA: Moradores de rua viram astros em Festival

O Jornal Aurora da Rua realiza, pelo segundo ano consecutivo, o Festival Arte Rua e abre o palco às pessoas sem-teto.

Enquanto escrevo este post, uma aglomeração se forma na Praça da Piedade (Salvador) para assistir a animação e a perícia musical de moradores de rua.

Em todas as entradas da Praça, uma espécie de calçamento de papelão leva ao palco. Pintadas sobre o papelão, longas faixas vermelhas fazem as vezes de tapetes, convidando o público para o espetáculo.

“O momento é nobre”, afirma o cenógrafo Haroldo Garay, 50, responsável pela instalação. O artista, cuja obra foi doada ao Festival, explica a importância do papelão para as pessoas em situação de rua:

“O papelão é a cama, o abrigo, a casa, o travesseiro e a comida dessas pessoas. É tudo!” diz. Recita, sarcástico, a frase que sintetiza sua obra: “Brasil, qual o teu papel? Que papelão!”.

Elmário Bonfim superou cinco anos de alcoolismo e conseguiu um emprego

Elmário Bonfim superou cinco anos de alcoolismo e conseguiu um emprego

Invisíveis durante quase o ano inteiro, as estrelas do dia provocam surpresa e admiração de quem interrompe sua pressa para assistir o espetáculo.

“Estou encantada, arrepiada, estou aqui tentando não chorar”, diz Nilzete Marinho, no meio da plateia. Ansiosa, ela me pergunta as horas. Explica que tem médico marcado e perder a consulta significa mais um mês de espera.

- Se eu não tivesse compromisso, sentava ali e ficava a tarde inteira. Tem tanta gente com tanto dinheiro que não tem metade da alegria deles! É formidável! - elogia.

Como muitos outros baianos, Nilzete Marinho não conhecia o Jornal Aurora da Rua, cujo segundo aniversário é comemorado pelo Festival.

Sônia fez a saia em homenagem aos "40 milhões de empregos" que já teve

Sônia fez a saia em homenagem aos "40 milhões de empregos" que já teve

- O Festival Arte Rua é para isso mesmo: para aproximar as pessoas e mostrar nossa animação, para mostrar o jornal e chamar atenção que o povo de rua existe - diz Elmário Bonfim, 58, vendedor do Jornal, ex-morador de rua e um dos organizadores do Festival.

Além do palco aberto, o Festival conta também com uma tenda livre para as artes e uma exposição de fotografias, que conta o processo de criação do Jornal, do qual as pessoas em situação de rua participam integralmente.

Esta é a segunda edição do festival. A primeira foi em 2008, quando o Aurora da Rua comemorou um ano de vida.

durante o festival, muita gente se aproxima

Superação do preconceito: durante o festival, muita gente se aproxima

Primeiro periódico do norte-nordeste feito por moradores de rua, o Aurora da Rua tem como objetivo projetar uma imagem mais humanizada das pessoas em situação de rua e, simultaneamente, servir como fonte de renda. Em 2008, o Blog das Ruas fez uma matéria sobre o Jornal.

Atualmente, o Jornal continua com tiragem bimensal de sete mil exemplares, vendidos pela rede de 21 moradores e ex-moradores de rua. Cada exemplar é vendido a R$ 1,00, do qual 75 centavos ficam como remuneração para os vendedores. O valor restante cobre os custos operacionais da publicação.

Desde 2007, foram mais de 100 mil exemplares impressos e 54 moradores de rua formados como vendedores.

De papelão, o "tapete vermelho" convida a plateia a participar

De papelão, o "tapete vermelho" convida a plateia a participar

A renda gerada pela venda do Jornal, associada a outros benefícios, como o ganho de responsabilidade e a melhora da auto-estima, fazem grande diferença no cotidiano dos vendedores, permitindo a muitos deles sair da rua.

É o caso de Edilene dos Santos, que vende o Jornal desde suas primeiras edições e mora de aluguel. Recentemente, sofreu bastante porque seu ex-marido vendeu tudo que tinham em casa para comprar drogas. Reerguida da tristeza e do choque, ela começou tudo de novo e, sorridente, oferece seus exemplares.

- Eu quero que os outros moradores de rua sigam o meu caminho, que eles tenham uma vida digna - diz Edilene.

Já Elmário Bonfim foi mais longe. Após passar cinco anos lutando contra o alcoolismo, foi sua presença constante como vendedor uniformizado, numa mesma região da cidade, que conquistou a confiança de uma senhora, hoje patroa de Elmário.

O marido de Edilene vendeu tudo que tinha em casa por causa das drogas

O marido de Edilene vendeu tudo que tinha em casa por causa das drogas

“Ela me deu a chave da barraca, confiou em mim”, diz Elmário, contratado para cuidar de uma barraca “que vende de tudo”. Nesse emprego, ele fatura R$ 300,00 mensais mais alimentação e complementa a renda vendendo o Aurora da Rua nos finais de semana. Fatura cerca de R$ 540,00 por mês, mais do que um salário mínimo.

Hoje o Aurora da Rua é uma referência nacional sobre pessoas em situação de rua. Passou a fazer parte da INSP - International Network of Street Papers e está em diálogo com o Governo Federal para a elaboração de uma política pública voltada para esse segmento social.

A poucos metros do Festival, a realidade dura das ruas

A poucos metros do Festival, a realidade dura das ruas

A população de rua foi contabilizada oficialmente pela primeira vez em outubro de 2007, pela Pesquisa Nacional sobre a População em Situação de Rua, que envolveu 71 municípios (23 capitais e 48 cidades com mais de 300 mil habitantes).

O levantamento, realizado pelo Ministério de Desenvolvimento Social em conjunto com a ONU, identificou 31.992 pessoas com 18 anos ou mais de idade em situação de rua, 3.289 na capital baiana.

Blogs que citam este Post

4 Comentários »

  1. Parabéns pela ótima apuração !
    Obrigada por propagar conosco essa idéia!
    Um abraço e até a próxima!

    Comentário por Vanessa Ive — 29 de abril de 2009 @ 10:29

  2. Bacana essa iniciativa, isso dá a oportunidade dessas pessoas mostrarem seu talento e sua dignidade,melhorando acima de tudo a sua auto-estima, deixando de ser apenas ”invisiveis” em meio ao corre-corre do dia a dia.

    Comentário por andre — 29 de abril de 2009 @ 11:59

  3. mas quando os moradores do condominio nao gosta dos porteiros e manda trocar eu trabalhava no condominio residencial giardino e fui trocado por que sou gay

    Comentário por marcos — 10 de maio de 2009 @ 14:55

  4. LEIAM A BIBLIA, PARA QUE NÃO SE ENGANEM.
    CONSERTEM SUAS VIDAS DIANTE DE DEUS PARA DEPOIS O ADORAREM.
    POIS QUEIMARAM NO INFERNO TANTO OS QUE PRATICAM, QTO OS QUE OS APOIAM.
    ROMANOS
    18 Porque do céu se manifesta a ira de Deus sobre toda a impiedade e injustiça dos homens, que detêm a verdade em injustiça.
    19 Porquanto o que de Deus se pode conhecer neles se manifesta, porque Deus lho manifestou.
    20 Porque as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder, como a sua divindade, se entendem, e claramente se vêem pelas coisas que estão criadas, para que eles fiquem inescusáveis;
    21 Porquanto, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, antes em seus discursos se desvaneceram, e o seu coração insensato se obscureceu.
    22 Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos.
    23 E mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, e de aves, e de quadrúpedes, e de répteis.
    24 Por isso também Deus os entregou às concupiscências de seus corações, à imundícia, para desonrarem seus corpos entre si;
    25 Pois mudaram a verdade de Deus em mentira, e honraram e serviram mais a criatura do que o Criador, que é bendito eternamente. Amém.
    26 Por isso Deus os abandonou às paixões infames. Porque até as suas mulheres mudaram o uso natural, no contrário à natureza.
    27 E, semelhantemente, também os homens, deixando o uso natural da mulher, se inflamaram em sua sensualidade uns para com os outros, homens com homens, cometendo torpeza e recebendo em si mesmos a recompensa que convinha ao seu erro.
    28 E, como eles não se importaram de ter conhecimento de Deus, assim Deus os entregou a um sentimento perverso, para fazerem coisas que não convêm;
    29 Estando cheios de toda a iniqüidade, prostituição, malícia, avareza, maldade; cheios de inveja, homicídio, contenda, engano, malignidade;
    30 Sendo murmuradores, detratores, aborrecedores de Deus, injuriadores, soberbos, presunçosos, inventores de males, desobedientes aos pais e às mães;
    31 Néscios, infiéis nos contratos, sem afeição natural, irreconciliáveis, sem misericórdia;
    32 Os quais, conhecendo a justiça de Deus (que são dignos de morte os que tais coisas praticam), não somente as fazem, mas também consentem aos que as fazem.

    Comentário por CVIDAL — 12 de maio de 2009 @ 8:48

Feed RSS para os comentários do post. Link de TrackBack

Deixe seu comentário

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol