BA: Surdos fazem Sarau com tradução para ouvintes
O que você faria se acordasse um dia e não conseguisse se comunicar com a sua família, seus amigos, seus colegas de trabalho? Imaginou a situação? Isso é só uma amostra das dificuldades que os surdos enfrentam diariamente, apenas para realizar as tarefas mais simples de seu cotidiano.
Nós, ouvintes, temos a tendência de simplesmente ignorar a presença dos surdos no nosso país. Closed caption? Aquela pessoa num quadro pequeninho, fazendo gestos enquanto algum político fala na TV? Esse estranhamento tolerante é o mais próximo que conseguimos chegar do universo silencioso dos nossos compatriotas, que nem mesmo são poucos.
Embora pouco menos de 170 mil brasileiros se declarem surdos, segundo o IBGE 5,7 milhões de pessoas apresentam algum grau de deficiência auditiva no país. É toda uma Dinamarca de surdos. Ainda assim, são rotineiramente ignorados pelas políticas públicas e pelo restante da sociedade.
Como de costume, os melhores exemplos de tolerância e inclusão vêem de quem sofre o preconceito.
Participei, no último domingo (22/11), do I Sarau Sinalizado, uma iniciativa do Centro de Estudos Culturais Linguísticos Surdos (CECLIS) para divulgar a cultura surda que aconteceu no teatro da Biblioteca Infantil Monteiro Lobato, em Salvador.
Intérpretes a postos, há sempre uma tradução acontecendo. Seja ela do português falado para as libras (linguagem de sinais) ou o caminho inverso.
O mais interessante é que, ainda que exista uma ou outra apresentação falada, os intérpretes estão ali para garantir que os ouvintes entendam o que está sendo dito. Naquele local, naquele breve momento, a ordem das coisas se inverte e quem precisa de ajuda são as pessoas “normais”.
Este blogueiro, por exemplo, sentiu-se completamente perdido e despreparado quando ao tentar entrevistar alguns dos surdos presentes. Ali, quem precisava de tradução era eu.
No Sarau não está em questão a complexidade estética das apresentações, mas a possibilidade de pessoas com deficiência auditiva subirem ao palco e contarem histórias, declamarem poesias e, o melhor de tudo, ficarem à vontade, serem entendidas do jeito que se expressam.
O auditório lotado com mais de 200 pessoas, repleto de famílias constituídas de ouvintes e surdos, vê o surdo Cléber contar, em libras, a história dos três porquinhos e a Cia de teatro Riso Cá Cá mesclar atores surdos e ouvintes em sua apresentação. Vê também o hino nacional ser sinalizado, na abertura do Sarau.
O momento mais emocionante, entretanto, é a apresentação do Coral de Mães. Vestidas de vermelho e portando luvas brancas, cerca de 10 mulheres na faixa dos quarenta anos sobem ao palco. Dentro de alguns minutos, o som do auditório vai tocar duas músicas, que serão interpretadas em linguagem de sinais por elas.
- Resolvemos usar a música para aprender a nos comunicar com nossos filhos porque isso é muito importante para a gente. Temos que saber o que eles querem fazer, o que estão com vontade de comer, entender o que querem dizer - diz uma delas.
Presente na apresentação, Eunice Rosa dos Santos é mãe de Ana Carolina, 21, filha única dela e do marido. Surda desde que nasceu, Ana Carolina não tem muitas dificuldades em se entender com a mãe. Entretanto, Eunice é a única da família que consegue se comunicar com a filha.
- Meu marido não sabe. Aliás, ninguém na família nunca se interessou em aprender os sinais para falar com ela.
Embora o drama de Eunice se reproduza em muitos lares de pessoas com deficiência auditiva, o auditório da Biblioteca Monteiro Lobato também abrigava o extremo oposto: casais formados por surdos e ouvintes, em que o afeto aproxima os dois universos e faz com que os ouvintes se engajem na causa dos companheiros deficientes auditivos.
O Sarau Sinalizado deve tornar-se regular e ser realizado anualmente, sempre com intérpretes prontos para facilitar o entendimento entre surdos e ouvintes. Mediação que, espero, um dia não será mais necessária.
























