Terra Magazine

2 de junho de 2009

RJ: Mostra artística exibe “outra face” do Morro do Alemão

Conseguir ser vista com outro foco, além da violência. Essa “mudança de canal” é um desejo quase unânime das comunidades que habitam as favelas brasileiras.

No último sábado, 30 de maio, o Morro do Alemão concretizou esse desejo. A sexta edição do Circulando - Diálogo e Comunicação na Favela reuniu mais de 500 pessoas, entre moradores e visitantes num clima seguro e totalmente descontraído, derrubando o estigma de que nos espaços populares a cultura e o lazer sucumbem à violência.

- Para a mídia, a favela é uma e para mim, que sou moradora, é outra. A gente aprende a se acostumar com a rotina da favela. Nem tudo aqui é ruim como dizem. A convivência com as pessoas, as amizades são completamente diferentes lá de baixo. Aqui a gente dá um grito e aparece alguém para ver o que está acontecendo. Lá embaixo é diferente. A pessoa morre dentro de um apartamento e só vão ver depois que o cheiro começa a incomodar. A favela é esquecida - dá o tom Rogéria Pereira de Souza, 42 anos, moradora do Alemão.

O Circulando começa logo pela manhã (10h) e dura até meia noite. A Avenida Central, principal acesso para o Morro do Alemão, é o palco de uma mostra que inclui música, graffiti, teatro, capoeira, maculelê, audiovisual, fotografia e artes circenses.

O maculelê foi uma das atrações do 6o. Circulando

O maculelê foi uma das atrações do 6o. Circulando

Na parte da manhã, um mutirão de grafiteiros da Oficina de Graffiti da Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro começa a transformar os muros das casas da comunidade em grandes telas.

O trabalho de grafitagem é uma atividade já tradicional nas edições passadas do Circulando. “Depois da terceira edição, os moradores já nos procuravam para ceder seus muros e portões para serem grafitados. A comunidade está aderindo e participando cada vez mais”, conta Tiago Tosh, morador do Alemão, aluno da Escola de Artes Visuais do Parque Lage e um dos produtores do evento.

É com essa perspectiva privilegiada que Tosh resume a essência do projeto: “o Circulando promove a comunicação através de diversas formas. Informa a comunidade, traz coisas para cá”, diz.

O também morador do Alemão, Rubens Quaresma Brum, 52 anos, concorda com Tiago Tosh:

- O circulando é beneficio para a comunidade. O pessoal fica por aqui só com pensamentos negativos aí, quando tem um evento desse tipo, tem que aproveitar. E ajuda as crianças a terem um pouco de lazer. Normalmente alugo minha laje para festas. Mas sempre empresto a laje para que sejam feitas as oficinas de pin hole para as crianças - conta.

Para seu Rubens, “favela é um bairro igual a qualquer um. As pessoas moram na favela por necessidade, se bem que alguns tem condições de morar fora, como é meu caso, mas não saem daqui. Eu me sinto mais seguro e a vontade morando aqui”.

A tranquilidade do evento contrasta com a imagem de violência, sempre presente na grande m�dia

A tranquilidade do evento contrasta com a imagem de violência, sempre presente na grande mídia

Já na parte da tarde, um dos pontos altos do evento, a Orquestra Voadora desce a ladeira da Avenida Central arrastando um aglomerado de moradores e visitantes.

Num bloco improvisado, o público se mistura aos músicos da Orquestra, ao som de canções de Tim Maia a Jimi Hendrix, tocadas por trombones, trompetes, muita percussão e coreografias contagiantes.

Também animam a platéia a banda Diversatividade; o reggae de Pangea e Alforria; o grupo de samba PC do Repique e a rapper Jamille.

Quem não está dançando, fotografa com pin hole, vê fotografias de autores locais, joga capoeira, assiste a vídeos ou a esquetes teatrais.

“O que a gente encontra muito nas comunidades é a invisibilidade dos projetos existentes”, relata a assessora da Secretaria, Ivete Miloski, que subiu a Avenida Central para observar in loco o evento.

No Circulando, todos querem participar do arrastão

No Circulando, todos querem participar do arrastão

O 6° Circulando é organizado pelo Núcleo de Comunicação Crítica do Alemão - um coletivo que cria instrumentos de comunicação para intervir nas comunidades do Complexo do Alemão; com apoio do Observatório de Favelas e do Grupo Sócio-Cultural Raízes em Movimento.

Conta também com o patrocínio da Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (Fase) e a parceria das instituições Verdejar e Redes.

Aconteceu pela primeira vez em maio de 2007. Desde então, seis eventos se seguiram, sempre em diferentes locais da comunidade, reunindo muita gente, entre crianças, jovens e adultos, para apreciar e fazer arte no Alemão, mostrando que, às vezes, um morro inteiro pode ser invisível.

Colaborou para esta matéria Talitha Ferraz, jornalista formada na PUC-Rio e mestre em Comunicação e Cultura pela ECO-UFRJ. Talitha trabalha na Comunicação Institucional do Observatório de Favelas, é carioca e tem 27 anos.

(fotos: Rosilene Miliotti)

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6 Comentários »

  1. Bacana Iuri, o evento foi muito bacana. Com palavras fica difícil descrever o sentimento durante o evento.
    abs.

    Comentário por Vitor — 2 de junho de 2009 @ 15:05

  2. Viva a cultura!
    Realmente foi contagiante. Pura energia positiva.
    Aconteceu um grande intercâmbio social, muita troca de experiência e alegria. E tudo isso na Rua, Na Ladeira.
    Que todos possam CIRCULAR pelo Complexo do Alemão e sua complexidade, pois vão conhecer um lado fabuloso e comunitário, cheio de história e lições de vida.

    Valeu!
    Que venha os próximos

    Comentário por Mario — 2 de junho de 2009 @ 16:12

  3. Reportagens como essa pricisam ser analisadas. O outor, altamente suspeito, vive apregoando mentiras. Favelado é bandido, traficante, assaltante. Não há como mudar essa realidade.

    Comentário por Paula — 2 de junho de 2009 @ 22:44

  4. É deprimente notar que ainda existam pessoas que pensam como a Paula, no mundo.

    O trabalho que a galera do Circulando desenvolve no Alemão é maravilhoso. Estão de parabéns… Podiam colocar mais fotos!

    Comentário por marcele — 3 de junho de 2009 @ 11:03

  5. Realmente, acho que o autor pode ser suspeito por isso sugiro que no próximo evento as pessoas que desconfiam da legitmidade da notícia possam ir lá para conferir. Afinal, até a Globo foi lá e registrou o evento. Acredito que essa foi a primeira vez que a Globo voltou ao Morro do Alemão após a morte de Tim Lopes.
    Fica o convite!

    Só cuidado, pois o caminho pode ser perigoso e ao passar pela Av. Atlântica você pode ser atingido por uma bala perdida.

    Comentário por Rosilene Miliotti — 3 de junho de 2009 @ 11:13

  6. Valeu, essa e maneira mais inteligente de repassar a cultura pra esse povo tão carente de arte. Lindo, lindo!

    Comentário por Carlos Gomes — 3 de junho de 2009 @ 18:27

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