Terra Magazine

29 de setembro de 2009

SP: “Dom Quixote” é encenado em duas línguas, por 15 grupos de teatro de 10 países latinos

Um Dom Quixote como nunca se viu antes. Nesta quinta-feira, dia 1º de outubro, às 20h, o Sesc Pompéia (São Paulo) recebe a montagem mais diferente já realizada a partir da obra clássica de Miguel de Cervantes.

Quinze grupos de teatro de 10 países da América Latina e Caribe apresentam o espetáculo em conjunto, mobilizando mais de 100 profissionais, entre técnicos e atores.

O texto que une essa verdadeira babel latina é a peça “El Quijote”, do colombiano Santiago García, de 80 anos - 43 deles à frente do Grupo Teatro La Candelaria.

A montagem no Brasil, que mantém a grafia original em espanhol, tem como diretor de cena César Badillo Perez, ator vinculado ao Teatro La Candelaria e que há exatamente uma década interpreta o papel-título de Quixote na montagem colombiana de Santiago García.

“Ele manja até o pensamento do Quixote. Sabe a hora que o Quixote peida”, brinca Adriano Mauriz, ator do Instituto Pombas Urbanas, que administra o Centro Cultural Arte em Construção.

Esse Quixote é ou não é um tanto gaúcho?

Esse Quixote é ou não é um tanto gaúcho?

A montagem pode ser vista gratuitamente no Centro Cultural Arte em Construção, em Cidade Tiradentes, zona leste de São Paulo (ensaio aberto no dia 30/9 e apresentação dia 3/10) e no Sesc Pompéia, nos dias 1º e 2 de outubro (sendo que no dia 2/10 a sessão é fechada para o II Congresso de Cultura Iberoamericana).

Desde o dia 15 de setembro, os grupos teatrais participam de uma residência artística no Centro Cultural Arte em Construção. Durante esse período, tentam dar uma unidade aos 12 quadros da montagem, que ensaiam em separado há quatro meses.

Os grupos que participam do espetáculo são: La Comedia de Campana (Argentina), Teatro Trono e Compa (Bolívia), Pombas Urbanas/SP e Entrou por uma Porta/RJ (Brasil), Coletivo Teatral Antu (Chile), Teatro Tespys Corporación Cultural (Colômbia), Teatro Andante e Teatro de Los Elementos (Cuba), Tiempos Nuevos Teatro (El Salvador), Caja Lúdica (Guatemala), Compañía Teatral Carlos Ancira (México) e Vichama Teatro (Peru).

- No primeiro dia fiquei com dor de cabeça com 100 pessoas falando em espanhol. Agora, quando eu ando no metrô, ouço português, mas acho que estão falando em espanhol. Tem hora que preciso ligar a tecla SAP. Mas a gente até um lema: “minha pátria é o teatro”. O teatro nos une. No palco a gente se entende completamente - conta Adriano Mauriz.

As imagens mostram toda a diversidade da proposta

As imagens mostram toda a diversidade da proposta

A interculturalidade explícita da proposta - algumas cenas são faladas em português e espanhol - resulta em reinterpretações completamente originais da obra de Cervantes.

Um grupo peruano, por exemplo, transforma o encontro do cavaleiro da triste figura com o mago Merlin no encontro com um xamã - “um senhor que usa folhinhas de coca e aguardente para fazer adivinhações”, explicao ator do Pombas Urbanas.

Já um coletivo da Guatemala introduz no texto a lenda de uma rainha maia no lugar de uma outra história contada a Quixote (”mas essa é a única mudança de texto; o resto respeita o original de Santiago García”, alerta Mauriz). Assim, a história do cavaleiro andante que enfrenta moinhos de vento acaba ganhando as cores vibrantes da América Latina.

- O Dom Quixote é um cara que acredita num sonho. Como nós - resume Adriano Mauriz.

Rede Latino-americana de Teatro em Comunidade

O sonho a que se refere Mauriz é, entre outras coisas, a criação da Rede Latino-americana de Teatro em Comunidade, elemento que motivou a reunião de tantos grupos teatrais na periferia da capital paulista capital paulista.

- Tem vários caras que vêm fazendo a mesma coisa na América Latina e estão se encontrando para fazer a rede. É muita tecnologia. Tem gente que trabalha onde havia minas de carvão; em favelas; tem um pessoal que acabou de sair de uma guerra e por aí vai. A gente se encontrou por se reconhecer um no outro - explica Adriano Mauriz.

Os atores do Pombas Urbanas são representantes brasileiros na Rede

Os atores do Pombas Urbanas são representantes brasileiros na Rede

Jorge Bladón, diretor da Corporación Cultural Nuestra Gente, de Medellín (Colômbia), explica que o diferencial da nova rede a ter como foco um tipo de teatro com raízes num no território, que envolve a comunidade onde se localiza.

- Nesse encontro, estamos discutindo o conceito de comunidade. Porque, claro, para o conceito de teatro não há discussão. Temos que democratizar o acesso ao teatro e possibilitar que as pessoas sintam a arte como um direito cultural seu - comenta.

Bladón destaca a importância deste tipo de iniciativa para que as comunidades nos diversos países reconheçam o sentimento de pertença, o valor da memória e da identificação com suas raízes culturais.

- O grupo Catalinas Sur, da Argentina, faz o que chamam de “teatro de vecinos [vizinhos]” e realizam espetáculos com 60, 100 pessoas, com todo mundo que mora no bairro - completa Adriano Mauriz.

Segundo ambos os artistas, a Rede Latino-americana de Teatro em Comunidade vai permitir o intercâmbio de tecnologias desses grupos que compartilham esse mesmo ideal, de transformação social e envolvimento da população aliados à qualidade estética da linguagem cênica.

- Podemos multiplicar as boas experiências que algumas têm em outros países, como a política de pontos de cultura, que começa a ser discutida no Parlamento Mercosul e deverá ter incidência em toda América Latina - diz Jorge Bladón.

O colombiano lembra ainda que a rede será um espaço de formação e trocas interculturais para os atores e diretores e beneficiará também as comunidades, normalmente pouco observadas por seus respectivos governos.

- Vamos a uma padaria e nos perguntam o que estamos fazendo aqui. Ao mesmo tempo em, que nos embolamos com língua para responder, temos a capacidade de encontrar nos olhos deles as palavras corretas. Esse intercâmbio é um ato de amor - declara-se Bladón.

(fotos: Instituto Pombas Urbanas/ Divulgação)

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3 Comentários »

  1. gostaria muito q essas peças teatrais viesse para meu estado mato grosso miguel e cervantes fui o q eu mas estudei na faculdade de letras q eu cursei amo dom quixote d la mancha qum sabe um dia vira em mato grosso bjuss

    Comentário por louana — 29 de setembro de 2009 @ 10:14

  2. Puxa, é Dom Quixote - verdadeiramente andante! Fantástico.

    Comentário por Sueli Dutra — 29 de setembro de 2009 @ 10:45

  3. Olá Iuri, muito interessante essa matéria sobre teatro, e seu blog também , muito legal, parabéns!!!!
    Muita luz e ótima semana pra você.
    http://funcionaface.blogspot.com

    Comentário por André Borges — 29 de setembro de 2009 @ 12:25

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