(continuação da entrevista com Eduardo Issa, primeiro fotógrafo a registrar imagens de todos os parques nacionais brasileiros)

Você esteve em todos os estados brasileiros?
Não temos parques nacionais em todos os estados do Brasil (Rio Grande do Norte, Paraíba e Alagoas não contam este tipo de unidade de conservação). Mesmo assim, em trânsito fui passando por todos eles.
Passei também por outros países, para facilitar alguns deslocamentos. Visitei a Venezuela, Peru, Bolívia, Paraguai, Uruguai, Argentina e quando estava em Roraima, em vez de voltar a Manaus e pegar uma balsa para Macapá, que demoraria no mínimo 12 dias, optei por atravessar uma região perigosa e muito pouco conhecida.
A região da Guiana Inglesa, Suriname e Guiana Francesa parece não constar nos mapas da América do Sul, ninguém sabe dar informações destes países, nem nas fronteiras. Passando por estes países você não encontra mapas, guias, nada, andei meio na raça para chegar em Georgetown, capital da guiana Inglesa.
As estradas são de terra, desertas, você dirige o dia inteiro sem sinalização e cruza com 1 ou 2 veículos durante todo o tempo.
Na fronteira do Brasil com a Guiana Inglesa os policiais querem dinheiro e fazem tudo para dizer quer você está errado. Passei maus momentos nesta travessia. No Suriname, as coisas melhoram um pouco, mas continuam confusas e perigosas. Só quando se entra na Guiana Francesa a sensação de perigo diminui. Parece que estamos viajando pelo interior da França. Levei uma semana para cruzar a região.

Como foi rodar por aí, com as estradas brasileiras (e estrangeiras) sem conservação?
Sempre fiquei apreensivo quando pensava que teria que transitar por estradas como a Transamazônica, Macapá-Oiapoque, Transpantaneira, entre outras. Sabia que no período de chuvas, algumas destas estradas ficam praticamente intransitáveis. Enfrentei algumas delas na pior época e o veículo não suportou tanto impacto. Resultado: dormi na Transamazônica e na Macapá-Oiapoque com problemas mecânicos, muita tensão!
Na verdade, sempre quando acontece algum problema na estrada ou fora dela sinto um bloqueio e acabo não filmando ou fotografando a situação. O problema é que, por estar sozinho, meu foco é tentar sair daquela situação ou resolver o problema o mais rápido possível. E não dá pra ver o carro quebrado, ou estar passando por perigos com armas e ainda pensar em pegar a câmera para registrar.
Nesta situação, o suporte do feixe de mola quebrou e depois de muito esforço, usando dois macacos hidráulicos consegui colocar o feixe no lugar. Em seguida prendi o feixe com cabo de aço e segui viagem, andando devagar.
Tenho muitas ferramentas e muita sucata guardada, de todos os tipos. É nessas horas que você dá uma de McGiver e acaba arrumando uma solução.
Qual foi o maior tempo que você ficou com o carro quebrado?
Estava a caminho de Macapá, no Amapá, era véspera de natal, 22 de dezembro, com muita ansiedade para chegar a capital, depois do longo trecho cruzando as três Guianas. Com tantos impactos no eixo traseiro, ele acabou se rompendo.
Bateu um desespero de ver o carro naquela situação! Um mês, este foi o tempo que levou para consertar, providenciar o envio das peças e instalar o novo eixo no veículo. Foi o maior problema mecânico da minha expedição.

É verdade que você alugou sua casa para custear a viagem e que quando o motorhome quebrava você às vezes tinha que esperar o mês seguinte para consertar?
A casa e uma sala comercial! Por não ter conseguido nenhum apoio financeiro de fato para realizar o projeto, por algumas vezes fiquei em situações financeiras complicadas. Numa delas, em Pernambuco, quando quebrou uma engrenagem da caixa de câmbio, um conserto difícil e de alto custo, tive que esperar um dinheiro entrar para poder consertar.
As pessoas não aceitam cheques nestas cidades do interior devido ao grande número de calotes dados por estranhos. Imagina um forasteiro com carrão esquisito que nem o meu?
Que momento jamais irá esquecer?
Durante a minha passagem pelo Amapá, tive a oportunidade de surfar a Pororoca no Rio Araguari. Já surfei ondas famosas no Havaí, Peru, Austrália, mas surfar uma onda de 2 metros no interior da Amazônia e permanecer na onda por 13 minutos foi uma das sensações mais mágicas da viagem, inesquecível!
O que você pretende fazer com o material produzido?
Pretendo produzir um livro sobre os parques nacionais, com fotos e textos, um livro pessoal contando a minha experiência e com o material de vídeo elaborar um documentário com programas para a TV.
Tem algum site que o leitor possa visitar e ver algumas das fotos?
Há um site do projeto e contém boletins dos parques com textos e fotos, vale a pena conferir, o endereço é: http://www.expedicaoparquesnacionais.com.br
Dois quilômetros de lama
"Partimos de Oiapoque de barco, indo em direção ao Cabo Orange, este imenso cabo que sai do interior da Amazônia e se debruça no mar. Quando chegamos lá, pegamos uma pequena canoa e fomos em direção a centenas de aves que se alimentavam na margem do rio Oiapoque.
Ficamos ali por algumas horas e empolgados com as imagens esquecemos da mudança da maré. Ficamos atolados e como a canoa não andava por cima daquela lama, tivemos que nos arrastar por 2 quilômetros por aquela lama espessa até chegar ao barco. Um esforço extremo que no deixou exausto".

Exaustão após 2km arrastando na lama
Três animais, três histórias
1. Sucuri
"Com tanto tempo na estrada, são muitas as situações que me marcaram, uma delas foi filmar uma sucuri de 7 metros dentro d’água’, na região de Bonito, no Mato Grosso do Sul. Foi uma mistura de medo e fascínio de fazer aquela imagem.
Cheguei no aquário onde faria a flutuação no rio, antes de entrar na água, dei uma volta por um local distante da muvuca onde os turistas entram. Estava fazendo algumas fotos quando um funcionário me chamou e disse que havia uma sucuri ali enorme. Fiquei apreensivo, mas corri no carro, peguei os equipamentos a prova d’água e mergulhei.
Mantive uma certa distância da sucuri, uns 10 metros inicialmente, depois, à medida que ela não se incomodava com a minha presença, fui chegando cada vez mais perto. Quando me dei conta estava a 3 metros daquela cobra enorme e filmando tudo. Nesse momento ela olhou pra mim, bem nos meus olhos e se aproximou bem na minha cara.
Fiquei imobilizado por alguns segundos, em êxtase, mas durou pouco, ela saiu rapidamente da minha frente e seguiu por dentro da vegetação. Fui atrás dela e fiz mais algumas imagens até que ela sumiu completamente. Na minha mente o sentimento de orgulho de ter feito aquela imagem espetacular!"
2. Botos cor-de-rosa
"Outra situação foi mergulhar e nadar com os botos cor-de-rosa no Rio Negro, no Amazonas. Cheguei a cidade de Novo Airão e procurei uma senhora que criou suas filhas num flutuante no rio, nadando com os botos. Após apresentar o meu projeto, entrei na água com as meninas e aos poucos os botos foram se aproximando, uma sensação única e inesquecível da minha vida".
3. Onça pintada
"Fotografar uma onça pintada passa pelo imaginário de qualquer fotógrafo de natureza, mas quando você vai em busca desta imagem é fácil constatar a grande dificuldade que é encontrar uma onça.
Passei por mais de 30 parques onde há registro de onça pintada, mas só depois de 3 anos na estrada pude registrar o maior felino das Américas. Isto só foi possível porque descemos o rio Guaporé com o motor do barco desligado, por mais de 30 minutos, e sem qualquer barulho.
De repente olhamos na margem e lá estava ela, bebendo água na margem sem notar a nossa presença, foi emocionante, só tive tempo de fotografar, não deu nem tempo de pegar a câmera de filmar e ela já tinha sumido no meio da mata, após nos ver".
Fotos: Eduardo Issa/ divulgação
criado por Iuri Rubim