Terra Magazine

25 de novembro de 2009

BA: Dia da Baiana de Acarajé tem missa e samba de roda

Há 19 anos, Salvador celebra a baiana de acarajé no dia 25 de novembro. O Dia da Baiana rende homenagens àquelas que fizeram de seu trabalho diário uma embaixada da cultura baiana.

Ali, sentadas no seu tabuleiro, elas sintetizam a Bahia, em todos os cincos sentidos. Espalhadas por todas as esquinas de Salvador, perfumam a cidade com o aroma do dendê. Inconfundíveis com sua saia larga, suas anáguas, torço, bata, sandálias, adereços e contas dos Orixás, com sua fala mansa e ritmada e o riso solto, oferecem aos clientes as delícias de seu tabuleiro para o encanto do paladar.

As baianas são herdeiras do nobre ofício de preparar o alimento sagrado dos orixás - tarefa antes só permitida às filhas de Iansã ou Xangô, para quem o ato de montar um tabuleiro e ir vender na rua era um desígnio divino.

E assim, sem alarde, passaram a oferecer ao povo o alimento dos deuses.

O antigo akará veio para o Brasil através dos escravos africanos iorubás. Antes comido apenas com pimenta, o bolinho feito com feijão fradinho, cebola, sal e frito no azeite de dendê fervente ganhou no tabuleiro da baiana deliciosos recheios, como salada, vatapá, camarões e caruru. Aprenda a fazer o acarajé.

É sabido que a venda do mais “arretado” dos quitutes serviu, inclusive, para que muitas escravas negras comprassem cartas de alforria.

o Dia da Baiana de Acarajé pode tornar-se uma data nacional

o Dia da Baiana de Acarajé pode tornar-se uma data nacional

Em 2007, a jornalista baiana Agnes Mariano fez uma reportagem exemplar sobre a atividade das baianas de acarajé, no qual dizia:

- Ser baiana é uma escolha difícil. Significa assumir o compromisso de ser incansável e ter coragem o tempo todo, assim como Iansã, a dona dos acarajés. É também tornar-se capaz de dar colorido e perfume às nossas comidas, tornando o nosso cotidiano bem mais saboroso - diz.

O ofício das baianas de acarajé foi reconhecido como patrimônio cultural de Salvador e, desde 2004, como patrimônio cultural imaterial do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

As comemorações do Dia da Baiana começaram na última sexta-feira (Dia da Consciência Negra) e têm seu ponto alto nesta quarta-feira, o Dia da Baiana.

Exemplo perfeito do sincretismo religioso, a data começa a ser celebrada pela manhã, com uma missa em Ação de Graças na Igreja Nossa Senhora do Carmo. Após a missa, um cortejo vai da Igreja até o Memorial das Baianas, na Cruz Caída (Praça da Sé), onde um almoço, apresentações culturais e sorteio de brindes entretêm as guardiões do patrimônio cultural baiano. A programação é encerrada às 20h, com samba de roda de Cachoeira, cidade do recôncavo baiano.

Em breve, o Dia da Baiana deve tornar uma data nacional. Um projeto de lei, de autoria do deputado Mário Negromonte (PP-BA), já aprovado pela Câmara dos Deputados, aguarda apreciação do Senado. Quem sabe, dentro de poucos meses ou anos, todo o Brasil não rende as devidas homenagens a essas belas senhoras?

(fotos: Site Bahia! É Muito Mais [1]; Blog Pelo Pelô [2])

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20 de novembro de 2009

Dia da Consciência Negra é comemorado em 757 municípios

Tags:, , - iurirubim às 13:24

Mais de 750 municípios brasileiros celebram oficialmente o Dia da Consciência Negra, 20 de novembro. A data marca a morte de Zumbi dos Palmares, em 1965.

Zumbi figura no Panteão da Pátria: é um dos onze nomes inscritos no Livro dos Heróis da Pátria. Foi o líder do Quilombo dos Palmares, o maior agrupamento de negros que conseguiam fugir de seus opressores no Brasil imperial.

O levantamento foi feito pela Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR), ligada à Presidência da República.

Estátua de Zumbi, na Praça da Sé (centro de Salvador)

Estátua de Zumbi, na Praça da Sé (centro de Salvador)

Curiosamente, nos três Estados com maior população negra do Brasil - a Bahia (78,8%), na região Nordeste, e Amazonas (78,3%) e Amapá (78%), na região Norte, poucos municípios aderem oficialmente às comemorações pela consciência negra.

Por outro lado, o Rio Grande do Sul é o estado com mais municípios a aderirem ao feriado: 284. O Rio de Janeiro foi o primeiro município a homenagear Zumbi com o feriado, em 1995. No estado, a data será comemorada em 91 cidades. Em São Paulo, a data é comemorada desde 2004, e atualmente 104 cidades aderiram. No Mato Grosso, será feriado em 140 municípios na sexta.

(foto: Carla Ornellas/ Secom)

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RJ: “Trem do Funk” realiza baile sobre trilhos

Depois que foi reconhecido como patrimônio cultural do Rio de Janeiro, o funk está mesmo saidinho.

Hoje, chama o eterno herói Zumbi dos Palmares para balançar sobre os trilhos. É isso mesmo: a galera do batidão resolveu celebrar o Dia da Consciência Negra criando o “Trem do Funk”, uma iniciativa inédita para o gênero musical.

Seis vagões, com capacidade para 1800 passageiros, partem às 11h (horário de Brasília) da Central do Brasil até Belford Roxo, na Baixada Fluminense. Para participar do batidão, basta pagar a passagem comum: R$ 2,50.

O trem vai seguir o trajeto em velocidade reduzida e tem paradas previstas apenas nas estações Jacarezinho, Mercadão de Madureira e Pavuna. Nelas, embarcam, além de passageiros, artistas locais que animam as três plataformas enquanto o público espera pelo trem. A jornada deve levar cerca de uma hora.

A festa, entretanto, começa bem antes da partida do trem. Às 10h, na própria Central do Brasil, o som já toca à toda, colocando todo mundo no clima do passeio.

Na chegada em Belford Roxo o baile continua com a equipe do Furacão 2000 na Praça Eliakim Araújo, a principal da cidade.

Primeira edição do Trem do Funk já tem confirmadas as presenças de Furacão 2000; Priscila Nocetti e Cia de Dança; Os Hawaianos; Leandro e as Abusadas; David Bolado e Rose Bumbum; Márcio G; Mc Créu; Max; Bruninha e Jaula das Gostozudas.

Como é inspirado no Trem do Samba - que há 13 anos passeia com bambas no dia 2 de dezembro (Dia do Samba) -, o “bonde” do funk também recebe estrelas desse e de outros gêneros musicais. Ivo Meireles; Neguinho da Beija-Flor; a Bateria da Mangueira; a Banda Afroreggae; Dida Nascimento e Afoxé Raízes Africanas “dividem os trilhos” com o pessoal do batidão.

O projeto do Trem do Funk é organizado por Rômulo Costa, secretário de Cultura de Belford Roxo e membro da Furacão 2000, que promete torná-lo parte do calendário oficial de eventos do Rio de Janeiro.

Funk solidário

Além de celebrar o Dia da Consciência Negra, o Trem do Funk tem um objetivo social. Durante o trajeto do trem, serão arrecadados donativos para ajudar as vítimas das chuvas que assolaram Belford Roxo recentemente - até o último dia 17, a cidade tinha mais de três mil desabrigados. A colaboração, claro, é voluntária.

(foto: Proderj/ Governo do Estado do Rio de Janeiro)

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16 de novembro de 2009

BA: Atrações culturais apresentam-se em barracão de quiabos

Imagine um barracão de quiabos numa grande feira livre. Agora imagine este mesmo local como palco para apresentações musicais, recital de poesias e palestras!

Pois é. Nesta terça-feira, 17, o comprador desavisado que for à Feira de São Joaquim, em Salvador, para comprar o ingrediente principal da sua quiabada vai se deparar com um dos eventos comemorativos da Semana da Consciência Negra na capital baiana.

Na programação do evento, que começa à 9h e vai até às 16h, a percussão da banda A Mulherada, a voz da cantora Márcia Short, a musicalidade Hip Hop de Paula Azeviche, a poesia de Josélia e a apresentação do samba de roda das mulheres carvoeiras, “As Paparutas da Ilha do Paty”.

Além das atrações culturais, acontece uma palestra sobre a Lei Maria da Penha com delegada Marli Margarete Oliveira, responsável pela Delegacia Especial de Atendimento à Mulher.

A programação do evento deixa claro que a mulher negra é o foco das celebrações em torno do Dia da Consciência Negra este ano, em Salvador.

A capital baiana, aliás, possui um fundo dedicado especificamente a esse público - o Fundo Municipal para o Desenvolvimento Humano e Inclusão Educacional de Mulheres Afrodescendentes (FIEMA) -, apontado por diversas pesquisas como a base da pirâmide da desigualdade de nosso país.

Durante as comemorações da semana da consciência negra, serão implantadas turmas de A programação voltada, principalmente, para a questão de gênero, inclui implantação de turma de alfabetização para as mulheres que trabalham na Feira, além de oferta de serviços de saúde, oficina de estamparia, dentre outras atividades.

A escolha da Feira de São Joaquim como local para o evento não é aleatória. Ocupada por uma grande quantidade de mulheres negras, que dali tiram o sustento diário, a Feira mais antiga da capital baiana está em vias de ser tombada como patrimônio histórico pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).

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13 de novembro de 2009

BA: Salvador vai ganhar primeiro museu multimídia da música negra

Uma coletiva de imprensa, realizada ontem à tarde, anunciou a criação, em Salvador, do Centro de Música Negra, o primeiro museu multimídia dedicado à música negra em todo o mundo.

O empreendimento é uma parceria entre o grupo de mídia francês Mondomix, Carlinhos Brown e a Secretaria de Cultura da Bahia e deve ser inaugurado daqui a um ano, em dezembro de 2010. O Centro será instalado no Museu du Ritmo, casa de espetáculos de Brown localizada no bairro do Comércio.

O Centro de Música Negra terá salas de exposição permanentes e temporárias, um centro de pesquisa e documentação online, café, restaurante, e espaço para shows, palestras e workshops. O seu projeto cenográfico é assinado pelo arquiteto paulista Pedro Mendes Rocha, também autor do projeto arquitetônico do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo.

Ao apresentar o desenho do novo museu, o arquiteto não se contém e afirma: “Para mim, o nazismo e a escravidão foram os maiores exemplos de loucura coletiva da humanidade”.

Responsável pela concepção e produção do projeto - bem como pela pesquisa do conteúdo artístico, realizada com a colaboração de especialistas internacionais -, a Mondomix projeta um museu sensorial e interativo, repleto de inovações tecnológicas cujo objetivo é fazer o público imergir nas sonoridades com DNA africano.

O conteúdo do novo museu é inesgotável, afinal, não param de surgir, em cada canto do mundo, novos artistas, grupos e ritmos derivados, inspirados, enfim, herdeiros da cultura negra.

Após a entrevista coletiva foi inaugurada uma exposição multimídia temporária, um pequeno aperitivo do que será o Centro de Música Negra, que poderá ser visitado de hoje até 15 de novembro, das 18h às 22h.

“Os tambores nasceram para substituir as armas”

Óculos escuros, uma espécie de turbante estilizado, um colar de contas por cima da roupa. Sentado em meio à mesa como um cacique, Carlinhos Brown faz um discurso emocionado, expressando tanto a dor ainda hoje presente na vida dos negros quanto a esperança de construir um planeta mais pacífico, harmonioso e tolerante.

- Tem sido árduo nos manter não-violentos com leis que não criamos e que não nos protegem com a dignidade que necessitamos. Nós, africanos, temos que vencer essa dor, essa miséria. Não a pobreza, porque a pobreza nós sempre estivemos preparados para enfrentar - diz o cantor.

Embora confiante na construção de um mundo que valorize a diferença, a fala de Brown também revela as cicatrizes ainda vivas de séculos de escravidão.

- Falam muito de Cristo. Eu acredito em Cristo. Mas Cristo veio em muitas formas, em muitos navios negreiros - diz.

"Nós nos perdemos quando esquecemos nossas origens"

Brown, com a cantora Mounira Mitchala (Chade): "Nós nos perdemos quando esquecemos nossas origens"

O músico defende ser preciso “reeducar o mundo” a partir de práticas e valores das culturas negras e indígenas. “Os tambores nasceram para substituir as armas”, afirma.

- Nós nos perdemos quando esquecemos nossas origens. A África está adormecida em todos aqueles que pensam que não somos todo africanos. Não falo apenas dos negros não - todos viemos da África. A natureza pode ter vários nomes. Um deles é África.

Para Brown, o Centro de Música Negra tem o papel de oportunizar esse retorno às origens, o contato com matrizes culturais renegadas pela cultura ocidental e o intercâmbio entre diferentes culturas.

- Aqui as crianças vão encontrar o que não vêem nas suas escassas horas nas salas de aula. Vamos tirar de cena o tráfico e fazer um tráfego de cultura a partir do Centro de Música Negra. O Centro amarra esse nosso desejo coletivo de unir nossas culturas e nos irmanarmos - advoga.

O momento mais emocionante da entrevista coletiva é a menção que Brown faz a Neguinho do Samba, falecido no dia 31 de outubro: “Queria muito que um dos meus heróis, um dos meus mentores, Neguinho do Samba, estivesse aqui de corpo presente”.

O cantor lembra do trabalho de Neguinho do Samba e diversos outros líderes negros, especialmente aqueles que atuam no centro histórico de Salvador, e faz um chamado:

- Nós vamos levantar o Pelourinho. Vamos rever o Pelourinho como um centro de liberdade do nosso povo.

(fotos: Edgar Souza/ Divulgação)

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12 de novembro de 2009

BA: Festival de Músicas Mestiças aporta em Salvador

Tambores, batidas, movimentos. Ritmos tão próximos e tão radicalmente distintos. As muitas faces da musicalidade negra aportam na capital baiana de sexta a domingo, no Festival Músicas Mestiças Salvador.

Capital da Bahia e primeira capital do Brasil, Salvador é a cidade com maior população negra fora da África. Talvez por conta disso a versão baiana do Festival Musiques Métisses - criado há 34 anos pelo produtor francês Christian Mousset - tenha dado a ênfase à diáspora negra e à produção musical africana contemporânea. Mousset já está na Bahia para conferir de perto este desdobramento da sua cria.

Carlinhos Brown é o anfitrião da Festa, que acontece no seu Museu du Ritmo

Brown é o anfitrião da Festa, que acontece no seu Museu du Ritmo

O Festival acontece no Museu du Ritmo, espaço para espetáculos de Carlinhos Brown, localizado no bairro do comércio. O “dono da casa” também participa da festa, tocando ao lado dos percussionistas da Les Tambours de Brazza, do Congo, logo na noite de abertura do evento.

Durante as três noites do Festival, cantores e bandas da cena musical da África francófona e da diáspora negra dividem o palco com artistas baianos cuja sonoridade também é claramente influenciada pelos ritmos africanos.

As apresentações acontecem sempre em pares. Uma saudável inversão de papéis faz dos estrangeiros anfitriões e dos baianos, convidados. Assim, o público soteropolitano tem oportunidade tanto de conhecer o trabalho solo dos grupos de fora do país quanto de vê-los no palco ao lado das estrelas locais. Confira a programação.

Antigo "Mercado do Ouro", o Museu du Ritmo hoje negocia sonoridades

Antigo "Mercado do Ouro", o Museu du Ritmo hoje negocia sonoridades

São seis os convidados inernacionais do Festival. Os já citados percussionistas do Congo, o rapper Didier Awadi (Senegal); a cantora Mounira Mitchala (Chade), conhecida como a “pantera doce de Ndjaména”; Tiken Jah Fakoly, reggaeman da Costa do Marfim que canta em francês e no dialeto diola; e o haitiano BélO, único representante do Caribe e de fora da África entre os artistas estrangeiros, inventor do ritmo “raggaganga”, que, segundo o próprio, é uma mistura de reggae, música vodu, rara, soul, dialogando também com o jazz.

O uso da língua francesa - traço comum a todos esses artistas - foi um critério importante para sua seleção, na medida que o Festival Músicas Mestiças Salvador é encerra a programação baiana do Ano da França no Brasil.

Mas existe uma exceção nessa lista: o caboverdiano Tcheka é o único estrangeiro que não tem o francês, mas o português, como língua oficial. Cantor e compositor, Tcheka desenvolveu um estilo pessoal de tocar a guitarra baseado no batuque, um ritmo popular de Cabo Verde.

A cantora Mounira Mitchala é a única representante do sexo feminino entre os convidados estrangeiros

A cantora Mounira Mitchala é a única representante do sexo feminino entre os convidados estrangeiros

Do aldo de cá do Atlântico, os artistas baianos escolhidos para enriquecer essa diversidade sonora fazendo participações especiais nos shows são: Carlinhos Brown, Margareth Menezes, a percussão do Olodum, Mariene de Castro, Mariella Santiago, Lazzo Matumbi, Percussivo Mundo Novo e Letieres Leite e Orkestra Rumpilezz, que, com sua mistura de jazz e percussão afro-baiana, abre o encontro.

Além de shows, o Festival Músicas Mestiças Salvador oferece também oficinas musicais com Mounira Mitchala (hoje), Tcheka e Les Tambours de Brazza (sábado), na Candyall Gueto Square.

Letieres Leite e Orkestra Rumpilezz abre o Festival

Letieres Leite e Orkestra Rumpilezz abre o Festival

Uma conferência sobre gestão coletiva de direitos autorais, organizada pela Sociedade de Autores, Compositores e Editores de Música (SACEM), da França, completa a grade de atividades do evento nesta sexta-feira.

E, então, que tal conhecer um pouco da diversidade da música negra no mundo?

(fotos: João Meirelles [Carlinhos Brown]; Eduardo Freire [Museu du Ritmo]; Mariele Góes [Orkestra Rumpilezz]; divulgação [demais])

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13 de outubro de 2009

PE: “Terça Negra” tem competição de MC’s no Recife

Tags:, , , , - iurirubim às 16:02

Em todas as terças-feiras do mês de outubro, o Pátio de São Pedro, no centro do Recife, é ocupado pela cultura hip hop.

É a Jornada de MC’s, que além de muito rap, graffite ao vivo, mostra de vídeos e shows com grupos convidados, traz uma competição de rimas entre MC’s, na qual se dá bem quem for melhor no improviso.

A cada terça-feira, oito MC’s disputam entre si por uma vaga na final, que acontece no dia 10 de novembro. As batalhas exigem raciocínio rápido, criatividade e muito jogo de cintura.

Os MC’s têm duas rodadas de 45 segundos para rimar em cima da base musical do DJ. Cabe aos rimadores desafiar o adversário mostrando toda sua habilidade com o domínio do vocabulário e com o improviso.

O dono do jogo de palavras que mais cativar o público - cuja entrada é gratuita - é coroado o campeão e ganha uma vaga na final, dia 10 de novembro.

O melhor dos quatro MC’s que competem na final ganha uma vaga para representar Pernambuco na LIGA de MC’s, o maior evento de rima livre da cultura Hip-Hop no País, que acontece no Rio de Janeiro no Bairro da Lapa.

A Jornada de MC’s reúne em outubro 32 Mc’s de várias comunidades do Recife, como Santo Amaro, Coelhos, Água fria, Prazeres, Mustardinha, Salgadinho, dentre outras.

“Não temos nem limite de idade. Em 2007, foi para a final um menino de 12 anos. Se chegar aqui um de 10, a gente inscreve. O importante é fortalecer cultura da rima”, afirma DJ Big, que organiza o evento.

Hoje à noite, a Jornada de MC’s tem como atrações o grupo Rota Black e o rapper Sombra (antigo ex-SNJ).

A primeira Jornada de MC’s aconteceu em outubro de 2005 no Pátio de São Pedro, numa parceria com o Movimento Negro Unificado que se mantém até hoje. Daí o nome Terça Negra - por conta da força que a cultura negra tem no hip hop.

Rap e repente

A Jornada de MC’s também tem buscado fazer uma aproximação entre o rap e o repente, gêneros irmãos da poesia popular que pouco se falam.

- São pessoas que não são muito conhecidas do cotidiano dos garotos aqui da metrópole. Queremos mostrar, falar sobre esse tipo de poesia popular para as pessoas - opina Dj Big.

Essa aproximação é feita através de oficinas, para as quais são convidados repentistas. “Outro dia, tivemos aqui as irmãs Santinha e Mocinha Maurício”, conta.

Pergunto se não seria bacana os repentistas participarem das batalhas de MC’s.

- Seria covardia. É muito conhecimento.O repentista é o marco da rima. Embora não tenha BPM como o hip hop, a poesia é muito bem feita e criada na hora. Seria uma concorrência desleal! - argumenta.

(foto: Amauri Cunha)

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7 de outubro de 2009

ES: Jongos e Caxambus comparam tambores e batidas em encontro estadual

No final de semana passado, a comunidade quilombola de Vargem Alegre, no município de Cachoeiro de Itapemirim (ES) foi anfitriã do Encontro Capixaba de Jongos e Caxambus.

O caxambu e o jongo são manifestações culturais afrobrasileiras reconhecidas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como patrimônio imaterial, em 2005.

No Brasil, elas surgiram nas senzalas, no período colonial. Seus participantes dançam e cantam rimas em roda, ao som de palmas e tambores, chamados caxambus, que são feitos pelos próprios membros dos grupos. Os versos cantados remetem ao tempo da escravidão e também retratam o cotidiano. Leia mais aqui, aqui e aqui.

Os membros dos grupos, que em geral fabricam os próprios tambores, demonstram sua habilidade

Os membros dos grupos, que em geral fabricam os próprios tambores, demonstram sua habilidade

Infelizmente, o Blog das Ruas “descobriu” o Encontro apenas na última segunda-feira, o que impossibilitou uma cobertura mais bacana da nossa parte.

Para não deixar que o acontecimento passe em branco neste espaço, pedi a um de seus organizadores, o diretor de artes da Secretaria Municipal de Arte e Cultura de Cachoeiro de Itapemirim, Genildo Coelho Hautequestt Filho, que escrevesse um relato sobreo encontro, transcrito logo abaixo.

“Entre os dias 3 e 4 de outubro, aconteceu na comunidade quilombola de Vargem Alegre, município de Cachoeiro de Itapemirim-ES o Encontro Capixaba de Jongos e Caxambus.

O evento reuniu todos os 14 grupos de jongos e caxambus em atividade no estado, transformando-se em uma grande oportunidade de congraçamento e também em um fórum que, a partir de agora, se tornará permanente.

A roda é um elemento fundamental para essas manifestações culturais

A roda é um elemento fundamental para essas manifestações culturais

No Encontro os grupos tiveram a oportunidade de contar sua história, discutir seus jongos (versos contados pelos grupos) e comparar suas batidas e tambores. Essa oportunidade causou encantamento e estranhamento pela grande diversidade entre os grupos presentes.

O mais importante acontecimento foi a criação de um fórum de discussão que pretende-se ser permanente e que terá o objetivo de discutir os problemas enfrentados pelas comunidades jongueiras do Espírito Santo buscando soluções em conjunto com as instituições públicas envilvidas.

Também estiveram representados no Encontro todas as 16 comunidades jongueiras dos estados de Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro que estão ligadas ao Pontão do Jongo.

A realização do Encontro Capixaba de Jongos e Caxambus só foi possível em função da união de diversos parceiros: Comunidade de Vargem Alegre, Associação de Folclore de Cachoeiro de Itapemirim, Prefeitura Municipal de Cachoeiro de Itapemirim, através da Secretaria Municipal de Arte e Cultura, Secretaria de Estado da Cultura, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e Ministério da Cultura”.

Genildo Coelho Hautequestt Filho é arquiteto urbanista e atualmente ocupa o cargo de Diretor de Artes da Secretaria Municipal de Arte e Cultura de Cachoeiro de Itapemirim.

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29 de setembro de 2009

SP: “Dom Quixote” é encenado em duas línguas, por 15 grupos de teatro de 10 países latinos

Um Dom Quixote como nunca se viu antes. Nesta quinta-feira, dia 1º de outubro, às 20h, o Sesc Pompéia (São Paulo) recebe a montagem mais diferente já realizada a partir da obra clássica de Miguel de Cervantes.

Quinze grupos de teatro de 10 países da América Latina e Caribe apresentam o espetáculo em conjunto, mobilizando mais de 100 profissionais, entre técnicos e atores.

O texto que une essa verdadeira babel latina é a peça “El Quijote”, do colombiano Santiago García, de 80 anos - 43 deles à frente do Grupo Teatro La Candelaria.

A montagem no Brasil, que mantém a grafia original em espanhol, tem como diretor de cena César Badillo Perez, ator vinculado ao Teatro La Candelaria e que há exatamente uma década interpreta o papel-título de Quixote na montagem colombiana de Santiago García.

“Ele manja até o pensamento do Quixote. Sabe a hora que o Quixote peida”, brinca Adriano Mauriz, ator do Instituto Pombas Urbanas, que administra o Centro Cultural Arte em Construção.

Esse Quixote é ou não é um tanto gaúcho?

Esse Quixote é ou não é um tanto gaúcho?

A montagem pode ser vista gratuitamente no Centro Cultural Arte em Construção, em Cidade Tiradentes, zona leste de São Paulo (ensaio aberto no dia 30/9 e apresentação dia 3/10) e no Sesc Pompéia, nos dias 1º e 2 de outubro (sendo que no dia 2/10 a sessão é fechada para o II Congresso de Cultura Iberoamericana).

Desde o dia 15 de setembro, os grupos teatrais participam de uma residência artística no Centro Cultural Arte em Construção. Durante esse período, tentam dar uma unidade aos 12 quadros da montagem, que ensaiam em separado há quatro meses.

Os grupos que participam do espetáculo são: La Comedia de Campana (Argentina), Teatro Trono e Compa (Bolívia), Pombas Urbanas/SP e Entrou por uma Porta/RJ (Brasil), Coletivo Teatral Antu (Chile), Teatro Tespys Corporación Cultural (Colômbia), Teatro Andante e Teatro de Los Elementos (Cuba), Tiempos Nuevos Teatro (El Salvador), Caja Lúdica (Guatemala), Compañía Teatral Carlos Ancira (México) e Vichama Teatro (Peru).

- No primeiro dia fiquei com dor de cabeça com 100 pessoas falando em espanhol. Agora, quando eu ando no metrô, ouço português, mas acho que estão falando em espanhol. Tem hora que preciso ligar a tecla SAP. Mas a gente até um lema: “minha pátria é o teatro”. O teatro nos une. No palco a gente se entende completamente - conta Adriano Mauriz.

As imagens mostram toda a diversidade da proposta

As imagens mostram toda a diversidade da proposta

A interculturalidade explícita da proposta - algumas cenas são faladas em português e espanhol - resulta em reinterpretações completamente originais da obra de Cervantes.

Um grupo peruano, por exemplo, transforma o encontro do cavaleiro da triste figura com o mago Merlin no encontro com um xamã - “um senhor que usa folhinhas de coca e aguardente para fazer adivinhações”, explicao ator do Pombas Urbanas.

Já um coletivo da Guatemala introduz no texto a lenda de uma rainha maia no lugar de uma outra história contada a Quixote (”mas essa é a única mudança de texto; o resto respeita o original de Santiago García”, alerta Mauriz). Assim, a história do cavaleiro andante que enfrenta moinhos de vento acaba ganhando as cores vibrantes da América Latina.

- O Dom Quixote é um cara que acredita num sonho. Como nós - resume Adriano Mauriz.

Rede Latino-americana de Teatro em Comunidade

O sonho a que se refere Mauriz é, entre outras coisas, a criação da Rede Latino-americana de Teatro em Comunidade, elemento que motivou a reunião de tantos grupos teatrais na periferia da capital paulista capital paulista.

- Tem vários caras que vêm fazendo a mesma coisa na América Latina e estão se encontrando para fazer a rede. É muita tecnologia. Tem gente que trabalha onde havia minas de carvão; em favelas; tem um pessoal que acabou de sair de uma guerra e por aí vai. A gente se encontrou por se reconhecer um no outro - explica Adriano Mauriz.

Os atores do Pombas Urbanas são representantes brasileiros na Rede

Os atores do Pombas Urbanas são representantes brasileiros na Rede

Jorge Bladón, diretor da Corporación Cultural Nuestra Gente, de Medellín (Colômbia), explica que o diferencial da nova rede a ter como foco um tipo de teatro com raízes num no território, que envolve a comunidade onde se localiza.

- Nesse encontro, estamos discutindo o conceito de comunidade. Porque, claro, para o conceito de teatro não há discussão. Temos que democratizar o acesso ao teatro e possibilitar que as pessoas sintam a arte como um direito cultural seu - comenta.

Bladón destaca a importância deste tipo de iniciativa para que as comunidades nos diversos países reconheçam o sentimento de pertença, o valor da memória e da identificação com suas raízes culturais.

- O grupo Catalinas Sur, da Argentina, faz o que chamam de “teatro de vecinos [vizinhos]” e realizam espetáculos com 60, 100 pessoas, com todo mundo que mora no bairro - completa Adriano Mauriz.

Segundo ambos os artistas, a Rede Latino-americana de Teatro em Comunidade vai permitir o intercâmbio de tecnologias desses grupos que compartilham esse mesmo ideal, de transformação social e envolvimento da população aliados à qualidade estética da linguagem cênica.

- Podemos multiplicar as boas experiências que algumas têm em outros países, como a política de pontos de cultura, que começa a ser discutida no Parlamento Mercosul e deverá ter incidência em toda América Latina - diz Jorge Bladón.

O colombiano lembra ainda que a rede será um espaço de formação e trocas interculturais para os atores e diretores e beneficiará também as comunidades, normalmente pouco observadas por seus respectivos governos.

- Vamos a uma padaria e nos perguntam o que estamos fazendo aqui. Ao mesmo tempo em, que nos embolamos com língua para responder, temos a capacidade de encontrar nos olhos deles as palavras corretas. Esse intercâmbio é um ato de amor - declara-se Bladón.

(fotos: Instituto Pombas Urbanas/ Divulgação)

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28 de setembro de 2009

BA: Mãe de Santo até hoje tenta reaver prejuízos de terreiro demolido por prefeitura

Ialorixá busca ressarcimento por danos causados com demolição. Caso completa um ano e sete meses sem mostras de ser resolvido. “Perdi muitas coisas, perdi filhos de santo, teve até gente que morreu”, diz a mãe de santo.

Desde a demolição parcial do terreiro de candomblé Oyá Onipó Neto, localizado no bairro do Imbuí (Salvador), em 27 de fevereiro de 2008, a rotina de Roselice Santos do Amor Divino, a Mãe Rosa, passou a incluir audiências e visitas constantes à Prefeitura de Salvador.

Na próxima quarta-feira (30/09), comparece a uma audiência no setor de meio ambiente do Ministério Público. São tantas que a própria mãe de santo tem dificuldades para determinar com clareza os seus objetivos.

- Olhe, meu filho, é tanta audiência que a gente nem sabe mais direito para que é. Acho que é para eu ter uma garantia que não vão tentar demolir o terreiro de novo - conta a ialorixá.

Na lista de audiências, Mãe Rosa também aguarda o julgamento do recurso da ação que move contra Kátia Carmelo, ex-superintendente de Controle e Ordenamento do Uso do Solo do Município de Salvador, que ordenou à época a demolição do terreiro.

O judiciário deu ganho de causa a Carmelo em primeira instância. “O Juiz entendeu que ela estava certa”, comenta Mãe Rosa, com algum rancor na voz. Paradoxalmente, ainda no ano passado a ex-superintendente chegou a receber uma honraria da cidade de Salvador, a Comenda Maria Quitéria.

- Eu não desejo que ela vá presa. Quero que ela seja punida, me dando de volta tudo o que ela destruiu - comenta Mãe Rosa sobre a ação contra Kátia Carmelo.

A peregrinação pelas diversas instâncias judiciais não se compara, no entanto, com a dificuldade que a Ialorixá tem para negociar o ressarcimento dos prejuízos causados ao terreiro.

O Blog das Ruas já havia feito uma matéria sobre a situação do terreiro Oyá Onipó Neto em 16 de setembro do ano passado. Na época, a mãe de santo foi diagnosticada de depressão porque a prefeitura tinha apenas reparado as paredes do local, sem recuperar nada do patrimônio destruído, como estátuas e roupas dos orixás e vários outros instrumentos utilizados nos rituais. “Só mexeram na casca”, dizia a Ialorixá.

Desde então, as negociações nada avançaram e a municipalidade não aportou mais nada, apesar dos esforços da mãe de santo.

- De promessa, se vive o santo. O prefeito prometeu: “vou ajeitar”, ele disse. Dali pra cá, vi a cara do prefeito naquele dia [cinco de março de 2008, quando o povo de santo fez uma passeata até a prefeitura]. Depois, não vi mais - fala, indignada.

Mãe Rosa conta que, inclusive, a Secretaria Municipal de Reparação, órgão com o qual negocia a reposição dos bens do terreiro, chegou a perder toda a sua documentação.

- Meus documentos sumiram na Secretaria de Reparação. Deram fim. Mas como tenho tudo no Ministério Público, fui até lá e peguei a lista novamente e levei para o novo secretário.

Apesar de ter conseguido uma audiência com o secretário municipal, não conseguiu convencê-lo a repor o patrimônio destruído.

- Ele disse que tem coisa que não poderia dar. Mas eu respondi: “Essa é a minha cultura. Se destruiu tem que recuperar desse jeito”. Não pedi nada, só o que já tinha aqui - afirma Mãe Rosa.

Do secretário Ailton dos Santos Ferreira, ouviu a promessa de uma audiência em breve com o prefeito João Henrique Carneiro. “Ele disse que entraria em contato comigo e nada. Toda vez que eu ligo, ele [o secretário] nunca está”, reclama.

Sem perspectiva de solução para o terreiro e com a questão encaminhando-se para o segundo aniversário, Mãe Rosa desaba:

- Perdi muitas coisas, perdi filhos de santo, teve até gente que morre. Eu tenho que recomeçar tudo de novo.

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