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22.07.08

Contando Guimarães, jovens revolucionam cidade

O quanto de ficção cabe na realidade? Contadas por um grupo de crianças e jovens, as histórias de Guimarães Rosa saíram dos livros e passeiam livremente pelas ruas de Cordisburgo, a cidade natal do escritor.

A Cordisburgo que, para o próprio Guimarães, “era pequenina terra sertaneja, trás montanhas, no meio de Minas Gerais”, agora é uma zona de fronteira entre a imaginação e a realidade, onde os personagens, aventuras e amores roseanos podem ser encontrados a cada esquina.

Tudo começou com Miguilim.

Sensível e delicado, Miguilim era personagem central de “Campo Geral”, uma das duas novelas do livro “Manuelzão e Miguilim” (1956). No final da novela, o menino de oito anos ganha um par de óculos e consegue enxergar a beleza que o cerca.

Pois não é que Miguilim, danado, foi o primeiro a sair das páginas e resolver compartilhar com os cidadãos de Cordisburgo a beleza das obras do próprio Guimarães Rosa?

Criado em 1995, o Grupo de Contadores de Estórias Miguilim despertou Cordisburgo para a obra de seu filho mais ilustre. Até então, havia uma certa apatia, uma “distância regulamentar” entre a cidade e os escritos de Guimarães. Distância que caiu por terra quando um bando de meninos e meninas começaram a contar as histórias maravilhosas do escritor mineiro.


Os Miguilins: da ficção para a realidade

- Guimarães Rosa em Cordisburgo é antes e depois dos Miguilins. Depois que começaram a narrar textos, foram encantando as pessoas – conta José Osvaldo dos Santos, o Brasinha, morador da cidade e estudioso de Guimarães.

Brasinha ressalta que a narração revela uma identidade da musicalidade da obra de Guimarães com a fala do mineiro, que ajuda a obra a ser “acolhida” pela população.

- O resultado é um impacto sócio-cultural muito grande. Cordisburgo tinha um certo receio de lidar com Guimarães Rosa. Agora, ele virou uma referência para a cidade. Tem disciplina sobre ele na escola. Tem grupos musicais, de teatro. Colocam os nomes das obras no comércio. Temos aqui um Posto Veredas. Bar Sertão Veredas. Um Bairro chama Burity, outro Sagarana... – opina Fábio Barbosa, um dos primeiros Miguilins, hoje um dos coordenadores do grupo e funcionário do Museu.

A “invenção” do grupo foi iniciativa de uma prima de Guimarães, a Dra. Calina. Ao retornar, já aposentada, para Cordisburgo a médica queria “fazer alguma coisa” pelas crianças da cidade e, ao mesmo tempo, revitalizar o Museu Casa Guimarães Rosa (a casa onde o escritor morou até os nove anos), entregue ao abandono.

A Dra. Calina fundou a Associação dos Amigos da Casa Guimarães Rosa (AAMCGR). Mas o verdadeiro estalo veio ao assistir a uma performance de sua sobrinha, Dora Guimarães, que era contadora de histórias.

Imediatamente, convidou Dora para ensinar as técnicas de narração aos meninos de Cordisburgo que, como guias-mirins, contariam as histórias de Guimarães Rosa no museu.


Dra. Calina: prima de Guimarães Rosa
e idealizadora dos Miguilins

A primeira turma de Miguilins tinha 14 garotos, entre 13 e 18 anos, que começaram a ser apresentados ao universo de Guimarães Rosa e às técnicas de narração de histórias, memorização, e expressão. Recebiam, também, aulas de etiqueta e comportamento para que atendessem bem os visitantes do museu.

Ao final de cada tour, reuniam os visitantes no jardim da Casa e contavam algumas histórias.

A novidade “contaminou” rapidamente a cidade. “Você imagina esse grupo de jovens que narram as histórias. São 60 famílias que começam de repente a saber quem é o Guimarães Rosa”, argumenta Brasinha.

Também os visitantes passam a desembarcar cada vez mais em Cordisburgo para conhecer “os meninos que contam Guimarães”.

Em pouco tempo, a fama dos Miguilins se espalhou a eles começaram a fazer apresentações fora da cidade. Já foram para Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza, Porto Alegre... As viagens do grupo criaram até dificuldades no início. “Tinha uns ciúmes porque as viagens dos Miguilins contavam com a colaboração dos professores, que até remarcavam provas”, lembra Fábio.

- Todas as apresentações são sempre marcantes. Mas a que mais me emocionou foi quando eu tinha 11 anos e apresentei na Academia Brasileira de Letras. Foi a primeira vez que viajei sem meus pais – conta Luana Ferreira, 20, formada na terceira turma e Miguilim desde os 10 anos.

Na época, havia uma restrição de idade e só podiam participar crianças a partir de 13 anos. “Mas eu queria muito”, diz a jovem contadora de histórias. “Fiz de tudo até que minha mãe convenceu Calina. Por um tempo, fui mascotinha dos Miguilins”.

- Tudo que aprendi, aprendi no grupo. O grupo me abriu os olhos para a vida. Sem essa experiência, a melhor que já tive, não seria o que sou hoje. Como Miguilim, aprendi a ter responsabilidade, amadureci. Conheci pessoas, grupos, lugares. Sou suspeita demais para falar. Desde pequena, aprendi a gostar de Guimarães – revela, emocionada, Luana.

Desde 2000, a coordenadora geral dos Miguilins é a própria Dora Guimarães. Vítima do Alzheimer e com idade avançada, Dra. Calina passou para a sobrinha a responsabilidade pelo grupo.

- É muito bonito ver o despertar da cidade em função da obra de Guimarães. Sinto até um orgulho. É uma opção que se faz na vida que pode mudar um punhado de coisas – conta Dora

Hoje existem 35 Miguilins formados e 17 em formação. Cada curso começa com 20 adolescentes e dura de 12 a 18 meses. Somente é formada uma nova turma quando a anterior se encerra.

- o Grupo Miguilim serve como espelho para as crianças mais novas. A Dora e a Elisa [responsáveis pela formação] são muito rigorosas com crianças e têm um ótimo retorno das famílias. O objetivo da Dra. Calina nunca foi preparar contadores de história profissionais, mas melhorar a vida das crianças. Até o apartamento dela em BH ela deixa para os meninos após 2º. grau morarem enquanto fazem cursinho ou faculdade – conta Fábio.

“A maioria deles entra para universidade federal”, afirma Dora, ressaltando a importância da formação para o futuro das crianças. E completa: “vejo como crescem, como desenvolvem auto-estima, como aprendem falar para auditório lotado”.

O estatuto dos Contadores de Estórias permite que os jovens permaneçam no grupo até completarem 3º grau. Atualmente, existem cerca de 45 ex-Miguilins. Muitos deles, depois de formados, voltam a Cordisburgo para devolver à cidade o apoio que receberam. “A gente sente essa necessidade de doar alguma coisa de volta para o grupo”, conta Fábio.

Fotos: Ronaldo Alves

  • criado por Iuri Rubim criado por Iuri Rubim

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