Terra Magazine

5 de novembro de 2009

“A propriedade intelectual talvez tenha sido um erro”, diz presidente da Federação Internacional pela Diversidade Cultural

Começou hoje, em Salvador, o Encontro Internacional da Diversidade Cultural. Durante o evento, que se estende até o dia 8/11, organizações culturais, estudiosos e gestores públicos de mais de 40 países debatem o futuro da diversidade cultural no mundo.

O ponto de partida de todos os participantes para a discussão é a Convenção sobre a Proteção e a Promoção da Diversidade das Expressões Culturais, adotada pela Conferência Geral da UNESCO em outubro de 2005, como resposta a tentativa de algumas nações de tratar bens e serviços culturais no âmbito da Organização Mundial do Comércio, como se fossem um produto qualquer. Atualmente, a Convenção já foi ratificada por mais de 103 países.

Pouco após a solenidade de abertura do evento, o Blog das Ruas conversou com Rasmané Ouedraogo, presidente da Federação Internacional das Coalizões pela Diversidade Cultural (FICDC).

Além de organizadora do evento, a FICDC é a única entidade civil em todo o mundo com assento na UNESCO, o que lhe dá direito a pronunciar-se em todas as reuniões da entidade, que é o braço da ONU voltado para a educação, a ciência e a cultura.

Cidadão de Burkina Faso, Ouedraogo defende a participação ativa dos países em desenvolvimento na luta pela promoção da diversidade cultural. “A criatividade está nos países pobres, mas o mercado não está lá. Aqueles que criam precisam também se beneficiar dos lucros”, afirma.

"os pa�ses em desenvolvimento têm todo interesse em defender a diversidade cultural"

Rasmané Ouedraogo: "os países em desenvolvimento têm todo interesse em defender a diversidade cultural"

Segundo o presidente da FICDC, os países adotaram uma lógica econômica que faz com que ajam contra a sua própria população. “A última crise econômica no mundo nos mostrou que os Estados estão errados”, diz.

Rasmané Ouedraogo chega até a questionar a utilidade das legislações de respeito à propriedade intelectual:

- No seio da população não existe propriedade intelectual. Há uma partilha natural da herança comum. A noção de propriedade intelectual brotou quando se começou a falar de dinheiro. Será que este não é um erro que estamos pagando hoje? Eu mesmo me faço essa pergunta - argumenta.

Veja abaixo a íntegra da entrevista.

O senhor considera que a diversidade cultura hoje seja um valor compartilhado pela humanidade ou esse ainda é um esforço a ser feito?

A diversidade cultural é compartilhada pelo mundo. Mas o nosso grande esforço deve ser de preservar essa diversidade, porque essa riqueza está sendo ameaça atualmente.

Quais são os principais obstáculos à implantação, via políticas públicas nacionais, da convenção sobre a diversidade cultural?

Primeiro, é preciso que em cada país haja uma vontade política definida e assumida de promover a cultura.

Segundo, é preciso mobilizar a população em torno dessa convenção; explicá-la à população. Para que, em um certo ela mesma possa apreender e assumir a convenção pela diversidade cultural. Porque esta é a primeira convenção que vai ser implementada não pelos Estados nacionais, mas pelos agentes culturais na base.

Muitas vezes, trata-se da questão da diversidade considerando apenas as questões nacionais. O Brasil é um dos poucos países onde mais de dois terços da música consumida é produção nacional. Ainda assim, nós, brasileiros, reclamamos da falta de diversidade no consumo musical. O senhor considera que os países estão preparados para tratar do tema com este nível de complexidade?

Na realidade, o problema não é complexo. O problema é simples porque o povo vive sua própria cultura. O problema são os Estados haverem se inserido numa lógica econômica que faz com que acabem combatendo a sua própria população.

A última crise econômica no mundo nos mostrou que os Estados estão errados. E depois, como por milagre, cada um volta a se refugiar nos seus valores culturais próprios.

Eu acho que o Brasil não deveria temer nada, mas de qualquer jeito é importante exigir que o Estado respeite as convenções que ele assinou.

Como proteger e promover expressões culturais do mundo em rede, que não tem fronteiras nacionais e questiona a forma tradicional de se conceber os direitos autorais?

Quando nos falamos de rede, imediatamente falamos de superestrutura. Ora, a cultura se vive desde a base. E na base não existem fronteiras. A realidade econômica leva a um tipo de institucionalização que provoca o problema.

Nossa federação tem esse embate com a questão da economia. No seio da população não existe propriedade intelectual. Há uma partilha natural da herança comum. A noção de propriedade intelectual brotou quando se começou a falar de dinheiro. Será que este não é um erro que estamos pagando hoje? Eu mesmo me faço essa pergunta.

Em que medida o protagonismo político recente dos países em desenvolvimento pode contribuir para a promoção da diversidade cultural no mundo?

Os países em desenvolvimento hoje têm interesse a se engajar na luta pela promoção da diversidade cultural. Porque quando vemos o que acontece em nosso entorno, no mundo, percebemos que a riqueza cultural acaba sendo embolsada por um pequeno número de privilegiados.

Quando nós falamos de indústrias culturais, falamos da conjunção entre criatividade, inventividade, novas tecnologias e o mercado. A criatividade está nos países pobres, mas o mercado não está lá. Afirmamos, portanto, que há uma injustiça. Aqueles que criam precisam também se beneficiar dos lucros. Logo, países em desenvolvimento têm interesse em proteger a diversidade, a fim de poder partilhar as vantagens.

(fotos: Thiago Fernandes/ COMUNIKA Press)

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2 de setembro de 2009

Capoeira pode virar esporte olímpico

Décima quarta expressão artística do país a ser registrada como patrimônio imaterial, a capoeira pode virar em breve um esporte olímpico. Quem faz o alerta é o presidente da Federação de Capoeira Angola e Regional da Bahia (Fecarba), Jean Adriano Barros da Silva.- A capoeira já é um esporte de apresentação olímpica. Isso é uma etapa antes de estar nos jogos. Todos os esportes que constam das olimpíadas hoje já foram esportes de apresentação olímpica - avisa o presidente da Fecarba.

Aos 34 anos de idade, Jean Adriano é mestre de capoeira e coordenador do grupo G.U.E.T.O. Em entrevista ao Blog das Ruas, ele fala do Camará - Congresso Mundial Universitário de Cultura G.U.E.T.O./2009, da V Copa Mundial de Capoeira e, claro, da possibilidade da expressão cultural tornar-se esporte olímpico.

- Estamos numa fase de consulta. O Comitê Brasileiro deve emitir um parecer desportivo, que será enviado para o Comitê Olímpico Internacional. O COI então vai julgar se a capoeira vai ser incorporada nos próximos ou ser mantida como esporte de apresentação - diz.

O jovem mestre de capoeira revela também suas expectativas e dúvidas a respeito deste reconhecimento.

Para ele, pode haver tanto avanços no reconhecimento e na legitimação da capoeira, que contribuem para abolir o preconceito que ainda existe (!) em relação à atividade.

Já imaginou uma roda de capoeira em plena olimpada?

Já imaginou uma roda de capoeira em plena olimpíada?

Por outro lado, preocupa-se que este reconhecimento acabe por “enquadrar” a capoeira em um único formato. “Pode vir a ser uma capoeira de suor e músculo, onde ganha mais malhado”, diz. E completa: “Existem uma série de valores, como a roda e o respeito aos mais velhos, que precisam ser mantidos. A capoeira olímpica tem que representar desde João Pequeno até atleta alemão que dá um monte de piruetas no ar”.

Veja abaixo a íntegra da entrevista.

Desde o dia 31 de agosto até 13 de setembro acontecem na Bahia o Camará - Congresso Mundial Universitário de Cultura G.U.E.T.O./2009 e a V Copa Mundial de Capoeira. O que isso significa para o Estado?

Essas atividades acontecem nas cidades de Salvador, Nossa Senhora do Livramento, Rio de Contas e Vitória da Conquista. São, em primeiro lugar, um encontro entre capoeiristas, mas também dos capoeiristas de todo o mundo com a população de cada lugar. No congresso, temos caminhadas, visitas a escolas públicas, desfiles e outras ações de envolvimento com a comunidade.

Quantas pessoas estão envolvidas nesses eventos. E de quantos países?

Participam representantes da capoeira em nove cidades estrangeiras, de sete países. Isso sem contar o Brasil. Aqui, não dá nem para listar as cidades, há desde capitais como Salvador, São Paulo, Rio de Janeiro e Natal, até cidades menores, como Santo Amaro, Rio de Contas etc. Esperamos envolver diretamente cerca de 600 capoeiristas durante todo o período em que acontecem os eventos.

Veja a prévia da Copa Mundial de Capoeira no Japão

Veja a prévia da Copa Mundial de Capoeira no Japão

E o que é a V Copa Mundial da Capoeira?

A Copa do Mundo da Capoeira é uma experimentação nossa para concebermos a capoeira como esporte, algo que temos tentado refletir com muita calma. A primeira etapa da Copa acontece em Salvador; depois há etapas em [Nossa Senhora do] Livramento e Rio de Contas e a grande final acontece em [Vitória da] Conquista.

Então vocês estão testando formatos e regras? Como está desenhado o torneio?

Tentamos reproduzir ao máximo uma roda de capoeira. Uma dupla se apresenta e um júri avalia sua técnica, seu conhecimento do jogo e a nota é dada para a dupla. Não é competição de luta. Você não joga contra o outro, mas com o outro.

São duas categorias: estudante e professor, com prêmios individuais para os três primeiros lugares.

Mas não seria melhor premiar as duplas, já que ninguém se apresenta sozinho?

Mas também não é uma coreografia. Queremos reproduzir a dinâmica da roda, em que você se apresenta sempre em dupla, mas sempre com uma dupla diferente. No caso, o capoeirista apresenta-se várias vezes, e a sua dupla é sorteada a cada momento.

Existe a possibilidade da capoeira tornar-se um esporte olímpico?

Existe sim. A capoeira já é um esporte de apresentação olímpica. Isso é uma etapa antes de estar nos jogos. Todos os esportes que constam das olimpíadas hoje já foram esportes de apresentação olímpica.

A capoeira esporte seria uma exibição, e não um confronto, uma luta

A capoeira esporte seria uma exibição, e não um confronto, uma luta

E o que falta para essa efetivação?

É um processo ainda um pouco longo, mas possível. Nesse momento, estamos numa fase de consulta, elaborando modelos para o comitê olímpico. A confederação brasileira tem até o final do ano para apresentar uma proposta ao Comitê Olímpico Brasileiro.

Depois, o Comitê Brasileiro deve emitir um parecer desportivo, que será enviado para o Comitê Olímpico Internacional. O COI então vai julgar se a capoeira vai ser incorporada nos próximos ou ser mantida como esporte de apresentação, presente na abertura das olimpíadas, por exemplo.

Mas esse processo que não é só técnico. É político, tem que ter lobby, movimentação financeira. Não tem muito a ver com os aspectos que gostaríamos.

E quais os benefícios da capoeira virar esporte?

Enquanto federação, devo dizer que a capoeira vai passar a ser mais reconhecida e que isso vai contribuir para acabar com os preconceitos que até hoje existem em relação à capoeira. Com certeza, teremos um avanço na promoção da capoeira, na sua divulgação e normalização.

Mas enquanto capoeirista, devo dizer também que fico preocupado com o enquadramento da capoeira esporte como única possibilidade e perdermos uma série de valores fundamentais como a roda, o respeito aos mais antigos, em troca de referenciais novos, como agilidade e força. A capoeira olímpica tem que representar desde João Pequeno até atleta alemão que dá um monte de piruetas no ar.

Tem muita gente que encara a capoeira não apenas como uma ginástica, mas como filosofia de vida, quase como religião. Precisamos de um bom diálogo para não perder isso.

Há prós e contras na oficialização da capoeira também como esporte

Há prós e contras na oficialização da capoeira também como esporte

Então porque se envolver?

Porque temos a certeza que isso vai adiante com ou sem a gente. Já existem grupos bem avançados nessa questão. Mas eles defendem aquela capoeira de suor e músculo, onde ganha o mais malhado. Por isso defendo que a gente esteja junto, para direcionar também esse processo. Mas é difícil porque a Bahia, a meca da capoeira, ainda não tem amadurecimento para esse diálogo.

Qual a maior dificuldade em debater a questão?

Os mestres. Perceba que eles têm pouco dinheiro e reconhecimento. Fora da capoeira, o cara é nada e na capoeira ele é mestre. Então ele só confia naquilo que aprendeu com o seu mestre, que aprendeu com o anterior… Grande parte dos mestres antigos entende modificação como uma coisa que eles não dão conta. E, sem a presença deles, essa discussão não vale nada.

E você, o que acha da capoeira virar esporte e integrar as olimpíadas?

(fotos: Grupo G.U.E.T.O.)

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4 de agosto de 2009

BA: Soundsystem mobiliza mutirão de artistas na periferia de Salvador

Junte alguns DJs, MCs e muitas caixas de som. Acrescente uma multidão dançando em volta e você terá um genuíno soundsystem.

Os soundsystems (sistemas de som) são muito populares na Jamaica, uma verdadeira paixão nacional da pátria do reggae. Surgida nos anos 50, a cultura dos soundsystems é
uma das mais sólidas tradições jamaicanas, por onde passa boa parte da cultura popular daquele país.

Se depender do pessoal do ministereopublico - Sistema Perambulante de Som também serão populares em breve na Bahia.

Formado em 2004, o ministereopublico vem, ao longo dos anos, ocupando ruas, praças, bairros e casas noturnas da capital baiana, com o intuito de popularizar e fortalecer a cultura de soundsystem no Estado.

Único soundsystem de Salvador especializado em reggae, dub, ragga, dancehall e jungle, o Ministereopublico também começa a fazer uma pequena revolução nas periferias de Salvador.

A comunidade se mobiliza pela arte no Mutirão Mete Mão

A comunidade se mobiliza pela arte no Mutirão

É o Multirão Mete Mão, evento itinerante que percorre os bairros da periferia soteropolitana, mobilizando artistas locais, grafiteiros, estudantes, músicos, líderes comunitários, professores, e, é claro, os “anfitriões-moradores”.

Realizado em conjunto com o grupo de graffiti 071 Crew, o Multirão Mete Mão é inspirado em movimentos semelhantes que já acontecem nas favelas de Recife e do Rio de Janeiro.

O diálogo com o público flui principalmente fez através do graffiti e da ambientação sonora baseada na música jamaicana, cultura que têm forte influência no som produzido na Bahia.

No Mutirão, entretanto, tem de tudo. Malabares, grupos de percussão, b-boys, palhaço, pintura, teatro infantil. O limite do Multirão é a criatividade da comunidade onde estiver ancorado.

O evento, que acaba de ocorrer em comunidade de Nova Brasilia (Estrada Velha do aeroporto), é mensal. O bairro é selecionado de acordo com a carência de oportunidades de lazer e entretenimento. E o que é mais bacana: geralmente é uma solicitação da própria comunidade.

O Blog das Ruas fez uma entrevista com Murilo F, produtor do Ministereopublico, na qual ele conta um pouco da história do Multirão. Veja o que ele tem a dizer:

Quando e como surgiu a ideia de promover multirões para a juventude das periferias? Qual é o objetivo principal da atividade?

MutirãoMeteMão acontece em Salvador no ano 2007, inspirado em movimentos semelhantes que já acontecem nas favelas do Rio de janeiro e Recife. O projeto tem como um dos objetivos centrais a utilização da música e do grafitti para estimular o potencial criativo dos participantes, abrindo um novo canal de comunicação.

A proposta também é promover o intercâmbio entre artistas e comunidades carentes de atividades culturais, dialogando com o público através do graffitti e de um sistema de som nos moldes jamaicanos.

O grafitti está sempre presente no Mutirão

O grafitti está sempre presente no Mutirão

Realizado 14 vezes entre 2007 e 2008 - no Bairro da Paz, Saramandaia, Massaranduba, Itinga, Garcia, Boca do Rio, Federação, Bate Facho, Vasco da Gama, Pituaçu, Castelo Branco e São Lázaro e nas cidades de Feira de Santana e Cachoeira - BA. Nesse ano o Mutirao ja aconteceu em Nova Brasilia e Estrada Velha do Aeroporto.

E por que Mutirão Mete Mão?

Junto a esta belíssima iniciativa da parceria entre ministereopublico, 071Crew e a comunidade agregamos ao projeto uma diversidade de profissionais liberais e não liberais em prol de um objetivo: promover a realização do evento em que todos possam colaborar em algum aspecto interessante a comunidade sem receber dinheiro, por isso ‘mutirão mete mão’.

Existe alguma estrutura ou programação fixa para o desenrolar do evento?

O projeto MutirãoMeteMão, é um evento itinerante mensal que busca percorrer nos bairros e praças de Salvador que necessitem de atividade cultural.

Como vocês decidem quais bairros serão visitados? Existe alguma regularidade para as visitas?

O que leva essa atividade a um determinado bairro é basicamente a carência de lazer e entretenimento e geralmente é uma solicitação da própria comunidade. Não existe um calendário fixo.

E qual é a reação das à chegada de vocês? Há algum tipo de preparação para receber o evento?

Eles já são previamente informados durante a semana que antecede a data de realização do que acontecerá em sua comunidade. Mas o primeiro contato que é o inicio do projeto: chegada ao local, montagem dos equipamentos faz com que surja a curiosidade das pessoas , no segundo contato quando começamos a tocar e o grafitti já está pintado existe o despertar e o terceiro contato a satisfação.

Sempre conversamos com a comunidade junto com os grafiteiros explicando e informando sobre o que realizamos, antes de começarmos a ação.

Como o passar do tempo, o que foi sendo modificado nos mutirões?

Estamos mais organizados, conseguimos alcançar uma maturidade que facilita a desenvoltura e realização do projeto. A quantidade de pessoas que gostariam de trabalhar na realização aumentou. A satisfação das comunidades sempre é positiva.

E, principalmente, que não poderemos parar este projeto tão cedo, pois ainda há muitos bairros a serem visitados e pretendemos disseminar nossa linguagem musical e artística.

"Tentamos fazer, simplesmente, que esta diversidade esteja organizada"

Murilo F: "Tentamos fazer, simplesmente, que esta diversidade esteja organizada"

Vocês afirmam que a diversidade é uma característica do evento. Ele é aberto a outros gêneros artísticos fora do universo do hip hop e da música eletrônica?

Dentro de suas varias edições nós já tivemos a presença de malabares de luzes e fogo, teatro infantil, oficina de criação de brinquedos infantis, grupo de percussão, grupo de dança, b-boys, workshop sobre técnicas de dj e grafitti, recital de poesias, performance corporal… Tentamos fazer, simplesmente, que esta diversidade esteja organizada.

Nessa linha, como líderes comunitários, estudantes, professores, formadores de opinião contribuem para o mutirão?

Eles entram como facilitadores, despertando o interesse dos moradores trazendo-os mais próximos da atividade, para que participem da ação e não permaneçam apenas como espectadores. Funcionam também como nossos maiores veículos de comunicação, pois, além da internet é no “boca a boca” que conseguimos mobilizar a todos, nada melhor do que realizar um evento com vontade, organizado e divulgá-lo.

Que tipo de impacto vocês acreditam ter nas comunidades?

O projeto visa popularizar a cultura urbana, difundindo a linguagem artística através do trabalho da equipe. Dessa forma, as comunidades passam a ter contato com expressões artísticas e por um reflorescimento intelectual levando os jovens a uma reflexão crítica sobre a sua identidade e riqueza cultural, contribuindo para marcar traços na identidade local, ainda que em menor grau e muito mais no imaginário popular, como expressão de uma cultura.

Quando esse impacto é mais concreto?

O fator que mais nos deixa feliz é que quando acabamos e temos que desmontar o equipamento. Vemos ali o quanto conseguimos trazer de satisfação tanto pra gente como pra comunidade. Nunca foi diferente.

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9 de julho de 2009

“O Olodum deu a Michael Jackson a negritude que ele estava precisando”

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Enquanto nesta terça-feira o mundo todo assistia a homenagem que a família e os amigos célebres faziam a Michael Jackson, o Olodum prestava ao cantor a sua homenagem particular.

Projetado mundialmente por Michael Jackson através do clipe “They don’t care about us”, o grupo baiano criou um vínculo de proximidade e afeição pelo Rei do Pop.

O Blog das Ruas entrevistou o presidente da entidade, João Jorge Rodrigues, que sempre se refere ao megaídolo apenas pelo seu primeiro nome, “Michael”.

João Jorge: "O Olodum é um dos herdeiros musicais da obra de Michael".

Durante a entrevista, João Jorge relembra a época da gravação do clipe e afirma que a parceria com o Olodum “deu a ele uma negritude que ele estava muito precisando naquele momento”.

De acordo com João Jorge, o entendimento entre o astro e o grupo baiano foi imediato porque a o Olodum faz “uma música do mesmo tipo da música que ele faz, com a mesma pulsação, mesma batida”.

Prova dessa identificação mútua seria a rapidez com que foi gravado “They don’t care about us”: apenas um dia. João Jorge, entretanto, vai mais além e declara: “O Olodum é um dos herdeiros musicais da obra de Michael”.

Veja abaixo a íntegra da entrevista:

O que representou o encontro do Olodum com Michael Jackson?

O encontro do Olodum com Michael Jackson representou uma aliança com um astro pop internacional que dificilmente, nos próximos 20 anos, algum artista brasileiro vai ter chance de ter tocado junto, em igualdade de condições.

Igualdade de condições?

Nós somos atores principais no clipe com ele, em que ele não precisou de orquestra, de acompanhamento harmônico, a base de harmonia foi feita pela orquestra do Olodum.

Foi bom para o samba-reggae, muito bom, porque associou o samba, o reggae, o samba-reggae com alguém da música pop internacional e foi bom para Michael porque deu a ele um traço afro-brasileiro, afro-americano, deu a ele uma negritude que ele estava muito precisando naquele momento.

Um traço negro que ele parecia estar perdendo, deixando de lado?

Exatamente. Aquele clipe mostrou ele com uma tribo de africanos, fora da África, nas Américas, fazendo uma música do mesmo tipo da música que ele faz, com a mesma pulsação, mesma batida.

Isso é que é interessante: qual é a batida da música de Michael? Uma batida do break, da música negra. Ele era um cara da música negra, foi da música negra, e fez sucesso no mundo pop com sua música e sua dança negra.

ra�zes comuns na música afro

Break e samba-reggae: raízes comuns na música afro

Então no Olodum ele encontrou em Bira Jackson, em todos os músicos que estavam tocando e dançando alguém parecido com ele sem nenhum ensaio. Nos clipes anteriores, havia muitos ensaios de 15, 20 dias para que os dançarinos pegassem o sentido da música que ele queria dar. Com o Olodum, foi o ensaio de um dia e gravação ao mesmo tempo. E ao mesmo tempo música, luz, cor, cabelos diferentes, tranças diferentes, uma africanidade latente que resultou no final com ele bastante emocionado.

Então houve uma conexão emocional entre Michael Jackson e o Olodum?

Como a gente tem um som de tambores muito ligado à religiosidade, à cultura africana, à matriz da África para o mundo, provavelmente ali ele se encontrou com uma outra forma de mãe, a mãe africana. Então essa mãe africana do Olodum deu para Michael Jackson mais uma sobrevida, deu mais um tempo dele aqui conosco e, ao mesmo tempo, deu a ele mais um outro tipo de entendimento. Não de pele, mais um entendimento de cabeça, de espírito, de alma…

Uma outra negritude?

Uma outra negritude. Que é a negritude do Olodum, a negritude brasileira mais bacana que tem, modéstia à parte. Por que? Porque é plural, diversificada, é capaz de dar gestos como esse [o videoclipe]. Isso levou a Bahia para o mundo inteiro, levou o Pelourinho para o mundo inteiro, baixou o público dos shows do Olodum na Europa, que era de 26, 30 anos, foi para 14, 16. Nos aproximou do público jovem, levou uma marca brasileira, um colorido brasileiro para quase cinco bilhões de pessoas, porque ele passou em todos os canais do mundo.

Agora com a morte, Michael deixa uma herança para o Olodum, um outro tesouro: o Olodum é um dos herdeiros musicais da obra de Michael.

E o que que o grupo sentiu, qual a emoção que passou pelo grupo todo do Olodum quando ele faleceu?

É uma perda irreparável. Pessoas como Bob Marley, Elvis Presley, Frank Sinatra, quando desaparecem, fica a música para sempre. Mas sempre fica a ausência da pessoa que cantava, que fazia. O Tim Maia, a Elis Regina, Miriam Makeba, agora da África do Sul, recentemente. Você tem na realidade um sentimento de dor, mas ao mesmo tempo aquela música, que foi o que ficou, vai lhe alimentar para outra interpretação, para outra leitura.

Como assim uma outra interpretação?

Provavelmente, daqui a três anos, todos nós vamos estar pensando em Michael de uma forma diferente. Muito mais na música dele, na obra artística, nos gestos que ele fez, na simbologia que ele criou - digo isso levando em conta que aqui o próprio Olodum é um criador de simbologias: símbolo da paz com as cores do panafricanismo, um bairro inteiro que a gente ajudou a mudar, né? Talvez o Pelourinho seja o Harlem da Bahia. Talvez seja o Brooklin da Bahia.

Por coincidência, na primeira turnê nossa americana, nós tocamos no Apollo. O Apollo foi o lugar onde Michael fez seu primeiro grande show. Nosso primeiro grande show nos Estados Unidos, fora o show com Paul Simon no Central Park, foi no Apollo. Chegamos nos Estados Unidos e fomos tocar direto no Apollo. Quer dizer, estamos seguindo um pouco o Caminho da Música. Digo sempre que existe o Caminho das Índias, o Caminho da África, o Caminho da Música. Onde há algo da música, o Olodum está indo atrás.

"Talvez o Pelourinho seja o Harlem da Bahia"

"Talvez o Pelourinho seja o Harlem da Bahia"

Essa Homenagem hoje [ontem] tem a ver com o momento e a reflexão que ele exige. Nós vamos orar nas nossas diversas religiosidades para que Michael descanse em paz o seu espírito e, ao mesmo tempo, devolva, em forma de estrelas, mais elementos na terra para que surjam milhões de Michaels na Tanzânia, no Quênia, no Vietnã, no Camboja…

No Brasil?

Inclusive no Brasil. Nos guetos negros de todo o mundo. Porque isso que é bacana: é da pobreza, da desigualdade que surge algo fenomenal, que faz o mundo todo se curvar desse jeito.

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21 de maio de 2009

Há disputa política por trás de debate sobre orla de Salvador, diz diretor do Iphan

Carlos Amorim foi estagiário do IPHAN há 25 anos. Desde novembro do ano passado, retornou como diretor do Instituto para a Bahia.

Nas linhas abaixo, Amorim entra na polêmica do decreto do Prefeito João Henrique (PMDB), que declarou como utilidade pública para fins de desapropriação, uma faixa de 324 mil metros na orla interna da capital baiana, sem divulgar projeto oficial.

Leia também:
» O que você acha das desapropriações em Salvador? Opine aqui

» Peres: “Direção-geral do Iphan deveria ser ouvida”

Esse ato gerou desconfiança em políticos, historiadores, arquitetos, urbanistas e pesquisadores de planejamento urbano. Até mesmo o governador emitiu sua opinião, considerando o decreto “estranho”.

A falta do projeto para a intervenção - prometido para outubro - e a “participação voluntária” de arquitetos e empresários tem ampliado a desconfiança sobre o que virá após o decreto. “Quem vai financiar a novidade?”, pergunta o historiador Antonio Guerreiro de Freitas.

Diante de toda essa polêmica, o diretor regional emite uma opinião surpreendentemente otimista em relação à eventual intervenção, descartando completamente o surgimento de “uma nova Copacabana” na Cidade Baixa.

Questionado a respeito de atitudes recentes do governo municipal, como o projeto embargado de edificação de construções de alvenaria nas praias e medidas controversas, em especial o novo plano diretor urbano, o diretor do IPHAN argumenta que houve uma “mudança de conceito” na prefeitura de João Henrique.

Amorim revela que existe um contato próximo entre o IPHAN e a prefeitura de Salvador desde final do ano passado, com alto grau de entendimento entre as partes.

Revela também saber apenas informalmente das intenções da prefeitura para a área, ainda que o Secretário de Desenvolvimento Urbano da Cidade, Antonio Abreu, tenha dito a Terra Magazine que, na ausência de capacidade institucional, a prefeitura recorre ao órgão federal para refletir sobre o seu patrimônio histórico. “A estrutura é do IPHAN”, disse Abreu na entrevista.

Mesmo que tenha uma visão mais otimista da intervenção pública na grande faixa de orla interna da cidade, o diretor do IPHAN também alerta que o órgão está preparado e tem meios para evitar danos ao patrimônio histórico da cidade. “Nós vamos exercer plenamente as nossas atribuições. O IPHAN vai se manifestar caso exista algo com que não concordemos”, enfatiza.

Confira a íntegra da entrevista.

Qual a sua opinião sobre o decreto de utilidade pública, para fins de desapropriação, de uma área de 324 mil metros quadrados na orla da Cidade Baixa, em Salvador, assinado pelo prefeito João Henrique (PMDB)? O IPHAN foi comunicado ou consultado a respeito?

Isso é um ato unilateral. O prefeito não precisa comunicar a nenhuma outra autoridade que vai decretar a utilidade pública de imóveis. Além disso, o decreto só inclui bens privados. Não há nenhum bem tombado envolvido. Acho que na verdade existe uma disputa política por trás dessa discussão. É ato totalmente cabível, dentro das atribuições da prefeitura.

Então não houve mesmo nenhum tipo de comunicação prévia ao IPHAN?

Não houve nenhum aviso formal. O secretário, por cortesia, me informou sobre o decreto. Existe uma mesa multilateral de negociações, o ETELF (Escritório Técnico de Licenciamento e Fiscalização), que reúne prefeitura (Secretaria de Desenvolvimento urbano), IPAC [instituto de estadual de patrimônio] e IPHAN. Nós nos encontramos regularmente e temos tomado frequentemente posições acordadas, coordenadamente.

Vocês trabalham em conjunto?

A imprensa não noticia ações importantes feitas pelo IPHAN em conjunto com a prefeitura e o Estado. Veja a Ladeira da Barra. Lá seria construído um prédio que tinha umas 80, 100 piscinas. Nesse caso, o prefeito foi convencido e tomou uma atitude impedindo também a construção. Nós realizamos ações diferentes, que confluíram.

Também houve o parecer vinculado que declarou as praias áreas não edificáveis. Como ocupar a faixa de areia se em Salvador ela não é nem tão extensa quanto no Rio, por exemplo? As pessoas vão às praias, e não às barracas de praia. Em Fortaleza, todas as barracas foram retiradas recentemente.

Mas você não acha que isso é inconsistente, logo que foi a própria prefeitura, na primeira gestão, que levou a cabo o projeto das barracas de praia de alvenaria, deixando esse caos nas praias da cidade? Isso sem falar no PDDU [Plano Diretor Urbano]…

Acho que houve uma mudança de conceito na prefeitura. Agora tem um bom jurista, Edvaldo Britto; um secretário de desenvolvimento urbano aberto ao diálogo… Acredito que (pelo menos desde que vim para o IPHAN, em novembro de 2008) certas coisas foram revistas.

Voltando à Cidade Baixa e à desapropriação, o IPHAN já teve acesso, mesmo que informalmente, a algum projeto da prefeitura para a área?

Nem sei se já existe um projeto para a área. Nunca vi. Como também nunca vi o projeto da nova Fonte Nova… [principal estádio de Salvador, que pertence ao governo do Estado e será reformado para a copa do mundo].

Mas algum algum conhecimento sobre os planos você tem, não?

Já conversamos sobre isso, mas apenas informalmente. O secretário me disse que a prefeitura pretende fazer uso público da área. Dar visibilidade e construir um acesso à praia, que - pelo que eles dizem - tem boas condições de balneabilidade.

Não examinei propriamente o decreto, mas o prefeito não deverá fazer nenhuma intervenção que prejudique a visão dos bens tombados na região (nessa área, há, por exemplo, um conjunto espetacular, que é o conjunto do Monte Serrat).

A área não poderá sofrer qualquer intervenção sem consultar o IPHAN. E nós vamos exercer plenamente as nossas atribuições. O IPHAN vai se manifestar caso exista algo com que não concordemos.

Então, o senhor descarta a construção de prédios elevados naquela área? Descarta uma nova Copacabana ali?

Eu descarto completamente uma nova Copacabana na Cidade Baixa. Até pela vizinhança dos bens tombados, isso seria impossível.

O que existe, o que vem acontecendo é um processo de substituição. Todo mundo sabe que a parte mais bonita de Salvador é o sua orla interna. Então, as quadras da praia devem ter a sua ocupação racionalizada.

Mas você não acha complicado fazer isso tudo sem um debate público?

Toda discussão que diz respeito à cidade deve ser legitimada em fóruns públicos. É preciso que haja espaço para o diálogo - audiências públicas ou outro formato.

Mas acho que os gestores devem ter preservada a sua capacidade de decidir. Eles são e vão ser, inclusive, responsabilizados judicialmente por essas decisões.

Ainda não existe essa legislação soviete no Brasil, que o gestor tem que fazer o que o povo decidir. Temos um das melhores democracias do mundo. E uma estrutura representativa bastante atuante. Nenhuma comunidade é dona de um pedaço da cidade. A cidade pertence a toda a sociedade. A cidade não é uma coleção de gavetinhas. Temos que nos acostumar com isso.

Mas e a relação identidade da população com o local em que vive?

Especificamente o caso da Península de Itapagipe é uma das regiões da cidade em que a população tem mais relação de pertencimento, mais identidade com o lugar em que vive, mais relação com a sua territorialidade. Isso demanda sensibilidade, de uma atenção especial.

Isso me lembra que a área em questão tem também um significado especial para a história e a cultura da cidade. Toda a comunicação com o seu entorno, que era feita por ali.

Sim, claro. Até hoje, Salvador não consegue dialogar com a sua região metropolitana. É uma das capitais que menos se comunicam com o seu entorno. Inclusive com a região metropolitana cultural: Itaparica, Santo Amaro, Cachoeira, todo o Recôncavo. Salvador está perdendo a relação com a cultura metropolitana, veja o caso dos saveiros.

Talvez essa [o debate sobre a reurbanização da Cidade Baixa] seja uma oportunidade para a classe média possa de novo dialogar com a cultura metropolitana, dialogar com as suas raízes.

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8 de abril de 2009

“Resolvi surfar no olho do furacão”, diz MV Bill.

Tags:, , , , , - iurirubim às 17:30

Você tem um histórico de atuação política, ainda que não partidária, através do hip hop, do envolvimento com a CUFA (que ajudou a fundar) e de seus filmes e livros. Acha que toda figura pública deveria ter esse tipo de compromisso? Conversa sobre isso com colegas artistas?

Não necessariamente. Arte é arte, e deve se manifestar de várias formas. Cada artista tem sua missão, sua forma de contribuir com a sociedade através da sua arte. O Hip Hop é assim, faz política por convicção, o que está acontecendo é que temos a oportunidade de pautar outras formas de atuação do Hip Hop agora, na política formal. Mas a política pra nós é a essência do nosso movimento. Mas não critico os artistas cuja forma de expressão seja o entretenimento.

Qual foi o ponto de virada em sua vida? Qual foi o momento em que você percebeu que teria que assumir outras responsabilidades e dedicar parte de sua vida a um trabalho social?

Minha vida vira a todo momento. Não é poesia não. Ela virou quando meus pais se separaram e eu tive que assumir a casa, trabalhando de marreco da sendas, virou quando eu resolvi fazer rap, virou quando eu conheci o Celso, depois quando eu gravei um disco, depois quando lancei o clipe Soldado do Morro. Bem, a virada mesmo acho que foi aqui, quando tive a casa sendo invadida pela policia civil e federal e, a partir daí, só houve problemas e confusão. Então resolvi surfar no olho do furacão. Trabalhar na vida social não foi uma escolha nem uma paixão, é simplesmente a minha vida cotidiana.

MV Bill esteve recentemente no Haiti

MV Bill esteve recentemente no Haiti

Como é viver até hoje na Cidade de Deus?

Nasci aqui e tenho trabalho aqui na Cufa e tenho meus grandes amigos aqui. Não sou escravo de discurso, vou sair da CDD quando achar que devo sair, ou então vou comprar um imóvel em outro lugar e viver nos dois lugares. Mas a Cidade de Deus é minha vida, onde vive minha família, onde eu sou mais feliz.

Há momentos em que tem vontade de se mudar?

Sim, todos os dias. Só que eu sei que isso vai acontecer onde eu estiver. Então, quando tô boladão, deixo a vontade passar.

E o que te faz continuar morando lá?

Tenho 50 respostas para essa pergunta, mas não estou convencido de nenhuma delas, então vou ficar te devendo essa.

Você acabou de voltar de uma viagem ao Haiti. O que mais te chamou atenção naquele país?

O sorriso das crianças, elas parecem não ter idéia do tamanho da desgraça que eles estão vivendo que possivelmente vão viver.

"Queria abraçar cada soldado (da missão brasileira no Haiti) e seus familiares"

MV Bill: "Queria abraçar cada soldado (da missão brasileira no Haiti) e seus familiares"

É possível fazer uma avaliação da missão das Nações Unidas (comandada pelo Brasil) lá?

Eu precisaria de mais tempo pra isso, mas a missão passou a ser um orgulho pra mim. Enquanto as pessoas aqui ficam tentando desqualificar a missão, deveriam prestar mais atenção no impacto positivo que eles causam lá.

Eu tive contato com o povo nas ruas, nas casas. Existem lá mais de 10 países, seja construindo hospitais, estradas, poços artesianos, formando policiais, distribuindo alimentos, formando profissionais. Enfim, não existe ocupação no Haiti, existe uma profunda intervenção inevitável.

E, como negro hoje, tenho dois orgulhos: por ver que a ONU não virou as costas para aquela gente e por ver meu país, através das forças armadas (que eu sempre vi com reservas devido a herança do regime militar) ser reconhecido pelo povo fudido do Haiti. Queria abraçar cada soldado e seus familiares. Não quero perder capacidade de criticar, mas não posso ignorar o orgulho que senti por tudo que vi

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MV Bill: “se por ventura eu me candidatar, vai ser ao senado”

Tags:, , , , - iurirubim às 13:25

Rapper nega candidatura já nas próximas eleições, mas deixa aberta a possibilidade de seu envolvimento com a política.

Conhecido em todo país, MV Bill está mais uma vez no centro das atenções. A expectativa para que se candidate nas eleições de 2010 já tem mobilizado possíveis eleitores, que criaram um blog para “ajudar” o rapper a se decidir. O blog já tem depoimentos de figuras importantes, como o cineasta Cacá Diegues, em apoio à candidatura de Bill.

Toda essa movimentação começou quando Caetano Veloso “lançou” a candidatura o rapper ao senado, durante um show que faziam juntos. A declaração do mano Caetano provocou um grande burburinho e virou pretexto para que a Cufa - Central Única de Favelas encomendasse uma pesquisa, na qual se verificou que 37% dos jovens do Estado do Rio votariam em Bill.

Leia também:
>>”Resolvi surfar no olho do furacão”, diz MV Bill

O Blog das Ruas conversou com MV Bill sobre o assunto. Admite que “esse é o assunto de todas as rodas”, embora negue disputar as próximas eleições - “nunca passou pela minha cabeça ser candidato a alguma coisa”. Ainda assim, Bill dá a entender que esta não é uma possibilidade remota. Garante, inclusive, que, caso saia candidato, “vai ser para senador”.

Durante a entrevista, o cantor dá algumas “deixas” que animariam seus cabos eleitorais. “Tudo isso pra mim é muito novo. Sei que não vou cantar rap a vida inteira” ou “se um dia eu fosse obrigado a ser candidato” dão a entender que ele considera a possibilidade, apesar de suas negativas.

Uma declaração, porém, parece ser mais significativa que as outras. Comentando os resultados da pesquisa encomendada pela Cufa, Bill escorrega: “se eu for convencido a fazer parte dessa outra história”. Paira, então, a dúvida: quais seriam os argumentos necessários a convencê-lo?

Articulado, MV Bill demonstra ter uma visão sem preconceitos da política e a reconhece como o “caminho democrático que nos leva para outros lugares”.

Conta, embora não cite nomes, já haver conhecidos vários Mensageiros da Verdade (significado do MV) na política nacional.

Afirma que já tomou “muita porrada” e foi taxado de bandido e não identifica no atual contexto nenhum político que seja representante legítimo das favelas. Entretanto, prefere também não assumir esse posto: “se um dia eu fosse obrigado a ser candidato seria em nome das pontes”, diz.

Confira a entrevisa.

Você cogita sair candidato nas próximas eleições?

Não, nunca passou pela minha cabeça ser candidato a alguma coisa, mas isso sempre esteve presente na cabeça das pessoas, elas diziam que eu deveria militar em outras frentes, mesmo que fossem partidos, nem que fosse no futuro. Diziam e ainda dizem que minha contribuição no movimento social é importante, mas que me credencia a ser representante de parte delas em outros lugares. Se paramos para refletir, isso faz muito sentido. Se têm razão ou não, ainda tenho dúvidas. O fato é que o tempo tá passando e vamos amadurecendo.

O Rap é importante, o movimento social, negro, de juventude e todos os outros. Mas penso que parte de nós devemos estar sim, na política formal, marcando posições sérias e representando e levando os objetivos de um determinado seguimento da sociedade para as mesas de decisão. Só que hoje conseguimos falar para uma massa maior, não somente para a favela. Hoje o projeto não é dar voz a favela, mas é criar pontes de mão dupla entre a favela e o asfalto e nessa direção é que acredito que a nova revolução pode ser possível.

Peça produzida pelo movimento que deseja a candidatura do rapper

Peça produzida pelo movimento que deseja a candidatura do rapper

Tudo isso pra mim é muito novo. Sei que não vou cantar rap a vida inteira. Através do rap conseguimos mudar a vida de muitos jovens, mas é pouco, precisamos continuar trabalhando para mudar a vida de todas as pessoas, de todos os lugares.

As pessoas estão pedindo que você se candidate…

Tenho visto várias manifestações e mesmo na rua, as pessoas me abordando e pedindo para eu ser candidato ao senado federal, como se eu fosse salvação para alguma coisa. Não sou, sou apenas mais um louco que tenta contribuir para diminuir esse caos social que está afetando a todos. E exatamente por isso precisamos ter na política formal pessoas de sérias de outras origens, para termos equilíbrio social também na política. Pois essa seria uma outra forma de formalizar políticas públicas para uma parcela da sociedade que não tem representantes e daí o que é feito para elas é, penso, por cidadãos estranhos.

Mas garanto que se por ventura eu me candidatar a alguma coisa, o que acho difícil, vai ser para senador, pois tão importante quanto ter um mandato majoritário é a juventude brasileira marcar uma posição nacional e dizer que não quer mais servir de massa de manobra.

Nesse aspecto, essa candidatura estaria acima dos partidos e de ideologias, mas estaria focada na vontade de uma juventude dizer que esse mandato é nosso, comprometido não com a favela, mas com todos os jovens desse país que desejam sair da invisibilidade para então construir alternativas reais para todos.

Só não sei ainda quem seria o agente dessa missão. E por isso que eu digo, essa pessoa e esse mandato não deve sequer ter plataforma e propostas. A única proposta deve ser guiar os próximos oito anos ouvindo e executando os anseios da juventude brasileira. E, na boa, isso não acontece em estado nenhum… Isso me entristece, e isso me anima.

Caso saísse candidato, qual seria o partido de sua preferência?

Não penso nisso hoje. O Celso mandou fazer uma pesquisa, e nessa pesquisa o PT era o partido mais citado, e a maioria das pessoas preferem que eu seja deputado e não senador.

Eu não entendo nada de pesquisa, mas de toda maneira as pessoas pesquisadas diziam que votariam em mim independente do cargo escolhido. O mais importante de tudo isso é saber que as pessoas reconhecem em nosso trabalho algo que vai muito além de rimas e canto afinado. As pessoas nos reconhecem como militantes de um movimento que é politizado por excelência. Nos reconhecem como alguém que tem se esforçado para fazer diferença, para construir vidas.

E é o que estamos tentando fazer ao longo desses anos. Seria muito fácil ter uma frase para dizer o que eu faria, mas prefiro continuar fazendo o que estou fazendo, militando na base social e impactando sem alardes.

"Já tomei muita porrada e já fui taxado de bandido"

"Já tomei muita porrada e já fui taxado de bandido"

Acha que conseguiria lidar com as pressões e acordos que fazem parte do cotidiano da política nacional?

Faço parte do movimento social e de tantos outros movimentos, só chegamos até esse momento exatamente pela capacidade de interagir, de negociar, de sair da favela, de se comunicar com os “outros”. Eu nunca disse que odiava a política, nunca disse que a desejava. Mas sempre disse, e digo, que ela é o caminho democrático que nos leva para outros lugares que também precisamos estar presentes.

Continuar xingando todos os políticos é fácil, mas eles vão continuar dando as cartas e nada vai mudar.

Qual sua posição a respeito da pesquisa encomendada pela Cufa, que indica que você é bastante conhecido da população e que 37% dos jovens o escolheriam como seu candidato?

A primeira coisa que fiz foi ligar para o Celso e pedir para Cufa não se meter nisso. Se o louco do Caetano e agora outras pessoas querem sugerir meu nome, tudo bem, mas a Cufa não, não aceito nenhuma participação da instituição.

Formalmente eu nunca fui da Cufa, não assino nada, meu nome não consta em lugar algum, nunca demiti ou admiti na Cufa. Minha participação sempre foi somente no front, onde eu sempre preferi. Mas ajudei a definir suas regras e uma delas é que se alguém da instituição quiser se aventurar no campo político, a primeira coisa a fazer é se desligar - e somente poderá voltar para a entidade 10 anos depois.

Então, se eu for convencido a fazer parte dessa outra história, eu não apareço em nada da Cufa e a Cufa não vai aparecer em nada que envolva política formal. É muito importante separar as coisas e assim vai ser. Esse é o assunto de todas as rodas hoje, mas de verdade eu não penso ser candidato a coisa nenhuma. Mas isso mostra que a juventude brasileira precisa ser representada por ela mesma e as pessoas parecem que querem isso.

Existem, nas várias esferas de poder, políticos que sejam representantes “legítimos” das favelas, que morem lá e conheçam de perto as questões de seu cotidiano?

Bem, nesse momento eu não lembro de nenhum, mas se um dia eu fosse obrigado a ser candidato seria em nome das pontes, eu seria em nome de alguém que transita em várias vertentes sociais e que já tomou muita porrada, que já foi taxado de bandido, que responde a processos mas que nunca pensou em desistir do caminho escolhido.

Muito mais importante do que ser representante de um grupo nesse caso, é ser porta-voz de uma gente que vai demandar todos os dias seus sonhos, suas frustrações e suas fantasias. Nesse caso é melhor estar preparado para o que vem aí pela frente e esquecer os discursos ensaiados, pois se as pessoas pensam em mim, a razão é essa, elas estão cansadas de discursos, querem viver no mundo real e prático.

Acha que existem Mensageiros da Verdade na política?

Sim, muitos. São pontos de vista deferentes de verdades diferentes, mas existem sim, e muitos. Não gostaria de falar os que lembro agora para não ser injusto com ninguém, mas certamente tenho conhecido muitas pessoas sérias nesses últimos anos. Mas a questão não está somente na seriedade, mas no compromisso. Estas pessoas têm compromissos com outras questões e grupos, apesar do coração enorme que elas têm.

Na sua opinião, qual seria hoje o maior problema do Brasil e, mais particularmente, do Rio de Janeiro?

Corrupção. Esse é o mal que permite a proliferação de todos os outros males. Tudo é possível a partir dela.

Leia segunda parte da entrevista com MV Bill

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3 de abril de 2009

BA: Artista transforma papelão em instrumentos percussivos

Já imaginou uma bateria de 80 músicos tocando instrumentos… de papelão? O artista plástico e inventor Ives Qualglia teve essa visão e, desde 2002, passou a fabricar marcações, timbaus, repiques, pandeiros, moringas, tamborins e muitos outros tendo como principal matéria-prima o papelão.

Além do papelão, são utilizados eventualmente madeira, tecido e papéis diversos. Para o lugar das peles (membranas tocadas com as mãos), o artista utiliza garrafas plásticas, radiografias e outros materiais similares.

- Cato, literalmente, o lixo da rua. Estamos mudando o conceito contemporâneo de lixo. Encontramos papelão, madeira, radiografias, garrafas pet… e conseguimos construir instrumentos, seja ele qual for - afirma Ives Quaglia.

Ives Quaglia, "tirando um som" até de lixeira feita por ele

Ives Quaglia, "tirando um som" até de lixeira de papel feita por ele

Há muitos anos, Ives desenvolve uma pesquisa sobre as possibilidades do papelamento, a técnica de construir objetos a partir da sobreposição e modelagem de camadas de papel. As primeiras experiências de produção de instrumentos aconteceram em 2002, quando coordenou as Oficinas de Instrumentos Percussivos do bloco Malê Debalê.

- Eu transformo o papel em madeira. Faço o processo inverso. A madeira não é constituída de fibras sobrepostas? Claro que é uma reinterpretação, mas faço o mesmo com papel e construo objetos com a tão firmes quanto madeira. Com a vantagem que as possibilidades de modelagem são infinitas! - assegura o artista.

O sonho de Ives é formar uma bateria com 80 músicos tocando "instrumentos verdes"

O sonho de Ives é formar uma bateria com 80 músicos tocando "instrumentos verdes"

Segundo Quaglia, os instrumentos construídos de papelão têm a vantagem adicional de possuírem extrema leveza e durabilidade.

Para demonstrar o seu ponto de vista, ele simplesmente arremessa um timbau no chão - algo impensável de se fazer com um instrumento tradicional. Logo depois, recolhe o instrumento, sem nenhum dano aparente.

- Os objetos têm leveza e durabilidade. Resistem inclusive à água. E, caso ocorra de terem algum dano, basta “papelar” novamente - argumenta com tranqüilidade o artista.

O uso do papel vai além da estrutura dos instrumentos. Durante a entrevista, o artista plástico me mostra um outro instrumento - Xequerê -, cujas contas responsáveis por sua sonoridade são feitas de papel.

até as contas são de papel

Xequerê: até as contas são de papel

Na “fábrica” de Ives Quaglia ainda há espaço para mais inovação. Ele não apenas copia objetos existentes, como cria novos instrumentos percussivos.

Filho de pescador, nomeia todas suas criações fazendo analogias com o universo marinho. Aponta para dois instrumentos e diz: “aqueles ali são baiacu e cachimbau”.

Radiografias no lugar da "pele" dos tambores

Radiografias e garrafas pet no lugar da "pele" dos tambores

O artista também criou um sistema próprio de afinação dos instrumentos, para garantir a qualidade do som produzido por eles.

- Tudo o que produzo aqui testo com amigos músicos, que vão me dando retorno e sugerindo melhorias. Não sou músico, mas sei que este trabalho tem dado uma grande repercussão na área musical. É um novo paradigma, né? - explica.

O artista desenvolveu um sistema de afinação próprio para seus instrumentos

O artista desenvolveu um sistema de afinação próprio para seus instrumentos

Desde novembro de 2005, o artista trabalha com um grupo percussivo de instrumentos confeccionados com materiais reutilizáveis, o Bandodipapel, formado com 30 componentes percussionistas e 10 dançarinas.

Com adereços criados e confeccionados também na técnica do papelamento, o grupo acompanha várias festas populares, especialmente as que acontecem em Itapuã.

Criar e educar

Aos 49 anos, Ives Quaglia é também professor concursado do Estado da Bahia, atualmente cedido à Escola Percussiva Pracatum, fundada por Carlinhos Brown.

A Pracatum é um dos locais em que o artista une as suas duas paixões: criar e ensinar. Definindo-se como arte-educador, Ives explica que a própria confecção das obras é uma ação educativa.

Ives Quaglia em seu estúdio

Ives Quaglia em seu estúdio

“O processo de confecção das obras é produto de um contexto, uma ação coletiva. Não dá para eu ficar isolado com esse conhecimento”, revela o artista, que afirma sempre construir os objetos compartilhando a sua.

Faz questão de que parte significativa dos materiais utilizados seja coletada e/ou aproveitada do universo da Instituição ou da localidade próxima (rua, bairro, região), dando um caráter de identidade e pertencimento desde o início da concepção da proposta.

Acusação de plágio no carnaval 2009

O clima da entrevista fica automaticamente tenso quando Ives Quaglia me fala sobre o carnaval de 2009. Assegura que a baleia de garrafas pet de 10 metros assinada pelo artista plástico Ray Vianna e exibida por Carlinhos Brown em seu Camarote Andante seria uma cópia de um projeto seu.

- Fui convidado para fazer esse trabalho com ele (Vianna) por uma ONG inglesa chamada Global Ocean. Era fazer uma interferência dentro do carnaval, uma baleia de garrafas pet. Então eu socializei com ele todo o trabalho que venho fazendo há anos em Itapuã, tanto que a baleia dele é igual à minha, uma jubarte, as mesmas características - afirma.

O projeto, entretanto, não foi adiante por desistência da ONG, que alegou falta de recursos.

Projeto da baleia de Ives

Projeto da baleia de Ives

Ives conta se sentiu traído por Ray Vianna, amigo de infância dele, quando soube que o bloco de Brown teria como tema o aquecimento global e exibiria a baleia que ele havia projetado.

- É muita coincidência uma baleia nas mesmas proporções, nas mesmas dimensões do meu projeto, aparecer de repente no carnaval. Então a força divina que deve ter colocado essas informações todas na mão lá dele - afirma.

Confrontado com a resposta do “ex-amigo”, que nega ter usado o projeto de Ives, o artista plástico de Itapuã reage com mais ironia:

- Não é o carnaval de “vamos beijar na boca”? Ele deu uma chupada na gente daquele jeito bastante peculiar do carnaval, na tora. E sem creditar. Tanto que os efeitos especiais da baleia que são borrifar confete, borrifar água e balançar a calda são do meu projeto - enfatiza.

Baleia que todos os anos "desfila" no carnaval de Itapuã

Baleia que todos os anos "desfila" no carnaval de Itapuã

Para Ives Quaglia, a revolta não vem da ausência de remuneração, mas pela falta de reconhecimento de seu trabalho.

- Não estou querendo cobrar nada dele, acho até constrangedor estar me posicionando. Quero apenas o reconhecimento de um trabalho que já vem sendo feito há anos dentro da comunidade de Itapuã. Não sou só eu não. Isso tem a ver com todo o sentimento de pertencimento de uma comunidade do trabalho que vem sendo feito há anos durante o carnaval. Ele se nega a se manifestar - conclui.

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20 de março de 2009

BA: Aos 101 anos, D. Canô Velloso publica livro de memórias

Ela nunca pensou em ser mãe de artistas famosos, mas gerou e educou de dois dos principais nomes da música brasileira.

Mãe de Caetano Veloso e Maria Bethânia, Dona Canô tem suas memórias registradas no livro: “Canô Velloso, lembranças do saber viver”, escrito pelo historiador Antonio Guerreiro de Freitas e por Arthur Assis Gonçalves da Silva, falecido antes do término da obra.

O livro contém 214 páginas, incluindo uma galeria de fotos da família, de amigos, de cidades do Recôncavo e de viagens acompanhando os filhos artistas. Será lançado hoje às 19h, no Palacete das Artes Rodin Bahia, em Salvador.

- Qualquer pessoa que conviva com ela, que se aproxime dela, vai perceber que é uma pessoa singular. E tem uma memória extremamente viva. Não só guarda o passado, mas interage com tudo o que a rodeia: a igreja, o celibato, casamento. Tudo aquilo que faz parte do cotidiano de qualquer pessoa faz parte do dela também - explica Antonio Guerreiro de Freitas, que também ensina na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFBA.

A capa do livro

A capa do livro

As lembranças mais fortes de Dona Claudionor Velloso (seu nome de batismo) são do próprio casamento, de mais de 50 anos, e da convivência com os filhos, netos e bisnetos.

- No final do trabalho, perguntei a ela: “Do que a senhora chamaria mais atenção?”. “Meu casamento e minha família”, respondeu sem vacilar. Esse foram os tempos mais longos que ela viveu. Foi casada mais de 50 anos e a família está aí até hoje - conta o autor.

Segundo Guerreiro de Freitas, a matriarca acompanha de perto tudo o que está acontecendo com seus descendentes.

- Ela sabe de tudo sobre o que está acontecendo com todos os filhos. Se estão gravando, viajando, onde estão. Acho que Maria Bethânia ligou para ela todos os dias em que gravamos as entrevistas - lembra Guerreiro de Freitas.

D. Canô está sempre atenta a todos os membros da fam�lia

D. Canô está sempre atenta a todos os membros da família

O autor também destaca a importância de Dona Canô na vida de Santo Amaro da Purificação, a cidade onde nasceu e vive até hoje.

Muito respeitada e dona de um extenso círculo de amizades, D. Canô volta e meia está metida com algum tipo de mobilização pela cidade.

Já angariou fundos para reforma da principal igreja de Santo Amaro, mobilizou a população em apoio aos pescadores locais, organizou anualmente ternos de reis - dentre muitas outras ações -, transformando-se numa espécie de “embaixatriz” do município.

- Principalmente depois que ficou viúva, ela vive esse cotidiano com muito interesse. Muitos a procuram e ela está sempre disponível. Ela fala de Santo Amaro com mais autoridade que as autoridades constituídas - explica o autor.

Segundo Guerreiro, na infância e em parte da adolescência, D. Canô passava as férias na casa grande de um engenho. Lá, a matriarca dos Vellos teria tido desenvolvido grande sensibilidade para as artes.

- Ela recebia da dona da fazenda uma boa formação em música e teatro. Desde criança atuava em peças e sempre gostou de canto. Isso fez dela talvez alguém muito singular - afirma Antonio Guerreiro de Freitas.

Antonio Guerreiro gravou 40 horas de lembranças de D. Canô

Antonio Guerreiro gravou 40 horas de lembranças de D. Canô

O autor conta que, logo cedo, ela percebeu que Caetano seria um artista, mesmo o próprio achando à época que não daria para a música. “Era um aéreo, nunca gostou de estudar, mas desenhava muito”, teria dito Canô em uma das entrevistas.

- Ela nunca pensou na vida em ser mãe de artistas famosos, mas essa vivência em sua infância foi capaz de despertar nela uma sensibilidade para perceber o lugar da arte na vida dos filhos - revela Guerreiro.

Livro de memórias não é biografia

Antonio Guerreiro de Freitas faz questão de diferenciar o seu trabalho do de um biógrafo. E explica porque:

- Gilberto Gil assinou contrato com a Companhia das Letras para publicação de biografia e escolheu um jornalista para fazer isso. Esse jornalista fez primeiro um cadastro com 800 nomes de pessoas que podem falar a respeito de Gil. Depois juntou fotografias, documentos. Enfim, uma biografia tem sempre alguém de fora que vai estudar um terceiro.

De acordo com Guerreiro, um registro de memórias é bastante diferente. O autor faz um roteiro temático e o submete ao entrevistado. Então, em sessões sucessivas, pede ao entrevistado que fale sobre o roteiro. “Meu trabalho foi, principalmente, o de montar, organizar, estruturar esse roteiro”, diz.

D. Canô é considerada "embaixatriz" de Santo Amaro

D. Canô é considerada "embaixatriz" de Santo Amaro

No caso do livro de D.Canô, a narrativa se transformou em sete capítulos. No início de cada um, Guerreiro faz uma introdução contextualizando leitor.

- Intervi muito pouco, tentei respeitar ao máximo a fala dela. O resultado foi um livro com linguagem bastante coloquial. As pessoas que já leram o livro disseram que parece que estar ouvindo ela falando.

Só depois dos 100

A primeira proposta de realizar o livro foi feita à Dona Canô em 2006.

- Fiz uma proposta e ela respondeu: “Por agora não. Não sei se vou completar 100 anos”. Retomamos o assunto mais tarde, pedi autorização aos filhos e, em março de 2007, começamos as entrevistas - explica o autor.

Todas as sextas-feiras, Guerreiro entrevistava Dona Canô. Foram cinco meses de trabalho e cerca de 40 horas de gravação.

- Eu vinha há algum tempo trabalhando com memória de idosos. Havia feito trabalhos de memória oral com pessoas de, no máximo, 85 anos. Mas nunca tinha trabalhado com alguém de 100. Então, para mim, foi um grande desafio - conta.

(fotos: Francisco de Assis/ especial para o Terra [1, 3, 5]; divulgação [2,4])

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6 de março de 2009

Rappers exigem a realização da Semana do Hip Hop em São Paulo

O Fórum de Hip Hop Municipal de São Paulo lança na internet um documento exigindo que a administração da cidade e a Coordenadoria de Juventude realizem a Semana de Hip Hop de 2009.

Colem no fórum hip hop municipal de são paulo!

Venham! Fazer o hip hop ser respeitado, seja você mc, dj, grafiteiro(a), break, produtor, estudante, simpatizante e ou somente ouvinte de rap. A parada é nossa.
(abertura do manifesto divulgado pelo Fórum de Hip Hop Municipal de São Paulo)

A semana do Hip Hop é uma conquista do movimento organizado do hip hop e acontece desde 2006. Realizada anualmente na segunda quinzena de março, gira em torno de 21 de março, o Dia Internacional de Luta Contra a Discriminação Racial.

Durante sete dias, breakers, grafiteiros, DJs e Bboys juntam-se a ativistas de organizações não-governamentais para denunciar o preconceito, divulgando o hip hop e discutindo o papel da juventude afro-brasileira e da periferia na sociedade.

Devido à pressão política do Movimento Hip Hop, a Semana passou a figurar no calendário oficial da capital paulista (Lei Ordinária de São Paulo-SP, nº 14485, de 19/07/2007) e ganhou dotação orçamentária de 100 mil reais para 2009 (empenho 1944).

- A gente fez pressão na votação do orçamento deste ano e conseguimos incluir o recurso para a realização da semana do Hip Hop. Agora eles vêem dizer que não tem dinheiro? - diz André Luiz, o Rapper Pirata, uma das vozes mais atuantes do Fórum de Hip Hop.

"Cobramos como cidadãos"

Rapper Pirata: "Cobramos como cidadãos"

O rapper lembra que é dever de quem está na administração municipal cumprir com os compromissos assumidos: “Parecem desinformados referente às políticas públicas geradas por eles mesmos”.

Leia a seguir a entrevista feita com o Rapper Pirata, 34, na qual ele fala da realização da Semana do Hip Hop e das negociações do movimento com o poder público:

Desde quando existe o Fórum Hip Hop? Quem participa dele?

Seu início foi no ano 2005, já fazem 3 e meio. Um Fórum é um espaço público então não existe um número de membros. Em todas reuniões temos uma frequencia de 15 a 30 pessoas, mas temos uma lista de 500 pessoas.

Existe uma lei prevendo a realização da Semana do Hip Hop?

Sim, foi uma conquista do movimento hip hop paulistano, e elaborada pela ex vereadora do PT Claudete Alves e sancionada em 2004 pela ex-prefeita Marta Suplicy (Lei nº 13.924/04). Agora tem uma nova, lei municipal 14.485/2007.

"A Semana do Hip Hop é uma conquista da Sociedade"

"A Semana do Hip Hop é uma conquista da Sociedade"

Quais os sinais de resistência do poder público municipal ao cumprimento dessa lei?

Eles dizem que vão fazer a semana, mas falam sempre que existem dificuldades. Esse ano é o papo de crise, algo que na administração pública é balela, porque eles deixam de arrecadar um determinado volume grana em impostos, não é que eles ficam sem caixa, porque não são empresas.

Não existe conversa do poder público com a sociedade jovem da periferia, eles ficam na disputa partidária, algo que não nos interessa.

Chegaram a um acordo?

O Fórum está com conversa na Câmara de Vereadores junto a Comissão de Juventude, e a Secretaria de Participação e Parceria, nas Coordenadoria do Negro e Juventude, mas não temos resposta positiva. Não sabemos ainda se estão só enrolando.

Parecem desinformados referente às políticas públicas geradas por eles mesmos.

Caso a prefeitura não queira realizar a Semana, o que vocês pretendem fazer?

Estamos fazendo um carta de moção para entregar aos vereadores e secretárias da prefeitura. Temos um lance de panfletagem e depois entregaremos um abaixo-assinado para Ministério Público contra a administração.

"Parecem desinformados referente às pol�ticas públicas geradas por eles mesmos"

Pirata: "Parecem desinformados referente às políticas públicas geradas por eles mesmos"

Como o fórum hip hop municipal vê as ações dos três poderes públicos em relação a esse gênero artístico?

Então temos a discussão que cultura não é valorizada no país, tanto que os recursos dos orçamentos nunca chegam a 1%.

Vemos como bons olhos a ação do governo federal, mas como a dita direita administra o estado e prefeitura, eles investem pouco porque disputam como partidos.

Mas o Fórum é apartidário. Cobramos como cidadãos. Os caras tão na administração e tem o dever que cumprir isso aí, de fazer os projetos. Se a gente não estiver ali, cobrando, eles vão fazer tudo sozinhos.

Veja, tem 80 milhões para se investir no primeiro emprego aqui em São Paulo. Não se investiu um centavo.

Eles fazem cursos para as pessoas serem empregadas como garçom, ajudante de cozinha, engraxate… Não desvalorizo essas profissões, mas querem que sejamos empregados o resto de nossas vidas.

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