Terra Magazine

26 de outubro de 2009

Festival indígena vira atração turística no Acre

Começou no último domingo (25/10) o Festival Yawá, um momento de celebração da cultura indígena, de resgate de brincadeiras tradições do povo Yawanawá.

O Festival é o símbolo da independência e da identidade dos Yawanawá. Vítimas de um “massacre cultural” provocado pela intervenção de peruanos, brasileiros e missionários norte-americanos, especialmente nas décadas de 70 e 80, o povo Yawanawá esqueceu sua língua nativa (lembrada apenas pelos mais velhos) e parou de realizar rituais sagrados, como usar rapé e beber o Uni (ayahuasca).

Toda a Aldeia Nova Esperança, na Terra Indígena do Rio Gregório, para durante o período da festa, que vai até a próxima sexta-feira (30/10). São suspensas todas as atividades cotidianas e todos dedicam-se apenas à imersão de uma semana nos costumes e brincadeiras da tribo, que poderiam desaparecer junto com os seus últimos anciões.

Hoje, graças a um trabalho de recuperação desses referenciais culturais, o povo Yawanawá voltou a sentir orgulho de sua ancestralidade. Mais que isso: aprendeu estabelecer um diálogo saudável com o mundo do homem branco sem que isso signifique abrir mão de seus valores indígenas.

Além dos rituais espirituais do uso do rapé e do Uni, que acontecem com frequência durante a festividade, centenas de índios celebram a terra e a cultura Yawanawá com cantos, pintura corporal e danças - como a pisada no pé, que gera muitos inícios de namoro - e provas de resistência, vistas como oportunidade para os jovens da aldeia exibirem-se às mulheres.

Vale mencionar a prova da espinha de peixe (foto no topo), realizada por indígenas que estejam com “desejo de vingança”. Em duplas, cada oponente dá duas investidas, à toda força, com talo de bananeira nas costas do outro - podem participar da prova, inclusive, mulheres e crianças.

Ao final, a dupla exibe orgulhosa as marcas das chibatadas e dão as mãos, sinalizando que as pendências entre eles estão resolvidas.

O Festival Yawá é uma síntese das tradições e costumes dos Yawanawá

Para os indígenas, o Festival é também uma oportunidade de agradecer aos espíritos da floresta pelos bens que ela oferece e pelos momentos de alegria vividos durante esse período.

Etnoturismo

O Festival Yawá começou a ser realizado em 2002, como parte da reconstrução cultural dos Yawanawá.

Desde o anos passado, porém, a festividade foi aberta a turistas, o que representou uma grande abertura para a tribo e um novo marco de diálogo com a cultura do homem branco.

Essa abertura é, na verdade, um entendimento entre os Yawanawá, empresas privadas e autoridades governamentais. Afinal, como diz o secretário de Turismo do Acre, Cassiano Marques: “Não se pode chegar à aldeia de qualquer jeito. É necessário estabelecer limites de visistantes, retonor financeiro para os índios, regras de visitação”.

Além de assistir às atividades do Festival, os turistas também alimentam-se de pratos tradicionais da cultura Yawa, cujos ingredientes predominantes são carnes de caça e peixes e iguarias à base de batata, milho, banana e mamão.

O Festival acontece na Aldeia Nova Esperança, dentro da Terra Indígena do Rio Gregório, a primeira a ser demarcada no Acre, em 1984, e um dos maiores territórios indígenas em solo acreano. No ano passado, a terra foi revista e ampliada, ocupando um perímetro de 239 quilômetros.

A Aldeia fica entre os municípios de Cruzeiro do Tarauacá. Para se chegar é preciso pegar um voo de Rio Branco até um dos dois municípios e transporte terrestre pela BR 364, até a ponte do Rio Gregório. Na ponte, pequenos barcos fazem o trajeto até a aldeia, que pode durar até 8h por conta das condições de navegabilidade.

Algumas empresas, como a Manain-Amazônia, oferecem pacotes para a festa, já bastante requisitados, especialmente por turistas do Rio de Janeiro e de São Paulo. Também é possível fazer contato direto com administradores do povo Yawanawá, como o filho do cacique, Macilvo Yawanawá, pelo telefone (68) 9206.4261.

(fotos: Sérgio Vale/ Secom/Acre)

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10 de outubro de 2009

Hoje é o último dia 1ª Feira do Livro Indígena de Mato Grosso

Encerra-se hoje a 1ª Feira do Livro Indígena de Mato Grosso. Durante cinco dias, foram expostos nos três pontos da feira - todos no Centro Histórico da capital do Mato Grossense -, cerca de 200 títulos de autores indígenas regionais e nacionais de 700 etnias.

Durante o evento, lançamentos de diversas obras, desde livros infantis, como “A Palavra do Grande Chefe”, de Daniel Munduruku e Maurício Negro, a obras de não-ficção, como “Os direitos constitucionais dos índios e o direito, a diferença, face ao princípio da dignidade da pessoa humana”, de Samia Barbiere.

A Flimt conta com 27 estandes de editoras e livrarias e oito estandes institucionais, distribuídos no estacionamento do Palácio da Instrução e Praça da República. Há, inclusive, um estande de autores independentes, que escrevem e editam livros por conta própria.

Na programação, além de lançamentos e leituras de livros, encontro de escritores, contação de mitos e histórias, oficinas, palestras, seminários, mostra de vídeos indígenas, saraus e pinturas corporais. As pinturas corporais, aliás, mobilizaram centenas de visitantes, que faziam enormes filas para receberem no corpo desenhos sagrados.

“Cada desenho representa um bicho. Para nós, os animais são sagrados”, explica o índio Umutina Vanilson Zaloizokemae. Vanilson explica que a pintura corporal é feita sempre em ocasiões importantes para a aldeia, como rituais, danças ou guerra.

O evento também foi visto como oportunidade para o lançamento da Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas e da Academia dos Saberes Indígenas, uma espécie de Academia Brasileira de Letras dos índios, só que com uma diferença conceitual: a instituição pretende mostrar que a literatura indígena vai além do conceito ocidental de escrita, pondo fim à ideia de que só há um tipo de literatura - a escrita e homenageando os velhos contadores de histórias indígenas. O patrono da turma será o ex-deputado Mário Juruna.

Para o encerramento deste sábado, as etnias Umutina, Xavante e Bororo apresentam as danças de seus povos.

Mato Grosso ocupa o segundo lugar do país em populações indígenas e de etnias. Atualmente residem somente no Estado mais de 28 mil índios de 41 etnias diferentes. Há indícios de outros nove povos ainda não contatados e não identificados oficialmente.

Por conta da representatividade dos povos nativos em Mato Grosso, o secretário estadual de cultura, Paulo Pitaluga, garante que esta deve ser a primeira de muitas feiras do livro indígena, tornando-se referência entre os eventos literários realizados no país.

(imagens: divulgação)

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29 de setembro de 2009

SP: “Dom Quixote” é encenado em duas línguas, por 15 grupos de teatro de 10 países latinos

Um Dom Quixote como nunca se viu antes. Nesta quinta-feira, dia 1º de outubro, às 20h, o Sesc Pompéia (São Paulo) recebe a montagem mais diferente já realizada a partir da obra clássica de Miguel de Cervantes.

Quinze grupos de teatro de 10 países da América Latina e Caribe apresentam o espetáculo em conjunto, mobilizando mais de 100 profissionais, entre técnicos e atores.

O texto que une essa verdadeira babel latina é a peça “El Quijote”, do colombiano Santiago García, de 80 anos - 43 deles à frente do Grupo Teatro La Candelaria.

A montagem no Brasil, que mantém a grafia original em espanhol, tem como diretor de cena César Badillo Perez, ator vinculado ao Teatro La Candelaria e que há exatamente uma década interpreta o papel-título de Quixote na montagem colombiana de Santiago García.

“Ele manja até o pensamento do Quixote. Sabe a hora que o Quixote peida”, brinca Adriano Mauriz, ator do Instituto Pombas Urbanas, que administra o Centro Cultural Arte em Construção.

Esse Quixote é ou não é um tanto gaúcho?

Esse Quixote é ou não é um tanto gaúcho?

A montagem pode ser vista gratuitamente no Centro Cultural Arte em Construção, em Cidade Tiradentes, zona leste de São Paulo (ensaio aberto no dia 30/9 e apresentação dia 3/10) e no Sesc Pompéia, nos dias 1º e 2 de outubro (sendo que no dia 2/10 a sessão é fechada para o II Congresso de Cultura Iberoamericana).

Desde o dia 15 de setembro, os grupos teatrais participam de uma residência artística no Centro Cultural Arte em Construção. Durante esse período, tentam dar uma unidade aos 12 quadros da montagem, que ensaiam em separado há quatro meses.

Os grupos que participam do espetáculo são: La Comedia de Campana (Argentina), Teatro Trono e Compa (Bolívia), Pombas Urbanas/SP e Entrou por uma Porta/RJ (Brasil), Coletivo Teatral Antu (Chile), Teatro Tespys Corporación Cultural (Colômbia), Teatro Andante e Teatro de Los Elementos (Cuba), Tiempos Nuevos Teatro (El Salvador), Caja Lúdica (Guatemala), Compañía Teatral Carlos Ancira (México) e Vichama Teatro (Peru).

- No primeiro dia fiquei com dor de cabeça com 100 pessoas falando em espanhol. Agora, quando eu ando no metrô, ouço português, mas acho que estão falando em espanhol. Tem hora que preciso ligar a tecla SAP. Mas a gente até um lema: “minha pátria é o teatro”. O teatro nos une. No palco a gente se entende completamente - conta Adriano Mauriz.

As imagens mostram toda a diversidade da proposta

As imagens mostram toda a diversidade da proposta

A interculturalidade explícita da proposta - algumas cenas são faladas em português e espanhol - resulta em reinterpretações completamente originais da obra de Cervantes.

Um grupo peruano, por exemplo, transforma o encontro do cavaleiro da triste figura com o mago Merlin no encontro com um xamã - “um senhor que usa folhinhas de coca e aguardente para fazer adivinhações”, explicao ator do Pombas Urbanas.

Já um coletivo da Guatemala introduz no texto a lenda de uma rainha maia no lugar de uma outra história contada a Quixote (”mas essa é a única mudança de texto; o resto respeita o original de Santiago García”, alerta Mauriz). Assim, a história do cavaleiro andante que enfrenta moinhos de vento acaba ganhando as cores vibrantes da América Latina.

- O Dom Quixote é um cara que acredita num sonho. Como nós - resume Adriano Mauriz.

Rede Latino-americana de Teatro em Comunidade

O sonho a que se refere Mauriz é, entre outras coisas, a criação da Rede Latino-americana de Teatro em Comunidade, elemento que motivou a reunião de tantos grupos teatrais na periferia da capital paulista capital paulista.

- Tem vários caras que vêm fazendo a mesma coisa na América Latina e estão se encontrando para fazer a rede. É muita tecnologia. Tem gente que trabalha onde havia minas de carvão; em favelas; tem um pessoal que acabou de sair de uma guerra e por aí vai. A gente se encontrou por se reconhecer um no outro - explica Adriano Mauriz.

Os atores do Pombas Urbanas são representantes brasileiros na Rede

Os atores do Pombas Urbanas são representantes brasileiros na Rede

Jorge Bladón, diretor da Corporación Cultural Nuestra Gente, de Medellín (Colômbia), explica que o diferencial da nova rede a ter como foco um tipo de teatro com raízes num no território, que envolve a comunidade onde se localiza.

- Nesse encontro, estamos discutindo o conceito de comunidade. Porque, claro, para o conceito de teatro não há discussão. Temos que democratizar o acesso ao teatro e possibilitar que as pessoas sintam a arte como um direito cultural seu - comenta.

Bladón destaca a importância deste tipo de iniciativa para que as comunidades nos diversos países reconheçam o sentimento de pertença, o valor da memória e da identificação com suas raízes culturais.

- O grupo Catalinas Sur, da Argentina, faz o que chamam de “teatro de vecinos [vizinhos]” e realizam espetáculos com 60, 100 pessoas, com todo mundo que mora no bairro - completa Adriano Mauriz.

Segundo ambos os artistas, a Rede Latino-americana de Teatro em Comunidade vai permitir o intercâmbio de tecnologias desses grupos que compartilham esse mesmo ideal, de transformação social e envolvimento da população aliados à qualidade estética da linguagem cênica.

- Podemos multiplicar as boas experiências que algumas têm em outros países, como a política de pontos de cultura, que começa a ser discutida no Parlamento Mercosul e deverá ter incidência em toda América Latina - diz Jorge Bladón.

O colombiano lembra ainda que a rede será um espaço de formação e trocas interculturais para os atores e diretores e beneficiará também as comunidades, normalmente pouco observadas por seus respectivos governos.

- Vamos a uma padaria e nos perguntam o que estamos fazendo aqui. Ao mesmo tempo em, que nos embolamos com língua para responder, temos a capacidade de encontrar nos olhos deles as palavras corretas. Esse intercâmbio é um ato de amor - declara-se Bladón.

(fotos: Instituto Pombas Urbanas/ Divulgação)

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14 de setembro de 2009

SP: Festival de Cultura Tradicional deve atrair um milhão de pessoas

Qualquer admirador da cultura popular gostaria de estar em São Paulo - a cidade mais urbanizada do país - nos dez dias entre 11 e 20 deste mês.Paradoxo? Não mesmo. Na última sexta-feira foi aberto na metrópole o 13º Revelando São Paulo - Festival de Cultura Tradicional Paulista, cuja maior parte das atividades acontece no Parque da Água Branca.

O Festival é uma compilação extensa da cultura popular no Estado, reunindo manifestações culturais oriundas de 200 municípios de São Paulo. Cerca de 300 grupos apresentam-se durante o evento, que conta também com 155 estandes de artesanato e 80 de culinária típica.

Dentre as numerosas atrações da programação, o público tem a oportunidade de apreciar as Folias de Reis e do Divino, Cortejo de Bonecões, Orquestras de Viola, Violeiros e Sanfoneiros, grupos de Catira, Fandangos e Cururus, Congos e Moçambiques, Serestas e as Noites dos Tambores, Cigana, de Quadrilhas e Manifestações Cosmopolitas.

Isso sem contar as Cavalgadas, Cavalhadas, Tropas de Mulas e Carros de Bois, que levam à capital paulista mais de 200 animais, entre cavalos, bois, búfalos e mulas.

Tamanha diversidade realmente não poderia passar despercebida: espera-se que o evento, gratuito, seja capaz de aglutinar um público de aproximadamente 1 milhão de pessoas durante o período do Festival.

Criado em 1997, quando atraiu 50 mil pessoas, o Revelando São Paulo passou a ser realizado ao longo do ano, em diversas cidades do Estado - obviamente, com duração e formatos distintos. Neste ano, já aconteceu no em Iguape, no Vale do Ribeira (junho) e em São José dos Campos, no Vale do Paraíba (julho). E deve ocorrer ainda em Bauru (outubro), Franca (novembro) e Atibaia (dezembro).

O mais interessante a respeito do festival, entretanto, é que a sua organização tem a sagacidade - e competência - de reunir sob a marca diversos outros encontros e festivais da cultura popular paulista, muitos inclusive preexistentes.

Assim, quem vai ao Revelando São Paulo pode presenciar o II Encontro de Orquestras de Viola Caipira, o XI Encontro de Catira, a IX Noite de Tambores, o XVII Festival de Bonecos de Rua e Cabeções e assim por diante.

A programação do evento traz uma média de pelo menos dois encontros/ festivais interessantíssimos assim por dia.

É simplesmente impensável a reunião de tantas e tão diferentes manifestações populares num período tão curto de tempo. Para quem nasceu e foi criado na capital, distante de praticamente todas essas expressões da cultura brasileira tradicional, é uma oportunidade única.

Como se isso tudo não fosse suficiente, comunidades indígenas do Estado conduzem, durante todo o período do Festival, jogos e brincadeiras numa grande arena montada no local.

Pronto. Agora você pode desligar o computador e ir correndo curtir o Revelando São Paulo.

(fotos: Gina Mardones)

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10 de setembro de 2009

DF: Grito do Cerrado exige uso sustentável do 2o. maior bioma do país

Na manhã desta sexta-feira, o Dia do Cerrado (11/9), a Esplanada dos Ministérios assiste a um espetáculo que já está se tornando uma tradição: a corrida de toras realizada entre as diversas etnias de povos indígenas do Cerrado.

Mas se engana quem pensa que a competição é apenas uma exibição da biodiversidade do segundo maior bioma brasileiro. Ela, na verdade, é o ritual de abertura do Grito do Cerrado, uma manifestação pacífica de povos indígenas, quilombolas, geraiszeiros, agroextrativistas, quebradeiras de coco, pescadores artesanais, assentados da reforma agrária; enfim, dos diversos povos que habitam os quase dois milhões de km² onde se encontra o Cerrado brasileiro.

Logo após a corrida das toras, os manifestantes partem em direção ao congresso nacional - a organização do evento espera reunir pelo menos duas mil pessoas na passeata.

Ao longo da caminhada, o Movimento Cerrado Vivo de Brasília organiza o SOS Cerrado, uma formação composta por centenas de pessoas no gramado da Esplanada dos Ministérios.

A corrida de toras na Espalnada dos Ministérios tornou-se um ritual de abertura do Grito do Cerrado

A corrida de toras na Espalnada dos Ministérios abre o Grito do Cerrado

No Congresso, parlamentares - dentre eles o presidente da Câmara, deputado Michel Temer - recebem a Carta do Cerrado, que também será entregue ao Ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc.

O documento considera os posicionamentos políticos e as reivindicações da Rede Cerrado, composta por centenas de organizações que representam os povos do bioma. em relação às políticas públicas de proteção ao bioma e sua população.

Embora a Carta do Cerrado ainda esteja sendo redigida, o Blog das Ruas entrevistou Carlos Dayrell, integrante da equipe Rede Cerrado, que organiza a mobilização, e do Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas, que destacou algumas questões cuja presença no documento é certa.

A primeira delas é a ênfase na situação crítica em que o Cerrado e os povos que o habitam se encontram. Grande reserva de biodiversidade (5% das espécies do planeta), cuja importância é comparável à da Amazônia, “o Cerrado encontra-se massacrado e constantemente violentado pela frente agrícola”, afirma Dayrell.

Segundo o ativista, para ter uma dimensão correta do problema, é preciso enxergar também as novas ameaças ao bioma: o avanço da demanda dos biocombustíveis (”particularmente o etanol”); o PAC - Programa de Aceleração do Crescimento do governo federal (”está acelerando o processo de destruição do Cerrado”); e o sistema de créditos de carbono que, na visão do membro da Rede, pode “transformar o Cerrado na lixeira do mundo global, sem diversidade e com grandes monoculturas de eucalipto”.

Junto ao processo de degradação ambiental, vem a expulsão das comunidades tradicionais, que aprenderam, ao longo de muitas gerações, a conviver harmoniosamente com o bioma.
E é justamente das experiências dessas comunidades, muitas delas com integrantes na Rede cerrado, que vêm as sugestões da Carta do Cerrado para o uso sustentável do bioma.

- São tradições milenares quando falamos dos indígenas e seculares quando nos referimos aos povos quilombolas e extrativistas. Existe uma lógica de convivência com o Cerrado que é benéfica para as pessoas e para a natureza - afirma o membro da rede Cerrado.

Uma das edições anteriores do Grito do Cerrado

Uma das edições anteriores do Grito do Cerrado

Um dos maiores passos nesse direção seria a aprovação da PEC do Cerrado, que tramita há 14 anos no congresso nacional.

- Caso ela seja aprovada, não apenas os territórios das populações nativas como também seus conhecimentos vão ser reconhecidos. Poderemos estimular economias agroextrativistas, nas quais é central o aproveitamento de frutos, madeiras e mesmo plantas medicinais - conclui Carlos Dayrell.

Encontro e Feira dos Povos do Cerrado

O Grito do cerrado faz parte do VI Encontro dos Povos do Cerrado, que ocorre em Brasília, entre 9 e 13 de setembro. Durante todo o período do encontro acontecem apresentações culturais e uma feira com mais de 100 estantes expõe e comercializa os produtos advindos do bioma - frutos, flores, artesanatos, alimentos, entre outros (veja a programação).

Ainda durante o VI Encontro, acontece o Festival Gastronômico do Cerrado, no qual os presentes podem degustar pratos, receitas e alimentos típicos do bioma.

(fotos: Rede Cerrado [1,2]; reprodução [3])

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5 de setembro de 2009

RR: Raposa Serra do Sol vai ganhar 10 pontos de cultura

Conhecida em todo Brasil pela batalha jurídica que antecedeu a sua demarcação definitiva, a Reserva Raposa Serra do Sol, em Roraima, vai ganhar 10 pontos de cultura indígena.

Os pontos de cultura são uma ação do governo federal que busca valorizar a diversidade cultural do país, através do apoio a iniciativas já existentes.

Além do aporte de recursos em dinheiro, o programa prevê acesso à internet e a oferta de equipamentos de informática e audiovisual (computadores, filmadora, scanner, máquina fotográfica digital etc.) - um upgrade tecnológico que pode fazer muita diferença para a população de aproximadamente 20 mil indígenas da área.

Ind�gena comemora demarcação cont�nua da Raposa Terra do Sol

Indígena comemora em Brasília a demarcação contínua da Raposa Serra do Sol

E foi justamente o acesso à rede mundial de computadores e as possibilidades de desenvolvimento de conteúdos audiovisuais - especialmente de materiais didáticos próprios - que mais animaram os indígenas presentes na reunião com membros do Ministério da Cultura e do Conselho Indígena de Roraima, realizada há uma semana, no dia 29 de agosto, para tratar do tema.

Esses materiais audiovisuais poderão ser utilizados pelos 393 professores e cerca de 5.800 alunos da região, onde existem 114 escolas.

Até 2010, o Ministério da Cultura promete implantar 150 pontos de cultura indígena, que se somam à extensa rede de quase mil pontos de cultura existentes hoje no país.

(fotos: José Cruz/ ABr)

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4 de setembro de 2009

BA: Festival em Cumuruxatiba tem baleias, indígenas e orquídeas

Cumuruxatiba é uma vila de pescadores que pertence ao município de Prado, a 70 km de Porto Seguro, no litoral sul da Bahia.Ao lado das famílias dos pescadores, vivem muitos descendentes dos índios Pataxó, cuja reserva fica a poucos quilômetros do local. Mas foram os primeiros anfitriões dos portugueses na Terra de Vera Cruz, os Tupiniquins, que batizaram a localidade como “lugar onde há uma grande diferença entre maré baixa e maré alta” (Cumuxa: maré baixa; Tiba: maré alta, mar batendo nas falésias).

Carinhosamente chamada de “Cumuru” pelas quatro mil pessoas que moram lá e pelos muitos turistas apaixonados pelas suas praias, a vila hospeda, de hoje até a próxima quarta-feira (9/9), o IV Cumuru Festival.

"Onde o tempo não tem pressa e a preguiça é mais gostosa", é o lema de Cumuru

"Onde o tempo não tem pressa e a preguiça é mais gostosa", é a frase-tema de Cumuru

O evento leva à vila cerca de duas mil pessoas - metade de sua população - e só é superado por datas como reveillon e carnaval, quando até mesmo os pescadores alugam as suas casas. “Ainda”, afirma confiante Ester de Faria, atual presidente da Associação de Comerciantes de Cumuruxatiba e organizadora do Festival.

Barraquinhas de artesanato no centro do vilarejo, restaurantes com pratos especialmente feitos para a ocasião, apresentação de manifestações culturais locais. Cumuruxatiba poderia até repetir a fórmula de outras localidades, não fossem seus mais que particulares atrativos.

O Cumuru Festival foi criado em 2005, pela associação local de comerciantes, e reeditado nos anos seguintes (à exceção de 2008). A data em que acontece, sempre no mês de setembro favorece que os visitantes encontrem tão distintos e inesperados quanto orquídeas nativas, e a proximidade de baleias jubarte.

O Cumuru Festival ocorre no per�odo ideal para o avistamento de baleias

O Cumuru Festival ocorre no período ideal para o avistamento de baleias

Segundo a coordenadora do evento, as baleias podem ser avistadas a uma hora e meia da costa, em direção ao alto mar.

- Agosto e setembro são o ponto alto para o avistamento das baleias, logo que elas já tiveram seus filhotes e estão namorando. Se o tempo estiver bom e você tiver um pouquinho de sorte, vai ver um grande espetáculo - diz Ester de Faria.

Esse também é o perídio propício para o florescimento das muitas orquídeas nativas, que despontam nas proximidades de Cumuru. Durante o Festival, diversas espécies são recolhidas e exibidas aos turistas. Neste ano, a exposição acontece no Restaurante Catamarã, de 5 a 9 de setembro.

Dois outros atrativos sobressaem no IV Cumuru Festival. O primeiro é são as apresentações “a caráter” dos índios Pataxó.

- Quem não quer ver um índio? Quando eu morava no Rio [de Janeiro], meu sonho era ver um índio. Cheguei e até me decepcionei porque não agiam nem se vestiam como a gente vê na televisão e nos filmes. Mas durante o festival ficam devidamente caracterizados e é muito legal - opina a organizadora do evento.

Nesse ritmo, daqui a alguns anos o pier será só uma lembrança

Nesse ritmo, daqui a alguns anos o pier será só uma lembrança

O segundo atrativo está lá o ano inteiro. São as ruínas do segundo maior píer do mundo, construído há pelo menos 30 anos para o embarque de areia monazítica. As informações sobre as suas medidas são conflitantes. Enquanto as fontes modestas sugerem que tenha 600 metros, as mais empolgadas afirmam que o píer tem um quilômetro de extensão.

Primeiro local visitado pelos portugueses

Este blogueiro tem que confessar que, até escrever este post, acreditava que Porto Seguro havia sido o primeiro pedaço de terra brasileiro a ser pisado pelos portugueses. Ledo engano.

As orqu�deas nativas são uma atração à parte no Cumuru Festival

As orquídeas nativas são uma atração à parte no Cumuru Festival

Diversos moradores de Cumuru afirmam - e garantem que há pesquisas para comprovar - que o primeiro desembarque português foi comandado pelo navegador Nicolau Coelho, de bote, nas margens do rio Caí (antigamente grafado Cahy), a 18 km de Cumuruxatiba. “Oficialmente, somos considerados Costa das Baleias, mas deveríamos fazer parte da Costa do Descobrimento”, reclama Ester de Faria, que explica:

- Na carta de Caminha, ele afirma que alguns membros da esquadra foram buscar água potável na barra de um rio, de onde era possível avistar o Monte Pascoal. A barra do Caí é o único lugar da região com água doce onde é possível enxergar o Monte. Somente depois de coletar a água, por conta dos recifes e do mar agitado, os portugueses iriam procurar um “porto seguro”.

(fotos: Douglas Fernandes [2]; Fabíola Congio [4]; reprodução [demais])

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12 de agosto de 2009

MS: Vídeo Índio Brasil projeta indígenas nas telonas

O Festival Vídeo Índio Brasil 2009, que acontece até o dia 16, chega a sua segunda edição com projeções em aldeias e localidades de sete cidades do Mato Grosso do Sul, onde vive 10% dos cerca de 700 mil indígenas brasileiros.

O evento, realizado pelo Pontão de Cultura Guaicuru, valoriza a presença das muitas populações e etnias indígenas na telona como forma de difundir a cultura indígena no Brasil.

São cerca de 285 atividades entre seminários, debates, exposições, exibições de filmes e uma oficina de produção de vídeo para indígenas.

Quarenta filmes serão exibidos em 16 localidades diferentes de Campo Grande, Corumbá, Dourados, Sidrolândia, Caarapó, Bonito e Coxim.

“A cultura indígena é a base da diversidade cultural brasileira. Nós, da cultura, queremos um País multicultural, e o Vídeo Índio Brasil quer revelar essa multidiversidade”, disse Andréa Freire, a coordenadora do Vídeo Índio Brasil 2009, na abertura do festival, na última segunda-feira.

Entre os destaques da programação, duas produções de atores globais: os documentários “Hotxuá”, de Letícia Sabatella, e “Expedição A’uwê, A Volta do Tsiwari”, de Marcos Palmeira e Laine Milan.

Enquanto o primeiro conta a história de Hotxuá, o palhaço sagrado da tradição dos índios Krahô, do Tocantins, o filme de Marcos palmeira retrata a vida de 400 pessoas na Terra Indígena Parabubure, no Mato Grosso, onde vivem Xavantes das aldeias São Pedro e Onça Preta.

Como não poderia deixar de ser, o Festival também exibe várias produções de cineastas indígenas, entre elas: “Bakororo Itubore, Ure Boe Ero Towujewuge, Legisladores Bororo”, de Paulinho Kadojeba, sobre um rito que representa os criadores das regras sociais da sociedade Bororo; “Um Olhar Sobre Ñhandereko”, de Sandra Terena e Aline Pereira, sobre o contato da população da aldeia Mbyá Pindoty, na Ilha da Cotinga (litoral paranaense) com o homem branco; “Tsõ’rehipãri, Sangradouro”, de Divino Tserewahú e Tiago Campos Tôrres, sobre a relação entre um grupo Xavante e a missão Salesiana de Sangradouro; e “Pi’õnhitsi, Mulheres Xavante Sem Nome”, dos mesmos autores, que tentam produzir um filme sobre ritual de iniciação feminina xavante.

Seja como autores das obras, seja como personagens principais de produções não-indígenas, os povos nativos brasileiros passam a ocupar um dos principais espaços de afirmação cultural contemporânea, o audiovisual.

Infelizmente, ainda hoje isso pode causar estranhamento a muitas pessoas, que vêem algo de impróprio na relação entre indígenas e uma câmera de vídeo.

É triste imaginar que esta ou outras notícias sobre o tema podem gerar comentários para lá de preconceituosos como “E índio faz filme?” ou “Lugar de índio não é na aldeia?”.

Quando vamos nos acostumar a esta cena no cinema?

Quando vamos nos acostumar a esta cena no cinema?

Em resposta a esse tipo de pensamento, o seminário “A Imagem dos Povos Indígenas na Mídia” faz parte da programação do Festival. Todas as manhãs até o dia 16, No CineCultura, em Campo Grande, cineastas e personalidades, indígenas ou não, discutem vários tópicos relacionados à imagem dos povos nativos - ou a ausência dela - construída pelos meios de comunicação.

A primeira edição do Vídeo Índio Brasil aconteceu no ano passado em Campo Grande, Corumbá e Dourados.

As atividades atingiram de forma direta mais de 10 mil espectadores nas três cidades, em oito locais, com grande repercussão em todo o País.

O Vídeo Índio Brasil 2009 é organizado pela Associação Cultural Oficina de Criação / Pontão de Cultura Guaicuru em parceria com o CineCultura, a Associação Amigos do CineCultura, a Funai, a Secretaria da Identidade e da Diversidade Cultural do Ministério da Cultura e o Ministério do Turismo.

(imagens: Ministério da Cultura [1]; Vídeo Índio Brasil [2, 3])

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15 de julho de 2009

Universidade de Brasília recebe I Congresso de Pesquisadores Indígenas

“No ano de 1981, o mais temido General do Governo Militar, de altíssima inteligência, Golbery do Couto Silva, apresentou argumentos de tres páginas determinando a Funai, a expulsão de 15 estudantes indígenas de Brasília sob argumento de que eram ‘cobras que picariam o governo’ futuramente”.

Quem nos conta este triste capítulo da história brasileira é Marcos Terena, líder indígena remanescente daquela época e diretor do Memorial dos Povos Indígenas de Brasília.

Hoje, quase 30 anos depois, os povos indígenas fazem as pazes com a academia. Começou nesta terça-feira, na Universidade de Brasília, o I Congresso Brasileiro de Acadêmicos, Pesquisadores Profissionais Indígenas.

O Congresso reúne mais de 900 pessoas até o dia 17 deste mês, entre elas lideranças de organizações não-governamentais, especialistas, estudantes, pesquisadores e profissionais indígenas que discutem o futuro da educação superior para os Povos Indígenas.

Gustavo Lins Ribeiro, diretor do Instituto de Ciências Sociais da UnB, considera este momento “histórico”. “É o primeiro encontro, acredito que muitos outros virão. É importante ressaltar que a UnB e todos os setores envolvidos abraçaram essa causa pela sua enorme importância”, enfatiza.

Nestes quatro dias de encontro, mesas redondas, palestras e grupos temáticos vão discutir sobre o significado de estar no ensino superior e os obstáculos que os jovens indígenas ainda encontram, como o fomento a pesquisadores indígenas; a dificuldade de acesso e de permanência; as diferenças culturais e, claro, o preconceito e a intolerância.

Para Gersem Luciano Baniwa, coordenador e palestrante do Congresso, além de diretor executivo do Centro Indígena de Estudos e Pesquisa (Cinep), todos ganham com a presença indígena na academia.

- A universidade oferece novos caminhos, como a tecnologia e a ciência, e os jovens indígenas vêm para este ambiente com uma grande bagagem de conhecimentos que a universidade não possui. É uma troca - diz o coordenador.

“É um grande diálogo entre o saber tradicional e as demandas do mundo acadêmico”, concorda Marcos Terena, segundo o qual aqueles jovens que Golbery mandou expulsar resistiram e criaram o primeiro movimento indígena do País, a União das Nações Indígenas.

Com o movimento, veio também a célebre frase que se tornaria um dos maiores lemas da causa indígena: “Posso ser o que você é, sem deixar de ser quem sou”.

Terena é o coordenador do tema Espiritualidade. O líder indígena defende a discussão da Espiritualidade no âmbito do Congresso:

- A espiritualidade é a base da resistência indígena e é superior a todos os dogmas da catequese e da religião, pois atua como ponte transversal entre passado e futuro e traz uma nova forma de ver o mundo com a afirmação da identidade cultural e o direito sobre a terra! O Índio sem terra não sobrevive. O Índio sem cultura não é nada - afirma.

Tal como a espiritualidade, alguns tópicos centrais para os povos indígenas dão vida a grupos temáticos, como gestão territorial e etnodesenvolvimento; vida nas cidades; saúde e direitos; histórias e memórias, dentre outros.

Como não poderia deixar de ser, a programação também inclui apresentações de música e dança, projeção de filmes e outras manifestações culturais indígenas.

(foto: Blog de Marcos Terena)

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9 de junho de 2009

PE: Movimentos reagem à condenação de 31 indígenas da etnia Xukuru

Diversos movimentos ligados à causa indígena estão se mobilizando contra a possível prisão de indígenas da etnia Xukuru, em Pernambuco.

Atualmente, pelo menos 43 indígenas estão sendo processados. Dez aguardam julgamento, dois estão presos e 31 já foram condenados pela Justiça Federal do estado, incluindo o cacique da tribo, Marcos Luidson de Araújo, cuja pena é de 10 anos e quatro meses de prisão.

Os movimentos acusam a Justiça e os poderes públicos de Pernambuco de criminalizarem os Xukuru e apontam irregularidades no processo que levou à condenação dos indígenas.

O cacique Marcos Luidson foi condenado a mais de 10 anos de prisão

Cacique Marcos Luidson, condenado a mais de 10 anos de prisão

Agora tentam pressionar o Tribunal Regional Federal (TRF) da 5ª Região, em Recife, que vai julgar recurso contra as condenações, a reverter o quadro.

Um dos mecanismos de pressão é a Campanha contra a Criminalização do Povo Xukuru, em que a divulgação dos argumentos contrários às condenações é acompanhada de uma mensagem já redigida, que o internauta ou sua organização pode enviar ao TRF da 5ª Região.

Os emails e telefones dos desembargadores que integram o TRF são divulgados junto com a mensagem.

Dom Pedro Casaldáliga, Bispo Emérito da Prelazia de São Félix do Araguaia, pronunciou-se sobre a questão. Abaixo, trecho da nota divulgada pelo bispo:

“Querido povo Xukuru, povo do patriarca Xikão, mártir dos direitos do seu povo e do meu afilhado Marcos, o Marquinho, tão admirado.

Me associo ao testemunho de milhares do Brasil e do exterior, que respaldam vossa luta pelos direitos fundamentais de terra, cultura, justiça e paz. Denunciamos as fraudes, a corrupção comprada e a insensibilidade de certas autoridades estaduais e federais”.

O Ministério Público Federal, ao noticiar o fato em seu site, caracteriza-o como uma “tentativa de desestruturar os Xukuru, por meio da criminalização de suas lideranças”.

Entenda o caso

Cerca de 10 mil Xukurus vivem em sua terra tradicional, na serra do Ororubá, município de Pesqueira, agreste de Pernambuco. São 27 mil hectares homologados como terra indígena apenas em 2001, após um processo que durou 12 anos.

A luta pela reconquista da terra pelos indígenas gerou, e continua gerando, muita tensão no local, inclusive perseguições e mortes. Em 1998, a mais emblemática delas: o assassinato do cacique Chicão Xukuru, pai do atual cacique Marcos Luidson.

O próprio Marcos, escolhido cacique em 2000, passou a receber ameaças de morte após a sua nomeação. As ameaças levaram a Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA) a solicitar que o Estado Brasileiro protegesse a vida do cacique e de sua mãe, Zenilda, o que, segundo eles, nunca ocorreu.

O cacique Chicão, pai do atual, foi assassinado em 1998

Pai de Marcos Luidson, o cacique Chicão foi assassinado em 1998

Na versão dos Xukurus, a questão que deu início ao processo, em fevereiro de 2003, foi justamente uma emboscada contra o cacique. Na tentativa de defendê-lo, dois indígenas teriam sido mortos por José Lourival Frazão (Louro Frazão), também Xukuru, mas ligado ao grupo de fazendeiros que questiona a legalidade da terra indígena.

Segundo a interpretação da justiça de Pernambuco, não houve emboscada e, sim, uma discussão entre o cacique e Frazão, que acabou atirando nas vítimas e foi condenado a 12 anos e seis meses de reclusão apenas por um dos homicídios.

Aos assassinatos, seguiu-se uma comoção dos Xukurus, que incendiaram casas de fazendeiros (que permaneciam ilegalmente na terra Xukuru) e alguns indígenas aliados deles, expulsando-os das terras. É por esse ato que os indígenas estão sendo processados.

Para o Conselho Indigenista Missionário (CIMI), segundo o qual os Xukuru são vítimas de “violência institucional”, o julgamento que levou à condenação dos indígenas é irregular.

Acusa a justiça de proferir a sentença antes que duas testemunhas de defesa - o deputado federal Fernando Ferro (PT) e a sub-procuradora Geral da República Raquel Dodge - fossem ouvidas. A condenação do cacique saiu no dia 21 de maio enquanto o depoimento do deputado estaria marcada somente para o dia 28.

Além disso, alega que o indígena Wilton Lopes da Silva, condenado a 9 anos e 4 meses de reclusão, sequer estava na terra indígena no momento da expulsão dos invasores. O fato é sustentado por testemunhas.

O argumento da ausência na ação é usado também para questionar a condenação do cacique do povo Xukuru, Marcos Luidson.

Em decorrência do embate anterior, Luidson teria sido sedado no hospital e passado a noite dormindo na casa da mãe. O cacique foi condenado a 10 anos e quatro meses por comandar os atos de violência contra os fazendeiros, dois anos e dois meses a menos que a condenação recebida por Louro Frazão.

As palavras do cacique ao jornal Brasil de Fato resumem os protestos e alertas dos movimentos indígenas sobre a questão: “Os inimigos dos Xukuru não aceitaram o fato da gente ter conquistado o território”.

(fotos: Ricardo Stuckert/PR [1]; reprodução [2])

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