A CUFA-MT, seção matogrossense da Central Única de Favelas, começa a usar nas favelas de Cuiabá a moeda social Favela Card. Como as favelas são um ambiente em que circula pouco dinheiro, a idéia é possibilitar que as pessoas tenham acesso a serviços por meio da troca direta com outros serviços ou produtos.
Dessa forma, será possível que os moradores das favelas adquiram os bens ou serviços, mesmo sem ter dinheiro sobrando em caixa – basta apenas usar seu trabalho ou o excedente de sua produção.
Essa iniciativa tem forte influência do movimento de economia solidária. “A grande sacada é mostrar para as pessoas que podemos ser mais solidários, mais cooperativos, e quebrar aquela visão do consumismo desenfreado”, afirma o rapper Paulo Linha Dura, coordenador geral da CUFA-MT.
Um dos pais da idéia e responsável pelo “batismo” da moeda social, Linha Dura dá um exemplo das possibilidades de uso do Favela Card:
- Vou usar nós mesmos como exemplo: nós organizamos o Festival Consciência Hip Hop que já está na 4ª. edição. Uma puta estrutura e alguns grupos de rap já me intimaram a pagar cachê. Tipo, a gente não tem condições de pagar cachê, mas temos outros serviços que a gente pode oferecer para os grupos tipo, estamparia de camiseta (núcleo de serigrafia), assessoria de imprensa, oficinas sobre elaboração de projetos, oficinas de comunicação, criar blog, myspace, atualizar diariamente esses veiculos – diz.
E ele complementa:
- Cara, a gente tem um estúdio de gravação de ensaio. Aí eu te pergunto: quantos grupos que ainda não tem uma musica demo se quer? Quantos grupos que não tem um lugar da hora pra ensaiar? Tem grupo que não tem nem release, Nós da CUFA já temos uma estrutura e queremos trocar com outras pessoas e mais que isso queremos ensiná-las o que já aprendemos.
Inspirado no êxito de outra moeda social cuiabana, o Cubo Card, o Favela Card tem uma equivalência de 1 para 1 com o real e apenas começa a ser usado em Cuiabá. Tem cinco meses de existência e cerca de 4 mil créditos em circulação.
Mas Linha Dura revela que os planos são chegar até “fazer as trocas entre o cara da padaria, com a serigrafia que temos, com o cara do salão de cabelo...”
Nascido Paulo Fagner da Silva Ávila, Linha Dura é um rapper que valoriza a cultura popular e o encontro do rap com outros ritmos nacionais e estrangeiros. Engajado em causa sociais e militante do Movimento Hip-Hop desde 1996, foi convidado por MV Bill em 2004 para integrar a CUFA.

Linha Dura "batizou" o Favela Card
Abaixo, uma entrevista com o rapper cuiabano sobre o Favela Card:
Então vocês vão trazer para as favelas uma moeda social... Como nasceu a idéia?
A nossa moeda é o Favela Card. O pessoal do Espaço Cubo sugeriu e eu dei o nome e estou (na CUFA) levando a idéia adiante.
E porque não usam o próprio Cubo Card?
só não usamos a do cubo por que queremos construir a nossa só isso, com a nossa nomenclatura. E por outro lado é legal que tenha várias moedas.
Acha que no futuro pode rolar intercâmbio entre as moedas?
Então acho que isso pode acontecer sim.
Quais locais e empreendimentos já usam o Favela card?
Aqui o favela card é usando entre a CUFA e o poder publico, o espaço cubo, os profissionais da cultura (a galera das bandas, os MCs e por aí vai). Até a locadora de vídeo, a mais fodona da cidade, recebe em card também

"Podemos ser mais solidários, mais cooperativos"
O favela card tem o design como tem o cubocard?
Não temos ainda um designer.
Então a moeda são créditos mas sem uma interface visual?
Por enquanto. Até porque eu também tô pesquisando outros exemplos para que a gente possa mostrar pra sociedade que é possível. Tipo, a dificuldade de implantar a moeda complementar na comunidade é tremenda por que os caras ainda não confiam ou não entendem.
Então tô sendo forçado a saber um pouco do que o Karl Marx pensava e fazia. E transformar isso numa linguagem simples para o povo da favela entender.

Linha Dura encara Karl Marx
Como está sendo a experiência?
É... até pra mim também é um puta desafio. Tipo, nunca li nada sobre ele né, gurizão? Minha origem é a favela, é tudo simples. É o rala. E entender o que ele fala é foda. Tem que ler com dicionário do lado (risos). Agora tô na missão de começar a escrever texto pra galera visualizar.
E quais são os próximos passos para expandir o uso do Favela Card?
É primeiro fazer a galera entender mais o processo da economia solidária Favela card. Depois, assim que estivermos na base alvorada [favela a 10 minutos do centro de Cuiabá], eu vou pegar firma pra passar isso na comunidade. Essa é a meta quando formos pro alvorada. Eu estou montando um planejamento estratégico pra ir pra cima.
Fotos: Arquivo pessoal Paulo Linha Dura
criado por Iuri Rubim