Terra Magazine

5 de fevereiro de 2009

Vaqueira conta como desafiou Luiz Gonzaga na rima

Luiz Gonzaga, o mais nordestino de todos os cantores brasileiros, foi um dia desafiado nas rimas, em público, por uma vaqueira. Mais de trinta anos depois, Dina Maria Martins Lima, a Dina Vaqueira, conta ao Blog das Ruas como isso aconteceu.Para entender direito a história, temos que voltar ao ano de 1970 quando Dina - hoje diplomada Tesouro Vivo do Estado do Ceará - foi chamada pelo Frei Lucas Dolle para ajudar a organizar a Missa do Vaqueiro, em Canindé.

A Missa do Vaqueiro é o ápice de uma romaria a cavalo em agradecimento a São Francisco das Chagas. Atualmente, é a maior romaria a cavalo do Nordeste, contando com cerca de 1500 cavaleiros na sua 38ª edição, em 2008.

Em 1976, desafiando o Mestre Lua nas rimas
Em 1976, desafiando o Mestre Lua nas rimas

Na romaria de 1976, quando Dina Vaqueira chegou ao local da Missa, se deparou com Luiz Gonzaga cantando “Boiadeiro”. Deixo para a própria vaqueira contar o que aconteceu em seguida:

- Ele olhou pra mim e cantou assim: “Morena tão bonita, me diga onde você mora”.

Respondi, com todas as letras. “Eu moro bem distante, meu marido está ali fora”.

“Pois dê lembrança a ele, se arretire e vá embora”, ele emendou.

“Eu vou me arrentirando, mas não é com medo, não. É mostrando para o povo a minha boa intenção” - respondi novamente.

Foi então que Luiz Gonzaga me abraçou e disse: “Essa nega é das nossas!”.

Uma mulher entre peões, bois e cavalos

Dina Vaqueira cresceu na fazenda do pai, chamada Barra Canção, em Canindé. Dos 12 filhos, apenas ela gostava de lidar com a natureza. “fui crescendo, vendo pai na lida de gado, gostava era daquilo lá”, diz.

Aos 14 anos, dividia então o tempo entre a escola do município e as vaquejadas, para onde ia com José Augusto Queiroz, um amigo de seu pai.

- Nas vaquejadas, eu saía sempre como batedora. Sabe como é? Segurava no rabo do boi para os colegas pegarem o bicho - lembra.

A visita de um fazendeiro mudaria para sempre sua vida.

- Sei que graças a Deus chegou um dia um fazendeiro em fazenda de meu pai, procurando uma novilha dele. Meu pai me chamou e disse para ele: “só quem pode saber de aí é a Dina” - conta a vaqueira.

E lá foi Dina, acompanhada de seus cachorros, Perigo e Perigoso [ela sempre está com uma dupla de cachorros com esse nome; se um morre, arranja outro e põe o mesmo nome. Já teve três pares diferentes].

Ela não apenas encontrou, como derrubou a novilha e a entregou para o fazendeiro, que ficou admiradíssimo com toda aquela habilidade numa mulher. “Aí pronto: espalhou a fama da Dina Vaqueira”, conta a nossa personagem.

Hoje, Dina Vaqueira é um Tesouro Vivo da cultura cearense
Hoje, Dina Vaqueira é um Tesouro Vivo da cultura cearense

Por conta do trabalho, já caiu do cavalo duas vezes. Quebrou perna e clavícula. E também já sofreu preconceito.

- Ah, os homens falavam. Quando eu chegava numa vaquejada, só eu de mulher, aqueles recalcados diziam: “Já chegou a terror da vaquejada”. Ou então diziam que lá não era lugar de mulher. Mas eu sempre respondia: “lugar de mulher é onde ela se sente bem”. Comecei a conquistar o meu espaço. E com isso vieram as mulheres com ciúme dos namorados… (risos) - conta.

Dina se casou com o primeiro namorado, em 1972. “Era um homem muito bom e não me empatava de praticar esporte. Tive a vida que pedi a Deus”, suspira.

Mais tarde, o marido Fernando veio a falecer. “Ele teve uma dor de cabeça forte e morreu. Fiquei muito desestruturada”, conta Dina. Tocou a vida concentrando-se na associação de vaqueiros, boiadeiros e pequenos criadores, da qual fazia parte.

Matou a onça a pauladas

Um dos episódios mais marcantes de sua vida da vaqueira foi quando matou - junto com outros colegas - uma onça a pauladas.

- A gente matou uma onça. Foi eu sair com os colegas para campear e encontramos com a danada. Já tinha comido dois bezerros, matava muita criação. Os cachorros (Perigo e Perigoso) acuaram a onça numa caatinga. Matamos onça de pau - lembra.

Tesouro Vivo da Cultura, hoje Dina Vaqueira é presidente da associação dos vaqueiros, coordena o Grupo Som do Sertão. Participa do conselho da comunidade e é Conselheira da Lei Maria da Penha.

- Só não pego mais boi… com 56 anos não dá mais - confessa.

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13 de janeiro de 2009

“Com o apoio do governo, pago o plano de saúde”

iurirubim às 16:09

Quando foi imaginada, uma das prioridades da Lei do Patrimônio Vivo, em vigor em Pernambuco desde 2002, era garantir uma renda para que garantir a sobrevivência dos mestres populares e, consequentemente, a sua produção.

No caso de Camarão, mestre sanfoneiro de Recife, esse objetivo foi levado ao pé da letra:

- O incentivo do governo ajuda muito É com ele que pago meu plano de saúde – diz o Patrimônio Vivo de Pernambuco.

Uma das primeiras personalidades do estado a receber o título, Reginaldo Alves Ferreira tornou-se Mestre Camarão por conta de suas bochechas avermelhadas.

Durante um show para uma rádio local, o cantor Jacinto Silva brincou com as bochechas do cantor e, inadvertidamente, criou a alcunha que acompanharia Reginaldo pelo resto de sua vida.

Nascido em 1940, Mestre Camarão começou a tocar sanfona de oito baixos com sete anos. Acompanhava seu pai, o também sanfoneiro Antonio Neto, nas festas em que ele tocava.

Mais tarde, aperfeiçoou seu talento, tendo contato com muitos músicos reconhecidos, como Sivuca, Hermeto Pascoal e principalmente, Luiz Gonzaga, com quem gravou “Garoto do Grotão”. Foi Mestre Luz, aliás, quem produziu os dois primeiros álbuns da banda de Camarão, considerado o primeiro conjunto de forró do Brasil.

Mestre Camarão foi um dos pioneiros a introduzir no ritmo regional arranjos de sax, trompete e trombone.

Há cerca de quatro anos, passou um mês hospitalizado e perdeu os rins. Por conta disso, faz hemodiálise três vezes por semana, o que o impede de viajar.

Hoje, dedica-se principalmente a repassar o que sabe na Escola Acordeom de Ouro, criada por ele mesmo, onde ensina pessoas de 5 a 70 anos. A Escola fica no bairro de Areias, onde Camarão reside.

- Não tenho nem idéia do número de alunos que já tive. Tenho ex-alunos meus tocando por todo o país. Você mora em Salvador, não é? Sabe o cantor Ademário Coelho? Tem um aluno meu tocando com ele, o Marquinhos - afirma.

Transmitir seu conhecimento é um dos requisitos de possuir o título de Patrimônio Vivo de Pernambuco – e de todas as outras leis voltadas à valorização dos mestres populares. Segundo Camarão, o título teve um impacto significativo em sua vida. “Mudou muita coisa. Você passa a ter um nome mais destacado, abrem-se os caminhos”, revela.

O Mestre, entretanto, avisa: esse reconhecimento não é para qualquer um.

- Se sou Patrimônio Vivo, é porque tenho uma bagagem de coisas feitas. Tem que ter realizações, tem que ter o que ensinar – pondera.

Foto: Acervo Fundarpe

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8 de janeiro de 2009

Festa faz concurso de maior chupador de manga

iurirubim às 7:40

Como várias cidades do interior do país, Alto Belo, distrito do município de Bocaiúva (MG), tem Terno de Folia de Reis de Alto Belo, que vai do Natal até o Dia de Reis (6 de janeiro). Todas as noites, a Folia começa às 19h, visita de quatro a seis casas, e termina lá pelas 7h da manhã. Tudo para recomeçar na próxima noite.

E assim seguiria até o Dia de Reis – mas não é isso que acontece em Alto Belo.

No pequeno distrito de Bocaiúva, a festa recomeça na sexta-feira seguinte. No caso de 2009, a 27ª Folia de Reis de Alto Belo acontece de 9 a 12 de janeiro.

Com programação bastante diversificada, a Folia de Reis de Alto Belo incorpora outra tradições populares, fazendo com que as atenções se dividam entre ritos religiosos e as celebrações mundanas.


A corrida de jegue é bem com corrida!

Dentre as atividades, podem ser listadas mostra de literatura de cordel; teatro de mamulengos; teatro de rua; apresentações de músicas; encontro de solistas de viola caipira; apresentações de danças juninas; palhaços de rua; estátua viva durante os três dias de festa; presépio vivo e fogos de artifício.

Também acontecem corridas e concursos. As corridas incluem categorias exóticas, como corrida de jegue, de porco, de cachorro, galinha, cavalo de pau, corrida de costas e carrinho de mão.


A corrida de carrinho de mão é mais uma das competições “diferentes” da Festa

Os concursos não ficam para trás. Disputam os prêmios o melhor mentiroso; melhor imitador de personagens da região, melhor contador de causos, a risada mais engraçada, maior roedor de pequi, maior chupador de manga, maior chupador de limão sem fazer careta, mais rápido comedor de farinha sem entalar a garganta, maior roedor de rapadura, dentre outros. Há prêmios para todas as categorias.

A tradição das Festas de Reis também está representada no Encontro de 10 Ternos de Folia do Norte de Minas e Vale Jequitinhonha; e nas apresentações do Terno de Pastorinhas Altobelense e do Terno da Folia de Reis de Alto Belo.


Pastorinhas: a força da religiosidade se mantém na Festa de Folia de Reis

Uma missa campal, realizada na tarde do domingo, mantém o vínculo religioso da tradição.

Para conhecer Alto Belo

Este pequeno mas festeiro distrito de Bocaiúva tem uma população que gira em torno de três mil habitantes, dos quais se destacam os artistas populares (violeiros, rabequeiros, cantadores e poetas).

Lá não existem hotéis nem pensões. Os visitantes se acomodam mesmo na casa dos moradores ou no camping local.

A região é conhecida pela fabricação de instrumentos musicais de cordas, confeccionados pelos artesãos e rabequeiros Sinval de Gameleira, Marimbondo Chapéu, Tozinho Pimenta, João de Bichinho e Moisés Pimenta.

Fotos: Acervo Festa de Folia de Reis de Alto Belo.

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7 de janeiro de 2009

“Profetas da chuva” prevêem o clima de 2009

iurirubim às 7:30

Uns prestam atenção no vento; outros, no comportamento das aves. Alguns acompanham a florada das árvores. Há, ainda, aqueles que observam o caminhar das formigas.

Apesar de usarem meios por vezes completamente diferentes, o objetivos de todos é o mesmo: prever se vai chover nas secas terras do Nordeste.

Eles são os profetas da chuva e têm encontro marcado no dia 10 de janeiro, das 9h às 12h, no Açude do Cedro em Quixadá (Ceará). Ao longo deste post, publico em destaque várias dessas previsões.

“Se durante o verânico a minhoca se esposa na terra seca, irá chover”

Como em todas as 12 ocasiões anteriores, o XIII Encontro de Profetas da Chuva reúne oráculos do clima de vários estados do nordeste brasileiro, a fim de produzir um panorama complexo das previsões para a região (veja exemplo ao final desta matéria).

A missão desses nordestinos bravos é fundamental para a região mais seca do país. Com base nas previsões, muitos lavradores organizam o plantio da próxima safra.

- A gente só planta quando tem uma certa confiança – diz um dos profetas que também é lavrador.

E, se até hoje ninguém conseguiu provar a efetividade de seus métodos, também não conseguiu provar que não funcionam.

Por via das dúvidas, os organizadores do encontro mantêm o registro de todas as previsões feitas a cada ano. No encontro seguinte, mostram a todos o presentes, indicando onde acertaram e falharam.

“Quando o poldro e sua mãe correm no pátio levantando a calda até a suar, é sinal que logo chove”

“Eu fui o que errou menos neste ano, segundo um levantamento feito pela Record”, diz Erasmo Barreira, 61.

- Não é o caso de todo mundo acertar 100%, né? Muitos erram também. Tem gente que faz algumas previsões precipitantes. Mas fica com aquela porcentagem. Na hora em que você vai se apresentar, tem uma moça que diz sua opinião do ano passado. Tudo é gravado e escrito direitinho – comenta o profeta da chuva.

“A reação do mar, se está violento ou calmo nos meses de setembro e outubro (informar-se com alguém ou ir até o mar)”

Os poetas se revezam, fazendo as previsões para o clima durante o ano.

Desde menino, Erasmo aprendeu com o pai (que completa 101 anos dia 8/1) e o avô a reconhecer os sinais da natureza, indicando se haveria chuva ou não. Nessa época, fazendeiros se reuniam para conversar sobre futuro inverno. Desde o terceiro encontro, participa de todas as reuniões dos profetas.

E como é o método de previsão de seu Erasmo?

- Eu me prevaleço mais nas aves e nas árvores. O juazeiro é um das minhas fortes experiências. Se fulora bem em outubro, é sinal que vai ter chuva – afirma.

“Quando está perto de chover o vento vem do poente e não do nascente”

Embora esses sejam seus métodos particulares de previsão, seu Erasmo é familiarizado com muitos outros.

- Dá para saber olhando Oitizeiro, casa do João de barro. Tem uma abelha, a Ichu, que, se tiver mel na casa, quer dizer que não vai chover e ela precisa guardar o mel. Se não tiver mais mel, só fios, vai ser um bom inverno.

As estações do ano, aliás, são muito particulares nos interiores do nordeste. Inverno é a época das chuvas, não importa se os livros digam que ainda é verão ou outono.

“Tem também as formigas. Se elas tiverem limpando as cavernas para nova safra… quer dizer que vai chover para botar uma nova dispensa”, continua seu Erasmo.

- Se a árvore carrega mais de um lado, é aquele inverno manga, como a gente chama aqui: chove num canto e não no outro – explica.

“Se a lua nova pender para o norte é bom inverno, para o mês, mas se ela aprumar-se, não tem chuva”

O profeta ainda fala das previsões que não consegue fazer.

- Tem um rapaz que prevê no vento. Quando vem do Aracati, como é conhecido, é um bom sinal. Tem o redemoinho. Quando começa todo dia aquele redemoinho rasteiro, indo do nascente ao poente, é muita chuva. Outros profetas se prevalecem das pedras de sal.Tem também a primeira lua cheia de janeiro. Se nascer sem uma barra [névoa], é seca – afirma o profeta.

Seu Erasmo também comenta que nunca aprendeu a fazer previsão nos trovões, como o avô.

- Ele ouvia os trovões. Se desse três trovões em novembro, era sinal que ia cair água no inverno – conta.

“Pássaro João de barro quando faz sua casa com a entrada para o lado do poente evitando chuva e vento é bom inverno, caso contrario, não terá inverno”

Espetáculo teatral

O fascínio pelas ciências e adivinhações dos profetas da chuva levou a dramaturga Adelice Souza a escrever um texto sobre a vida desses sábios do sertão.

A peça, intitulada “Jeremias, o Profeta da Chuva”, deve entrar em cartaz em junho de 2009. será montada pelo Núcleo de Produção do Teatro Castro Alves (Bahia), com direção da própria Adelice Souza. De 5 a 16 de janeiro estão abertas inscrições para audição de elenco (interessados, liguem para 71.31174882).

“Formiga de roça está fazendo limpeza em sua casa, tirando a comida velha e as sujeiras de dentro do formigueiro é bom inverno”

 Fotos: Acervo organização do Encontro de Profetas da Chuva

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6 de janeiro de 2009

Estados dão renda vitalícia a mestres populares

iurirubim às 9:20

Durante muito tempo, praticamente toda a sua breve história, o Estado brasileiro ignorou os mestres da cultura popular.

Repetidas vezes, tradições, conhecimentos e técnicas caíram no esquecimento, deixando de existir junto com o falecimento dessas pessoas que, sem apoio algum, dedicavam suas vidas a aprender e lapidar um saber específico.

Ao longo de 2008, o Blog das Ruas escreveu sobre algumas dessas pessoas, como Zabé da Loca (PE) e Dona Fransquinha (CE).

Agora, entretanto, a situação está começando a mudar. E as soluções vêm justamente de regiões consideradas “periferias” do país - os estados do nordeste brasileiro.

Além dos estados nordestinos, o Pará está em processo de discussão de uma lei e São Paulo tem um projeto em trâmite - inspirado na lei baiana - na assembléia legislativa estadual.

(Quem souber de legislações similares em outros estados brasileiros, por favor, deixe um comentário para que eu possa complementar essa matéria)

Mestres das Artes, Patrimônio Vivo, Tesouros Vivos da Cultura, Mestre de Saberes e Fazeres… é grande a variação de nomes atribuídos a essas pessoas ou grupos.

Independentemente do título específico que recebem, é importante perceber que há um movimento em curso para, individual ou coletivamente, reconhecer e valorizar as pessoas que dedicam sua vida à preservação e transmissão da cultura popular brasileira.

Liderados pelo Pernambuco, que criou a primeira lei voltada para os mestres populares da cultura, em 2002, praticamente todos os estados nordestinos têm uma lei própria. Alguns, todavia, ainda não conseguiram efetivá-la.

Ceará, Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Bahia já reconheceram mestres populares. Destes, apenas a Bahia não tem um processo regular de lançamento de editais, pois está atualmente revisando a lei.

- Uma nova legislação, melhor e mais abrangente, deve ser votada ainda em 2009 – revela Carlos Paiva, chefe de gabinete do Secretário de Cultura do Estado.

Pelo que o Blog das Ruas conseguiu apurar, o Maranhão tem uma situação diferenciada, pois a lei que reconhece os mestres populares é municipal, criada pela câmara de vereadores de São Luís. Infelizmente, não conseguimos informações detalhadas sobre a questão.

Já o abre Rio Grande do Norte e o Piauí têm leis aprovadas (2007 e 2008, respectivamente) e devem lançar os primeiros editais ainda neste ano.

- Com certeza em 2009 começamos o processo de reconhecimento de nossos mestres populares – afirma a deputada Flora Izabel, que propôs a nova legislação no Piauí.

Autor da lei de reconhecimento dos mestres populares no Rio Grande do Norte, o deputado estadual Fernando Mineiro aprovou no orçamento deste ano uma emenda de R$ 150 mil reais para começar a execução do programa.

- A dinâmica burocrática do Estado é muito forte e às vezes atrasa os processos. Mas pretendemos reconhecer 10 mestres no primeiro ano e três a cada ano seguinte – afirma o deputado.

Diferentemente da maioria das outras leis, a do Rio Grande do Norte não tem limite de “cadeiras” para os mestres e grupos populares.

Boa parte dos estados tem um número fixo de vagas para os reconhecimentos e, após atingido este número, novas inscrições acontecem apenas com a substituição dos “assentos” já ocupados – um funcionamento muito parecido com a Academia Brasileira de Letras.

O Ceará, por exemplo, está perto de completar suas vagas para pessoas físicas (60), hoje com 57 mestres, sendo quatro já falecidos. Para grupos e coletividades, categorias incluídas na revisão da lei em 2006, as 20 vagas ainda estão longe de serem preenchidas.

A abertura para o reconhecimento do saber consolidado de grupos/ coletivos também é uma diferença importante entre as leis. Entre todas as pesquisadas, apenas a Bahia, Alagoas e Paraíba não permitem o reconhecimento de grupos. Na revisão de 2006, o Ceará abriu essa possibilidade, tal qual a Bahia está fazendo agora.

Ao lado do reconhecimento da importância daquela pessoa/ grupo para a cultura local, a transmissão do conhecimento dos mestres é parte central de todas as legislações.

Essa é a contrapartida que o Estado exige dos mestres, que podem perder o título e o apoio financeiro caso não cumpram com esse requisito.

Ainda não se chegou a um modelo ideal de como se dará a transmissão (o Ceará já estuda criar uma “universidade dos mestres”), mas o importante é fazer com que o estímulo financeiro que os mestres e grupos recebem seja um incentivo para sua produção e transmissão do conhecimento, e não o inverso.

Existe certa polêmica, inclusive, a respeito desse bolsa, em muitos casos, vitalícia – cujo valor varia em torno de um a três salários mínimos. Rebatendo as críticas, a deputada Flora Izabel (PI) afirma que:

- Quem acompanha os nossos mestres sabe da dificuldade que eles têm, muitas vezes até de sobreviverem. Este apoio é uma forma de fazer com que perpetuem a nossa cultura, que a levem para os bancos escolares, que permaneçam no mundo cultural. Eu vi a dificuldade que Maria da Inglaterra, um ícone da cultura do Piauí teve para lançar primeiro CD. Você não sabe o que é que passam aqueles grupos – diz.

O deputado Fernando Mineiro (RN), aborda a questão de uma outra forma:

- Quando a gente ouve assim “vitalício” parece até que é um tempo enorme. Mas essas pessoas em geral já são idosas. Lembre que somente para serem elegíveis, os mestres têm que desenvolver aquela atividade há pelo menos 20 anos – argumenta.

Neste início de ano, o Blog das Ruas faz uma série de reportagens sobre mestres populares já reconhecidos e continua com sua pesquisa sobre os incentivos dados a essas pessoas e grupos. Acompanhe.

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3 de dezembro de 2008

Mestres da tradição oral levam demandas a Lula

iurirubim às 17:12

Movimentos ligados às tradições orais brasileiras lançaram, ontem, na internet uma carta aberta ao presidente Lula (leia).

Coincidência ou não, a divulgação da carta ocorre durante a semana do IV Encontro Mestres do Mundo, que reúne no Cariri (CE) mais de 300 mestres populares, justamente para, entre outros objetivos, discutir políticas públicas para os patrimônios vivos do Brasil.

Intitulado “Carta Ação Griô Nacional - Griôs e Mestres Lutam pelo Reconhecimento da Tradição Oral na Educação e Cultura do Povo Brasileiro”, o documento – iniciado com um “Querido Presidente Lula” – demanda ações a fim de reconhecer, manter e perpetuar os saberes que esses mestres populares detêm.

Para o reconhecimento do estado, solicitam a concessão de um título, “o que facilita a saída do anonimato”.

Aparentemente simples, a questão do título esbarra nas diversas iniciativas já existentes país afora (cada uma com nomenclaturas e metodologias diferentes) e também nas formas de avaliar a concessão do mesmo, que exige muito conhecimento na área.

A segunda demanda dos movimentos é o incentivo financeiro para que os mestres continuem a produzir, já que boa parte deles vive na pobreza e os desafios do cotidiano podem interromper sua atividade.

Alguns estados já propuseram como solução bolsas ou salários vitalícios, mas são iniciativas pontuais, ainda sem reconhecimento amplo nem capilaridade.

Nesse caso, a questão que se impõe, além de uma real institucionalização do apoio financeiro, é como fazer com que essa bolsa/ salário não se torne uma aposentadoria para os mestres, e sim um incentivo para que continuem a produzir.

O foco do terceiro ponto é a transmissão do conhecimento dos mestres a outras pessoas da comunidade, para que os saberes acumulados por toda uma vida dedicada a certas práticas não se percam juntamente com o falecimento deles.

Entre a prática atual das manifestações e a transmissão desses saberes, um fator fundamental são os mecanismos criados para essa transmissão, já que qualquer formalização pode ser extremamente danosa à cultura oral.

“Ainda é um grande desafio para a maioria dos educadores do país superar preconceitos e a falta de formação étnico-cultural”, diz o documento.

Novamente, soluções interessantes estão sendo gestadas em alguns estados, como a Universidade dos Mestres, que está em fase de estudo pelo governo do Ceará, mas tudo muito experimental, ou mesmo ainda em elaboração.

A carta é encerrada com um pedido para que “governo e sociedade”, em conjunto, possam:

- criar, propor e plantar uma lei nacional de iniciativa popular com um desenho de um programa político que possa fortalecer a identidade e ancestralidade do povo brasileiro, através do reconhecimento dos griôs e mestres de tradição oral, dos povos, comunidades e das culturas populares.

Apesar do documento que está online ainda possuir pouquíssimas assinaturas (foi postado ontem), a carta é assinada por:

- 80 representantes da Ação Griô Nacional;
- 600 delegados de 600 pontos de cultura de todos os estados do Brasil e Rede das Culturas Populares;
- Federação do Congado Mineiro;
- Rede Memórias do Jongo;
- Campanha Carimbó Patrimônio Cultural Brasileiro;
- Brasil Memórias em Rede;
- Redes de Tradições Marajoaras, folias de São Sebastião e Ladainhas, Rede de Capoeiras, de Parteiras, de Pais e Mães-de-Santo, de Erveiras, de Jongueiros, Cacuriás, Carimbós, Reizeiros, Cantadores, Tocadores, Contadores de Histórias, Cirandeiros, Maracatus, Cocos, Cavalo Marinho, Artistas de Circo, Teatro de Rua, Teatro de Bonecos, Mamulengueiros, Catireiros, Candomblé, Patorins, Repentistas, Indígenas, Artesãos, Tradições Juninas e outros grupos de tradição oral e cultura popular.

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2 de dezembro de 2008

Ceará vai criar universidade dos mestres populares

iurirubim às 17:11

Já é consenso que manifestações riquíssimas da cultura brasileira desaparecem junto com o falecimento das pessoas que as praticam.

Sem apoio para a transmissão dos conhecimentos de vidas inteiras dedicadas a uma manifestação cultural, esses mestres da cultura popular, cuja renda em geral mal basta para o próprio sustento, freqüentemente acabam levando consigo todos a sua sabedoria.

O governo do Ceará, pioneiro no reconhecimento dos saberes e conhecimentos de mestres populares, pretende dar um passo adiante na preservação e perpetuação dessas tradições: estuda criar a “universidade dos mestres”, para que eles possam transmitir o seu conhecimento.

- A idéia da universidade é criar uma escola não-formal em torno de cada mestre diplomado como Tesouro Vivo da Cultura, que seria acompanhada como extensão por universidades regionais. Mas isso ainda está em discussão e queremos também ouvir a posição da Secretaria da Identidade e da Diversidade do Ministério da Cultura – informa Bianca Felippsen, coordenadora de comunicação da Secretaria de Cultura do Ceará.

A criação da universidade é tema de um GT, que irá se reunir duas vezes no IV Encontro Mestres do Mundo, que acontece de 2 a 6 de dezembro no Cariri, interior do Ceará.

O Ceará já possui 48 mestres populares reconhecidos como Tesouros Vivos da Cultura. Durante a solenidade de abertura do encontro, nesta terça-feira, a partir das 18h, serão diplomados os vencedores do edital de 2008.

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Encontro reúne 300 mestres populares no Ceará

iurirubim às 7:22

Durante cinco dias, a região do Cariri, no sertão cearense, será o centro da cultura popular brasileira. É lá que acontece o encontro “Mestres do Mundo”, de hoje a 6 de dezembro.

Em sua quarta edição, o Mestres do Mundo leva mais de 300 mestres da Cultura do Som, do Corpo, da Oralidade, do Sagrado e das Mãos à cidade do Padre Cícero, Juazeiro do Norte.

O evento consolida a política do Ministério da Cultura de, em conjunto com estados brasileiros, valorizar as manifestações culturais populares e criar meios para que tanto os mestres sejam reconhecidos pelo restante da sociedade, como também sejam capazes de transmitir seus saberes.

Além de reconhecer as contribuições que os mestres populares dão à cultura brasileira, o encontro põe em diálogo esses portadores das diversas tradições populares brasileiras, a fim de que possam interagir e aprender com as semelhanças e diferenças culturais. O contato, afinal, é elemento-chave da cultura popular.

Assim são organizadas as Rodas de Mestres, que ocorrem todas as manhãs do encontro. Ao todo, são dez rodas de som, corpo, oralidade, sagrado e mãos, mediadas sempre por um especialista ou pesquisador da área afim.


O Maracatu Estrela de Ouro é uma das
atrações do Mestres do Mundo

Três mestres da região, Aldenir (Crato) e Joaquim Mulato (Barbalha) e Tatai (Juazeiro do Norte), são responsáveis por uma programação paralela durante o Mestres do Mundo: as Terreiradas. Diplomados pelo Governo do Estado como Mestres da Cultura Popular do Ceará, eles recebem convidados em suas casas, mostrando in loco seus costumes e tradições.

As tardes são reservadas para o III Seminário Nacional de Culturas Populares, realizado no Memorial do Padre Cícero (confira a programação do seminário).

No seminário, relatos das vivências dos mestres dão substância às reflexões de pesquisadores de organizações dedicadas à cultura popular.

Essas reflexões, por sua vez, servem de base para a formulação de políticas públicas para a área.


O Maracatu Nação Fortaleza marca presença no encontro

À noite, as atenções dividem-se entre o Território Livre, um palco aberto às apresentações espontâneas, inscritas ali mesmo, na hora, e a Praça da Igreja Nossa Senhora do Socorro, onde uma grande arena recebe mestres dos quatro cantos do Brasil.

As noites são temáticas: diversos maracatus, violas e cocos estão programados para se misturarem com apresentações de outras partes do Brasil e de outros países (veja a programação completa do Mestres do Mundo).

A organização do evento estima que cerca de 80 mil pessoas assistirão as apresentações durante todos os dias do encontro. Pessoas que, certamente, nunca mais olharão para as manifestações populares dali, de perto de casa, da mesma forma.

Fotos: Acervo Maracatu Nação Fortaleza (1, 2) e Acervo Maracatu Estrela de Ouro (3).

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25 de novembro de 2008

CE: rezadeira cura “à distância” usando foto

iurirubim às 10:49

Todo mundo de Alto Santo, município do interior do Ceará, já bem próximo à fronteira com o Rio Grande do Norte, conhece a rezadeira Fransquinha Félix.

- Aqui em Alto Santo qual foi a mãe que nunca levou seu filho ou sua filha na casa da Dona Fransquinha Félix, para ela rezar de um quebrante, diarréia, vento caído ou qualquer que seja a doença? - pergunta Juliana Lima, moradora da cidade.

Anafabeta, aos 67anos Fransquinha Félix tornou-se cidadã ilustre não apenas na cidade, mas em todo o Ceará. Recentemente recebeu, da Secretaria Estadual de Cultura, o prêmio de Tesouro Vivo da Cultura, entregue a pessoas detentoras de saberes necessários para a produção e preservação da cultura tradicional popular.

D. Fransquinha não é cearense. Nasceu no estado vizinho, Rio Grande do Norte, no município de Umarizal, não muito distante de Alto Santo, onde reside há meio século.


D. Fransquinha agora é considerada
Tesouro Vivo da cultura cearense

Batizada de Francisca Galdino de Oliveira, ela garante que reza há mais de 60 anos: “aprendi a reza com minha madrinha Maria Catingueira, com cinco anos de idade”, diz.

- Os dono de fazenda vêm se valer de mim e eu rezo em cavalo, cachorro, gato, criação. As pessoas também vêm me buscar para rezar nos meninos. Tem dia que tem mais de 30 meninos pra eu rezar, tem dia que o alpendre fica cheio de gente, tanto adulto como criança, eu num tenho mais soma de quantas pessoa eu já rezei – afirma D. Fransquinha.

A rezadeira cura as pessoas sem cobrar nada. “A reza não é paga, a reza que Deus deixou no mundo não foi para ser paga, nem vendida”, argumenta. “Sinto prazer em rezar e ver aquela pessoa boa”.

D. Fransquinha, aliás, faz questão de sempre enfatizar a importância da fé. “Eu uso um galhinho de ramo verde e as palavras que rezo é palavras de Deus e nossa senhora”. E avisa: “Mãe que não tem fé, não venha me procurar que não tem cura!”.


Devota, a rezadeira alerta: "para curar, tem que ter fé".

Para aqueles que têm fé, entretanto, a rezadeira se garante:

- Ninguém que vem aqui na minha casa da uma viagem perdida. Houve criança e gente grande que não tinha cura no médico e veio aqui. Eu rezei e teve cura. Eu rezo em tudo, quebrante, vento caído, ferida braba… a pessoa vem “três vez”, se num ficar boa tem que vim “nove vez”. Aí fica curada, mas tem de ter muita fé – conta.

Para quem não pode ir até sua casa, no bairro Pão de Açúcar, no Centro da Cidade, Dona Fransquinha recomenda mandar uma foto ou peça de roupa. “Às vezes a pessoa fica doente mas tá longe aí manda uma foto ou uma blusa. Aí eu rezo a pessoa fica boa, mas num é eu que curo, é a fé da pessoa”, afirma.

O poder de cura de Dona Francisca é endossado pelos moradores de Alto Santo. Para Dona Maria Neta Oliveira, a reza de D. Fransquinha vem antes até do médico:

- Sempre que minha sobrinha fica doente, com vento caído ou quebrante, a primeira coisa que eu faço é correr lá para a casa da Dona Fransquinha Felix, antes mesmo de ir para o hospital procurar o médico. Aí ela reza três vez e, quando a gente menos espera, a criança já tá boa, já tá é se danando no meio da casa – diz Dona Maria, tia de Ylana.


Dona Maria leva a sobrinha Ylana para ver
D. Fransquinha antes de ir a qualquer médico

Assim como Dona Maria, muitas outras mães de Alto Santo depõe em favor da “mão santa” de Dona Fransquinha Felix.

Mas que ninguém leve o filho na casa de D. Fransquinha no meio-dia: “não rezo 12 hora do dia e nem da noite, porque ninguém num nasceu e nem morreu nessa hora. Os outro horário eu rezo, pode vir”.

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17 de novembro de 2008

ONG: sexismo acentua preconceito contra negras

iurirubim às 11:36

Vários estudos (aqui e aqui) e reuniões científicas confirmam que são as mulheres negras as maiores vítimas do preconceito no Brasil (ou aqui), pois sofrem, simultaneamente discriminação racial e sexual.

O Blog das Ruas está publicando algumas matérias e artigos sobre a questão negra no Brasil, em função das comemorações do Dia da Consciência Negra. Nada melhor, portanto, que começar com um texto sobre as mulheres negras.

MULHERES NEGRAS - Maior Vulnerabilidade à Violência

No Brasil, as principais vítimas da violência são jovens, negros e pobres.

Embora a violência de gênero possa atingir mulheres de todas as raças/etnias e níveis de escolaridade e renda, organizações de mulheres negras responsabilizam o sexismo e a falta de políticas públicas de emprego, saúde e educação pelo grande número de casos de violência contra as mulheres negras.

De fato todos os indicadores sociais apontam que as mulheres negras estão mais vulneráveis à violência em decorrência de uma conjunção de fatores sociais, tais como baixa escolaridade, alto índice de desemprego e de subemprego e, principalmente, da discriminação e desigualdade.

Dessa forma, as mulheres negras estão não somente mais expostas aos efeitos da violência, mas elas também possuem menores condições para o enfrentamento da violência sofrida.

São exemplos de violência os homicídios, o tráfico sexual, a exploração do trabalho, o trabalho escravo, as agressões físicas, sexuais e psicológicas, e também o racismo, as discriminações cotidianas e as dificuldades ou falta de acesso a bens e serviços.

E em todos estes exemplos as mulheres negras ocupam o primeiro lugar nas pesquisas.

As organizações de mulheres negras têm se empenhado em mudar estes dados através de projetos e propostas de políticas públicas que atendam as necessidades das mulheres negras e da população afro-brasileira como um todo.

Alguns avanços aconteceram, mas ainda temos muito trabalho em busca da cidadania e da equidade de direitos.

Maria Cristina F. Santos, coordenadora adjunta do ponto de cultura MARIA MULHER - Organização de Mulheres Negras.

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