Terra Magazine

9 de novembro de 2009

Viradão Esportivo mostra “esportes curiosos” praticados pelo Brasil

Tags:, , - iurirubim às 18:02

No último final de semana, o Brasil inteiro participou do Viradão Esportivo: trinta e três horas de prática esportiva promovidas pela Central Única de Favelas (CUFA), em parceria com a Rede Globo.

Estima-se que 16 milhões de pessoas estiveram diretamente envolvidas em atividades esportivas que aconteceram em dezenas de cidades de todos os Estados do país.

Na condição de sede dos jogos olímpicos de 2016, a cidade do Rio de Janeiro concentrou a maior parte dessas atividades, promovendo mais de quatro mil eventos.

Mas o Viradão Esportivo também chamou atenção pelas estranhas e nada olímpicadas modalidades esportivas praticadas Brasil afora, longe da capital fluminense (na foto do topo, “Futlama”).

O basquete sobre rodas é bem comum se comparado a outras modalidades esportivas...

O basquete sobre rodas é bem comum se comparado a outras modalidades esportivas do Brasil...

Não falo aqui de nem de modalidades “quase” incorporadas à prática esportiva nacional, como o basquete de rua e a peteca. Nem de modalidades aventureiras em ambiente urbano (parkour) e natural (corridas de aventura e rapel).

No Viradão Esportivo se fazem presentes vários tipos de dança – street dance, salão, rap, capoeira, maculelê, balé e até mesmo tango (!) –; oficinas de arte circense, teatro, violino e bolinha de gude;  campeonato de declamação, competições de bumerangue e pipa.

A turma do motor também participam. Durante a madrugada entre sábado e domingo, os habitantes de Pelotas (RS) puderam curtir o “Arrancadão”, uma disputa de arrancada entre os possantes da cidade.

Em Praia Grande (SP), as manobras radicais ficam são feitas sobre duas rodas, em motos. Mas nada é tão “esportivo” quantos os carangos de Goiana (PE), que participaram da Competição de Som de Automóveis.

Muitas cidades – muitas mesmo – deram destaque para os “esportes boêmios”, aqueles que a gente joga sentado, de preferência numa mesa de barzinho: xadrez, damas, dominó, truco, dentre outros.

Essa foi a 16a. edição da Corrida de Jegue de São Gonçalo do Amarante

Essa foi a 16a. edição da Corrida de Jegue de São Gonçalo do Amarante

Também sentados, só que nesse caso por necessidade, os competidores disputam o “basquete sobre rodas” com as mesmas regras do basquete tradicional, tanto em Natal, quanto em Dourados (MS). Na cidade do centro-oeste, quem ganhou a competição foi a equipe de cadeirantes Dourados sobre Rodas.

O movimento LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros) esteve bastante ativo no Viradão. Na madrugada entre sábado e domingo, exatamente à meia-noite, na Praça do Barão, em Macapá, uma multidão assiste ao Queimadão do Barão, uma disputa de queimada (também conhecida por baleado).

Criado em 2005 por um grupo de homossexuais, o Queimadão do Barão virou uma febre na cidade, concentrando platéias de até três mil pessoas e fazendo disputas divertidas, como “heteros versus homossexuais”.

Na Parada Gay, a corrida de salto era a modalidade mais adequada

Na Parada Gay, a corrida de salto era a modalidade mais adequada

Já em Natal, em plena Parada Gay, o Viradão Esportivo realizou a mais adequada competição para o momento: a corrida de salto alto! Oito “atletas” participaram da disputa, cujo objetivo era percorrer  os 60 metros “altos”. Isso tudo, obviamente, sem cair do salto (o que aconteceu apenas com uma delas). Ganhou a corrida a “quenga” Ohana Savashe, que levou para casa um vale de R$ 100,00 para comprar adereços para a próxima fantasia de carnaval.

Também no Rio Grande do Norte, em São Gonçalo do Amarante, aconteceu a 16a. edição da Corrida do Jegue, um evento que já faz parte do calendário municipal. Cerca de 60 animais participaram da disputa, que premiou tanto o jegue mais rápido quanto o mais ornamentado.

Em Juiz de Fora (MG), outro animal acompanhou o homem numa atividade esportiva inovadora, a cãominhada. Doze duplas, formadas por cachorro e dono, fizeram quatro horas de treeking nas montanhas do entorno do bairro de Lourdes, na cidade mineira. “Lembrei que tinha visto uma reportagem e resolvi fazer algo parecido”, diz Carlos César Pinho, organizador do evento.

Algumas modalidades do Viradão pelo Brasil são curiosamente adaptadas daquelas mais conhecidas. Na beira do Rio Amazonas, em aconteceu o Futlama, um torneio de oito times disputado com uma bola impermeável na praia de Aturiá.

o homem e seu melhor amigo fazendo treeking*

Cãominhada: o homem e seu melhor amigo fazendo treeking*

Em Natal, no Parque das Dunas, o xadrez virou “xadrez gigante”, com peças de um metro de altura.  No mesmo local, uma modalidade esportiva que eu ainda não conhecia: o speddy ball, um jogo em que uma bola em forma de gota é presa por uma corda a um mastro e o objetivo de cada pessoas ou dupla é enrolar totalmente a bola no mastro.

Nos quarto cantos do país, o Viradão Esportivo exibiu novas modalidades esportivas. Em Matinhos (PR), as pessoas disputavam o boardball. Em Porto Alegre, o “Futebol de Parede” e em Sorocaba, o Trigolbol, cujo campo é triangular (!). Não perguntem a este blogueiro como funcionam porque, realmente, é muita novidade.

*A “cãominhada” da foto não é a do Viradão Esportivo, mas de outro evento também em Juiz de Fora, promovido pela LC Adestramento.

(fotos: Isaías Carlos (jegue)/ CUFA-RN (corrida de salto)/ CUFA-MS (basquete)/ LC Adestramento (cãominhada)/ divulgação)

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5 de novembro de 2009

“A propriedade intelectual talvez tenha sido um erro”, diz presidente da Federação Internacional pela Diversidade Cultural

Começou hoje, em Salvador, o Encontro Internacional da Diversidade Cultural. Durante o evento, que se estende até o dia 8/11, organizações culturais, estudiosos e gestores públicos de mais de 40 países debatem o futuro da diversidade cultural no mundo.

O ponto de partida de todos os participantes para a discussão é a Convenção sobre a Proteção e a Promoção da Diversidade das Expressões Culturais, adotada pela Conferência Geral da UNESCO em outubro de 2005, como resposta a tentativa de algumas nações de tratar bens e serviços culturais no âmbito da Organização Mundial do Comércio, como se fossem um produto qualquer. Atualmente, a Convenção já foi ratificada por mais de 103 países.

Pouco após a solenidade de abertura do evento, o Blog das Ruas conversou com Rasmané Ouedraogo, presidente da Federação Internacional das Coalizões pela Diversidade Cultural (FICDC).

Além de organizadora do evento, a FICDC é a única entidade civil em todo o mundo com assento na UNESCO, o que lhe dá direito a pronunciar-se em todas as reuniões da entidade, que é o braço da ONU voltado para a educação, a ciência e a cultura.

Cidadão de Burkina Faso, Ouedraogo defende a participação ativa dos países em desenvolvimento na luta pela promoção da diversidade cultural. “A criatividade está nos países pobres, mas o mercado não está lá. Aqueles que criam precisam também se beneficiar dos lucros”, afirma.

"os pa�ses em desenvolvimento têm todo interesse em defender a diversidade cultural"

Rasmané Ouedraogo: "os países em desenvolvimento têm todo interesse em defender a diversidade cultural"

Segundo o presidente da FICDC, os países adotaram uma lógica econômica que faz com que ajam contra a sua própria população. “A última crise econômica no mundo nos mostrou que os Estados estão errados”, diz.

Rasmané Ouedraogo chega até a questionar a utilidade das legislações de respeito à propriedade intelectual:

- No seio da população não existe propriedade intelectual. Há uma partilha natural da herança comum. A noção de propriedade intelectual brotou quando se começou a falar de dinheiro. Será que este não é um erro que estamos pagando hoje? Eu mesmo me faço essa pergunta - argumenta.

Veja abaixo a íntegra da entrevista.

O senhor considera que a diversidade cultura hoje seja um valor compartilhado pela humanidade ou esse ainda é um esforço a ser feito?

A diversidade cultural é compartilhada pelo mundo. Mas o nosso grande esforço deve ser de preservar essa diversidade, porque essa riqueza está sendo ameaça atualmente.

Quais são os principais obstáculos à implantação, via políticas públicas nacionais, da convenção sobre a diversidade cultural?

Primeiro, é preciso que em cada país haja uma vontade política definida e assumida de promover a cultura.

Segundo, é preciso mobilizar a população em torno dessa convenção; explicá-la à população. Para que, em um certo ela mesma possa apreender e assumir a convenção pela diversidade cultural. Porque esta é a primeira convenção que vai ser implementada não pelos Estados nacionais, mas pelos agentes culturais na base.

Muitas vezes, trata-se da questão da diversidade considerando apenas as questões nacionais. O Brasil é um dos poucos países onde mais de dois terços da música consumida é produção nacional. Ainda assim, nós, brasileiros, reclamamos da falta de diversidade no consumo musical. O senhor considera que os países estão preparados para tratar do tema com este nível de complexidade?

Na realidade, o problema não é complexo. O problema é simples porque o povo vive sua própria cultura. O problema são os Estados haverem se inserido numa lógica econômica que faz com que acabem combatendo a sua própria população.

A última crise econômica no mundo nos mostrou que os Estados estão errados. E depois, como por milagre, cada um volta a se refugiar nos seus valores culturais próprios.

Eu acho que o Brasil não deveria temer nada, mas de qualquer jeito é importante exigir que o Estado respeite as convenções que ele assinou.

Como proteger e promover expressões culturais do mundo em rede, que não tem fronteiras nacionais e questiona a forma tradicional de se conceber os direitos autorais?

Quando nos falamos de rede, imediatamente falamos de superestrutura. Ora, a cultura se vive desde a base. E na base não existem fronteiras. A realidade econômica leva a um tipo de institucionalização que provoca o problema.

Nossa federação tem esse embate com a questão da economia. No seio da população não existe propriedade intelectual. Há uma partilha natural da herança comum. A noção de propriedade intelectual brotou quando se começou a falar de dinheiro. Será que este não é um erro que estamos pagando hoje? Eu mesmo me faço essa pergunta.

Em que medida o protagonismo político recente dos países em desenvolvimento pode contribuir para a promoção da diversidade cultural no mundo?

Os países em desenvolvimento hoje têm interesse a se engajar na luta pela promoção da diversidade cultural. Porque quando vemos o que acontece em nosso entorno, no mundo, percebemos que a riqueza cultural acaba sendo embolsada por um pequeno número de privilegiados.

Quando nós falamos de indústrias culturais, falamos da conjunção entre criatividade, inventividade, novas tecnologias e o mercado. A criatividade está nos países pobres, mas o mercado não está lá. Afirmamos, portanto, que há uma injustiça. Aqueles que criam precisam também se beneficiar dos lucros. Logo, países em desenvolvimento têm interesse em proteger a diversidade, a fim de poder partilhar as vantagens.

(fotos: Thiago Fernandes/ COMUNIKA Press)

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28 de setembro de 2009

BA: Mãe de Santo até hoje tenta reaver prejuízos de terreiro demolido por prefeitura

Ialorixá busca ressarcimento por danos causados com demolição. Caso completa um ano e sete meses sem mostras de ser resolvido. “Perdi muitas coisas, perdi filhos de santo, teve até gente que morreu”, diz a mãe de santo.

Desde a demolição parcial do terreiro de candomblé Oyá Onipó Neto, localizado no bairro do Imbuí (Salvador), em 27 de fevereiro de 2008, a rotina de Roselice Santos do Amor Divino, a Mãe Rosa, passou a incluir audiências e visitas constantes à Prefeitura de Salvador.

Na próxima quarta-feira (30/09), comparece a uma audiência no setor de meio ambiente do Ministério Público. São tantas que a própria mãe de santo tem dificuldades para determinar com clareza os seus objetivos.

- Olhe, meu filho, é tanta audiência que a gente nem sabe mais direito para que é. Acho que é para eu ter uma garantia que não vão tentar demolir o terreiro de novo - conta a ialorixá.

Na lista de audiências, Mãe Rosa também aguarda o julgamento do recurso da ação que move contra Kátia Carmelo, ex-superintendente de Controle e Ordenamento do Uso do Solo do Município de Salvador, que ordenou à época a demolição do terreiro.

O judiciário deu ganho de causa a Carmelo em primeira instância. “O Juiz entendeu que ela estava certa”, comenta Mãe Rosa, com algum rancor na voz. Paradoxalmente, ainda no ano passado a ex-superintendente chegou a receber uma honraria da cidade de Salvador, a Comenda Maria Quitéria.

- Eu não desejo que ela vá presa. Quero que ela seja punida, me dando de volta tudo o que ela destruiu - comenta Mãe Rosa sobre a ação contra Kátia Carmelo.

A peregrinação pelas diversas instâncias judiciais não se compara, no entanto, com a dificuldade que a Ialorixá tem para negociar o ressarcimento dos prejuízos causados ao terreiro.

O Blog das Ruas já havia feito uma matéria sobre a situação do terreiro Oyá Onipó Neto em 16 de setembro do ano passado. Na época, a mãe de santo foi diagnosticada de depressão porque a prefeitura tinha apenas reparado as paredes do local, sem recuperar nada do patrimônio destruído, como estátuas e roupas dos orixás e vários outros instrumentos utilizados nos rituais. “Só mexeram na casca”, dizia a Ialorixá.

Desde então, as negociações nada avançaram e a municipalidade não aportou mais nada, apesar dos esforços da mãe de santo.

- De promessa, se vive o santo. O prefeito prometeu: “vou ajeitar”, ele disse. Dali pra cá, vi a cara do prefeito naquele dia [cinco de março de 2008, quando o povo de santo fez uma passeata até a prefeitura]. Depois, não vi mais - fala, indignada.

Mãe Rosa conta que, inclusive, a Secretaria Municipal de Reparação, órgão com o qual negocia a reposição dos bens do terreiro, chegou a perder toda a sua documentação.

- Meus documentos sumiram na Secretaria de Reparação. Deram fim. Mas como tenho tudo no Ministério Público, fui até lá e peguei a lista novamente e levei para o novo secretário.

Apesar de ter conseguido uma audiência com o secretário municipal, não conseguiu convencê-lo a repor o patrimônio destruído.

- Ele disse que tem coisa que não poderia dar. Mas eu respondi: “Essa é a minha cultura. Se destruiu tem que recuperar desse jeito”. Não pedi nada, só o que já tinha aqui - afirma Mãe Rosa.

Do secretário Ailton dos Santos Ferreira, ouviu a promessa de uma audiência em breve com o prefeito João Henrique Carneiro. “Ele disse que entraria em contato comigo e nada. Toda vez que eu ligo, ele [o secretário] nunca está”, reclama.

Sem perspectiva de solução para o terreiro e com a questão encaminhando-se para o segundo aniversário, Mãe Rosa desaba:

- Perdi muitas coisas, perdi filhos de santo, teve até gente que morre. Eu tenho que recomeçar tudo de novo.

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21 de setembro de 2009

Conte uma história que mudou o mundo!

Tags:, , , - iurirubim às 6:50

O Museu da Pessoa lança hoje (21/9) uma campanha muito bacana: Histórias que Mudam o Mundo.

A ideia, simples e contundente, é filmar, em um minuto, histórias de mudanças - grandes ou pequenas - que fazem do mundo um lugar melhor. E que muitas vezes estão à nossa volta, mas nós, ocupados demais com o cotidiano, não percebemos.

O mineiro Tião Rocha, do CPCD, é uma das pessoas cuja história mudou o mundo

O mineiro Tião Rocha, do Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento (CPCD), mudou o mundo

“Para participar, você só precisa de uma câmera na mão e de uma boa história”, diz a organização. Além de enviar vídeos, os internautas podem votar em suas histórias favoritas pelo portal do Museu da Pessoa.

- Nosso objetivo é mobilizar pessoas de todo o Brasil a registrarem, em vídeos de um minuto, os mais variados tipos de mudanças que podem acontecer nas vidas das pessoas e a partir das quais podemos transformar nosso olhar sobre o mundo. Vale qualquer mudança, das mais cotidianas às mais extraordinárias atitudes transformadoras - diz o texto que apresenta a campanha.

Em maio do anão passado, o Blog das Ruas fez uma matéria sobre o Museu da Pessoa e o seu trabalho de registro de histórias de vida.

Que tal agora ser você a contar uma história que mudou o mundo?

(foto: Museu da Pessoa)

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18 de setembro de 2009

AL: Família transforma casa em biblioteca infantil

Imagine uma casa em que todos os cômodos, menos os quartos, são tomados por livros e brinquedos. Uma casa com duas cozinhas, a primeira delas ocupada por uma biblioteca; a outra, por uma brinquedoteca. A sala de jantar e a garagem são usadas como salas de estudos. A sala de visitas, como pinacoteca.

Essa casa existe e fica na periferia de Arapiraca, em Alagoas. “Hoje, para os seus dez moradores, a casa “tradicional” se resume só os quartos, por enquanto”, diz Maria das Neves da Silva, servidora pública municipal e mãe de Clarinha Gonçalves (acima, na foto principal), a maior responsável pela “redecoração” dos ambientes.

Foi por causa da paixão de Clarinha pelos livros que a família começou, até meio sem saber o que estava fazendo, o projeto de transformar a casa numa biblioteca infantil.

- Com cinco meses, ela já dedicava uma atenção especial aos livros. Pouco antes de completar quatro anos, pegava os livros e “lia” pausadamente, como se já fosse alfabetizada. Isso fez com que o pai, a avó e outros membros da família começassem a dar livros de presente - relembra Maria das Neves.

Clarinha adora a casa "diferente". Seus coleguinhas também!

Clarinha adora a casa "diferente". Seus coleguinhas também!

Os livros continuaram chegando e o quarto de Clarinha ficou pequeno. Os presentes foram parar na antiga cozinha da casa e foi assim que nasceu a “Tequinha”, como a família de Clara carinhosamente chama a bibliotequinha da menina.

- É como se eu tivesse duas filhas gêmeas, a Clara e a “Tequinha”. Aqui na cidade não se tem muito lazer. A diversão são os bares e clubes. Não quero isso para minha filha - afirma Maria das Neves.

Daí em diante, a “filha mais nova” da senhora Neves só fez crescer e ocupar mais espaços na casa. Ao ponto da cozinha nova nunca ser inaugurada e virar a brinquedoteca. Atualmente, a família usa a cozinha da tia de Clara, na casa vizinha.

As atividades da biblioteca tomam todos os espaços da casa. Até o jardim.

As atividades da biblioteca tomam todos os espaços da casa. Até o jardim.

Inaugurada há dois anos, a biblioteca serviu também para facilitar a interação de Clara com os amiguinhos.

- Os coleguinhas dela vinham aqui em casa para brincar e, quando chegavam, Clara estava lendo. ‘Volte depois’, eu dizia. Uma amiguinha dela dizia que ‘a Clara só quer brincar de escola’ (risos). O pior é que quando os coleguinhas voltavam ela ainda estava lendo! Então resolvemos pedir para eles entrarem e começarem a ler também - conta a mãe de Clara.

Hoje com 10 anos, a pequena Clara adora a “casa diferente” que tem. Lê cerca de 20 livros por mês. Gosta muito da Coleção do Querido Diário Otário (12 edições) e dos gibis da Turma da Mônica.

- A minha casa é muito legal, assim diferente. Gosto muito da biblioteca e da brinquedoteca. Meus amigos também. Eles não lêem tanto quanto eu, mas também gostam de ler e de vir aqui - conta Clarinha.

Antes de ser inaugurada, a nova cozinha da casa tornou-se uma brinquedoteca

Antes de ser inaugurada, a nova cozinha da casa tornou-se uma brinquedoteca

Atualmente, a casa de Clarinha é aberta à visitação pública, inclusive de escolas da cidade. As visitas de escolas duram em geral uma hora.

- Temos que dar acesso, democratizar o livro. A gente libera tudo: o corredor, o jardim. Queremos que a Tequinha seja um lugar sedutor e aconchegante para criança ler. A gente sabe que a criança quando é estimular desde cedo pode se tornar leitora. E, se deixar, elas ficam o dia todo lá! - afirma Maria das Neves.

Antes de terminar a conversa, Maria das Neves me faz uma última confidência: “Ainda quero fazer uma Cinemateca, será que cabe?”.

(fotos: Acervo Tequinha)

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21 de agosto de 2009

BA: Escritor de apenas 10 anos lança segundo livro

O pequeno Gabriel Francisco Maciel é um brasileiro diferente. Aos 10 anos, lê cinco livros por mês, mais do que a média de leitura dos outros brazucas em um ano (4,7 livros/ano, segundo pesquisa do Instituto Pró-Livro). “Eu não resisto a um livro”, diz Gabriel.

Mas a surpresa não para por aí não. Hoje, às 14h, Gabriel lança o seu segundo livro (!) na biblioteca Juracy Magalhães Jr., no bairro do Rio Vermelho (Salvador).

Nada mais apropriado, na visão deste blog, que o título da obra: O Pequeno Grande Herói.

O livro conta a história de Pedro, Juca e Juliana, irmãos que moram numa casa habitada por fantasmas. Mostra a união entre os irmãos e a coragem que será necessária para viverem esta aventura. “Gosto de livros de ação”, conta o autor.

Gabriel tem um currículo invejável. Aos quatro anos, já dominava a arte da leitura e da escrita; aos seis, ganha um concurso de poesia da rede Municipal de ensino. Com oito, lança seu primeiro livro, Histórias do Folclore, na Biblioteca Monteiro Lobato. No mesmo ano recebe a medalha Nosso Talento da Secretaria Municipal de Educação de Salvador.

Um prodígio educado com os melhores e mais caros professores disponíveis? Que nada! Gabriel mora em Mussurunga I, bairro popular de Salvador, e cursa a 6ª série no Colégio Estadual Pinto de Aguiar. Para editar seu último livro, a mãe, Dona Clara, teve que tomar um empréstimo no banco.

- Mãe até escreveu umas cartas para o Ministério da Cultura, mas ninguém deu atenção, afirma o autor.

Para editar o livro, a mãe de Gabriel teve que tomar um empréstimo no banco

Para editar o livro, a mãe de Gabriel teve que tomar um empréstimo

Pergunto a Gabriel se espera vender todas as 500 cópias disponíveis no lançamento (a R$ 10,00 cada), até para poderem pagar o empréstimo. Sereno, o jovem autor responde:

- Se não vender tudo, vamos para o Campo Grande (praça no centro de Salvador) ou para a praia vender o resto. Já fizemos isso o outro [Histórias do Folclore] - diz.

Como toda criança de 10 anos, Gabriel Francisco Maciel não dá respostas longas e nem encumprida o papo. É pá-puff. Leia abaixo a íntegra da entrevista com o surpreendente autor-mirim.

Gabriel, quando você decidiu escrever um livro?

Eu sempre gostei de ler. Aí um dia me deu vontade de escrever o meu próprio livro.

Quantas páginas ele tem? E o anterior?

Histórias do Folclore tem 42 e o esse (O Pequeno Grande Herói) tem 42.

E o que os seus colegas de escola acham disso?

Os garotos de lá não acreditam. Me mãe levou o convite outro dia, mas ninguém liga não.

E que tipo de livros você gosta de ler?

Harry Potter, livros de ação, Hugo, o Homem…

E qual livro você está lendo agora?

Estava lendo Harry Potter e a Ordem da Fênix, mas já acabei.

Você tem ideia de quantos livros você lê por mês? Uns dois?

Devo ler uns cinco por mês. Acho que é isso.

Uau! Você sabia que essa quantidade é bem superior, muito mesmo, à média dos brasileiros?

É, o povo não se interessa pela cultura.

Gabriel, no lançamento de seu primeiro livro, "Histórias do Folclore", em 2007

Gabriel, no lançamento de seu primeiro livro, "Histórias do Folclore", em 2007

Como você faz com os livros? Compra, pega emprestado, vai a uma biblioteca…

Normalmente eu compro. Não gosto de pedir coisas emprestado. Mas já usei biblioteca sim. Eu não resisto a um livro.

E você qual é o primeiro livro que você consegue lembrar ter lido?

Hummm (consulta a mãe), é foi esse mesmo: Bazar do Folclore, de Ricardo Azevedo. Eu li quando tinha cinco anos. Tenho até hoje. É um livro muito bom.

Você escreve no papel ou no computador? Quanto tempo levou para escrever O Pequeno Grande Herói?

Escrevo direto no computador. Acho que levei um mês para fazer o livro. Mas demorou demais assim foi mesmo para editar.

E como você faz para editar esses livros? Alguém financia?

Mãe até escreveu umas cartas para o Ministério da Cultura, mas ninguém deu atenção. Aí ela teve que pegar um empréstimo no Banco.

São quantas cópias?

São quinhentas cópias.

Acha que vai vender todas no lançamento?

Se não vender, eu e minha mãe vamos para a Praça do Campe Grande ou para a praia vender. Já fizemos isso com o outro.

E você já está planejamento escrever outro?

Não, ainda não pensei em nenhum assunto.

(fotos: ASCOM/ Fundação Pedro Calmon)

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19 de agosto de 2009

GO: Festival celebra 120 anos de Cora Coralina

A região cento-oeste festeja hoje a sua maior poetisa. Às 19h, no museu Casa de Cora Coralina, acontece a abertura oficial do Festival Cora Viva Coralina, que vai até o dia 23 de agosto.

A miríade de atrações presente no Festival sugere o alcance da poesia da escritora goiana. Além da esperada declamação de poemas, a Cidade de Goiás ganha roteiros Poético e Gastronômico, alvorada festiva, exposição fotográfica, debate acadêmico, desfile de moda, exibição de vídeos, shows e espetáculos teatrais inspirados na obra de Cora Coralina.

- A cidade inteira está mobilizada para o Festival. Cora viva dizendo que era a geração vindoura que iria entender o significado de sua obra. Ela pensou que a palavra dela seria para o futuro. A semente está florescendo - diz Marlene Vellasco, presidente da Associação Casa de Cora Coralina, que gerencia o museu da poetisa.

Dentre os destaques da programação, estão uma visita pelo Museu Casa de Cora Coralina, guiada e “cantada” pelo músico Daniel Melo, com a apresentação de poemas da escritora; o espetáculo Cora Coralina, Coração Encarnado, eleito pela crítica de O GLOBO como um dos dez melhores espetáculos do ano de 2006; e um show especial de Zeca Baleiro, intitulado: “Minha Cora, minha Coralina, mais de um Goiás de amor carrego, destino de violeiro cego”.

Unindo os dois maiores prazeres de Cora Coralina, escrever e cozinhar, o Festival também promove um recital de poemas aliado à degustação de doces e um roteiro gastronômico que enfatiza comidas da infância de Cor, quando ela ainda vivia na Fazenda Paraíso, como frango caipira e comida de tropeiros. O roteiro gastronômico se permite ainda algumas inovações inspiradas na culinária da época, como a peculiar pizza de pequi.

A poetisa tinha para si que seu maior dom era o de doceira. “A senhora é uma artista, admirável em sua arte, a mais nobre das artes, a da culinária”, disse-lhe em certa ocasião Jorge Amado.

Poesia e culinária eram as duas grandes paixões de Cora Coralina

Poesia e culinária eram as duas grandes paixões de Cora Coralina

O Festival Cora Viva Coralina comemora, ainda, o Dia do Vizinho, criado pela própria escritora em 1980.

- Cora morou a vida inteira fora de Goiás. Ela dizia que o vizinho é pessoa mais próxima que se tem. Fez inclusive um poema falando sobre isso. Ela dizia sempre que queria que o dia de seu aniversário, diz 20 de agosto, fosse encarado como um dia de confraternização, de partilha com o próximo. Criou então o Dia do Vizinho - explica Marlene Vellasco.

Desde então, a Cidade de Goiás celebra a data. Em 1982, transformou-se em Lei Municipal. Uma grande mesa é montada na porta da igreja e a prefeitura oferece um grande bolo à população. “Mas todos os vizinhos também levam bolos. A cidade inteira espera Dia do Vizinho”, conta Vellasco.

O Festival termina neste domingo na Cidade de Goiás, mas os poemas de Cora Coralina voltam a estar em destaque no dia 28 de setembro, em São Paulo, quando será aberta a exposição Cora Coralina Coração do Brasil, com cenografia de Daniela Thomas, no Museu da Língua Portuguesa.

Até hoje, apenas quatro outros escritores brasileiros ocuparam a sala principal do Museu da Língua Portuguesa: Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Gilberto Freyre e Machado de Assis.

A vida começa aos 50

Considerada uma das maiores poetisas de Língua Portuguesa do século XX, Cora Coralina nasceu Ana Lins dos Guimarães Peixoto, em 20 de agosto de 1889, na Cidade de Goiás.

Aos 14 anos, escreveu seus primeiros contos e poemas. Em 1910, aos 21 anos de idade, quando publicou o conto Tragédia na Roça, publicado no Anuário Geográfico e Histórico, passou a ser conhecida pseudônimo Cora Coralina, que usaria para o resto da vida.

Para Cora, uma mulher a partir dos 50 anos é uma "mulher liberta"

Para Cora, uma mulher a partir dos 50 anos é uma "mulher liberta"

Após um longo período morando em São Paulo, volta a Goiás e à literatura nos anos 50. “Ela dizia que tinha um porãozinho dentro da cabeça. Quando voltou a Goiás, passou a produzir a maior parte de sua literatura”, conta Marlene Vellasco.

Curiosamente, a escritora costumava dizer que uma mulher se liberta quando completa 50 anos. “Ela dizia que, aos 50, já criou filho e neto e vive própria vida, é uma mulher liberta. Aos 70, pode dizer e viver tudo que quiser”, lembra Marlene.

Publicou seu primeiro livro, Poemas dos Becos de Goiás, somente em 1965, aos 76 anos. Alguns anos mais tarde, ao ter sua poesia conhecida e receber elogios de Carlos Drummond de Andrade, Cora Coralina passou a ser admirada por todo o Brasil.

Em 1983, dois anos antes de sua morte, foi eleita intelectual do ano e contemplada com o Prêmio Juca Pato da União Brasileira dos Escritores.

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7 de agosto de 2009

Cordel conta chegada de Michael Jackson no Céu

A tradição da literatura de cordel é particularmente sensível aos momentos de comoção. Quando algum acontecimento, nacional ou internacional, mobiliza as massas, certamente um cordelista estará traduzindo em versos o ocorrido.

- O cordel tem também uma função jornalística. Há muito tempo, é um meio que o povo do sertão usa para se interar dos grandes acontecimentos. Foi assim com Lampião, Getúlio Vargas, Tancredo Neves e até com Leandro, cantor daquela dupla sertaneja - conta o cordelista alagoano João Gomes de Sá.

Pois foi o próprio João Gomes de Sá que, ao lado do companheiro Klévisson Viana, escreveu sobre a morte de Michael Jackson, um dos acontecimentos mais acompanhados, discutidos e lamentados da história recente.

Juntos, publicaram A Chegada de Michael Jackson no Portão Celestial. Apenas no primeiro dia após o seu lançamento, a obra teve 2500 folhetos vendidos nos pontos de ônibus de Fortaleza - local comum de venda de cordéis na capital cearense.

Eu sonhei que o rei do pop,
Logo após bater as botas,
Foi direto para o céu,
Fazendo muitas marmotas,
Cantando muito agitado
Feliz, tinha se livrado
De dívida, banco e agiotas.

- O que eu fiz foi uma releitura desse grande fato mundial. Apenas reproduzi algumas manifestações do sentimento do povo. Com alguns gracejos da minha parte - brinca o João Gomes de Sá.

Por “gracejos”, o poeta se refere a críticas - algumas sutis, outras nem tanto - a vários setores da sociedade brasileira. Uma delas é a existência de uma burocracia no Céu, que impediria a “admissão” rápida do cantor.

- É o que a gente vê hoje no país. No Brasil, a gente morre é na fila. Em todo canto tem essa burocracia. Daí fiz uma brincadeira com ele do tipo: “Como você já morreu mesmo, né, cara, não tem problema esperar mais um pouquinho” - explica.

As críticas também não deixam a crise do senado passar em branco. Pedindo atendimento privilegiado, Jackson pergunta a São Pedro se não haveria nenhum ato secreto em seu benefício.

Mas São Pedro eu sou um astro
Famoso no mundo inteiro!
Não tem um ato secreto
Para me atender primeiro?
- Aqui é outro processo
Não é aquele Congresso
Lá do povo brasileiro!

Para a surpresa deste Blog, o autor do cordel conta que não era fã de Michael Jackson.

- As minhas filhas chegaram a chorar com a morte dele. Mas eu nunca tive nenhuma relação com ele, apesar de reconhecer que era um grande astro e admirar algumas coisas que fez, com a canção “We Are The World”. Quando fiz o cordel, fui solidário com as pessoas que sofriam por ele - explica.

João Gomes de Sá não era fã de Michale Jackson, mas suas filhas sim

João Gomes de Sá não era fã de Michale Jackson, mas suas filhas sim

O poeta chegou a ser bastante criticado pela publicação do cordel. Outros poetas populares reclamaram da atenção dada a um astro internacional, quando ídolos como Luiz Gonzaga não tiveram o mesmo tratamento.

- Talvez seja mesmo um pouco de xenofobia. Mas o que eu não agüento é ouvir isso de poetas que sabem que a literatura de cordel trabalha com grandes acontecimentos - reage.

Eu queria dançar mais
Sabe o senhor, não empaco,
Gostava de requebrar,
Pois eu sou bom nesse taco
Dançando eu faço munganga,
Às vezes visto uma tanga
Para prender o meu saco!


Sincronia

A parceria de João Gomes de Sá e Klévisson Viana não foi programada nem combinada. Foi mais um daqueles acasos que só acontecem poucas vezes na vida.

Inspirado pelos noticiários e pela charge de um amigo, Gomes de Sá começou a fazer um cordel. Quando já tinha produzido boa parte da obra, ligou para Viana e descobriu que o colega poeta estava fazendo a mesmíssima coisa. Resolveram então publicar um cordel só, tamanha a sincronia.

As estrofes destacadas acima pertencem ao cordel “A Chegada de Michael Jackson no Portão Celestial”.

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1 de agosto de 2009

Centenário de Patativa do Assaré tem homenagem de ex-menino de rua, afilhado do poeta

Caso estivesse vivo, Antônio Gonçalves da Silva, o Patativa do Assaré, chegaria aos 100 anos em 2009.

Nascido em 5 de março de 1909, Patativa era considerado o maior repentista do Brasil. Semiletrado e dono de uma obra alto teor social, o poeta foi estudado por diversas universidades, inclusive estrangeiras. Seus versos, cantados por grandes nomes da música brasileira, a começar por Luiz Gonzaga.

Noite passada. O centenário do mestre cearense é celebrado pelo II Vozes de Mestres - Encontro Internacional de Culturas Populares, em Ouro Branco (MG). No palco, o cantor José Fábio dedica um show inteiro ao poeta de Assaré.

Quando Patativa conheceu o cantor, ele não era José Fábio, e, sim, Zezinho, um menino de rua de seis anos de idade, que dormia pelas praças de Assaré. “O poeta sempre me tratou por Zezinho”, diz.

Antes de conhecer Patativa, a vida do então menino de rua era muito difícil. “Eu era muito explorado. Fugia de casa e cantava para recolher dinheiro nas paradas de ônibus. Muitas pessoas queriam lucrar às minhas custas”, revela o cantor.

Impressionado com aquela criança que saia de casa para ajudar no sustento da família, Patativa passou a dar conselhos e incentivos a José Fábio, que também recebeu de presente o poema “Menino de Rua”.

O encontro com aquele senhor de chapéu, óculos escuros e bengala, que gostava de poesia, foi fundamental na vida de Zezinho. “Ele foi pegando aquele carinho por mim. Tentava me ajudar de alguma forma, sempre me incentivando a estudar”, diz o crescido José Fábio. “Ele inspirou em mim essa vontade de ser alguém”, completa.

Entretanto, a ajuda Patativa não podia ser material porque o próprio repentista não dispunha de recursos.

- Tem uma coisa que ninguém fala, mas o poeta era pobre. Era rico em nome e na sua arte. Mas sempre foi pobre - revela José Fábio.

Aos 10 anos, em 1993, um produtor, José Ribamar, o Rebinha, levou Zezinho para São Paulo.

- Ele era um grande conhecedor do poeta. Começou a querer levar eu para São Paulo. Teve que ir o Prefeito de Assaré e outras autoridades lá em casa convencer minha mãe. Disseram que ele poderia me ajudar. Aí minha mãe cedeu a guarda para ele, que virou meu tutor - lembra o cantor.

Ainda em 1993, gravou o primeiro disco, com quatro composições de Patativa, “inclusive Menino de Rua, que fez para mim”.

Para gravar o disco, participou da campanha, em São Paulo, do empresário e candidato a deputado Zé de Abreu. “Ele me prometeu: ‘Se você ajudar na minha campanha, eu gravo seu CD. Se ganhar, eu gravo. Se não ganhar, gravo também’”, relata o diálogo José Fábio.

- Ah, ele se elegeu! Nós elegemos ele duas vezes! - diz o cantor.

Em 1999, já “com a voz engrossada”, o cantor gravou o CD “José Fábio canta Patativa do Assaré”, com direção musical de Téo Azevedo e participações de Dominguinhos, Alcymar Monteiro e Jackson Antunes.

Ceumar e Pererê também tocaram na noite de ontem, no Vozes de Mestres

Ceumar e Pererê também tocaram na noite de ontem, no Vozes de Mestres

Morando em Belo Horizonte, José Fábio não volta para sua terra, o Ceará, há nove anos. Soube da morte de Patativa pela televisão e, como não tinha dinheiro na época, não pode se despedir do padrinho artístico.

- Você tá doido… Soube quando falaram no Jornal Nacional. Fiquei sem chão porque era um padrinho meu. No dia que fiquei sabendo, estava sem nenhum. Não pude ir prestar minha ultima homenagem. Já tem nove anos que não vou na minha terra. Gostaria de ir lá todo dia cinco de março, quando comemoram o aniversário do poeta - explica, com certa tristeza.

Vozes de Mestres

O II Encontro Vozes de Mestres foi aberto no dia 23 de julho, em Belo Horizonte, e depois seguiu para Ouro Branco, onde acontece até amanhã. Ainda este ano, será levado a sete cidades brasileiras: São Luis, Belém, Florianópolis, Curitiba, Natal, Goiânia e Joinville (SC), dentro do projeto Centro Cultural Banco do Brasil Itinerante.

(fotos: divulgação/ II Encontro Vozes de Mestres)

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30 de julho de 2009

CE: Cortejo lembra revolução republicana de 1824

Hoje, pelo quarto ano, o Cortejo dos Confederados toma as ruas de Fortaleza. Constituído por grupos de teatro, samba, reisado, capoeira, quadrilha e índios, o desfile é uma encenação festiva da marcha dos condenados, quando os líderes do governo revolucionário e republicano - instaurado no Ceará em 1824 - caminharam para o pelotão de fuzilamento. O cortejo também comemora o Dia Estadual do Patrimônio Cultural, 30 de julho.

Cento e oitenta e cinco anos depois, os condenados são considerados heróis cearenses, que lutaram não apenas pela causa republicana, mas pela Independência do Brasil.

A Confederação do Equador, nome a que foi dado o movimento, é considerada atualmente um dos momentos mais destacados da História do Ceará. Teve, ainda, a participação de mais três Estados: Pernambuco, Rio Grande do Norte e Paraíba. Entre outros propósitos, o novo governo defendia a abolição da escravatura.

O Cortejo dos Confederados segue o mesmo trajeto percorrido pelos condenados. Às 15h, na Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção (10ª Região Militar), uma solenidade militar, antecede a saída do Cortejo, que chega às 18h, no Passeio Público. Lá, a encenação da execução dos heróis da Confederação do Equador encerra as atividades do dia.

Participam do Cortejo os grupos Quadrilha Zé Testinha, Maracatu Az de Ouro, Gajaral, Formosura de Teatro, Reisado Nossa Senhora das Dores, Viver Capoeira, índios Pitaguary, Cia Cordapés, Raízes Nordestinas, Escola de Samba Mocidade Independente da Bela Vista, Boi do Mestre Zé Pio, Caravana Cultural, Linda Canalha, além dos atores que formam a ala dos condenados e o público do Centro da cidade.

Artistas cearenses usam alegria e colorido para reinterpretar a marcha dos condenados

Alegria e colorido para reinterpretar a marcha dos condenados

Ao longo do trajeto, algumas paradas (autos) dão vida a outros momentos fundamentais da Confederação do Equador:

16h - Praça dos Leões: Apresentação de Reisado e Capoeira. Cena relacionada com a libertação dos escravos no Ceará, em frente à Igreja do Rosário. Manifestações dos confederados, em frente ao Museu do Ceará e ao Palácio da Luz;

16h30 - Praça do Ferreira: Manifestação dos confederados. Ritual do Torém, feito por Grupos Indígenas, apresentação de Grupos Culturais e encenação com os atores;

17h - Sobrado Dr. José Lourenço - Encenação do Manifesto dos Confederados;

18h - Passeio Público: Encenação dos fuzilamentos de Padre Mororó, Ibiapina, Carapinima, Azevedo Bolão e Pessoa Anta, com grupo de atores e grandes bonecos.

Confederação do Equador

A Confederação do Equador foi um movimento revolucionário, de caráter emancipacionista e republicano, ocorrido em 1824 no Nordeste do Brasil. Representou a principal reação contra a tendência absolutista e a política centralizadora do governo de D. Pedro I (1822-1831), esboçadas na Carta Outorgada de 1824, a primeira Constituição do país.

O Cortejo dos Confederados também celebra o Dia Estadual do Patrimônio Cultural

O Cortejo dos Confederados também celebra o Dia Estadual do Patrimônio Cultural

Em protesto ao monarquismo autoritário de Dom Pedro I, em 1814, o movimento se formou nos estados Ceará, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Paraíba.

Apesar das tentativas de negociação do Império, os revoltosos buscaram criar uma constituição de caráter republicano e liberal, além de abolir a escravidão e organizar forças contra as tropas imperiais. No Ceará, sob a chefia de Tristão Araripe instaurou-se um Governo Patriótico e Republicano.

Vencida a revolução pelo governo monarquista, os principais líderes cearenses - Padre Mororó, Carapinima, Azevedo Bolão, Padre Ibiapina e Pessoa Anta - foram executados pelas forças monarquistas, em fuzilamentos precedidos por cortejos que saíam da Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, encerrando no então Campo da Pólvora, hoje Passeio Público.

Tristão Araripe e os demais mártires da Confederação do Equador no Ceará ficaram conhecidos como os mais precoces e destemidos heróis patrióticos e republicanos do Estado.

(fotos: Secretaria de Cultura do Ceará)

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