RJ: Mostra artística exibe “outra face” do Morro do Alemão
Conseguir ser vista com outro foco, além da violência. Essa “mudança de canal” é um desejo quase unânime das comunidades que habitam as favelas brasileiras.
No último sábado, 30 de maio, o Morro do Alemão concretizou esse desejo. A sexta edição do Circulando - Diálogo e Comunicação na Favela reuniu mais de 500 pessoas, entre moradores e visitantes num clima seguro e totalmente descontraído, derrubando o estigma de que nos espaços populares a cultura e o lazer sucumbem à violência.
- Para a mídia, a favela é uma e para mim, que sou moradora, é outra. A gente aprende a se acostumar com a rotina da favela. Nem tudo aqui é ruim como dizem. A convivência com as pessoas, as amizades são completamente diferentes lá de baixo. Aqui a gente dá um grito e aparece alguém para ver o que está acontecendo. Lá embaixo é diferente. A pessoa morre dentro de um apartamento e só vão ver depois que o cheiro começa a incomodar. A favela é esquecida - dá o tom Rogéria Pereira de Souza, 42 anos, moradora do Alemão.
O Circulando começa logo pela manhã (10h) e dura até meia noite. A Avenida Central, principal acesso para o Morro do Alemão, é o palco de uma mostra que inclui música, graffiti, teatro, capoeira, maculelê, audiovisual, fotografia e artes circenses.
Na parte da manhã, um mutirão de grafiteiros da Oficina de Graffiti da Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro começa a transformar os muros das casas da comunidade em grandes telas.
O trabalho de grafitagem é uma atividade já tradicional nas edições passadas do Circulando. “Depois da terceira edição, os moradores já nos procuravam para ceder seus muros e portões para serem grafitados. A comunidade está aderindo e participando cada vez mais”, conta Tiago Tosh, morador do Alemão, aluno da Escola de Artes Visuais do Parque Lage e um dos produtores do evento.
É com essa perspectiva privilegiada que Tosh resume a essência do projeto: “o Circulando promove a comunicação através de diversas formas. Informa a comunidade, traz coisas para cá”, diz.
O também morador do Alemão, Rubens Quaresma Brum, 52 anos, concorda com Tiago Tosh:
- O circulando é beneficio para a comunidade. O pessoal fica por aqui só com pensamentos negativos aí, quando tem um evento desse tipo, tem que aproveitar. E ajuda as crianças a terem um pouco de lazer. Normalmente alugo minha laje para festas. Mas sempre empresto a laje para que sejam feitas as oficinas de pin hole para as crianças - conta.
Para seu Rubens, “favela é um bairro igual a qualquer um. As pessoas moram na favela por necessidade, se bem que alguns tem condições de morar fora, como é meu caso, mas não saem daqui. Eu me sinto mais seguro e a vontade morando aqui”.
Já na parte da tarde, um dos pontos altos do evento, a Orquestra Voadora desce a ladeira da Avenida Central arrastando um aglomerado de moradores e visitantes.
Num bloco improvisado, o público se mistura aos músicos da Orquestra, ao som de canções de Tim Maia a Jimi Hendrix, tocadas por trombones, trompetes, muita percussão e coreografias contagiantes.
Também animam a platéia a banda Diversatividade; o reggae de Pangea e Alforria; o grupo de samba PC do Repique e a rapper Jamille.
Quem não está dançando, fotografa com pin hole, vê fotografias de autores locais, joga capoeira, assiste a vídeos ou a esquetes teatrais.
“O que a gente encontra muito nas comunidades é a invisibilidade dos projetos existentes”, relata a assessora da Secretaria, Ivete Miloski, que subiu a Avenida Central para observar in loco o evento.
O 6° Circulando é organizado pelo Núcleo de Comunicação Crítica do Alemão - um coletivo que cria instrumentos de comunicação para intervir nas comunidades do Complexo do Alemão; com apoio do Observatório de Favelas e do Grupo Sócio-Cultural Raízes em Movimento.
Conta também com o patrocínio da Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (Fase) e a parceria das instituições Verdejar e Redes.
Aconteceu pela primeira vez em maio de 2007. Desde então, seis eventos se seguiram, sempre em diferentes locais da comunidade, reunindo muita gente, entre crianças, jovens e adultos, para apreciar e fazer arte no Alemão, mostrando que, às vezes, um morro inteiro pode ser invisível.
Colaborou para esta matéria Talitha Ferraz, jornalista formada na PUC-Rio e mestre em Comunicação e Cultura pela ECO-UFRJ. Talitha trabalha na Comunicação Institucional do Observatório de Favelas, é carioca e tem 27 anos.
(fotos: Rosilene Miliotti)




Bacana Iuri, o evento foi muito bacana. Com palavras fica difícil descrever o sentimento durante o evento.
abs.
Comentário por Vitor — 2 de junho de 2009 @ 15:05
Viva a cultura!
Realmente foi contagiante. Pura energia positiva.
Aconteceu um grande intercâmbio social, muita troca de experiência e alegria. E tudo isso na Rua, Na Ladeira.
Que todos possam CIRCULAR pelo Complexo do Alemão e sua complexidade, pois vão conhecer um lado fabuloso e comunitário, cheio de história e lições de vida.
Valeu!
Que venha os próximos
Comentário por Mario — 2 de junho de 2009 @ 16:12
Reportagens como essa pricisam ser analisadas. O outor, altamente suspeito, vive apregoando mentiras. Favelado é bandido, traficante, assaltante. Não há como mudar essa realidade.
Comentário por Paula — 2 de junho de 2009 @ 22:44
É deprimente notar que ainda existam pessoas que pensam como a Paula, no mundo.
O trabalho que a galera do Circulando desenvolve no Alemão é maravilhoso. Estão de parabéns… Podiam colocar mais fotos!
Comentário por marcele — 3 de junho de 2009 @ 11:03
Realmente, acho que o autor pode ser suspeito por isso sugiro que no próximo evento as pessoas que desconfiam da legitmidade da notícia possam ir lá para conferir. Afinal, até a Globo foi lá e registrou o evento. Acredito que essa foi a primeira vez que a Globo voltou ao Morro do Alemão após a morte de Tim Lopes.
Fica o convite!
Só cuidado, pois o caminho pode ser perigoso e ao passar pela Av. Atlântica você pode ser atingido por uma bala perdida.
Comentário por Rosilene Miliotti — 3 de junho de 2009 @ 11:13
Valeu, essa e maneira mais inteligente de repassar a cultura pra esse povo tão carente de arte. Lindo, lindo!
Comentário por Carlos Gomes — 3 de junho de 2009 @ 18:27