Terra Magazine

8 de abril de 2009

“Resolvi surfar no olho do furacão”, diz MV Bill.

Tags:, , , , , - iurirubim às 17:30

Você tem um histórico de atuação política, ainda que não partidária, através do hip hop, do envolvimento com a CUFA (que ajudou a fundar) e de seus filmes e livros. Acha que toda figura pública deveria ter esse tipo de compromisso? Conversa sobre isso com colegas artistas?

Não necessariamente. Arte é arte, e deve se manifestar de várias formas. Cada artista tem sua missão, sua forma de contribuir com a sociedade através da sua arte. O Hip Hop é assim, faz política por convicção, o que está acontecendo é que temos a oportunidade de pautar outras formas de atuação do Hip Hop agora, na política formal. Mas a política pra nós é a essência do nosso movimento. Mas não critico os artistas cuja forma de expressão seja o entretenimento.

Qual foi o ponto de virada em sua vida? Qual foi o momento em que você percebeu que teria que assumir outras responsabilidades e dedicar parte de sua vida a um trabalho social?

Minha vida vira a todo momento. Não é poesia não. Ela virou quando meus pais se separaram e eu tive que assumir a casa, trabalhando de marreco da sendas, virou quando eu resolvi fazer rap, virou quando eu conheci o Celso, depois quando eu gravei um disco, depois quando lancei o clipe Soldado do Morro. Bem, a virada mesmo acho que foi aqui, quando tive a casa sendo invadida pela policia civil e federal e, a partir daí, só houve problemas e confusão. Então resolvi surfar no olho do furacão. Trabalhar na vida social não foi uma escolha nem uma paixão, é simplesmente a minha vida cotidiana.

MV Bill esteve recentemente no Haiti

MV Bill esteve recentemente no Haiti

Como é viver até hoje na Cidade de Deus?

Nasci aqui e tenho trabalho aqui na Cufa e tenho meus grandes amigos aqui. Não sou escravo de discurso, vou sair da CDD quando achar que devo sair, ou então vou comprar um imóvel em outro lugar e viver nos dois lugares. Mas a Cidade de Deus é minha vida, onde vive minha família, onde eu sou mais feliz.

Há momentos em que tem vontade de se mudar?

Sim, todos os dias. Só que eu sei que isso vai acontecer onde eu estiver. Então, quando tô boladão, deixo a vontade passar.

E o que te faz continuar morando lá?

Tenho 50 respostas para essa pergunta, mas não estou convencido de nenhuma delas, então vou ficar te devendo essa.

Você acabou de voltar de uma viagem ao Haiti. O que mais te chamou atenção naquele país?

O sorriso das crianças, elas parecem não ter idéia do tamanho da desgraça que eles estão vivendo que possivelmente vão viver.

"Queria abraçar cada soldado (da missão brasileira no Haiti) e seus familiares"

MV Bill: "Queria abraçar cada soldado (da missão brasileira no Haiti) e seus familiares"

É possível fazer uma avaliação da missão das Nações Unidas (comandada pelo Brasil) lá?

Eu precisaria de mais tempo pra isso, mas a missão passou a ser um orgulho pra mim. Enquanto as pessoas aqui ficam tentando desqualificar a missão, deveriam prestar mais atenção no impacto positivo que eles causam lá.

Eu tive contato com o povo nas ruas, nas casas. Existem lá mais de 10 países, seja construindo hospitais, estradas, poços artesianos, formando policiais, distribuindo alimentos, formando profissionais. Enfim, não existe ocupação no Haiti, existe uma profunda intervenção inevitável.

E, como negro hoje, tenho dois orgulhos: por ver que a ONU não virou as costas para aquela gente e por ver meu país, através das forças armadas (que eu sempre vi com reservas devido a herança do regime militar) ser reconhecido pelo povo fudido do Haiti. Queria abraçar cada soldado e seus familiares. Não quero perder capacidade de criticar, mas não posso ignorar o orgulho que senti por tudo que vi

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MV Bill: “se por ventura eu me candidatar, vai ser ao senado”

Tags:, , , , - iurirubim às 13:25

Rapper nega candidatura já nas próximas eleições, mas deixa aberta a possibilidade de seu envolvimento com a política.

Conhecido em todo país, MV Bill está mais uma vez no centro das atenções. A expectativa para que se candidate nas eleições de 2010 já tem mobilizado possíveis eleitores, que criaram um blog para “ajudar” o rapper a se decidir. O blog já tem depoimentos de figuras importantes, como o cineasta Cacá Diegues, em apoio à candidatura de Bill.

Toda essa movimentação começou quando Caetano Veloso “lançou” a candidatura o rapper ao senado, durante um show que faziam juntos. A declaração do mano Caetano provocou um grande burburinho e virou pretexto para que a Cufa - Central Única de Favelas encomendasse uma pesquisa, na qual se verificou que 37% dos jovens do Estado do Rio votariam em Bill.

Leia também:
>>”Resolvi surfar no olho do furacão”, diz MV Bill

O Blog das Ruas conversou com MV Bill sobre o assunto. Admite que “esse é o assunto de todas as rodas”, embora negue disputar as próximas eleições - “nunca passou pela minha cabeça ser candidato a alguma coisa”. Ainda assim, Bill dá a entender que esta não é uma possibilidade remota. Garante, inclusive, que, caso saia candidato, “vai ser para senador”.

Durante a entrevista, o cantor dá algumas “deixas” que animariam seus cabos eleitorais. “Tudo isso pra mim é muito novo. Sei que não vou cantar rap a vida inteira” ou “se um dia eu fosse obrigado a ser candidato” dão a entender que ele considera a possibilidade, apesar de suas negativas.

Uma declaração, porém, parece ser mais significativa que as outras. Comentando os resultados da pesquisa encomendada pela Cufa, Bill escorrega: “se eu for convencido a fazer parte dessa outra história”. Paira, então, a dúvida: quais seriam os argumentos necessários a convencê-lo?

Articulado, MV Bill demonstra ter uma visão sem preconceitos da política e a reconhece como o “caminho democrático que nos leva para outros lugares”.

Conta, embora não cite nomes, já haver conhecidos vários Mensageiros da Verdade (significado do MV) na política nacional.

Afirma que já tomou “muita porrada” e foi taxado de bandido e não identifica no atual contexto nenhum político que seja representante legítimo das favelas. Entretanto, prefere também não assumir esse posto: “se um dia eu fosse obrigado a ser candidato seria em nome das pontes”, diz.

Confira a entrevisa.

Você cogita sair candidato nas próximas eleições?

Não, nunca passou pela minha cabeça ser candidato a alguma coisa, mas isso sempre esteve presente na cabeça das pessoas, elas diziam que eu deveria militar em outras frentes, mesmo que fossem partidos, nem que fosse no futuro. Diziam e ainda dizem que minha contribuição no movimento social é importante, mas que me credencia a ser representante de parte delas em outros lugares. Se paramos para refletir, isso faz muito sentido. Se têm razão ou não, ainda tenho dúvidas. O fato é que o tempo tá passando e vamos amadurecendo.

O Rap é importante, o movimento social, negro, de juventude e todos os outros. Mas penso que parte de nós devemos estar sim, na política formal, marcando posições sérias e representando e levando os objetivos de um determinado seguimento da sociedade para as mesas de decisão. Só que hoje conseguimos falar para uma massa maior, não somente para a favela. Hoje o projeto não é dar voz a favela, mas é criar pontes de mão dupla entre a favela e o asfalto e nessa direção é que acredito que a nova revolução pode ser possível.

Peça produzida pelo movimento que deseja a candidatura do rapper

Peça produzida pelo movimento que deseja a candidatura do rapper

Tudo isso pra mim é muito novo. Sei que não vou cantar rap a vida inteira. Através do rap conseguimos mudar a vida de muitos jovens, mas é pouco, precisamos continuar trabalhando para mudar a vida de todas as pessoas, de todos os lugares.

As pessoas estão pedindo que você se candidate…

Tenho visto várias manifestações e mesmo na rua, as pessoas me abordando e pedindo para eu ser candidato ao senado federal, como se eu fosse salvação para alguma coisa. Não sou, sou apenas mais um louco que tenta contribuir para diminuir esse caos social que está afetando a todos. E exatamente por isso precisamos ter na política formal pessoas de sérias de outras origens, para termos equilíbrio social também na política. Pois essa seria uma outra forma de formalizar políticas públicas para uma parcela da sociedade que não tem representantes e daí o que é feito para elas é, penso, por cidadãos estranhos.

Mas garanto que se por ventura eu me candidatar a alguma coisa, o que acho difícil, vai ser para senador, pois tão importante quanto ter um mandato majoritário é a juventude brasileira marcar uma posição nacional e dizer que não quer mais servir de massa de manobra.

Nesse aspecto, essa candidatura estaria acima dos partidos e de ideologias, mas estaria focada na vontade de uma juventude dizer que esse mandato é nosso, comprometido não com a favela, mas com todos os jovens desse país que desejam sair da invisibilidade para então construir alternativas reais para todos.

Só não sei ainda quem seria o agente dessa missão. E por isso que eu digo, essa pessoa e esse mandato não deve sequer ter plataforma e propostas. A única proposta deve ser guiar os próximos oito anos ouvindo e executando os anseios da juventude brasileira. E, na boa, isso não acontece em estado nenhum… Isso me entristece, e isso me anima.

Caso saísse candidato, qual seria o partido de sua preferência?

Não penso nisso hoje. O Celso mandou fazer uma pesquisa, e nessa pesquisa o PT era o partido mais citado, e a maioria das pessoas preferem que eu seja deputado e não senador.

Eu não entendo nada de pesquisa, mas de toda maneira as pessoas pesquisadas diziam que votariam em mim independente do cargo escolhido. O mais importante de tudo isso é saber que as pessoas reconhecem em nosso trabalho algo que vai muito além de rimas e canto afinado. As pessoas nos reconhecem como militantes de um movimento que é politizado por excelência. Nos reconhecem como alguém que tem se esforçado para fazer diferença, para construir vidas.

E é o que estamos tentando fazer ao longo desses anos. Seria muito fácil ter uma frase para dizer o que eu faria, mas prefiro continuar fazendo o que estou fazendo, militando na base social e impactando sem alardes.

"Já tomei muita porrada e já fui taxado de bandido"

"Já tomei muita porrada e já fui taxado de bandido"

Acha que conseguiria lidar com as pressões e acordos que fazem parte do cotidiano da política nacional?

Faço parte do movimento social e de tantos outros movimentos, só chegamos até esse momento exatamente pela capacidade de interagir, de negociar, de sair da favela, de se comunicar com os “outros”. Eu nunca disse que odiava a política, nunca disse que a desejava. Mas sempre disse, e digo, que ela é o caminho democrático que nos leva para outros lugares que também precisamos estar presentes.

Continuar xingando todos os políticos é fácil, mas eles vão continuar dando as cartas e nada vai mudar.

Qual sua posição a respeito da pesquisa encomendada pela Cufa, que indica que você é bastante conhecido da população e que 37% dos jovens o escolheriam como seu candidato?

A primeira coisa que fiz foi ligar para o Celso e pedir para Cufa não se meter nisso. Se o louco do Caetano e agora outras pessoas querem sugerir meu nome, tudo bem, mas a Cufa não, não aceito nenhuma participação da instituição.

Formalmente eu nunca fui da Cufa, não assino nada, meu nome não consta em lugar algum, nunca demiti ou admiti na Cufa. Minha participação sempre foi somente no front, onde eu sempre preferi. Mas ajudei a definir suas regras e uma delas é que se alguém da instituição quiser se aventurar no campo político, a primeira coisa a fazer é se desligar - e somente poderá voltar para a entidade 10 anos depois.

Então, se eu for convencido a fazer parte dessa outra história, eu não apareço em nada da Cufa e a Cufa não vai aparecer em nada que envolva política formal. É muito importante separar as coisas e assim vai ser. Esse é o assunto de todas as rodas hoje, mas de verdade eu não penso ser candidato a coisa nenhuma. Mas isso mostra que a juventude brasileira precisa ser representada por ela mesma e as pessoas parecem que querem isso.

Existem, nas várias esferas de poder, políticos que sejam representantes “legítimos” das favelas, que morem lá e conheçam de perto as questões de seu cotidiano?

Bem, nesse momento eu não lembro de nenhum, mas se um dia eu fosse obrigado a ser candidato seria em nome das pontes, eu seria em nome de alguém que transita em várias vertentes sociais e que já tomou muita porrada, que já foi taxado de bandido, que responde a processos mas que nunca pensou em desistir do caminho escolhido.

Muito mais importante do que ser representante de um grupo nesse caso, é ser porta-voz de uma gente que vai demandar todos os dias seus sonhos, suas frustrações e suas fantasias. Nesse caso é melhor estar preparado para o que vem aí pela frente e esquecer os discursos ensaiados, pois se as pessoas pensam em mim, a razão é essa, elas estão cansadas de discursos, querem viver no mundo real e prático.

Acha que existem Mensageiros da Verdade na política?

Sim, muitos. São pontos de vista deferentes de verdades diferentes, mas existem sim, e muitos. Não gostaria de falar os que lembro agora para não ser injusto com ninguém, mas certamente tenho conhecido muitas pessoas sérias nesses últimos anos. Mas a questão não está somente na seriedade, mas no compromisso. Estas pessoas têm compromissos com outras questões e grupos, apesar do coração enorme que elas têm.

Na sua opinião, qual seria hoje o maior problema do Brasil e, mais particularmente, do Rio de Janeiro?

Corrupção. Esse é o mal que permite a proliferação de todos os outros males. Tudo é possível a partir dela.

Leia segunda parte da entrevista com MV Bill

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23 de março de 2009

RJ: Pesquisa revela que 37% dos jovens votariam em MV Bill

Tags:, , , , , - iurirubim às 18:16

MV Bill, senador? Pesquisa encomendada pela CUFA - Central Única de Favelas revela que 37% dos jovens do Estado do Rio de Janeiro votariam no rapper, um dos fundadores da organização. Os jovens representam 14% do eleitorado do Rio de Janeiro (cerca de 1.587.000 eleitores até 24 anos).

A pesquisa foi motivada pelas recentes declarações de Caetano Veloso. Em 1º de Março deste ano, no show comemorativo pelo aniversário do Rio de Janeiro na Cidade de Deus, o cantor baiano “lançou” a candidatura de MV Bill ao senado e convocou a população a votar no rapper.

Realizada pelo IBPS – Instituto Brasileiro de Pesquisa Social entre os dias 6 e 10 de março, a pesquisa entrevistou, por telefone, 1.100 pessoas em todo o Estado do Rio de Janeiro. A margem de erro é de três pontos percentuais.

O IBPS também revela que 58% dos entrevistados conhece MV Bill, sendo que os jovens de 16 a 24 anos o “conhecem muito”.

Trinta e seis por cento dos entrevistados tem uma imagem “ótima” ou “boa” do rapper, contra apenas 3% que tem imagem “ruim” ou “péssima”. Entre os jovens (16-24 anos), os percentuais positivos alcançam 50% e entre os que ganham até 2 salários mínimos, 40%.

Por enquanto, MV Bill nega candidatura

Por enquanto, MV Bill nega candidatura

Quase um terço dos entrevistados (27%) – o que seria equivalente a 2.124.000 eleitores – acha que ele deveria se candidatar a Deputado Federal e 7% que ele deve se candidatar a Senador.
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Caso ele se candidate a Deputado Federal, 23% dos entrevistados (cerca de 1.809.000 eleitores) declaram que votariam nele com probabilidade “muito grande” ou “grande”.

Caso ele opte pelo Senado, teria os votos de 19% (cerca de 1.494.000 eleitores). Entre os jovens, este percentual sobe para 37% de intenções de voto.

Quando a pergunta é qual partido pelo qual MV Bill deveria se candidatar, 10% dos entrevistados declara ser o PT. PV, PDT e PMDB aparecem em segundo lugar, com 3%.

A grande maioria dos entrevistados (74%) considera “importante” ou “muito importante” que exista no Congresso Nacional um representante das favelas.

Apesar de toda a mobilização, o rapper continua a afirmar que não será candidato a nada.

(fotos: divulgação/CUFA)

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14 de maio de 2008

Favela card: favelas lançam moeda paralela

iurirubim às 11:03

A CUFA-MT, seção matogrossense da Central Única de Favelas, começa a usar nas favelas de Cuiabá a moeda social Favela Card. Como as favelas são um ambiente em que circula pouco dinheiro, a idéia é possibilitar que as pessoas tenham acesso a serviços por meio da troca direta com outros serviços ou produtos.

Dessa forma, será possível que os moradores das favelas adquiram os bens ou serviços, mesmo sem ter dinheiro sobrando em caixa – basta apenas usar seu trabalho ou o excedente de sua produção.

Essa iniciativa tem forte influência do movimento de economia solidária. “A grande sacada é mostrar para as pessoas que podemos ser mais solidários, mais cooperativos, e quebrar aquela visão do consumismo desenfreado”, afirma o rapper Paulo Linha Dura, coordenador geral da CUFA-MT.

Um dos pais da idéia e responsável pelo “batismo” da moeda social, Linha Dura dá um exemplo das possibilidades de uso do Favela Card:

- Vou usar nós mesmos como exemplo: nós organizamos o Festival Consciência Hip Hop que já está na 4ª. edição. Uma puta estrutura e alguns grupos de rap já me intimaram a pagar cachê. Tipo, a gente não tem condições de pagar cachê, mas temos outros serviços que a gente pode oferecer para os grupos tipo, estamparia de camiseta (núcleo de serigrafia), assessoria de imprensa, oficinas sobre elaboração de projetos, oficinas de comunicação, criar blog, myspace, atualizar diariamente esses veiculos – diz.

E ele complementa:

- Cara, a gente tem um estúdio de gravação de ensaio. Aí eu te pergunto: quantos grupos que ainda não tem uma musica demo se quer? Quantos grupos que não tem um lugar da hora pra ensaiar? Tem grupo que não tem nem release, Nós da CUFA já temos uma estrutura e queremos trocar com outras pessoas e mais que isso queremos ensiná-las o que já aprendemos.

Inspirado no êxito de outra moeda social cuiabana, o Cubo Card, o Favela Card tem uma equivalência de 1 para 1 com o real e apenas começa a ser usado em Cuiabá. Tem cinco meses de existência e cerca de 4 mil créditos em circulação.

Mas Linha Dura revela que os planos são chegar até “fazer as trocas entre o cara da padaria, com a serigrafia que temos, com o cara do salão de cabelo…”

Nascido Paulo Fagner da Silva Ávila, Linha Dura é um rapper que valoriza a cultura popular e o encontro do rap com outros ritmos nacionais e estrangeiros. Engajado em causa sociais e militante do Movimento Hip-Hop desde 1996, foi convidado por MV Bill em 2004 para integrar a CUFA.


Linha Dura "batizou" o Favela Card

Abaixo, uma entrevista com o rapper cuiabano sobre o Favela Card:

Então vocês vão trazer para as favelas uma moeda social… Como nasceu a idéia?

A nossa moeda é o Favela Card. O pessoal do Espaço Cubo sugeriu e eu dei o nome e estou (na CUFA) levando a idéia adiante.

E porque não usam o próprio Cubo Card?

só não usamos a do cubo por que queremos construir a nossa só isso, com a nossa nomenclatura. E por outro lado é legal que tenha várias moedas.

Acha que no futuro pode rolar intercâmbio entre as moedas?

Então acho que isso pode acontecer sim.

Quais locais e empreendimentos já usam o Favela card?

Aqui o favela card é usando entre a CUFA e o poder publico, o espaço cubo, os profissionais da cultura (a galera das bandas, os MCs e por aí vai). Até a locadora de vídeo, a mais fodona da cidade, recebe em card também


"Podemos ser mais solidários, mais cooperativos"

O favela card tem o design como tem o cubocard?

Não temos ainda um designer.

Então a moeda são créditos mas sem uma interface visual?

Por enquanto. Até porque eu também tô pesquisando outros exemplos para que a gente possa mostrar pra sociedade que é possível. Tipo, a dificuldade de implantar a moeda complementar na comunidade é tremenda por que os caras ainda não confiam ou não entendem.

Então tô sendo forçado a saber um pouco do que o Karl Marx pensava e fazia. E transformar isso numa linguagem simples para o povo da favela entender.


Linha Dura encara Karl Marx

Como está sendo a experiência?

É… até pra mim também é um puta desafio. Tipo, nunca li nada sobre ele né, gurizão? Minha origem é a favela, é tudo simples. É o rala. E entender o que ele fala é foda. Tem que ler com dicionário do lado (risos). Agora tô na missão de começar a escrever texto pra galera visualizar.

E quais são os próximos passos para expandir o uso do Favela Card?

É primeiro fazer a galera entender mais o processo da economia solidária Favela card. Depois, assim que estivermos na base alvorada [favela a 10 minutos do centro de Cuiabá], eu vou pegar firma pra passar isso na comunidade. Essa é a meta quando formos pro alvorada. Eu estou montando um planejamento estratégico pra ir pra cima.

Fotos: Arquivo pessoal Paulo Linha Dura

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