
No intervalo de apenas nove dias, os dois maiores ícones da cultura nordestina são homenageados.
Se, no final de semana passado, a cidade de São Paulo celebrou Luiz Gonzaga, o rei do baião, o próximo (dias 25 e 26 de julho), Serra Talhada (PE) rende honras a Lampião, o rei do cangaço.
Terra natal do comandante das caatingas, a cidade de Serra Talhada vive envolta pelos mistérios do cangaço e daquele que foi seu maior representante.
Misto de herói e vilão, Virgulino Ferreira da Silva até hoje desperta paixões e controvérsias. Certo mesmo é que, seguindo os passos de Lampião, o Nordeste se reconheceu e encontrou uma identidade.
Lampião desenhava e confeccionava roupas e chapéus inspirados em Napoleão Bonaparte. Hábil artesão, também usava botas e cartucheiras de fabricação própria.
Hoje, aquela forma de se vestir, as roupas e adereços, o fuzil e até mesmo a dança inventada por ele e seu bando (o xaxado) são referências incontestáveis ao Nordeste.
O Tributo a Virgulino - A Celebração do Cangaço lembra o aniversário de 71 anos do massacre que vitimou o rei do cangaço, sua mulher, Maria Bonita, e mais nove de seus homens, ocorrido em 28 de julho de 1938.
Para facilitar a participação, Serra Talhada e a Fundação Cabras de Lampião, que organiza a festa, anteciparam a festa, transferindo-a para o final de semana anterior (dias 25 e 26 de julho). Música, dança e comidas típicas, além de artesanato, cordéis e recitais são elementos certos na celebração.
Dentre as diversas versões a respeito de sua alcunha, uma delas sustenta que o cangaceiro Virgulino Ferreira modificou um fuzil, possibilitando-o a atirar mais rápido.
“Em um das primeiras lutas do bando, na escuridão da noite, Antônio (um dos irmãos Ferreira), espantado com o poder de fogo do rifle de Virgulino, que expelia balas sem parar e mais parecia uma tocha acesa, gritou o seguinte: Espia, Levino! O rifle de Virgulino virou um lampião! A partir desse dia, a alcunha do famoso cangaceiro passa a ser Lampião”, escreve Semira Adler Vainsencher, pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco.
Talvez por isso, a programação do Tributo a Virgulino seja aberta por uma salva de tiros dos Bacamarteiros do Vale do Pajeú (sábado, 9h).
A atividade é seguida da apresentação da Banda de Pífanos Santo Antônio (Carnaíba, PE) e da abertura da Exposição de Matérias de Jornais Antigos Noticiando as Ações de Lampião.

Criação de Lampião e seu bando, o xaxado continua inspirando grupos como o "Cabras de Lampião"
Ainda pela manhã, uma mesa-redonda discute “Os Mistérios que Envolvem a Morte de Lampião” e “O Cangaço e a Cultura Popular”. À tarde, as atrações são: Grupo de Danças Populares Mangueirarte (Mirandiba, PE); Grupo Arte e Dança (Serra Talhada, PE); Grupo de Xaxado Bandoleiros do Sertão (Triunfo, PB) e Os Matingueiros (Petrolina, PE).
Já a programação de domingo começa com uma celebração religiosa para o cangaço, conduzida pelo Padre Jorge Adjan e pelo Pastor Júnior.
Logo depois, apresentam-se os violeiros repentistas Zé Pereira e Assis Mourato; o poeta Caio Meneses; os grupos de xaxado Maria Bonita e Cabras de Lampião e o de dança Manoel Messias, além do Coral Aboios de Serrita, todos de Serra Talhada.
Refazendo os passos do “governador do sertão”
Durante todo o Tributo a Virgulino, podem ser visitadas a casa de Dona Jacosa, onde nasceu Lampião; as pedras onde ocorreu o primeiro confronto armado entre os homens de José Saturnino (da família Nogueira) e os irmãos Ferreira; as ruínas da antiga casa grande da Fazenda Pedreira; e o Riacho de São Domingos.
As muitas histórias de Lampião
Médico, farmacêutico, dentista, vaqueiro, poeta, estrategista, guerrilheiro, artesão: Lampião era um homem de muitas facetas, cada uma com um número maior ainda de boatos e histórias. É verdadeiramente impossível descobrir ou contar todas os “causos” sobre o maior cangaceiro que já existiu.
Ainda assim, o Blog das Ruas selecionou algumas pérolas do texto da pesquisadora Semira Vainsencher. Divirta-se, internauta.
Parteiro
“Em 1932, o casal de cangaceiros tem uma filha. Chamam-na de Expedita. Maria Bonita dá à luz no meio da caatinga, à sombra de um umbuzeiro, em Porto de Folha, no estado de Sergipe. Lampião foi o seu próprio parteiro”.
Assinatura
“Maria Bonita sempre insistia muito para que Lampião cuidasse do olho vazado. Diante dessa insistência, ele se dirige a um hospital na cidade de Laranjeiras, em Sergipe, dizendo ser um fazendeiro pernambucano. Virgulino tem o olho extraído pelo Dr. Bragança - um conhecido oftalmologista de todo o sertão - e passa um mês internado para se recuperar. Após pagar todas as despesas da internação, ele sai do hospital, escondido, durante a madrugada, não sem antes deixar escrito, à carvão, na parede do quarto:
Doutor, o senhor não operou fazendeiro nenhum. O olho que o senhor arrancou foi o do Capitão Virgulino Ferreira da Silva, Lampião”.
Veneno, fogo e nove vezes baleado
“Além das emboscadas planejadas para liquidá-lo, cabe ressaltar que Lampião conseguiu sobreviver ao veneno e ao fogo. Do primeiro, contou com a dosagem fraca que lhe deu, somente, um inconveniente desarranjo intestinal; do segundo, apesar de chamuscado, conseguiu escapar pulando. Mas foi ferido à bala diversas vezes.
(…)
Apesar de ter sido baleado nove vezes, Lampião sobreviveu a todos os ferimentos, sem contar com qualquer tipo de assistência médica formal. Naquela época, desconheciam-se os antibióticos e as sulfas. Para estancar o sangue e curar os ferimentos, por exemplo, usavam-se mofo, pó de café e, até, excrementos de gado. Eram usadas, ainda, ervas medicinais e rezas dos curandeiros, que nem sempre funcionavam como se esperava. Um ferimento em seu pé, neste sentido, condenou Virgulino a mancar para o resto da vida”.

Foi o próprio Lampião que fez o parto da filha Expedita, que teve com Maria Bonita
Cauteloso
“Desconfiado, só ingeria algo depois que alguém tivesse provado o alimento. Por outro lado, só entregava o dinheiro após ter recebido a mercadoria. Entretanto, não conseguiu se livrar da traição dos falsos amigos”.
Cabeças decepadas e expostas
A força volante, de maneira bastante desumana, decepa a cabeça de Lampião. Maria Bonita ainda estava viva, apesar de bastante ferida, quando sua cabeça foi degolada. O mesmo ocorreu com Quinta-Feira e Mergulhão: tiveram suas cabeças arrancadas em vida.
Feito isso, salgaram os seus troféus de vitória e colocaram em latas de querosene, contendo aguardente e cal. Os corpos mutilados e ensangüentados foram deixados a céu aberto para servirem de alimento aos urubus.
(..)
Percorrendo os estados nordestinos, o coronel João Bezerra exibia as cabeças - já em adiantado estado de decomposição - por onde passava, atraindo uma multidão de pessoas. Primeiro, os troféus estiveram em Maceió e, depois, foram ao sul do Brasil.
Do sul do País, apesar de se encontrarem em péssimo estado de conservação, as cabeças seguiram para Salvador, onde permaneceram por seis anos na Faculdade de Odontologia da Universidade Federal da Bahia. Lá, tornaram a ser medidas, pesadas e estudadas, na tentativa de se descobrir alguma patologia. Posteriormente, os restos mortais ficaram expostos no Museu Nina Rodrigues, em Salvador, por mais de três décadas.
(…)
O enterro dos restos mortais dos cangaceiros só ocorreu depois do projeto de lei no. 2867, de 24 de maio de 1965. Tal projeto teve origem nos meios universitários de Brasília (em particular, nas conferências do poeta Euclides Formiga), e as pressões do povo brasileiro e do clero o reforçaram. As cabeças de Lampião e Maria Bonita foram sepultadas no dia 6 de fevereiro de 1969. Os demais integrantes do bando tiveram seu enterro uma semana depois.
(fotos: Fundação Cabras de Lampião [1, 2]; reprodução [3])